Miniaturas Portuguesas
Novembro 29, 2007
Por causa de uma urgência médica, ou, como diria o dialecto enfático curto que agora manda, por causa de uma urgência totalmente inesperada, ida ao Hospital de S. José.
De caminho, quatro imagens de Lisboa, num domingo à tarde com sol branco e baixo.

Não é na Beira. Fica no atalho entre a R. das Portas de Sto. Antão e o hospital. Uma miniatura portuguesa.

«Amor é deixá-la conduzir». Aqui os objectos que têm o poder de emocionar juntam-se em quantidade e formam altares.
Atendimento médico impecável, ao contrário do que diz quem compra e vende. Mas os sanitários da sala de espera principal e a própria sala eram duas áreas em bruto e confluentes, como dizem os arquitectos. Cadeiras de plástico ou retretes. À necessidade.

A máquina de café tinha sido intervencionada, como dizem os arquitectos. O auto-retrato é um impulso artístico natural.
No regresso, o Cabeleireiro Martinho, ao fundo da Rua do Salitre. Parado no tempo, à data das latrinas do hospital de S. José. No tempo em que uma casa com cozinha e umas caras recortadas das revistas, na janela, chegavam para um salão de beleza.

Fotos dramapessoal, tratamento em Paint.Net
(Uma passagem mais recente, e não assim tão distante, pelo Hospital de S. José, para outros assuntos, serviu para comprovar que a sala de espera tinha sido completamente renovada; um funcionário falou-nos com satisfação do novo cenário limpo e brilhante; com uma satisfação parecida, encontrámos intacta a máquina do café com marcas de arte popular, agora junto da porta da rua).
O Som Que Nos Sai Da Boca
Novembro 27, 2007
A título de exemplo. Numa peça, uma personagem diz: «Quem vê caras não vê emoções, minha querida». E, já se sabe, o actor tem de dizê-lo num tempo todo seu – fazer que a frase seja daquela hora. E, todas as noites, é o que ela é, ou quase.
A nossa posse da linguagem, como a nossa posse do momento, é fumo. Um actor quer produzir isso que foge. O encenador que escolhe o texto, e o guionista – tradutor ou autor – também. Neste sentido o teatro é a arte de saber perder, todas as noites. Para produzir esse fumo leve, em cena, é preciso queimar muita coisa.
Curioso é como no nosso teatro há sempre alguém que, depois da peça, vem alertar com simpatia: «Não é Quem vê caras não vê emoções. É corações. Quem vê caras não vê corações».
Ou diz apenas, em relação a qualquer parte do texto: «Mas isso diz-se?». Ao que o actor responde sempre, uma mão no vinho e um olho no croquete, se a noite é a primeira: «Não tenho nada a ver com isso. O autor está ali. É uma pessoa bastante acessível».
E o autor só queria dizer, enquanto vai ouvindo e os aperitivos se transformam em fumo: «A personagem está ali. É uma pessoa bastante acessível». Ou, se é tradutor, só queria poder dizer o mesmo que o actor, e ir ao brinde com tempo.

Vários pequenos males concorrem para esta cena crónica. Fora a hipercorrecção maníaca que afecta a colectividade – ainda que não saiba escrever, todo o português é um gramático e um enciclopedista – há o elemento universal de muitos não conseguirem ouvir o rasgo. Só ouvem a regra. O esperado.
E depois há, num grau mais perturbante, a enorme percentagem de som que nos sai da boca, na vida corrente, que apenas serve para abrir caminho e despachar serviço – serviço emocional incluído.
Muitos só querem ouvir esse som em cena como verdade, e não admitem o transporte do teatro para o seu tempo e fala invulgarmente concentrados.
O tempo do teatro e da sua fala compara-se, neste sentido, à memória, por ser violentamente comprimido. Por ter um nexo ao mesmo tempo truncado e irresistível, feito de instantes de clímax e dos lapsos estritamente necessários para uni-los. Ali, vemos somente o facto emocional e o seu ruído. Ou somente o ruído, que nisto das emoções o ruído tende a ser mais que o facto.


Fotografias de um ensaio de Boneca, em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II
Short Story
Novembro 26, 2007
O mais pequeno tem a máquina na mão. «Vá, Gabriel. Tira. Tira. Carrega no botão».
«Então?». O pequeno dá um passo para o lado. «Mas vocês estão todos à frente!».



Fotografias de Stephen Shore, do livro Uncommon Places.
Gelados e Sabão
Novembro 25, 2007

O segundo maior fabricante mundial de sabões também é um dos maiores fabricantes de gelados. Lançou uma campanha com uma actriz de tv daquelas que também servem para isco. A frase publicitária portuguesa é qualquer coisa como: «Tenho gostos simples, contento-me com o melhor», um dito roubado a Oscar Wilde. No Reino Unido, as frases publicitárias apropriadas levam em letra pequena o nome do autor. A primeira imagem aqui é da campanha italiana. Sempre a Carne, sempre a Gula, sempre a Tentação. Desta vez, por cá, decidiram-se pelo hedonismo mais directo. Mas a abordagem bíblica podia não ser vulgar. Uma proposta Drama Pessoal:

Novembro é o nome desta fotografia
Novembro 22, 2007

Teixeira de Pascoaes escreveu n’O Penitente, a sua biografia de Camilo Castelo Branco: «Um suicida é, numa só pessoa, o verdugo e o delinquente, ou um animal sacrificando-se no altar do Deus ignoto. Não foi a cegueira a causa do suicídio. As causas próximas dum efeito são as que menos o determinam. Não é a última gota que enche o copo; é a primeira.»
Não queria que tivesse peso a primeira entrada, ou o primeiro post deste blogue, mas eis que a primeira gota está contada, enquanto ainda construo o blogue e vou recebendo amigos: uma fotografia da mesa de trabalho como uma paisagem e um livro que voltou à mesa em Novembro. Agora que já ninguém sabe o que é um escritor, Pascoaes pode ajudar a lembrar.
No caso destes dois nomes, o cliché «a Net é um mundo» fica ruidosamente aquém. Não me pareceu valer a pena ir muito além dos paupérrimos artigos da Wikipédia, ou das nossas insípidas e feias bases de dados universitárias. Neste caso, o mundo está todo no papel. Não há links para ninguém.