Quantas Mais As Gentes, Mais Contentes
Dezembro 31, 2007
Agora que o Porto é que tem o maior falo com luzes, erguido pelo banco cristão que nalguns casos perdoa, o Terreiro do Paço fica mais livre para a tradicional filmagem do fogo de artifício com telemóveis.
Os que medem o tempo em obras não hão-de querer saudar o tempo que voa. Talvez prefiram escolher uma boa T-shirt para o ar higiénico de Janeiro.

Podem ir a Despair, Inc. e escolher algum objecto do seu vasto programa de Desmotivação. A Igreja católica espanhola vem dizer que a descrença tem levado ao desespero, logo, à desagregação da família e ao aborto. E, se tivermos em conta a lista de «males modernos» que as duas Igrejas Católicas peninsulares assinam, presume-se que leve à homossexualidade.


O desespero também é a energia com que arranhamos o tempo - durante algum tempo, diria a voz do poema «Tabacaria». Melhor que nada. Uma camisola a dizer Melhor que nada já é alguma coisa. O desespero é civilização e história da filosofia.
Mesmo no contexto católico, o desespero é um pecado venial, ou seja, digno de perdão, e não causador de distância irremediável para com Deus. A maior prova de fé é a heresia (Pascoaes).
A passagem de ano é uma boa figuração do espírito deste tempo, que cabe no lema em inglês the more, the merrier: quantas mais as gentes, mais contentes. Uma maré de telemóveis onde quem vê só vê uma miniatura do céu para mandar a quem também só viu uma miniatura não pode ser um bom começo.
Só se pensa com distância. Os menos ansiosos ideologicamente podem ir a Defunker
buscar um bom emblema para o seu afastamento.

Quem não se encolhe com o frio pode acreditar no corpo e no cliché e sair para aclarar as ideias. Defunker aceita encomendas e também propostas gráficas, através de e-mail, para publicação em pano com mangas curtas.

Volto Já
Dezembro 29, 2007
Depois de uma gata chartreux chamada Mísia ter decidido urinar o portátil em que devia ter arrancado em Junho, este blogue foi traído pelo colapso da placa gráfica da nova máquina. Muda de planos mais uma vez, sem as bibliotecas de imagens e de textos em que mal tinha pegado, limpo como quem sai livre de mais um divórcio, de mais um extravio de bagagem, de um traumatismo craniano com perda de conhecimento (experiência que se recomenda). Até já.
A Maior Actriz Para Alguém Que O Diz
Dezembro 18, 2007
O director de um teatro anunciava a actriz principal de uma peça: «Quanto a mim, a maior actriz portuguesa». A primeira utilidade da afirmação é legítima: encher uma sala de espectáculos.
«La critique c’est utile. Les compliments, ça c’est inutile.»
Louise Bourgeois
«Gostas mais do pai ou da mãe?» é um dilema indecoroso que nos devia ter ensinado desde cedo a desprezar títulos absolutos e exclusivos. Uma forte ironia contra esta ânsia de tributo sem padrão encontrou-a o poeta T. S. Eliot: O maior crítico é Deus.
Os louvores dão vantagem a quem os faz, já se sabe. Um Grande Prémio permite ao dono de uma tv comercial e empresário jornalístico aparecer como Mecenas, sem ter de o ser seriamente, e permite-lhe ter meses de publicidade nacional com um mísero investimento para qualquer orçamento de marketing. Permite-lhe, por exemplo, – promovido a «agente cultural» - aspirar a tomar conta do único canal de televisão capaz de ter, a espaços, uma programação digna de história, artes, espectáculos e agenda de cinema fora do circuito comercial-repetitivo. Permite-lhe até admitir, enquanto presidente do júri, que nunca entrou na sala da companhia de um encenador experiente, depois de lhe ter entregue o prémio «inteiramente merecido». O louvor nunca tem muito de particular a dizer, e aqui, visivelmente, traiu ruidosamente o princípio de Orson Welles: «O mecenas paga e cala».
Em breve, outro será louvado e pago, mas o proclamador será o mesmo, com ganho acumulado. É bom, o sistema do louvor. Logo à partida, equilibra o esquema de descuido formal e produção por grosso da ficção dramática comercial. Depois, dá assunto à imprensa medíocre que está nas mesmas mãos. Quanto mais os amadores baratos tomam conta da loja, mais necessário é gritar louvores a alguns profissionais comprados para estarem na montra.

Mas o teatro não faz nada com os louvores, a não ser chamar gente com falsas promessas. E os do palco sabem-no. Não esqueço o enorme ramo de flores que Mário Viegas recebeu numa homenagem e foi entregar a alguém logo no dia a seguir, noutro sarau de vaidades. Nem o deve ter posto em água de um dia para o outro. Ele é que sabia.
O actor louvado é, como se diz no safari fotográfico, o interesse da manada. O mesmo é dizer, se o safari for de caça, que é o alvo a abater.
As capacidades de saltar à frente socialmente e em palco não têm muito em comum, e a segunda, que tem qualquer coisa de prático, nem sequer faz falta à maioria das peças. Um actor louvado apenas preenche uma vaga aberta num vasto serviço montado à sua revelia, e que lhe há-de pedir retorno, sempre, ou substituir, na altura certa.
A principal emancipação que o modernismo teatral do século XX conseguiu da herança romântica foi derrubar o sistema de vedetismo que deformava as próprias peças, para dar aos Grandes Nomes o seu espaço completamente livre em palco. As aclamações podiam romper a qualquer momento, para saudar as Figuras, mesmo à entrada das cenas. As claques repartiam a plateia. Veio contra isso o princípio de Stanislavsky: «O interlocutor do actor não é o público, mas o actor à sua frente». O princípio básico da contracena, por mais estranho que pareça, trouxe novidade.

Comparável ao intenso ambiente romântico do teatro, talvez seja a actual hipertrofia do «Star System» anexo às indústrias cinematográficas americana e indiana, que levou recentemente a Disney a justificar a escolha de uma actriz principal «desconhecida» por «a sua imagem estar livre de implicações». Roubando o termo à Disney, ao actor de teatro interessa muito esta margem de manobra do «desconhecimento». Não ser «grande». Ser do tamanho da personagem.
Está em causa a voz que espalha, a Fama, palavra velha que na cultura do fado tem um sentido pejorativo, de maledicência, de abuso do nome. Nalguma iconografia, a fama aparece como um avejão coberto de penas com olhos. Trocando sempre as penas, gritando sempre por novos lugares. Ou como canta Nick Drake, em «Fruit Tree», é uma árvore pouco sã, que só dá flor depois de deixar cair os frutos.
A aclamação tem custos, e um deles não interessa ao teatro, que é misturarem-se o camarim, ou o foyer e o grande salão, com o palco. Ou, graças à hiperactiva indústria do louvor, misturarem-se a rua e o palco, e a pessoa civil do actor – uma pessoa com o interesse de qualquer outra – com o seu trabalho de ficção.
Há uma boa advertência sobre a separação entre o entusiasmo e a arte, feita por António Pedro: «A ilusão é para o público».
Onde Não Passa Ninguém
Dezembro 15, 2007

«Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta».




Fotografias de Jeff Brouws,
do livro Approaching Nowhere.
Texto de Fernando Pessoa (Bernardo Soares), Livro do Desassossego.
Ubuweb, «O Youtube Dos Inteligentes»
Dezembro 13, 2007
Ubuweb é uma cinemateca/videoteca e audioteca digital.
Ou, numa definição para a próxima época balnear, é o Youtube dos inteligentes.
Este post é apenas uma introdução turística e misturada a um longo percurso, de muitos que o leitor fará, e que faremos aqui muitas vezes.
[Os links desta página para UbuWeb foram corrigidos desde a publicação deste post, e ligam às páginas de origem dos vídeos em vez de ligarem a cada vídeo directamente, por essas ligações se terem mostrado instáveis.]

Samuel Beckett é a face que identifica o site, na página de abertura, e o seu Film, com o actor mais sério do mundo, Buster Keaton, pode ser um bom passo de entrada. Quem sente que «já viu» não volte a ver. Não volte a ver nada. Não volte a casa.
À esquerda da página de abertura, está a lista das áreas do site, cada uma um site por si: conceptual writing, contemporary, mp3 archive, etc, para lá dos centrais Film & Video e Sound que nos ocupam agora.
Também há uma lista dos parceiros de UbuWeb - cada qual uma biblioteca de recursos a explorar.
Na página Film & Video, o nome de Samuel Beckett vem numa já enorme lista de autores de filmes, ou de artistas que são assunto de documentários.
Na página de imagens de Beckett, Film tem, por agora, uma companhia: Not I, pela actriz Billie Whitelaw, com introdução da própria, num mini-documentário… «It is not possible, but he wanted you to be perfect».
Billie conta como, durante a carreira do espectáculo que montou com Beckett, foram tiradas as lâmpadas do corredor da sala e dos sanitários, para não haver fugas à boca inquieta. (Consegue-se no Youtube um «take» só com a peça, desta mesma versão cénica).

Na zona sonora do site - UbuWeb: Sound - outro bom achado será o triste-cómico A Piece of Monologue, pelo actor David Warrilow (que tive o prazer de uma vida de ver em Krapp’s Last Tapes). Eis um trabalho com todo o pigarro da paleta, com a fala não-verbal da garganta que não vem no papel. Neste sentido, os actores que foram dirigidos por Beckett e as suas gravações também são texto.
(A peça Krapp´s Last Tapes também está disponível em UbuWeb, em dois ficheiros mp3, pelo actor Donald Davis. A versão com o actor Jim Norton, da Naxos Audiobooks, junta o grande trabalho do actor a uma maior clareza «cénica» da produção sonora. Na Amazon.uk também pode ver-se uma das páginas cheias de registos sonoros de textos de Beckett.)
Outro passo ritual será ir ver Un Chien Andalou (nos formatos .avi ou .mpg). Eis uma passagem da biografia de Luís Buñuel, O Meu Último Suspiro, um dos mais ofegantes livros de histórias pessoais jamais escritos (que comprei a peso numa «venda de existências»):
Esta primeira exibição de Un Chien Andalou foi organizada com convites pagos no Ursulines e reuniu o que se chamava então a fina flor de Paris, isto é, alguns aristocratas, alguns escritores ou pintores já célebres (Picasso, Le Corbusier, Christian Bérard, o músico Georges Auric) e, claro, também todo o grupo surrealista.
Bastante nervoso, como se pode imaginar, fiquei atrás do ecrã com um gramofone e, durante a projecção, fiz alternar tangos argentinos e Tristão e Isolda. Colocara algumas pedras dentro dos meus bolsos, para lançá-las sobre a assistência, em caso de falhanço. Alguns tempos antes, os surrealistas haviam apupado La Coquille et le Clergyman, um filme de Germaine Dulac (com um argumento de Antonin Artaud) que, no entanto, me agradara. Esperava o pior.
As minhas pedras não foram necessárias. No fim do filme, atrás do ecrã, ouvi os aplausos prolongados e desembaracei-me discretamente dos meus projécteis, atirando-os para o chão.
(Germaine Dulac tem uma secção em UbuWeb que inclui La Coquille et le Clergyman, de 1926. Buñuel tinha razão.)
Noutra zona do mapa artístico, mas no mesmo primeiro e largo patamar da invenção da linguagem própria do cinema, UbuWeb oferece as curtas metragens de Maya Deren. Os curtos filmes coreográficos de Deren são o sabão macaco que faz falta aos olhos de muito supervídeo.

Rasgamos o tempo para três destaques de objectos mais recentes:
1: Der Tod der Maria Malibran, de Werner Schroeter, 1972.
2: Anthem, de Bill Viola, 1983.
3: Stigmata, de Beth B, 1991.
Schroeter partiu da lenda de Maria Malibran - uma diva do século XIX a quem a máxima popularidade levou à morte por esgotamento - para fazer uma série de quadros, no sentido cénico e pictórico do termo, em que busca os extremos da canção tocante e da expressão emotiva em palco. Este é o grande cabaret da ópera. Aqui a ópera sobe mais alto que a grande altura, para ser maior a queda. (Um bom antídoto para os preciosismos da melomania romântica em estilo Antena 2, ou, para quem gosta de uma veia mais ideológica, segundo Amos Voguel, numa nota ao filme na própria página: «um destronar da ópera e uma rejeição metafórica da sociedade burguesa»).
Outro excesso romântico, este tipo de opinião. Como diria (mais adiante) Francis Bacon, o intelecto fica para trás na reacção a este filme, porque este filme cria imagens que ele não seria capaz de criar.
Ao som de discos gastos de ópera, canções românticas, blues ou monólogos de Hamlet, acumulam-se imagens de sofrimento com falsas dobragens do canto e da declamação, e, num grau sempre incerto, falsas dobragens dos gestos e das expressões da emoção aguda. Schoroeter consegue, seguindo no fio da navalha do exagero, voltar a comover, depois de toda a ênfase já se ter despedaçado. Como o consegue é um dos mistérios de assistir àquela coisa.

Bill Viola compõe, em Anthem [Hino], um corte horizontal de uma cidade e da sua vida maquinal e humana, num vídeo guiado pelas torções de um grito.
Beth B, artista plástica e cineasta, põe-nos de frente a uma série de depoimentos de vários homens e mulheres sujeitos a um esforço de clareza tão impressionante como os factos das histórias pessoais que estão a narrar. São os seus «Estigmas». Para um actor - para todos os que se sentem a «actuar» - será como um intervalo no ruído pessoal seguir o compasso daquelas falas, as pausas, os arranques, as escolhas de palavras. A dor como prosódia.

UbuWeb também liga o trabalho de Beth B a uma secção dedicada a todo o grupo do «Cinema of Transgression», do qual também oferece uma antologia (Manifesto disponível na Wikipédia, com caminhos relacionados, ou na própria página UbuWeb dedicada ao grupo).
Mudando o registo para o documentário mais documental, Ubuweb também proporciona o reencontro com um grande documentário de pintura (feito em 1985), dos tempos de um bom Canal 2 da RTP: o documentário-entrevista de Melvyn Bragg com o pintor Francis Bacon, da série «South Bank». A conversa entre os dois é de uma prontidão e de uma naturalidade capazes de ensinar muita gente da tv a falar de artes, em vez de enfeitarem oralmente com termos recomendáveis. Ali não há «cumplicidades», nem «transposições», nem «mensagens».
Há uma conversa à mesa de café sobre o acaso, ou mesmo a sorte, na pintura:
«Why is chance more important than conscious intellect?»
«Because I’ve made images that intellect could never make».

Conhecemos o estúdio de Bacon e o seu Pub também, com toda a sua gente. Os lugares e os materiais do trabalho. E, por exemplo, a história da opinião sobre Jackson Pollock:
«O Pollock lá na América é uma espécie de herói nacional. Uma vaca que trabalhava para uma coisa qualquer veio perguntar-me o que é que eu achava. Disse-lhe que me pareciam rendas velhas. Aquilo caiu muito mal. Desde essa altura não gostam de mim na América».
Voltando a mudar de registo, por fim, Alexander Sokurov. Drama Pessoal tinha prometido apontar onde está a sua «Sonata para Hitler». Sonata dlya Glitera, de 1979-89.


A Cabeça Que Apaga
Dezembro 10, 2007
No regresso de Eraserhead, de David Lynch (no ecrã frontal do cinema Nimas até 20 de Dezembro), guardo uma fotografia com os olhos de ver o pesadelo. Quinze espectadores, dos quais cinco saíram a meio, mais ou menos quando o filho incompleto fica doente. Lynch teria ficado satisfeito com a proporção. «My cow is not pretty, but it is pretty to me.»

Voltei a lembrar-me do pombo doente do dia anterior, depenado e parado, à espera.
Chamam-lhes muito «animais nojentos». Não gosto da mórbida ânsia de limpeza, e muito menos daquele nome - o mesmo que polacos, ciganos, judeus e russos tiveram em alemão nos anos 30-40 do século XX. Sou urbano (para além de polaco, cigano, judeu e russo), e os animais não os vejo como conta e peso. Um animal que morre no meio de nós é sempre uma caricatura humana.
(Há um ou dois anos, numa cidade alentejana, um autarca decidiu exterminar os pombos e contar votos entre a maioria dos velhos. Os pombos seriam adormecidos com narcolépticos e depois congelados. Diz uma mulher: «Tenho tido umas faltas de ar, e assim uns entupimentos, e desde que os pombos andam aí que está pior». Diz outra, sabendo do extermínio: «Ah, mas nós não vamos ver, pois não?».)

«As horrorosas caricaturas da morte», foi uma nota mental que um dia tomei para algumas imagens da Segunda Grande Guerra. Uma fórmula para esta deformação caricatural do horror encontrou-a Hannah Arendt em Eichmann e o Holocausto: «O horrível pode ser, não apenas ridículo, mas pura e simplesmente cómico». (H. Arendt nos fundos da Biblioteca do Congresso e na Virtual Jewish Library).
Esse horrível viu-o Alexander Sokurov plasticamente em «Sonata para Hitler», uma montagem de dez minutos de imagens da Segunda Guerra com notas estridentes de Bach e ecos de Penderecki. O lugar onde se podem buscar este e outros tesouros na Net é assunto de um próximo post. Muito em breve.
(Fotos dramapessoal: metro Rato, e igreja de S. João de Deus, Lisboa)
As Casas São Caras
Dezembro 6, 2007
Quando ouço «As casas são caras», ouço sempre mais claro o segundo sentido.
Fotografias de Henry Wessel, da série conhecida como Real Estate Images.
Imagens Imobiliárias, Imagens de Propriedades ou Imagens de Imóveis. Graus diferentes de ironia.

No. 90417, 1990

No. 90602, 1990

No. 91117, 1991

No. 91167, 1991

No. 902516, 1990

No. 905017, 1990

No. 905718, 1990

No. 907914, 1990

No. 908614, 1990

No. 912715, 1991
Duas Semanas De Corrida
Dezembro 5, 2007
Ao fim de duas semanas de blogue é altura de um pare-escute-e-olhe.
A frase «Este é um blogue pessoal de amor à arte» poderia ser o Editorial nº2, em vez do longo e caloroso manifesto que está na segunda página de Drama Pessoal.
Quando começou a instalação deste blogue no site WordPress, havia 1,859,982 bloguistas registados só nessa plataforma. Mais ao menos à hora do jantar, eram 61,166 as novas entradas de conteúdo, ou posts desse dia. Quando terminou a montagem de Drama Pessoal, pelas 02.50h do dia seguinte, eram já 8.922 os posts frescos do dia e 1,861,809 os bloguistas WordPress, ou seja, havia mais 1.827 novos parceiros.
O novo autor sente-se no meio de uma grande corrida urbana e cosmopolita, mesmo só no contexto da sua língua-mãe-pai, graças ao enxame de concorrentes brasileiros. Lá vai ele, no meio da Maratona de Nova Iorque, na secção latina dos últimos inscritos, misturado com homens-abóbora, abelhas de nariz encarnado, super-heróis variados e gente que ama a querida mãe acima do desporto competitivo e quer dizê-lo ao mundo.

O querer passar à frente é uma inquietação. O blogue WordPress de maior crescimento em língua portuguesa na altura do arranque de Drama Pessoal era português, e chamava-se As Mais Boas de Portugal. O post mais popular dessa fase foi «As mais bem pagas de Hollywood». Vox populi (e imax populi) chega-nos mais à frente. Divulgar o que já nasceu divulgado vale o amor do grande público bloguista.
Mas «melhor do que viver no coração do público é viver no nosso apartamento» (Woody Allen). Apartamento é uma palavra densa: o sítio onde queremos viver, na cidade, é um espaço de separação. Uma casa pode chamar-se separação.
Um blogue é uma casa. Quanto mais separada do barulho, mais capaz de ouvir a sua própria música e dá-la a ouvir a quem quer entrar.
Este blogue optou por um arranjo gráfico potencialmente discreto e disciplinado, mas não o respeitou à risca neste arranque. Algumas imagens fizeram demasiado ruído de cor e espaço. Queriam ser vistas.
Escapou também alguma opinião sobre assuntos públicos. Essa vai ser muito mais reduzida daqui para a frente. Drama Pessoal agradece os muitos e-mails (e até os reduzidos comentários directos) que recebeu de reacção ao magro conteúdo.
«Este é um blogue pessoal de amor à arte» vai ser o Editorial nº2.
Obrigado a todos.
Escolas Para Quê?
Dezembro 3, 2007
Mais um fim-de-semana prolongado na educação. Um dia mais, perdido para milhares de jovens, mais uma vez desertados por professores e escolas vazias de funcionários que não lhes concederam o benefício do pré-aviso. Jovens que já aprenderam, todavia, a responder ao desrespeito, e somem-se aos magotes ao mínimo sinal de jornadas de luta.
Entretanto, os que já têm o caminho todo aberto e um lugar reservado tiveram um dia de trabalho normal e um fim-de-semana planeado em família.
Foi uma sexta-feira de games, de engate com os pais fora, de pastilhas de mp3 pelos ouvidos, Sms, palhaçadas no shopping (dando de caras com os stôres).

Penso no que já fiz profissionalmente. Pelo modo como se serve a poesia nas escolas (por quem, na sala de espera que se chama dos professores, só vê revistas), um dia à solta pode valer mais para o crescimento. Do mal o menos.
Os dois poemas que agora escolho nunca os vi nos livros que me recusei a usar quando era professor, cortados e colados por idiotas. Quando começaram a aparecer os poemas dos «poetas contemporâneos», eram obviamente escolhidos ao calhas, por gente que não os lia nas suas vidas, se as tinham.
Parte dos poetas que começaram a publicar nos anos 60 e 70 também são bons contadores de histórias. E as histórias chegam melhor aos jovens, que preferem e precisam de comparar experiências e tentar linguagem narrativa; respeitam sempre, como ouvi dizer, «uma boca bem mandada». Mas não costumam ter sorte. Em troca, são massacrados com uma carga de terminologia sem fim, a que têm de obedecer - mil etiquetas retóricas e divisórias temporais altamente duvidosas que só servem, e pouco, a quem faz análise estilística comparativa. E gráficos. Também há gráficos.

Tudo porque as sobras das sebentas são fáceis de repetir indefinidamente, até à redução de horário e ao topo da carreira. Que medo da sombra difícil de descrever. Que medo do comentário pessoal. Os jovens saem da escola com o vício católico de respeitar o comentário fixado acima da leitura. A audição mais que a declaração. Se não saem antes. Afinal, é só isto.
Muitas aulas de português matam a poesia para sempre.
Dos poemas João Miguel Fernandes Jorge que contam histórias, por exemplo, até do seu ponto de vista de professor, nunca vi nada nesses livros de papel pesado para roubar aos pais e ao Estado no preço. Cheguei a ver um poema copiado só em metade porque o autor não soube ler onde começava e acabava. Ao calhas, juntava-se um texto sobre uma viagem americana a outro com a sua chave numa pintura renascentista, sem qualquer trabalho de ao menos pesquisarem-se as imagens ou lugares em causa. Nada. Apenas umas aguarelas de quermesse de Natal, ou alguma obra-prima de postal com as cores trocadas.
Falam os poetas que foram professores. E chega.
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11.
Cortei-me num caco de garrafa na rua de Medreiros
e o dr. Egídio deu-me soro anti-tetânico ao anoitecer.
Esta primeira memória atravessa comigo o rio
a caminho do Seixal anos a fio levantava-me
de manhã cedo os braços à procura
dum cigarro os óculos entre frascos de remédios.
Corria pelas ruas até um autocarro e depois o metro
e depois outro autocarro daí ao cacilheiro
e à camioneta por povoações de dormitório,
charcos oleosos de estaleiros, braços de rio
de marés apodrecidas e mulheres mal dormidas
nas primeiras limpezas da manhã.
Chegava aos pré-fabricados da escola
com rapazotes sujos a assobiarem às pedradas
e bandos de raparigas vestidas à foto-novela.
Ao cheiro ordinário de café e bolos
o iludido grupo dos que partiriam
para as divisórias de madeira prensada
a ensinar por livrecos imbecis o ilusório comum.
Vindos da presunção de faculdades arengavam
pelo dinheiro menor dos vencimentos,
livros de ponto nos braços submissos
a confirmá-los num mister mesquinho.
Do local enganador da secretária
no reprodutor vazio dessas aulas
levava os olhos para a cela da janela.
Um céu de fumos dava-me o que eu perdia.
Do suposto centro donde me sentavam
até à boca morta de uma chaminé de fábrica
a perspectiva assujeitada do lugar
despenhava-se das coisas reais.
Trinta anos depois de ter nascido.
Joaquim Manuel Magalhães,
da série «Fotografias de Jorge Molder», do livro Os Dias, Pequenos Charcos
DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA
Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso di-
zer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.
João Miguel Fernandes Jorge,
do livro A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte
[fotos dramapessoal, 30 de Novembro de 2007]
Um Dia
Dezembro 1, 2007
