A Cabeça Que Apaga
Dezembro 10, 2007
No regresso de Eraserhead, de David Lynch (no ecrã frontal do cinema Nimas até 20 de Dezembro), guardo uma fotografia com os olhos de ver o pesadelo. Quinze espectadores, dos quais cinco saíram a meio, mais ou menos quando o filho incompleto fica doente. Lynch teria ficado satisfeito com a proporção. «My cow is not pretty, but it is pretty to me.»

Voltei a lembrar-me do pombo doente do dia anterior, depenado e parado, à espera.
Chamam-lhes muito «animais nojentos». Não gosto da mórbida ânsia de limpeza, e muito menos daquele nome – o mesmo que polacos, ciganos, judeus e russos tiveram em alemão nos anos 30-40 do século XX. Sou urbano (para além de polaco, cigano, judeu e russo), e os animais não os vejo como conta e peso. Um animal que morre no meio de nós é sempre uma caricatura humana.
(Há um ou dois anos, numa cidade alentejana, um autarca decidiu exterminar os pombos e contar votos entre a maioria dos velhos. Os pombos seriam adormecidos com narcolépticos e depois congelados. Diz uma mulher: «Tenho tido umas faltas de ar, e assim uns entupimentos, e desde que os pombos andam aí que está pior». Diz outra, sabendo do extermínio: «Ah, mas nós não vamos ver, pois não?».)

«As horrorosas caricaturas da morte», foi uma nota mental que um dia tomei para algumas imagens da Segunda Grande Guerra. Uma fórmula para esta deformação caricatural do horror encontrou-a Hannah Arendt em Eichmann e o Holocausto: «O horrível pode ser, não apenas ridículo, mas pura e simplesmente cómico». (H. Arendt nos fundos da Biblioteca do Congresso e na Virtual Jewish Library).
Esse horrível viu-o Alexander Sokurov plasticamente em «Sonata para Hitler», uma montagem de dez minutos de imagens da Segunda Guerra com notas estridentes de Bach e ecos de Penderecki. O lugar onde se podem buscar este e outros tesouros na Net é assunto de um próximo post. Muito em breve.
(Fotos dramapessoal: metro Rato, e igreja de S. João de Deus, Lisboa)