Elogio do Desastre

Janeiro 31, 2008

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“Em portugal existe o hábito parolo de se presumir que o que sabe mal faz bem. Se uma peça de teatro é imperceptível, aparece logo alguém a presumir que é muito boa. Só está é ao alcance da percepção de alguns iluminados; se um filme é um aborrecimento pegado é porque deve ser uma grande obra prima, etc, etc”

[de uma discussão online; minúscula do original]

Há uma coisa que atrai mais os necrófagos do que uma carcaça aberta na savana: uma obra de arte montada com meios públicos, e tida publicamente como dispendiosa, que “corre mal” para o público e para os comentadores ao mesmo tempo.

Alguns blogues encheram-se de reacções ao aparente desastre da ópera de Emmanuel Nunes no S. Carlos. As discussões deste género juntam poucas opiniões informadas, e pouco apreço pelas artes, mas nunca lhes falta uma intensa sensibilidade para com as contas da mercearia nacional. Ainda assim, mesmo nas contas, a sensibilidade é sempre muito superior ao conhecimento. Se o português fiscalizasse a despesa pública geral e local como fiscaliza a despesa com as artes de que não usufrui, estávamos muito melhor, em participação cívica.

Um desastre, em arte, é um fenómeno natural e mesmo necessário. Se não existisse a possibilidade de o trapezista cair e de o domador ser devorado, o circo estaria às moscas.

Lidar com o desastre é o dever do artista. O desastre é, afinal, o assunto do drama artístico, e, por vezes, o seu único resultado!

É todavia naturalíssimo, numa sociedade de pobreza recente (e presente), que especialmente o mundo do trabalho por conta de outrem se vire com rancor contra a arte, que produz objectos muito difíceis de medir, pela mão de indivíduos com um regime de trabalho liberal. Especialmente quando, ao contrário do que se passa noutros países pobres, os contribuintes nem sequer frequentam (ou podem frequentar, longe, nas duas únicas grandes cidades) a arte que sentem que pagam.

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Este blogue não aprecia polémicas. Nem sequer tem por princípio ter razão. Por isso não fazemos a ligação àquelas discussões correntes.

Só temos a sugerir:

Busque, por si, resposta para a fórmula: O desperdício é justamente uma das características que desde sempre distinguiram a arte.

Repare na violência depreciativa do termo intelectual no português europeu actual.

Consulte os orçamentos de estado da Espanha e da Áustria e tente ver o que “deitam fora” nas artes. Procure os PIB desses países, e veja quanto reembolsam no turismo (e directamente na “indústria da cultura”), mais nitidamente a Áustria, que não tem praias soalheiras. Quanto custa, a fundo perdido, a orquestra nacional deste último país, a Wiener Staatsoper? Uma fortuna inacreditável. Vale a pena ir ao site oficial só para ver a lista dos sponsoren e donatoren, ou seja, dos parceiros comerciais e mecenas.

Repare como falam das disciplinas artísticas, aos seus alunos, os nossos professores das disciplinas do tronco comum, as “principais”. É com respeito? Como está o ensino das artes?

Repare, por fim, na citação que está no início desta entrada: para o Ego em questão, o facto de uma peça de teatro ser imperceptível – o haver peças imperceptíveis - aparece como uma categoria absoluta; já o facto de alguém presumir que uma peça imperceptível possa ser muito boa é relativo (veja-se o curioso “aparece logo alguém” – que incomodativo, quando alguém aprecia o imperceptível). Do mesmo modo, existe como certa a categoria absoluta do filme aborrecido, se bem que a presunção de que um filme aborrecido possa ser uma obra-prima se apresente como duvidosa.

Repare como este tipo de declarações do direito ao usufruto universal de todo e qualquer objecto artístico estão sempre baseadas em verbos sensoriais: “o que sabe mal“. Por isso os romanos diziam: os gostos e as cores não se discutem (e não apenas os gostos…). Ou seja, a deformação sensorial é pessoal e intransmissível, e é ela que trama as discussões estéticas. Vendo bem, o sábio provérbio romano declara, numa inversão inteligente, que os gostos se discutem. Num plano mais alto do que o dos sabores

ilustrações: pormenores de colagens-cartoons de Ad Reinhardt

“Há muito a dizer em favor do jornalismo moderno. Ao trazer-nos as opiniões dos deseducados, mantém-nos em contacto com a ignorância da comunidade” Oscar Wilde

Espreitei um canal noticioso local para ver que horas eram, ao canto do ecrã. Mau hábito. A apresentadora anunciava a publicação de uma antologia de versos sobre a Guerra de África dum autor conhecido.

O que leva a televisão a escolher sempre o mesmo barítono para ditar a canção do combate em África não é de interesse. A redundância, em televisão, não é uma questão de conteúdo. É uma questão de género.

Há um poeta do costume pela mesma razão que há um astrólogo do costume, ou temas do costume, conforme a época do ano (vendidos metodicamente como se vende espaço de prateleira nos hipermercados). Não se peça a um jornalista que faça juízos estéticos, quando não faz outros mais urgentes.

Os melhores textos dedicados à guerra não interessam à conversa rápida. Não cabe a um texto dedicado à guerra harmonizar a experiência intratável, a não ser que o faça num registo altíssimo. E o registo altíssimo não é o da tv e de quem a segue. Não chegam umas rimas de baloiço.

Um dos grandes textos dedicados à guerra é de um jornalista, de uma geração de jornalistas que não confundia sob e sobre: Fernando Assis Pacheco. Por causa da censura, Catalabanza, Quilolo e Volta, editado em 1976, teve uma primeira versão em 1972, a fingir que era um livro sobre o Vietnam. Câu Kiên: um Resumo – chamou-se, com título de reportagem e com nomes de lugares orientais, para tapar. (Ou para mostrar ainda mais).

 

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“Mutter Ridge”, de Larry Burrows (morto em serviço)

Neste livro não há cantigas. Ouvimos um soldado a falar como aos seus, com uma raiva descrente, um medo sem tempo para se cuidar.

Na Quijinga apeia-te do carro.
Não fumes. Olho vivo na estrada!
[...]
Não fales. São palavras inúteis.
Deixaste um copo a meio, voltarás
para bebê-lo de uma vez (com gana).
[...]

["Conselhos Para a Quijinga”]

O único sítio de paz foi cavado anteontem. Entra-se por um lado, caga-se e sai-se pelo outro.

[“Por Estes Matos”]

[...]
Os meus olhos já foram brilhantes.
Sei fazer alguns versos mas nem sempre.
[...]
Durante os ataques doía-me um joelho.
Estou pronto, pensei.
Ninguém me conhece.
Os ratos são felizes.

[“O Garrote”]

Umas Cobras

Vindima, areia no rio?
Não me escrevam.

Deito-me com cobras.
Enrolam-se. Eu masmorro-me.
Deixem as cartas para outra altura.

Escrevam: nada.
Responderei coiso: nada.
Elas mostram a língua.
Vêm muito devagar,
caem nos rios
com um baque inesperado.
Mijou-se. Era eu.

Escrevam postais
apenas: sim, bem,
Julho.

Vou defender-me.

O ritmo de “Os cães” não é de balada. É cardíaco, melhor, craniano. Entre cães e homens, quem é quem? Uma das coisas que mais moeu o espírito dos combatentes, conforme o escreveram, foi o abandono, a monotonia da espera pela missão, ou a espera indefinida. O meu pai tem fotografias de “orquestras de ratos”, grandes formações em leque de ratos mortos, em cima de um oleado. O rato maior era o maestro. E, depois, as várias classes de artistas, por peso e tamanho. Era o matar do tempo. Os cães cercavam. Assistiam.

Os Cães

Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.

A penúltima secção do livro diz respeito ao tempo de retiro do mato. Chama-se “Luanda”. Ode ao medicamento da paz. Louvor do repouso químico. Há um último poema dedicado à Lisboa do regresso.

Ode ao Librium Dez

Embora química a tua
é realmente uma paz
para duas longas horas,
paz sentada, na varanda,
folheando jornais,
lendo só os títulos
(o novo papa recebe),

uma paz assim fresca,
sem grandes gestos
escusados, diria
uma paz no duche,
ou depois à mesa
comendo a sopa leve,
o bife grelhado
com pouco sal,

paz da papaia doce,
gotas de limão,
paz de um copo de água,
uma brisa ténue,
arrepiando quase nada
os pêlos das pernas,
[...]

Outro dos dois textos que vão aqui escolhidos foi comprado na feira de livros com desconto, na Estação do Oriente. Custou três euros. Vai cem vezes mais longe na história e no enigma que os romances pseudohistóricos e pseudoenigmáticos do tamanho de caixas de sapatos que se vendem aí aos milhares.

Diário do Tempo de Guerra (1966-1970), de A. do Carmo Reis, é um diário ilustrado da experiência angolana do autor, para além de um testemunho da crise académica de 1969. Edição do Museu da Guerra Colonial. Com um estilo directo, mas sempre recordado da literatura de sempre que lhe possa trazer alguma luz, o oficial narrador é capaz de olhar para a História e para o quotidiano das tolices de passatempo, dos medos, das interrogações íntimas, do absurdo, dos comes e bebes, das rotinas militares, com a mesma estranha conta de aproximação e de calma distante.

Numa literatura cheia de fugas sentimentais ou rebuscamentos fúteis, este livro traz a sua lição. Nem tudo é fácil de tragar, para quem foi educado numa retórica politicamente mais correcta, mas tudo é pão-pão (não havia queijo). Hoje seria um blogue de guerra. O militar dá testemunho de uma Angola ainda com fortes laços com as hierarquias antigas (e com uma arte tribal ainda viva, que, segundo muitos coleccionadores especialistas internacionais, a brutal guerra civil extinguiu para sempre). Só algumas entradas, mais ou menos salteadas:

Catxinga, 7 de Março de 1968.
Veio aqui um pequeno pedir-me de comer. O pobre do miúdo só tem ossos e pele encurrilhada. Vamos lá a ver se o rapazito recupera, na companhia dos faxinas gordinhos e roliços que sorriem com dentinhos de prata.
As chuvas encalham os unimogs na picada lamacenta, o correio atrasa-se e o reabastecimento não chega. A malta irrita-se mas aguenta. São já quinze dias de lerpa! Parece que, em Abril, vamos ser beneficiados com a carreira de um táxi aéreo.

Catxinga, 4 de Abril de 1968.
Os soldados preferem correio a comida.
Isto hoje foi o fim do mundo! Imagine-se que veio um avião de Luremo e se esqueceu de trazer a correspondência!
Logo que chegam as cartas, o furriel do dia forma o pelotão para entregar notícias. São momentos de ansiedade que se estampam no rosto dos soldados. Quem recebe, fica satisfeito e extravasa contentamento. Quem lerpa, fica triste e, por vezes, não resiste a um gesto de desespero ou deixa escapar uma imprecação furtiva.

Catxinga, 28 de Abril de 1968.
O soba Muximo veio acusar um soldado da milícia de lhe ter roubado a mulher que levou consigo para a Marimba, do outro lado do Cuango. Queria que o raptor lhe pagasse o alambamento, ou seja, o preço da mulher: 10 cabras e 1.200$00. Escrevi então ao meu camarada da zona para que resolvesse esta maca.
Foi este soba que me ofereceu uma cara com coroa de rei. Quando lhe inquiri o significado da escultura ele me explicou que representava os antigos soberanos da tribo anteriores à ocupação portuguesa.

Catxinga, 17 de Maio de 1968.
Nesta vida de guerra há o respeito pela hierarquia. Um soldado bem penteado, barbeado e tímido é maçarico. Com três meses de mato, sobe a ultramarino. Ao fim de seis meses, já habituado à guerrilha, é ultramaroto. Com nove meses de África, é promovido a ultramalandro. Terminado um ano, maduro e desiludido, é um mestre pistoleiro, é um velhinho.
Há três meses precisamente que batemos aqui com as costas.

Catxinga, 23 de Maio de 1968.
Vesti a pele de justiceiro.
Um indígena ameaçou um soldado, de catana em punho. Mandei que prendessem o prevaricador e, depois de reunir os homens da sanzala e de lhes explicar o delito, apliquei-lhe uma carga de porrada.

Catxinga, 30 de Maio de 1968.
Chegam ecos de Paris! É a contestação da Universidade velha. É a revolta contra a ordem estabelecida. É o sonho a voar com as asas da Liberdade.

Catxinga, 3 de Junho de 1968.
Encontrei-me com a rainha de Makengue, uma velha de porte direito e fala serena. Traz ao pescoço uma argola de cobre, símbolo de realeza.

Catxinga, 5 de Junho de 1968.
Temos já um balanço negativo do cacimbo. Na verdade, dois soldados deram em chalupas e lá foram para o hospital dos malucos! Um deles peregrinou pela parada, de joelhos, a rezar o terço. Depois, agarrou numa bacia, borrifou o capitão com água fresca e traçou-lhe a sina: haveria de ser padre e ter muitos filhos!

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Larry Burrows

Catxinga, 12 de Junho de 1968.
Há pouco, um furriel batia com as mãos na cabeça como se fosse um macaco e dizia desesperado: “Eu qualquer dia mato-me, eu morro, eu já não sei o que digo”.
É o cacimbo.

Catxinga, 7 de Setembro de 1968.
Tiroteio em Catxinga City! 10 minutos debaixo de fogo!
Acordei com o matraquear das metralhadoras. As balas sibilavam no chão da parada e o estrépito do morteiro ribombou com o estrondo das granadas caídas na encosta do morro. Eram duas da manhã. Quando a cadência do tiro intervalava, a caminho do fim, ouvia-se ainda cantar a Breda, e a boa disposição dos nossos soldados decorava uma pesada atmosfera de pólvora com insultos escabrosos e maldições ao turra.
Ao romper d’alva, a frente Norte do acampamento estava coberta de cápsulas e alguns panfletos convidavam os sobas da sanzala a fugir para o Congo. Reparei então que uma bala abrira um buraco a um palmo onde inclinara a minha cabeça! Estou vivo!

Catxinga, 15 de Setembro de 1968.
O Leão chegou à sanzala. A P.I.D.E. esteve cá!
Os sobas foram presos. Dizem-me que, durante a viagem de regresso, a P.I.D.E. matou alguns e lançou-os ao rio para pasto dos vorazes jacarés.
Uma coisa é certa: se os sobas estivessem do nosso lado, este ataque seria impossível. Diz Mao Tsé-Tung: “A guerrilha quando tem as populações a favor é como o peixe na água”.
As mensagens do Mussuco e Catxinga passarão a ser transmitidas em cripto.

Catxinga, 14 de Dezembro de 1968.
Acabo de fazer uma patrulha ao Tunguila. De regresso, acampei na sanzala do Muginga. Entre as meninas que brincavam no largo havia uma pretinha muito engraçada de olhos grandes e vivos. Perguntei-lhe quem era. Ela disse-me que era filha do soba de Muginga (que fora preso pela P.I.D.E. e morrera de bala). Voltei a perguntar onde se encontrava o seu pai e a pequenita começou a chorar aquelas lágrimas de inocência que não têm culpa de os homens serem maus a ponto de lhe matarem o pai. Dei-lhe uns doces de fruta e ela fugiu para dentro da palhota misturando um sorriso de gratidão com a amargura da sua orfandade.

Catxinga, 27 de Janeiro de 1969.
Um ano de comissão! Mandei tocar o clarim a formar, fiz uma breve alocução às tropas em parada. Em resumo, frisei que não me dessem cabo do juízo. Por aqui continuaremos encurralados, suportando a nossa cruz. Vou prosseguir a leitura do Toynbee.

Catxinga, 15 de Fevereiro de 1969.
O Lopes, algarvio castiço, apostou comigo. Teimava que eu não furaria um rolo de papel higiénico a 100 metros. Primeiro, porque eu não acertava e, segundo, que uma bala de G3 não vara o papel higiénico. Chamei testemunhas, apontei a arma, disparei e o Lopes perdeu uma cerveja.

Catxinga, 19 de Fevereiro de 1969.
Tenho aqui um furriel que, se não faz mais nada, pisca os olhos e sacode os ombros. Um soldado que passe, se lhe faz uma pergunta, responde logo: “Aguenta os cavalos, que eu vou chamar os índios”. Outro, por tudo e por nada, sai-se com esta: “É à Lisboa. É à Lisboa”. Enfim, o cacimbo

Catxinga, 10 de Abril de 1969.
No Mussuco, um valentão puxou de faca para um camarada. Isto promete…

Catxinga, 4 de Janeiro de 1970.
O cabo Pedro, lisboeta castiço, um destes mosqueteiros que enobrecem a genealogia de quantos aprendem a arte de Júlio César, veio apresentar-me um poeta que reza assim:

Maçarico!
Se puderes resistir à solidão que te rodeia
Sem ficares meio maluco;
Se puderes aguentar as patrulhas a pé
Sem no regresso ficares cinco dias de cama;
Se suportares o arroz, a massa e o feijão
Sem ficares com uma úlcera no estômago;
Se tiveres calma para escutar os teus superiores
Sem sentires vontade de fazer o contrário do que te estão a dizer;
Se conseguires passar pela Missão
Sem sequer olhar para a Elisa;
Se passares os vinte e quatro meses
Sem ouvires uma única vez a “Hora do Soldado”;
Se saltares o arame que rodeia o destacamento
Sem o alferes dar por isso;
Se em todo o tempo que estiveres no mato
Não pedires um isqueiro ao Movimento Nacional Feminino;
Se conseguires roubar um cabrito
E convidar o próprio dono para o ajudar a comer;
Se fores capaz de ver o bife que te dão ao domingo
Sem necessitares de usar óculos;
Se chegares ao fim da comissão
Sem o comandante de destacamento descobrir que lhe roubaste três frangos;
Se fores capaz, ao longo da tua comissão
De fazer tudo isto,
Então, sim,
És um verdadeiro velhinho!

A de roubar o cabrito foi partida que fizeram ao Rovisco, alentejano e bom rapaz. A dos frangos foi comigo… Já me quiseram dizer quem foi o autor do crime, mas prefiro não saber.

Catxinga, 8 de Fevereiro de 1970.
Os maçaricos estão a chegar! Prepara-se uma recepção solene. No tronco de uma árvore, uma tábua escrita reza assim: «Maçarico, se você demorasse mais uma hora, todos os velhinhos se enforcariam!» Na barraca da enfermagem: «Matadouro Municipal». Na casa do comerciante: «Caixa Geral de Depósitos». Na messe dos furriéis, está pendurado um boneco promovido a deus da guerra - O «Xalavadunga».

Luanda, 20 de Março de 1970.
Dois soldados pegaram-se à bulha. Um deles era açoreano. Já escorria sangue no ardor raivoso da refrega quando o ilhéu consegue atirar o adversário ao chão. O miserável vencido fica à mercê do terrível gladiador. Naquele instante, passa por ali um gato e o castigador vitorioso mata-o à cacetada.
Logo se volta para o desgraçado a seus pés e remata assim: «Isto é para não te matar a ti!»

Sentir é o Mais Complicado

Janeiro 25, 2008

 

Desculpem a pausa. Parámos para trabalhar (digamos assim), para voltar a ver A Arca Russa, de Alexander Sokurov, e para ver se o Hotel Netto, na Vila de Sintra, ainda não caiu. O livrinho castanho, que a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema editou, dedicado a Sokurov, vai bem no bolso para todo o lado. “O problema é sentir. Sentir é o mais complicado”.

 

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Como reage à exibição dos seus filmes no Ocidente?

No início sentia imenso apreço por tudo e todos: espectadores, directores de festivais, funcionários. Depois comecei a arrepender-me, porque às vezes, no Ocidente, vejo reacções muito estranhas. Por exemplo, pessoas a rir. Claro que percebo que os ocidentais são muito diferentes e muito sós, ao mesmo tempo. Muito mais sós do que na Rússia. Diria mesmo espiritualmente mais doentes, com valores morais obviamente muito diferentes dos da Rússia. Por isso me sinto ainda mais agradecido a alguém que veja os meus filmes, porque presencia então um mundo tão diferente e tenta percebê-lo e aceitá-lo. Mesmo assim, no Ocidente, vive-se uma vida que eu nunca compreenderei.

(Entrevista a Paul Schrader, no livro castanho)

 

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O tempo nunca pára. A época de Pedro o Grande ainda não parou. Podemos sempre imaginar que estamos nesse tempo, porque o ramo desse tempo ainda está a crescer. O mundo, na minha imaginação, é como uma árvore. Somos todos células nessa árvore, e vamos em movimento por ela. Nós russos estamos muito mais perto do nosso passado do que os ingleses estão dos tempos vitorianos. O nosso passado ainda não se tornou passado – o maior problema deste país é que não sabemos quando se tornará passado.

(Ao Guardian Unlimited, a propósito d’A Arca Russa)

 

 

Não hás-de saber exactamente o que fazes, mas hás-de fazê-lo.

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George: We never liked the idea of an artist being a sort of a freaky person.
Not at all.
Gilbert: We’ve always wanted to be the kind of artist whom your mother loves.

 

Ten Commandments for Gilbert and George

Thou shalt fight conformism
Thou shalt be the messenger of freedoms
Thou shalt make use of sex
Thou shalt reinvent life
Thou shalt grab the soul
Thou shalt give thy love
Thou shalt create artificial art
Thou shalt have a sense of purpose
Thou shalt not know exactly what thou dost, but thou shalt do it
Thou shalt give something back

 

Vídeo dos Dez Mandamentos Segundo Gilbert & George em Ubuweb

Um Minuto e Vinte Segundos

Janeiro 17, 2008

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Um leitor que conhecemos de outras paragens mandou-nos uma saudação. Eis a amostra do e-mail de Alberto Barbosa:

Caro amigo:
Você, que escrevia artigos de duas e três páginas de jornal, com a mesma medida de esperteza e Carnaval, agora fala por entre espelhos? [...]
Já me disse que a bombarda de outros tempos só lhe valeu chatices inúteis e inimigos desinteressantes (as chatices úteis são a obrigação do panfletista). [...]
Entre várias outras coisas, gostei da sua entrada sobre o interior das casas dos arredores de Lisboa, a lembrar ao mesmo tempo a cantora popular esquecida. Aí gostei de se ter poupado ao comentário. [...]
Foi pena não ter posto a fotografia da janela dessa penúltima morada, que tinha as grades em forma de sol, dessas que se vêem por todo o lado (e muito à beira-mar, não sei nem quero saber porquê). Foi uma imagem que me ficou da notícia da altura. [...] Triste, enfim.
Votos de boa continuação ao Drama Pessoal.

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Caro Alberto,
Obrigado pelo entusiasmo. Sabemos do que fala. Não encontrámos essa fotografia, que, pelos vistos, ficou na memória de mais pessoas.
Parte da presente contenção tem razões técnicas. Pela outra parte, tem sido natural.
Entretanto, recebemos de Espanha um sms da assistência técnica da HP, em português do Brasil, formal, a dizer-nos que o computador original deste blogue está “pendente de pega”. Parece que quer dizer, no dialecto europeu informal, que ainda não lhe pegaram.
A prazo, planeamos ter mais uma página, para textos longos, ensaios. E talvez outra, mais irregular, mais poética.

Se um blogue traz alguma coisa de bom é a pressão para a concisão. Diz o que tens a dizer antes que me vá embora.
Esse lado directo é positivo, neste meio. Mas também não deve ser idealizado: um dos nossos blogues preferidos está com cerca de 2200 visitas diárias, se bem que a duração média de cada visita esteja em 1,20 minutos. Ou seja, muita gente clica e desclica. Talvez contem como saídas as consultas de links, que não faltam nesse blogue. Ainda assim, um blogue é mais uma estação de metro que uma galeria de arte ou sala de conferências, como o bloguista desejaria. Por exemplo, neste momento já ninguém está a ler. Portanto, obrigado Alberto Barbosa.
Volte sempre.

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fotos do “No Pants Day” 2008, 12 de Janeiro, em Nova Iorque.

(Site Oficial: Improv Everywhere: We Cause Scenes)

via Village Voice

Orvalho (Paul Celan)

Janeiro 16, 2008

 

Orvalho. E eu deitado contigo, tu, no lixo,
uma lua lamacenta
atirou-nos com a resposta,

nós separámo-nos aos bocados
e voltámos a esmigalhar-nos juntos:

O Senhor partiu o pão,
o pão partiu o Senhor.

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Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, tradução de João Barrento e Y.K. Centeno, Edições Cotovia, 1993.

cor da rosa, foto dramapessoal

 

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Você também dirigiu um anúncio da Ford. Porquê?
Fi-lo por dinheiro. Por que acha que o fiz?

Precisava assim tanto desse dinheiro?
Enfim, é bom ter algum, podem-se comprar coisas com ele.

Portanto, isso de uma pessoa se «vender», acha que é conversa?
Não, claro que não é conversa. Deparamo-nos com isso todos os dias. Todos nós. Isto pede uma escolha moral, isto não pede uma escolha moral, e por aí fora. Alguém ainda mais pedante do que eu poderia dizer que essa é que é a grande questão do drama: Como é que uma pessoa toma uma decisão moral? E mais: que uma decisão moral não é a escolha entre o certo e o errado - isso é fácil - mas é entre dois erros.

David Mamet à New York Magazine/nymag.com

Fotografia de Brigitte Lacombe

Rés-do-chão

Janeiro 12, 2008

 

 

[TSF]

O corpo da cantora Cândida Branca Flor, que foi autopsiado ontem, quinta-feira, encontra-se há 24 horas no Instituto de Medicina Legal (IML) porque ninguém aparece para o reclamar, afirmou à Lusa uma fonte daquela instituição.
A situação é no mínimo insólita, e já foi confirmada pela editora que gravou o seu último trabalho, a Sucesso.

 

 

 

Tanto a Sucesso como o IML, garantem que até ao momento não foram contactados nem por familiares nem por amigos da cantora, encontrada morta quarta-feira na sua casa, em Massamá. Quanto à família da cantora, resume-se à mãe, muito idosa com mais de 90 anos, e vive num lar no Alentejo. [...]
O resultado da autópsia não pode ser revelado, visto estar em segredo de justiça. Aparentemente, tudo indica que a cantora se terá suicidado com álcool e comprimidos.

 

 

 

[NetParque]

[...]

O NetParque apurou junto da Aqui Há Música - Produção de Espectáculos, empresa de agenciamento de Cândida Branca Flor, que será rezada uma missa, pelas 13h30 de sábado, antes da saída do corpo da cantora da igreja para a sua última morada.
Segundo a mesma fonte, a notícia da Agência Lusa dizendo que o corpo permaneceu 24 horas no Instituto de Medicina Legal sem ser reclamado “é falsa e alguém terá de responder por ela”. O corpo de Cândida Branca-Flor foi reclamado por uma sobrinha, que se encontra a tratar de todo o processo relacionado com o enterro.

 

 

 

 

[NetParque]

A cantora Cândida Branca Flor foi encontrada morta em sua casa, em Massamá, na tarde de quarta-feira, 11 de Junho. Tinha 51 anos e 25 de carreira.
A notícia, avançada pela edição online do jornal “Público”, foi confirmada ao NetParque pelos Bombeiros de Queluz, entidade que recebeu uma chamada, às 16h21, a alertar para a existência de uma vítima de paragem cardíaca.
De acordo com a Agência Lusa, a chamada foi realizada por amiga de Cândida Branca Flor que, estranhando o facto de a cantora não atender o telefone, se deslocou à residência, de que possuía uma chave. [...]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao NetParque, a editora Sucesso e a empresa de agenciamento da cantora, Aqui Há Música, afirmaram, ao início da noite, não ter conhecimento do facto.
Cândida Maria Coelho Soares Rosado, nascida a 12 de Novembro de 1949, vivia sozinha em sua casa e a única família que tinha era a sua mãe.
Foi na televisão que Cândida Branca Flor se revelou, em 1976, ao lado de Júlio Isidro na apresentação do “Fungagá da Bicharada”. Nesse mesmo ano, a sua voz chamou a atenção no álbum “Coisas do Arco da Velha” da Banda do Casaco (ainda com o nome Cândida Soares).
Mas foi só mais tarde que Cândida Branca Flor (nome adoptado a partir de uma canção da Banda do Casaco) se lançaria como cantora, exactamente com a edição da banda sonora do “Fungagá da Bicharada”.
Em 1978, Branca Flor participou pela primeira vez no Festival RTP da Canção com “A Nossa História de Amor”, antes de regressar por duas vezes ao mesmo Festival, ao lado de Carlos Paião, com quem cantou dois dos seus maiores êxitos - “Trocas e Baldrocas”, em 1982, e “Vinho do Porto”, em 1983.
Ídolo das crianças de finais de 70 e inícios de 80, Cândida Branca Flor editou oito discos entre 1978 e 1993, sempre com um piscar de olhos ao público infantil. Do seu vasto repertório popular e romântico contam-se ainda as muitas interpretações de canções de Beatriz Costa.
Nos últimos anos, Cândida Branca Flor colaborou com muitos outros nomes da música popular e deu numerosos espectáculos para as comunidades de emigrantes portugueses no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos da América, Canadá, África do Sul e Austrália.

 

 

 

 

 

 

 

 

[Oeste Diário]

[...]

O último espectáculo da cantora Cândida Branca Flor, encontrada morta em sua casa na quarta-feira, dia 11 de Julho, foi em Pero Negro (concelho do Sobral do Monte Agraço), no sábado anterior.
A cantora Cândida Branca Flor, de 51 anos, foi encontrada morta em sua casa, em Massamá, na quarta-feira, dia 11 de Julho. Aparentemente terá sido suicídio, mas as entidades policiais não confirmaram ainda esta hipótese.
O ultimo concerto que a artista deu foi no sábado anterior, dia 7 de Julho, no concelho do Sobral do Monte Agraço. Cândida Branca Flor actuou no pavilhão gimnodesportivo do Clube Desportivo e Recreativo de Pero Negro, onde esteve com as suas bailarinas e o seu amigo e também cantor Luís Portela.
A carreira de Cândida Branca Flor não estava a correr bem. Exemplo disso é o facto de no espectáculo realizado em Pero Negro só terem estado presentes cerca de 30 pessoas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Redacção noticiosa da rádio TSF de 13 de Julho de 2001 & locais online Netparque
& Oeste Diário]

fotos Remax, busca em: Massamá, apartamentos, venda (todas as zonas).

 

 

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Mal chegámos à rua, o Professor parou examinando o espaço. Teve uma hesitação. Depois puxou da algibeira por um objecto que me pareceu um relógio – consultou-o… E, de súbito revolvendo-se, pegou-me bruscamente por um braço arrastando-me sem dizer uma palavra. Só então notei – e pasmo hoje como só então notei – que os vidros dos seus eternos óculos azuis, quadrados, eram doutra cor: um amarelo sujo, muito bizarro; uma cor repugnante que metia medo. É verdade: ao olhar com mais demora os vidros dos seus óculos, foi esta a impressão que me oscilou, destrambelhadamente. A cor não me soube a cor. Os meus olhos sentiram-na, não vendo-a, mas tacteando-a. Sim, a sensação que essa cor que eu vira me transmitiu ao cérebro foi uma sensação de tacto – olhá-la, era como se tacteássemos qualquer coisa viscosa. E só das estranhas lentes – atingi – provinha a mudança que eu notara no rosto do Mestre: eram elas que deslocavam a sua expressão fisionómica.

Durante o nosso passeio, várias vezes ele tornou a consultar o seu relógio – que, num momento, eu pude descobrir não ser um relógio. Faltou-me o tempo para o examinar com a devida atenção. Apenas observei que o seu mostrador era roxo e que os algarismos das horas estavam substituídos por traços de cor…

 

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Mário de Sá-Carneiro
«A Estranha Morte do Prof. Antena», Céu em Fogo, 1915.
Ser português é melhor ao longe. Mais um ganho de património recente,

 

fotos dramapessoal, Lisboa à noite

 

Tempo Ao Tempo

Janeiro 9, 2008

 

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A 8 de Janeiro de 1989, António da Silva Teixeira Electricidade escreveu sobre uma camada de cartazes o que parece ter sido a sua mensagem para o novo ano. O pedaço de papel escrito foi recortado da parede e guardado, e será reproduzido (a seu tempo) na página Electricidade deste blogue, com o resto da obra que pudemos salvar.

A 7 de Janeiro tinha morrido Hirohito, Imperador do Japão, notícia que causou intensa emoção a Electricidade, depois de ansiosamente ter acompanhado a doença final daquele a quem «Eles» estavam «a fazer sofrer horrorosamente».

8-1-1989
x x x x
Dei-a Tempo ao Tempo

 

NÃO Actue Precipitadamente,
Pense Maduramente antes de Actuar,
Dei-a Tempo ao Tempo, Para Actuar,
Com conhecimento do que vai fazêr,
Meça as Distancias, e as Responsabilidades,
E os Perigos, Para que Você não venha
A Sêr Vitima do Seu Precipitado Comportamento
Dei-a tempo ao tempo

 

8-1-1989
x x x x

 

Tudo Canos Vazios

Janeiro 8, 2008

Podemos ler em blogues nacionais (vede o paradoxo) o que andam a escrever sobre a qualidade dos blogues nacionais. Ou podemos escolher melhor o que lemos.

 

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Podemos antes ler o que vale em qualquer suporte, seja um painel, o papel ou um ecrã, ou mesmo um blogue, desses que correm mundo sem bandeira certa, como os navios transoceânicos.

Curioso é os blogues, especialmente os locais, discursarem como se não fossem um meio minoritário, com um conteúdo que, em massa, traz mais espuma do que maré.

 

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Os blogues que escrevem sobre a qualidade dos blogues recomendam-se a si próprios.
Drama Pessoal, até porque acabou de chegar, responde ao dilema da qualidade dos blogues com o que tem na sua lista de visitas recomendadas, o seu blogroll, que junta, neste momento, quatro blogues que ganharam o seu lugar no mundo.

Discussão mais vasta e ainda mais entediante que a da qualidade dos blogues é a dos males da Internet, repetição das que aconteceram quando a música popular, a rádio, o cinema, os livros aos quadradinhos, a televisão, sucessivamente, sacudiram as massas, e, parece, abateram gerações inteiras.

 

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Nós, os sobreviventes, sabemos que não há ninguém que se perca na Internet e perca todo o seu tempo a bater palmas com o macaco da pandeireta que, não houvesse Net, estaria antes a ler o ensaio «Proust», de Samuel Beckett. (a)

Doris Lessing falava das «inanidades da Internet» no seu discurso de recepção do Nobel da Literatura (sempre o mais inane), enquanto, com termos dignos, prezava a fome de livros que viu entre gente que sofre da outra, sem sacrificar a primeira, no seu amado Zimbabwe.

Esqueceu as inanidades dos livros, onde, como por todo o lado onde há gente, escorre o lixo e sempre escorreu.

Na mesma edição do Guardian Unlimited (a excelente edição online do Guardian) que publicou o discurso, o actor, realizador, escritor e divulgador artístico Stephen Fry entretinha-se a explicar as vantagens do seu browser Mozilla Firefox.

 

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Entre outras coisas, o browser permite encomendar livros que já não chegam às nossas livrarias, e cinema que deixou de chegar às salas, ou vídeo que já não passa na tv, para além da leitura do queixoso discurso Nobel.

Stephen Fry é como aquele monge budista japonês que sorri ao pulo e ao tremor da tecnologia como à montanha quieta, porque por tudo passa o mesmo vento de sempre, e ainda explica que tem uma Skuteru para não amarrotar o seu hábito, mas preferia uma Motobaiku, para correr a cavalo por entre os arrozais e ir beber chá com os crentes mais idosos e benzê-los de acordo com o ritual milenar.

Cabe aqui uma frase recente do blogue Hak Pak Sak, um dos da nossa lista, a respeito da Internet (falando da questão da greve americana dos argumentistas):

«…os media são apenas aquilo que a palavra implica, i.e., fibra óptica inerte e canos vazios, veículos para transporte de conteúdo, nada mais…» (b)
«…media are just what the word implies, i.e. “dark fiber” and “empty pipes”, vehicles for conveying content and no more…»

 

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Hak Pak Sak é um blogue sem efeitos de apresentação, dedicado a temas de política, sociedade e comunicação, história e memória, ou, de acordo com o seu lema: «Stephen Lewis escreve sobre Infraestruturas, Identidades, Comunicação e Mudança». Temos muito pouco em papel periódico que se lhe pareça (temos muito pouco em papel e em geral). Um bom começo poderá ser o artigo «Library Access, the Limits of the Web, and the Shelling of Sarajevo», um apanhado limpo e drástico da má qualidade arquivística da Internet no presente, lembrando a destruição da histórica biblioteca de Sarajevo durante a última guerra dos Balcãs.

Em contrapeso a este pessimismo informado, ou ao de Doris Lessing, há muitos blogues de leitura e de amor aos livros a consultar (uma lista do Guardian), de cunho mais pessoal, para além de sites que já são arquivos sérios dos autores a que são dedicados, como o de Walt Whitman ou o de Dante Gabriel Rossetti.

Entre os sites dedicados ao serviço do livro e ao debate do futuro da qualidade documental da Internet, que compensam aquela visão mais negativa, há o «Fob», de nome completo The Future of The Book, dedicado ao livro-objecto-de-papel, onde também se fala de tudo o que são maquinetas para o texto, como o último leitor digital, que a moda volta a dizer que é alternativa ao papel. Ali preferem perguntar se não será «mais uma marmita», porque compraram todas até agora (curiosamente, são os produtores e os vendedores que já não lhe chamam «livro digital», mas «dispositivo de leitura/reading device»). O site festejou nove anos de idade recentemente, o que, em Internet, são duas épocas.

Mas já que é óbvio que as mãos preferem o papel ao plástico, os olhos, mais fáceis de enganar, podem continuar a amar o livro através de um dos blogues visualmente mais ricos de toda a Net, e um calmo guia do mundo ilustrado: BibliOdyssey. Tirando Stephen Fry no seu sofá, todas as ilustrações deste post foram roubadas nos variadíssimos capítulos desse blogue.

 

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Para dar espaço à liberdade, fica só um parágrafo para cada um dos outros dois blogues extraordinários:

Horses Think tem um grande título, grande cabeçalho, conteúdo bem contado e sempre bem contido: belos lugares, belos objectos de arte. Estilo curto, falado. Boa companhia.

Wood S Lot é o blogue que faz acreditar na capacidade do género. Da autoria do canadiano Mark Woods, é um blogue pessoal com as dimensões de uma revista. Não fala de si, a não ser por raras fotos da natureza do seu Canadá. Recolhe amostras de leituras de reflexão estética e política, e poética, que vão seguindo o seu veio. WSL traz escolhas muito fortes de fotografia e artes plásticas, com ligações para as séries completas dos objectos, em arquivos ou galerias, ou para a História, ou histórias. Um elemento especialmente comovente é o modo como WSL vai lembrando artistas notáveis que viveram mais ou menos na sombra, ou estão na sombra do presente imediato, ou nem por isso, com uma ou outra notícia necrológica muito sóbria, uma data comemorativa, mais um retrato, um objecto que conta uma vida, um curto manifesto. O blogroll de WSL tem uma colecção de blogues capaz de atirar qualquer generalização sobre o fenómeno para o canto de qualquer café.

A urgência de um blogue, vendo bem, não é maior que a urgência do livro. As vidas continuam curtas.

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O que procuro, o que neles descubro
é a visão do mundo a que assistiram
no espaço-tempo de entre ir e vir
e o regresso ao desconhecido.
O que procuro – algumas palavras
que me revelem o prodigioso
mistério aberto entre duas almas,
antes que seja tarde e a noite avance,
a morte vença de uma vez para sempre
e deles não fique senão o vislumbre.

Ruy Cinatti

[pedaço partido do poema «Os Pela Segunda Vez Nascidos», de 56 Poemas, Regra do Jogo, 1981.]

Notas

(a) Volume IV - «Poems, Short Fiction, Criticism» da edição internacional do Centenário de Beckett, da Grove Press, esgotou entretanto. Guarde o link da Book Depository, onde poderá mandar vir livros sem custos de envio para todo o mundo, mais em conta que pela Amazon.

(b) Já agora, media [diz-se /média/] é a palavra latina, igual ao plural português meios, e tornou-se o termo abrangente para dizer «meios de comunicação»; o inglês usa directamente termos do latim na linguagem oral e corrente (mais do que nós), mas usa-os com as normas de pronúncia adaptadas à sua fonética; ou seja, a palavra brasileira mídia ou a pronúncia à inglesa, por cá, são sinais exteriores de pobreza.

Menos Um Ano

Janeiro 4, 2008

Notas de uma caminhada lisboeta.

 

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Lisboa com suas escamas naturais
a cair do corpo morto, à luz sempre muito alto
ao perto molhado e torto

 

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O pedreiro romano em seu monte claro
vê o dia para trás e o fim do que está visto
antes que seja tarde, pois que o sol arde

 

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Horas extra no ofício, contas de outros dias,
enquanto o vento e a luz fazem ondas de areia
e um rosto do fado posa calado

 

fotos de Lisboa e legendas dramapessoal:
Saldanha, Avenida de Roma, Praça do Marquês de Pombal