Frank

Fevereiro 28, 2008

 

frank_350.jpg
“Whatever has been said about me is unimportant. When I sing, I believe.”
Frank Sinatra

 

Para ir mais além, é de ler “Frank Sinatra Has a Cold”, short story jornalística de Gay Talese, peça-emblema do Novo Jornalismo (mais novo agora do que então, comparado com a má ficção que o substituiu). Abril de 1966, revista Esquire a work of rigorously faithful fact enlivened with the kind of vivid storytelling that had previously been reserved for fiction.

[guardar em formato PDF]

Na mesma revista, veja-se um exemplo recente de imaginação em comentário directo ao presente, no panfleto fictício de Matt Marinovitch Se um Estranho se Aproximar de Si com um Objecto Desconhecido. “If a Stranger Approaches You with a Foreign Object”.

 

matt-marinovich-napkin-lg300.jpg

Noite Olímpica do Cinema

Fevereiro 25, 2008

 

vlcsnap-1855110.jpg

Depois da máquina da barba, difícil de equilibrar, a luta com a tesoura.

vlcsnap-1858066.jpg

Almoço em família. Todos olham o copo ao contrário, o vinho espalhado na mesa. Paul resiste ao embaraço, como tinha resistido a que lhe tirassem a tesoura das mãos.

Na noite dos jogos olímpicos do cinema, em que vários filmes diz-que “procuram a vitória”, gravámos o desejado Ce Que Je Vous Dois, e, como brinde, a farsa campestre L’été Meurtrier (“O Verão Assassino”), de Jean Becker, 1983.

vlcsnap-18782571.jpg
vlcsnap-1874213.jpg
vlcsnap-1874284.jpg

Olhares de interesse. Suor. Cena da barraca do baile, com Isabelle Adjani e Alain Souchon. Ela chama-se Eliane, conhecida na vila por “Elle”. Ele é o bombeiro voluntário Florimond, mais conhecido por “Pin-Pon”. O baile muda para o som eléctrico manso de “L’été Indien”, com a banda a imitar a melodia que Joe Dassin tinha aquecido o mais que pôde. O narrador é Pin-Pon. As legendas para quem não ouve encurtam o primeiro desabafo dele na versão sonora. “Les premiers mots qu’elle m’a dit…”. As primeiras palavras que ela me disse foram a primeira martelada.

vlcsnap-1884432.jpg

vlcsnap-1882160.jpg

vlcsnap-1890399.jpg

vlcsnap-1891291.jpg

vlcsnap-1891689.jpg

vlcsnap-1892548.jpg

Retomamos a publicação da escrita de António da Silva Teixeira Electricidade com o último texto que faltava do Primeiro Caderno, quando foi a nossa interrupção técnica. É uma poesia, como diria Álvaro de Campos e não gostam de dizer os doutores. A assinatura de Electricidade variou desta vez para General Franco Portugal. Muitos dos que o conheciam da rua tratavam-no por “O General”.

universo250.jpg

Electricidade transformou um poema de Almeida Garrett do livro Folhas Caídas, quem sabe trazido de memória da escola, e fê-lo seu, mudando até o título, de “Saudades” para “Felicidades”, que depois riscou para pôr “Felecidades” (ver interessantíssimo artigo de Anna Beer, no Guardian Online, sobre a instrução da memória na escola renascentista inglesa, através da memorização metódica de poemas e imagens; já agora, veja-se também, da mesma autora, só porque tem interesse, num tempo de banalização da escrita, “How the mainstream dilutes literature”).

3coversvertical250.jpg

A escolha que vamos ver aqui é uma lição de poesia, por ser uma lição de síntese, que, ao contrário do que muitos acham, é a primeira característica dessa arte, por maiores em extensão que sejam os textos. Os Lusíadas são extraordinariamente sintéticos, assim como o fado “Estranha forma de vida”. Ao contrário, certos poemas curtos que andam aí não têm síntese, têm só conversa. A “Saudades” faltava-lhe a síntese. Electricidade arrancou o coração melancólico do poema e cuidou-o ao ritmo do seu dizer de natural de Nogueiró, concelho de Braga.
Livrou o original de Garrett, que queria ser campestre e tradicional, da canga literária que ainda lhe punha peso.
Curto, o poema ficou mais intacto, mais triste, porque mais declarativo, menos enrolado sobre si próprio. Na página Electricidade deste blogue estará o poema inteiro à maneira do novo autor. Aqui fica a versão de Electricidade com as estrofes de Garrett que foram rasuradas, para se ver como funcionou uma memória poética sobre a outra.
Como fez Mário de Sá-Carneiro, Electricidade também gostava de pôr em maiúsculas os termos com maior sentido simbólico ou emotivo.

selectedprose200.jpgthepoems200.jpg

As ilustrações são rascunhos a esferográfica das nossas aulas de Letras do tempo da primeira recolha dos textos de Electricidade, anos oitenta. Miniaturas das edições internacionais de Electricidade: Penguin Classics, Oxford Paperbacks, etc. Edições dos textos, uma tese académica, e um guia de Lisboa, com as torres das Amoreiras na capa. Cartoon da mesma série.

 

Saudades (Felicidades) FELECIDADES

 

Leva este Ramo, Pepita,
De Saudades Portuguezas:
É flor nossa, e tão Bonita
Não na Há noutras devezas

Seu perfume não seduz
não tem variado matiz,
vive à sombra, foge à luz,
as glórias d’amor não diz;

mas na modesta beleza
de sua melodia
é tão suave tristeza,
inspira tal simpatia!…

E tem um Dóte esta flor
que de outro igual se não diz:
Não Perde Viço ou frescôr
Quando a Tiram da Raiz

Antes mais e mais floresce
com tudo o que as outras mata;
até às vezes mais cresce
na terra que é mais ingrata.

Só tem um Cruel Senão
Que te não devo Esconder:
Plantada no Coração
Toda outra flor faz Morrer.

E, se o quebra e despedaça
com as raízes mofinas,
mais ela tem brilho e graça,
é como a flor das ruínas. Não,

Pepita, Não Ta dou
Não te dou esta flor
Que eu Sei que Me Custou
Tratá-la Com Tanto Amor

General Franco Portugal

Alguém Aqui Se Chama Bingo?

Fevereiro 21, 2008

 

bingo.jpg

 

No seguimento do nosso louvor a Ryan Larkin e ao filme de Chris Landreth que por sua vez o louvava, deixamos aqui a referência a outro filme de Landreth disponível na feira popular digital: Bingo, inspirado num jogo teatral.

Na página Youtube, seguem-se os testemunhos pessoais de resposta ao vídeo. Uma reacção típica da maré popular anglo-saxónica a um objecto artístico tem a ver com a necessidade de “entender” qualquer que seja o objecto, de saber a todo o custo “qual é o significado”, um significado cortado à medida de quem pergunta, claro.

O maior bem para o maior número“: a fé puritana, moldada pela certeza utilitarista, penetrou o quotidiano do idioma e habituou muitos a um tipo de angústia básica, mas não menos impaciente de revelação; mesmo sem fé nem filosofia – e sem ortografia – sempre a mesma urgência:

okay can someone explain what this video is supposed to meen??

Se a pergunta visse o seu medo ao espelho via a resposta.

 

(outra das versões disponíveis do filme inclui um pequeno excerto da cena com actores de carne e osso)

Decomposição Controlada

Fevereiro 18, 2008

Houve uma geração que brincou na rua e viu, ou podia ter visto, o melhor do cinema de animação, na tv pública, à mesma hora a que os que agora crescem vêem gente excipiente e hidrogenada a louvar o veneno bacteriano diluído que injecta nas rugas de expressão.

Há um humor especial em chamar-se rejuvenescimento a uma decomposição controlada.

Na procura quase falhada por um filme de que tínhamos saudades recentes, achámos um filme de ainda mais longa espera. História da nossa vida. Um mal por uma coisa leva a um conforto por outra, um erro leva ao único caminho para um acerto.

O primeiro filme desejado era Ce Que Je Vous Dois (“O Que Eu Vos Devo”), curta-metragem de Olivier Bouffard, com o actor Michael Lonsdale como um velho que vive num apartamento privado de um lar. A cena da teimosia da mão que treme contra a velha Philishave último modelo tem o melhor tempo real que se poderia arranjar.

 

10599.jpg

 

Não se contam filmes. Não se entra a pé e a falar no comboio-fantasma. Tem de ser rápido e nos carris, para poupar no que Coleridge chamou a “suspensão da descrença”. (“Deixei de gostar de filmes quando comecei a fazê-los” – Orson Welles).

Esta curta-metragem foi uma das perdas da nossa catástrofe informática, mas vai ser transmitida na TV5 Monde no dia 25/2, às 3.25h. Quem puder, não se arrependerá de mandar alguma máquina gravá-la, ou de vê-la ao fim do serão. (Bouffard, curiosamente, foi assistente de realização do filme mais recente de Manoel de Oliveira, Cristóvão Colombo – O Enigma).

Graças ao nosso estimado blogue Wood S Lot, voltámos a encontrar-nos com o outro filme muito procurado, dedicado ao desenhador e animador Ryan Larkin. Fizemos uma colecção no Youtube de várias peças que documentam o trabalho e a pessoa do artista morto em Fevereiro, há um ano. Ryan Larkin fez todo o caminho, desde a cerimónia dos Óscares ao peditório de rua.

O filme Ryan, de Chris Landreth, regista o encontro do cineasta com o seu mentor, no cenário de uma cantina social onde as chagas interiores e as exteriores de ambos transparecem à vista desarmada.

A cópia disponível não tem a definição ideal, mas nada que impeça o choque estético. (Ainda assim, visto online, em corrente, o filme tem menor qualidade do que gravado e lido num leitor interno. Recebeu há uns anos o boneco dourado para a melhor animação e foi apoiado pelo mesmo National Film Board of Canada que tinha acolhido o “creative meaningful stuff” de Ryan Larkin, nas palavras de Landreth).

ver o filme Ryan

vlcsnap-895025.jpgvlcsnap-895871.jpg

A mesma cantina social surge de relance no curtíssimo documentário Ryan after Ryan by Gibran Ramos, onde têm voz Chris Landreth e o próprio Ryan Larkin.

Na mesma avenida Youtube acha-se o noticiário em género “dinâmico” sobre a morte de Ryan, da CBC News. Ryan é tratado como “both talented and troubled”.

Ficam aqui os caminhos para três dos filmes de Ryan Larkin disponíveis no canal aberto: Syrinx, Walking, e Street Musique.

Olhem Para a Cena

Fevereiro 15, 2008

O regresso à normalidade da máquina que nos comanda foi mais complicado do que se esperava. «Vamos fazer figas», dizia-nos um técnico. «Felizmente você tem intuição para estas coisas». Figas, intuição, e alguma compatibilidade entre drivers e sistema, três aspectos essenciais para uma boa estabilidade informática.

Esta saga técnica meio artesanal fez lembrar um livro querido dos tempos da longa antecipação do ano maravilhoso de 2000. Muitos anos depois da publicação, já amarelados, ainda se vendiam os volumes da colecção Emílio Salgari, com as páginas por separar (para garantir a novidade e limpeza), edição Romano Torres.

maravilhasdoano2000-200.jpg

A aventura do nº 32 da colecção não se passava na Índia ou nos confins do Oriente, mas antes no futuro. Os heróis induzem-se um sono de cem anos, graças a um elixir de flor de lótus, velho segredo egípcio. Acordam num mundo acelerado, cheio de electricidade no ar, que acabará por fazê-los definhar e morrer. Entretanto, correm esse lugar de caos misturado de conforto.

Folheando o livro seco e roído do peixinho de prata, encontramos uma descrição da televisão (com som canalizado), e de um estado de coisas brutal, estranho fruto de uma imaginação delirante:

O doutor ouvira, com um assombro fácil de adivinhar, aquela voz que anunciava espantoso desastre. Levantou rapidamente a roupa, pois lhe pareceu que a voz se fizera ouvir precisamente dentro da cabeceira da cama. Deu com uma espécie de tubo, em cuja borda estava escrito: “Assina-se no World”.
- Uma maravilha do ano dois mil – exclamou – Os jornais comunicavam directamente a notícia para casa dos assinantes. Teriam sido suprimidos o papel e as máquinas de imprimir? Nos nossos tempos ainda não se conheciam estas comodidades. Como o mundo tem progredido!
Estava para chamar o amigo, que não se decidia a abrir os olhos, quando ouviu sair do tubo outro aviso: “Olhem para a cena”.
No mesmo instante viu iluminar-se grande quadro suspenso na parede que ficava defronte do leito, no qual se desenrolou horrível cena de uma veracidade extraordinária.
Via-se uma rua cheia de homens, que atacavam diversos prédios à bomba, fugindo depois em debandada. As paredes desmoronavam-se, os telhados abatiam; homens, mulheres e crianças precipitavam-se para a rua, enquanto compridas línguas de fogo se erguiam sobre aquela amálgama de destroços, tingindo todo o quadro de vermelho…

Há também uma antevisão do e-mail, que, como se sabe, é uma coisa muito simples.

- Aí chega a minha correspondência – disse Holker, levantando-se.
- Outra maravilha! – exclamaram Toby e Brandok, levantando-se também.
- É uma coisa muito simples – respondeu Holker – Olhem, meus amigos.
Premiu um botão na parte inferior de um quadro que representava uma batalha naval. O quadro desapareceu, subindo dentro de duas ranhuras, deixando à vista um vão de meio metro quadrado. Dentro estava um cilindro de metal, de sessenta ou setenta centímetros, com uma circunferência de trinta ou quarenta, coberto de números pintados a preto.
- O meu número de assinatura postal é o mil novecentos e oitenta e sete – elucidou Holker – Ei-lo aqui, e as minhas cartas estão metidas num pequeno compartimento.
Carregou no número, abriu-se uma portinha e tirou a correspondência; depois fez descer o quadro, e premiu outro botão.
- O cilindro já partiu – disse – Vai distribuir a correspondência pelos inquilinos do prédio.

A Wikipédia em inglês (em português há pouco mais que o retrato) dá conta da grande popularidade de Salgari em Portugal e nos países hispânicos. Nunca conseguiu gerir os ganhos de milhões de livros vendidos. Pôs fim à miséria em 1911. Entre os pequenos adeptos da sua fantasia contam-se Sergio Leone, Fellini, Borges, Neruda e Che Guevara.

Recuperação do Sistema

Fevereiro 9, 2008

Regressou da sua estada espanhola o nosso computador, com novo fígado gráfico, mas com problemas de rejeição do órgão. Por isso temos tido algum abrandamento e irregularidade.

Durante os testes do canal vídeo-tv, assistimos a uma escritora da televisão a louvar Vieira com uma desenvoltura wikipédica, falando do tempo em que estivemos “sobre” o domínio espanhol, talvez como esteve Jesus sobre o domínio das águas.

Vimos algo mais interessante, no programa de conversa e ideias da TV5-Monde, Esprits Libres, tutelado por Guillaume Durand, com os convidados Juliette Binoche e Dominique de Villepin, agora como escritor, com um olhar para o cargo de primeiro-ministro francês até Maio de 2007.

Ele justifica o seu percurso político com aquela esgrima francesa nórdica, patati-patata tout parfait, impecável desde a frase ao casaco de veludo cobre e camisa branca radiante. Ela ouve. Finalmente diz-lhe que o achou rígido como primeiro-ministro. Ele diplomatiza mais um pouco. Diz que compreendeu muito, que hoje não faria igual. Ela pergunta-lhe o que ganhou, mas pessoalmente, com esse entendimento. Ele não responde, com mais polimento verbal. Não sabe falar de si.

O anfitrião pergunta a Juliette se nunca sentiu o apetite da política. Ela sorri.

“Non. Je pense que l’art va changer le monde”.

binoche.jpg

 

site TV5 Monde,
com apresentações de cinema da semana,
curtas-metragens sortidas (a cada ligação), etc.

Quatrocentas velas

Fevereiro 6, 2008

 

António Vieira, 400 anos, 1608-1697.

 

do Discurso de Roma,
feito a convite da Rainha Cristina da Suécia, 1674.

 

Se o mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri, como Demócrito, ou quem chora, como chorava Heraclito, eu pretendo defender a parte do pranto.

Confesso que a primeira propriedade do riso é o risível; e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional; o pranto é o uso da razão. Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há-de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece. [...]

300px-blake12.jpg

A mim, senhores, me parece que Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heraclito ambos choravam, cada um a seu modo. [...]

Há chorar de lágrimas, chorar sem lágrimas e ainda chorar com riso. Chorar com lágrimas é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; e chorar com riso é sinal de dor suprema e excessiva. A dor moderada solta as lágrimas, a grande dor as enxuga e as seca. [...]

Se a excessiva alegria é causa de pranto, a excessiva tristeza não será causa de riso? Na guerra morrem muitos soldados rindo e a razão é, diz Aristóteles, porque são feridos no diafragma. Não se ria Demócrito, como contente, ria como ferido. Os olhos poderão queixar-se desta minha filosofia mas, acho eu, sem razão, pois o pranto vem da dor provocada pelo batimento nas mãos e, se se reflectir, vê-se que os olhos não são necessários à capacidade de falar. E se choram as mãos por que não há-de a boca chorar? Heraclito chorava com os olhos; Demócrito chorava com a boca; o pranto dos olhos é mais fino; o da boca mais mordaz.

Demócrito ria porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heraclito chorava porque todas lhe pareciam misérias; logo, tinha mais razão Heraclito para chorar do que Demócrito para rir, porque neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias e não há ignorância que não seja miséria.

E como nem todas as misérias são ignorâncias e todas as ignorâncias são misérias, razão tinha Heraclito de chorar que Demócrito de rir, antes digo, que só Heraclito tinha toda a razão e Demócrito nenhuma.

 

ilustração: “Um Negro Pendurado Vivo pelas Costelas numa Forca” (A Negro Hung Alive by the Ribs to a Gallows), desenho de William Blake para o livro de J. G. Steadman, Narrative of a Five Year Expedition Against the Revolted Negroes of Surinam (1796).

 

callgirl_fotodramapessoal_blogue.jpg
Call Girl”, foto dramapessoal

 

Quando a conheci
interessava-me
pela guerra,
suplantavam-me nos torneios
se me distraía
com decotes ou cismas,
entre amigos espalhava
dobrões nos bordéis,
a cidade era doce nas fontes,
pórticos saravam travessias.
Ela degolou tudo,
honrei-lhe o corpo
cravando tão fundo quanto pude
os pregos da paixão,
entrelacei espinhos do amor
numa coroa real,
e no escudo
mandei pintar insígnias
da casa a que pertence.
Mas traiu-me
e matei-a.

 

poema de Fátima Maldonado,
de Painéis de Vigilância.

in Cadeias de Transmissão (antologia da obra completa), ed. Frenesi, 1999.

fotografia: pormenor de montra (ou escaparate ou vitrina) de loja de Lisboa

Dois Retratos

Fevereiro 1, 2008

 

dmanuel04_350.jpg

 

Na figura, postal ilustrado do Rei D. Manuel II, O Patriota (ou O Desventurado, entre outros títulos), último rei de Portugal, deposto pelo golpe de estado republicano de 5 de Outubro de 1910. Tinha então 20 anos. Chegou a conceder uma amnistia geral que devolveu liberdades plenas aos implicados no assassinato, a 1 de Fevereiro de 1908, do pai, D. Carlos I, e do irmão, D. Luís Filipe.

O selo, que também representa o rei, com sobrecarga a vermelho do título do novo regime, circulou até 1913.

À vista estão três pancadas de carimbo: uma sobre o rosto do rei, outra sobre a coroa do escudo nacional, e outra sobre o selo reclassificado.

Entre os heróis panfletistas da república, mais tarde fundador da revista Seara Nova, a sempre louvada, esteve Luís da Câmara Reis, ou Câmara Reys. Um débil artigo da Wikipédia, que aparenta ter sido escrito em 1910, dá-o como “corajoso e persistente lutador pela causa democrática”.

Câmara Reys publicou e assinou Vida Política, uma série de fascículos políticos, de que temos uma pequena colecção. Guardamos aqui um recorte do nº 5, de 1911, com um breve aparte dedicado ao rei D. Manuel:

Por quem se batiam esses homens? Que figura ilustre simbolizava, para eles, a velha monarquia das tradições aventurosas?
Não vale a pena traçar minuciosamente, aqui, o perfil do pobre D. Manuel, beato e medroso rei cercado por uma camarilha duvidosa de jesuítas e fidalgos imbecis ou interesseiros, ansiando nas horas de perigo pela intervenção das potências, criado entre ladainhas e padre-nossos, fanhoso e maricas como um petiz sempre agarrado às saias da mamã, espécie de choramingas apaparicado e pateta que, à força de acanhamento intelectual e de toleima, fez esquecer o seu infortúnio apavorador de rei aclamado entre os gritos e as lágrimas de uma sangrenta tragédia familiar.

postal via site filatélico Inteiros Postais de Portugal