Todos Terão o Seu Fim
Março 28, 2008
Viemos de ver De Man Zijn Haar Koort Liet Knippen (”O Homem da Cabeça Rapada”), de André Delvaux, no princípio do mês, com a ideia de escrever aqui sobre o filme, mas não o fizemos. O comentador da folha da Cinemateca tinha optado pelo mesmo. Algumas referências cinéfilas evocadas em círculo, pouco mais.

A folha de sala gastava o nome de Murnau, mas não lembrava forças estritamente visuais como a pintura de James Ensor, ou, na continuação, Blue Velvet de David Lynch, com os seus insectos a marulharem na terra e a sua orelha cortada em cima de um tabuleiro de aço.
O Homem da Cabeça Rapada costuma ser tratado como um drama psicológico, a história de qualquer coisa a que chamam desagregação, por exemplo. Mas depois a desagregação é contada de uma forma tão linear e articulada que qualquer um terá medo de sofrê-la também, a caminho do Minipreço, sem poder regressar à vida vulgar.
Na festa de fim de curso de um liceu, depois de uma sessão solene cadavérica, uma finalista canta “A canção da vida verdadeira”. Um homem torturado de ansiedade olha-a dos bastidores. É um dos mestres. Um pouco antes, o barbeiro tinha-lhe tesourado o cabelo, vaporizado, secado a vento, e massajado o crânio com a ajuda de uma maquineta eléctrica.
A sensação, depois da massagem, tinha dito o barbeiro, ia ser gloriosa.
O filme leva-nos depois por um caminho cinzento e lento que Tarantino ensinou às massas com Pulp Fiction, mas com música que bate no estômago e personagens em delírio retórico, a saber: que em cinema é menos a sequência que narra do que o ponto de vista. Vemos por outros olhos, ou de onde mais ninguém vê, e vemos o que não veríamos, e quando não seria de ver. E movemo-nos no tempo como no espaço, à margem dos factos.
Já ninguém se lembra, porque já toda a gente cresceu, ou esqueceu, mas saíam muitos do filme de Tarantino a usar o tal verbo: não tinham percebido nada. Não tinham percebido “a ordem das cenas”. O que não tinham percebido é maquinal: do ponto de vista de quem é que tinham visto a história, contada mais que uma vez.
O truque é tão velho como os romances epistolares, em que cada cortesão vê pelo seu prisma a mentira e a verdade dos outros, e as suas.
Mais perto do cinema, aquele é um truque convencional da literatura pulp, mas também da narrativa épica-jornalística de um Norman Mailer, que, em The Executioner’s Song (“A Canção do Carrasco”), molda o discurso sempre económico e apontado do narrador à personagem mais influente de cada um dos muitos capítulos, ao seu modo de ver e modo de dizer. Mas o que tem sido prático em literatura parece ser um problema para as massas de uma arte ao mesmo tempo demasiado nova e vulgarizada, que, segundo alguns, Godard, Lynch ou Sokurov, ainda nem sequer achou a linguagem própria.

Voltámos do último filme dos Coen, No Country For Old Men, a pensar nos maus tratos que uma obra visual pode sofrer, entregue a quem já não se emociona com imagens. “Não percebi o final”, foi a primeira coisa que uma fulana espectadora ao nosso lado disse (tinha entrado no filme a mandar um sms). Decidimos não passar o nosso entusiasmo pelo filme para este blogue depois de termos reparado que, no Google, havia 7.620.000 textos que se intitulavam «críticas (reviews)» do filme, e 5.010.000 dedicados ao tema do «final (ending)». Dizia um site semi-profissional:
With the increased scrutiny which comes with the honor [Oscar], No Country… can be questioned for its lack of a discernible message and indecisive ending.
Não vamos especular também aqui. Ficámos a saber que muitos já não entendem o que é um epílogo, não sabem que uma história pode acabar antes das últimas cenas. E que muitos não estão prontos para um romance, e bastam-lhes histórias exemplares (“discernible message“), para usar velhos termos da literatura. É o mundo, afinal, daquela apresentadora de notícias que questionava o prémio Grammy entregue a Amy Winehouse: «Não sei se é este o exemplo que queremos dar com a música». Que música é que tu tocas, Lady-laca? Dá-me o teu exemplo.
A personagem de Javier Bardem, um assassino com um gosto por uma máquina de matar gado e feroz crítico social (ah, a cena da loja do posto de gasolina) já disse tudo, na resposta que tem para quando lhe pedem misericórdia: «Você não precisa de fazer isto».
«Mas porque é que dizem todos a mesma coisa?»
O melhor comentário que temos a deixar a No Country For Old Men é um poema com a mesma arte de lembrar sucessivos guerreiros e seus feitos, entre justos e vilões. De Bertolt Brecht. O poema lembra a montagem do filme, quando um golpe de surpresa banal conclui um duelo, ou, ao virar da esquina, uma personagem que chamava o nosso afecto já caiu de vez.

PLACA COMEMORATIVA PARA 9 CAMPEÕES DO MUNDO
Aqui vai a história dos campeões do mundo de pesos médios
Dos seus combates das suas carreiras
Desde 1884
Até aos nossos dias.Começo a série pelo ano de 1884
Quando os combates iam além de 50 ou 70 rounds
E só acabavam com o K.O.
E por Jack Dempsey
Vencedor de Georges Fulljames
O maior boxeur dos tempos do boxe bruto
Vencido porBob Fitzimmons, pai do boxe técnico
Detentor do título mundial de pesos médios
E de pesos pesados
Graças à sua vitória de 17.3.1897 sobre Jim Corbet.
34 anos de ring e apenas 6 derrotas.
Bob foi tão temido que em todo o ano de 1889
Não houve adversário para ele. Só em 1914,
Com 51 anos feitos, travou
Os dois últimos combates.
Um homem sem idade.
Em 1905, Bob Fitzimmons perdeu o título para
Jack O’brien, dito Philadelphia Jack.
Jack O’brien começou a carreira
Aos 18 anos
Disputou mais de 200 combates.
Nunca
Philadelphia Jack se preocupou com o dinheiro
Partia do princípio
Que é no ring que se aprende
E enquanto aprendeu sempre venceu.
A sua derrota com o peso pesado Tommy Burns,
Jack O’brien, já a caminho da sua velhice, dizia-a
A luta da sua vida.
E na verdade os seus combates posteriores
Não tiveram qualquer importância.A Jack O’brien sucedeu
Stanley Ketchel
Célebre por 4 verdadeiras batalhas
Que travou com Billie Papke
E por ser o mais bruto boxeur de todos os tempos.
Foi abatido pelas costas aos 23 anos
Num sorridente dia de Outono
Quando estava sentado diante da sua quinta
Invicto.Continuo o meu relatório com
Billie Papke
Primeiro génio do infighting.
O maior combate de Billie
Foi a famosa desforra contra Stanley Ketchel
- O combate dos combates.
Ouviu-se então pela primeira vez a expressão:
Máquina humana de boxe.
Como uma máquina
O bruto Ketchel socou Billie
Até lhe fazer sair o coração do peito.
Mas nesse dia Billie foi grande,
Classe fora de série: imbatível.
Mal se tendo nas pernas
Pôs a K.O. Ketchel, o dos punhos de ferro.
Esta grande vitória abalou no entanto o coração do grande Billie.
Ainda conseguiu liquidar Hugo Kelly
Ao primeiro round.
Tal como o furação que sobre os campos cai
Caiu Billie sobre Kelly.
Mas no último combate contra Ketchel
O rei dos pesos médios acabou com
O que ainda restava do grande coração de outrora.
E num combate com Frank Klaus
Em Paris, em 1913,
Foi batido
Por um maior do que ele na arte do infighting.
Klaus manteve sempre Billie colado às cordas
Depois Billie desafiou-o
A bater-se como um homem.
Ao 15º round era um homem
Vencido.Frank Klaus, seu sucessor, travou combates com
Os maiores pesos médios do seu tempo:
Jim Gardener, Billie Berger,
Willie Lewis,
Jack Dillon, e
Georges Carpentier que, ao lado dele, se mostrava fraco como um menino.
Frank Klaus era mestre no combate de perto, corpo a corpo,
Sabia pôr todo o peso nos golpes.Bateu-o
George Chip
Que fora disso nunca conseguiu fazer nada de notável
E foi batido porAl Mac Coy
O pior dos campeões dos pesos médios
- Só sabia apanhar.
Finalmente, em 1917,
Mike O’Dowd mandou para o tapete
Esse crânio de ferro
E arrancou-lhe o título.
in Poemas, Bertolt Brecht, Editorial Presença,
trad. Arnaldo Saraiva e Sylvie Deswarte
O Menino tem de Estudar
Março 25, 2008
Quanto ao meu estilo, foi a censura que o apurou. Algumas novelas vinham com tantos cortes que apenas restava a letra dos títulos. Ensinaram-me a insinuar, a sugerir mais que a mostrar.

O nosso trabalho actual levou-nos a esta imagem. A fotografia da fotonovela (como a cinematografia da telenovela) raramente alcança a agilidade da composição acima, e, quando a alcança, desperdiça-a imediatamente.
Mas veja-se como aparece ondulada aquela que convida, e ondula ligeiramente aquele que recusa; este, embora arrojadamente capaz de contemplar a possibilidade, dá-lhe o devido nome de acordo com a Doutrina.
Ele fixa o olhar na tentadora, exactamente na mesma linha do olhar do amigo folião, enquanto indica com as mãos um objectivo mais conciso do que o que o leque aberto das mãos dela promete: os livros, o estudo, diz ele, de mãos vazias, desenhando um apertado limite. O amigo folião tem um copo e uma garrafa nas mãos, e pára. A alegria de viver suspende-se, quando se fala em estudo.
A tentadora diz: posso tocar-te e fumar com a mão toda atirada para a frente, ou seja, posso fazer o que me apetece e mostrá-lo. Quero mostrar-te coisas. Sou como um livro que não depende da tua vontade.
Ela agarra-o, roubando-lhe o ónus mediterrânico da iniciativa masculina. Mas agarra-o porque ele disse que só queria estudar. De outro modo, se ele fosse um homem normal, sem ideias de futuro, o gesto teria sido inteiramente obsceno.
No seu canto, a amiga foliona pára também, cigarro meio fora do maço. O prazer também parou por ali. Dela, temos um rosto de admiração, de escândalo, e um par de pernas cruzadas. Não lhe falta mais nada para ser aquela que vai sucumbir aos encantos do renitente.

Um dos interditos, ou sugestões, desta novela em particular, é a intimidade que a foliona que vai acabar seduzida tem com o velho amigo folião. Têm manifestamente um passado, e um presente de impaciências e ironias, como dois que precisam de punir o desejo mútuo. Mas tudo se esconde num mal-entendido sentimental: David, o estudante, acha que o amigo folião, Jaime, ama a jovem mal-disposta, sem ser correspondido. Porém, são apenas bons amigos. De acordo com um cliché francês mais recente, seriam amigos que tinham apenas sexo. O cliché americano torná-los-ia antigos namorados da faculdade. Veja-se como ela o olha. Fotógrafo e actriz sabem mais.

Perdes o teu tempo, rapaz.

Lamento, rapazes.

O menino tem de estudar, homem.

Uns meses depois, a tentadora, obviamente, já tem par para a festa. Os dois desencontrados apoiam-se no carro, um invejável Simca Barreiros, convite à aventura. Ele pronto para explicar. Ela pronta para ir. Pela pose, ele já parece capaz de mais do que apenas estudar. Todavia, as meias dela concebem um mundo mais vasto do que as meias dele.

Vamos, meu amante mais que habitual. O teu amigo dá-me ganas de perverter a nossa rotina.

Estou a olhar para Jaime, mas o adeus é para ti. Não existe, essa fotografia, para não ser demasiado evidente que foi neste momento que vos troquei, à vista de ambos. Seria um gráfico demasiado obsceno. Ia parecer demasiado natural. As legendas baralharam-se. A cena é demasiado densa. Quem diz a quem a legenda de cima? De quem, e para quem são o nada perdes, e o adeus?

O farol do Simca vê mais longe.
Epitáfio (Frei Agostinho da Cruz)
Março 23, 2008

Aqui, debaixo desta terra dura,
Um corpo se converte em terra fria
Da mais suave e branda criatura
De quantas me mostrou a luz do dia.
Bem claro se viu nele a fermosura
De alma, que para o Céu sempre subia,
Sem nunca, na tormenta ou na bonança,
Faltar à paciência ou temperança.
“Não fugir…” (Cristovam Pavia)
Março 21, 2008
Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim todo despojado, ser
Abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.

Que Cem Flores Desabrochem
Março 20, 2008
Não temos qualquer estima pelo assassino de massas. Mas um dos amigos originais que temos juntado decidiu oferecer-nos o icónico Livro Vermelho de Mao Tsetung pelo Natal.
Duas passagens escolhidas do Livro são tudo o mais que temos a dizer a respeito do assunto educativo local, bastante aquém do que Mao vislumbrou em 1957.

A política de “Que cem flores desabrochem” e “Que cem escolas rivalizem” é a política para estimular o progresso da arte e da ciência e o florescimento da cultura socialista no nosso país. Na arte, podem desenvolver-se distintas formas e estilos; na ciência, diferentes escolas podem rivalizar livremente. Julgamos que a imposição, por medidas administrativas, de um só estilo e de uma só escola, e a proibição de outros estilos ou escolas, dificultam o progresso da arte e da ciência. O problema do correcto e do errado na arte e na ciência deve resolver-se pela livre discussão nos meios artísticos e científicos e durante a prática da arte e da ciência. Esse problema não deve ser resolvido por métodos simplistas.
in “Sobre a Justa Solução das Contradições no Seio do Povo”
(27 de fevereiro de 1957).
Tropas sem cultura são tropas ignorantes e tropas assim não podem vencer o inimigo.
in “Frente Única no Trabalho Cultural”
(30 de Outubro de 1944, Obras Escolhidas, Tomo III).
Reproduções de duas serigrafias da série “Mao”, de Andy Warhol.
Para outros assuntos:
Embaixador Ma Enhan
1200-756 LISBOA
Tel: 213 928 440
Fax: 213 928 431
site: http://pt.chineseembassy.org/pot/
e-mail: chinaemb_pt@mail.mfa.gov.cn
chinaemb_pt@mfa.gov.cn
Porque não Escrevi sobre Oito Peças que Vi
Março 18, 2008

James Ensor, “Au Conservatoire”, 1902
Este blogue tem um subtítulo: declara-se almanaque de coisas teatrais e totais. No entanto, tem sido discreto em relação à coisa do teatro. Nas coisas totais, faz-se o que se pode.
Muitos já não sabem o que é um almanaque. Para nós, a palavra tem a ver com um baú onde foram cair os restos da biblioteca de um avô cientista e engenheiro industrial amador. Tem a ver com um molho descosido de folhas de papel vulgaríssimo, já sem muitas folhas e sem capas.
Um almanaque francês de 1942, que agora só temos na memória. Entre fases da lua, marés, curiosidades planetárias e históricas, havia um plano do loteamento dos jardins de Paris, dividido por bairros, para os cidadãos organizarem as suas hortas de emergência com os vizinhos.
Havia um pedido público aos parisienses para não comerem os gatos, com uma ameaça de doenças graves por causa da rataria. Era um manual da redução da vida ao mais valioso: água, abrigos, hortas, preços do pão, refeições, males do corpo, ferramentas e engenhos úteis.
Alguns pensamentos (curtos) e casos da vida; rimas filosóficas ou práticas (o que vai dar ao mesmo, em guerra). Sim, também alguma coisa disso.
É neste campo das ferramentas básicas e do cuidar dos corpos que o teatro faz sentido que se faça. E os que o fazem, hão-de ter algum sentido de sobrevivência. O mesmo sentido de sobrevivência e de procura de alguma espécie de pão que hão-de ter os que estão para ver o que se faz.
Isto não são metáforas. Quando faltar a electricidade, ninguém vai ao cinema nem vai mexer no blu-ray à procura da ficção mais carnal. Ficam os actores como ficam os ratos. Os críticos que vão para as hortas, se quiserem.
Era aqui que íamos escrever sobre a razão por que não escrevemos sobre oito peças que vimos desde o Natal, sendo este um blogue sem fins lucrativos com interesse pelo teatro. Não há razão para não o termos feito, se falta tanto testemunho do que por cá vai sendo vivido em cena, e se lá estivemos.
Porém, em arte trabalha-se melhor a muito longo prazo, ou sem ele, e podemos sempre escrever sobre o que vimos, escrevendo desse terraço sobre outra coisa ainda. E, como diz o Outro, essa coisa é que é linda.
O Sol da Tarde (Konstandinos Kavafis)
Março 16, 2008
Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.Ah este quarto, não é nada estranho.
Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.Estarão ainda os coitados nalgum lugar.
Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.… De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só… Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

Tradução do grego por
Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis
ver The Official Website of The Cavafy Archive
Em Poetry International Web:
Introdução aos Poemas, por W.H. Auden
“Pendulum’s Song”, ensaio de Joseph Brodsky
sobre Cavafy’s Alexandria, de Edmund Keeley
O dia do Sr. Benjamin Franklin
Março 14, 2008
Temos um encanto pelo quadro das obrigações diárias que Benjamin Franklin registou na sua Autobiografia.
Os conferencistas do rendimento laboral terão razão quando lembram que a má gestão do tempo é o maior criador de tensão interior (vulgo stress), ou quando avisam que o dia de trabalho não pode começar com a leitura do correio electrónico, por criar-se uma cascata de desvios. Mas poucos falam menos que a hora do mínimo cobrável.
Pouco pode comparar-se com o escorreito quadro de tarefas diárias que Benjamin Franklin fez para si próprio.

Retrato (pormenor), por
Joseph-Siffred Duplessis (1725-1802)
O quadro foi de certeza cumprido, ou este Pai Fundador não teria tido tempo para inventar o pára-raios, as lentes bifocais, o odómetro (ou conta-quilómetros, originalmente aplicado a um carro de cavalos da distribuição postal), ou a primeira biblioteca pública para empréstimo de livros.
A Franklin se deve a expressão “Lembrai-vos de que tempo é dinheiro”. Mas também “Três guardam segredo se dois deles morrerem”. A mesma seriedade bem disposta produziu ditados políticos que continuam a alimentar o debate:
Uma sociedade que abdique de alguma liberdade para ganhar alguma segurança não merece nem uma nem a outra e há-de perder ambas.
Foi ele quem apontou a cerveja como prova de que Deus nos ama e nos quer felizes, e foram dele conselhos de almanaque como “Um homem embrulhado em si mesmo faz um embrulho bem pequeno”, ou o que Bob Dylan escolheu como um dos motes do seu programa de rádio (de que humildemente falaremos):
In this world nothing is certain but death and taxes.
Afinal, e já que temos falado pouco de teatro, tudo isto serve para lembrar um princípio geral deste velho Quaker, que muitas vezes nos ocorre, mas a respeito da arte de representar:
Não confundas movimento com acção.
Eis o Quadro (transcrito da tabela original):
Que Bem farei eu hoje?
Hora 5ª à 8ª
Erguer-me, lavar-me, e saudar a Poderosa Bondade.
Fazer lista dos trabalhos para hoje e tomar a Resolução do Dia.
Prosseguir o Estudo presente.
E pequeno almoço.
Hora 8ª à 12ª
Trabalhar.
Hora 12ª à 2ª
Ler, ou verificar as minhas contas, e almoçar.
Hora 2ª à 6ª
Trabalhar.
Hora 6ª à 10ª
Pôr as Coisas nos seus Lugares, Ceia, Música, ou Diversão, ou Conversação, Exame do Dia.
Pergunta da Noite:
Que Bem fiz eu hoje?
Hora 10ª à 5ª
Dormir.
Quão Intoxicado?
Março 11, 2008
A empresa de captação e gestão dos interesses e património de dependentes psíquicos fundada pelo falsário e escritor de ficção científica mitómano L. Ron Hubbard fez-nos chegar às mãos um papelinho com um questionário elementar, destinado à auto-avaliação de fracturas existenciais.
Faça este teste e descubra - anunciam. As respostas serão em Sim/Não, para contagem e diagnóstico.
1. Ocasionalmente sente-se fatigado sem razão aparente? 2. Sente-se por vezes “preso” e sem vida?… etc.
Charles Baudelaire sentiu-se fatigado sem razão aparente, e escreveu As Flores do Mal. Franz Kafka sentiu-se “preso” e sem vida, e escreveu A Metamorfose. Cesário Verde, fatigado e preso, escreveu “O Sentimento Dum Ocidental”. A Cientologia tem para nos dar, em alternativa, um actor medíocre apologista de uma alegria à prova de bala.

“Quão Intoxicado está?” - perguntam. Pela nossa pontuação, estamos em estado de “poluição física”, cheios de toxinas que não nos deixam Pensar de Forma Clara. Precisamos de Purificação (ou de Purification Rundown, o nome de um processo com marca registada, tal como Pensar de Forma Clara/Think Clearly, ou Cientologia).
Purificação, com letras maiúsculas, ficamos a saber, é uma marca registada de Religious Technology Center.
A nós, ver Tom Cruise a “pensar de forma clara” só nos dá mais certeza de que a obscuridade é o caminho.
O questionário lembra-nos antes um importante texto de auto-ajuda da literatura portuguesa: o poema “Inquérito”, de Alberto Pimenta, incluído na antologia Metamorfoses do Vídeo, que nos foi calorosamente oferecida a meio de uma conversa entre autor e muito jovem leitor, na Feira do Livro de Lisboa de 1986, e a cujo abraço autógrafo voltamos a responder com esta homenagem. Segue excerto (o poema tem perguntas até ao número 13):
INQUÉRITO
1. que motivos supõe v.exa. levaram os progenitores de v.exa a gerar v.exa., isto é, os levaram ao coito em consequência do qual v.exa. foi gerado?
- a vontade de gerar v.exa.?
- o prazer sexual?
- cumprimento das obrigações conjugais?
- embriaguês de um, ou de ambos os progenitores de v.exa.?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
2. crê v.exa. que os progenitores de v.exa. tinham o declarado desejo de que v.exa. nascesse?
- sim
- não
em que fundamenta v.exa. a sua opinião? ………………………………………………………………
no caso afirmativo, supõe v.exa. corresponder à ideia que os progenitores de v.exa. faziam do descendente que esperavam?
- no sexo?
- aspecto físico?
- inteligência?
3. por sua vez, correspondem os progenitores de v.exa. àquilo que v.exa. acha desejável?
- nos títulos?
- rendimentos?
- carácter?
4. quais as primeiras dificuldades da vida de que v.exa. se lembra?
- obedecer, quando se tratava de defecar?
- obedecer, quando se tratava de não defecar?
- obedecer, quando se tratava de comer?
- obedecer, quando se tratava de falar?
- obedecer, quando se tratava de não comer?
- obedecer, quando se tratava de não falar?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
[...]
[No texto do poema, os separadores deveriam, idealmente, ser quadrados de preenchimento.]
Para saber-se mais sobre a Cientologia, o documentário da série Panorama da BBC está “temporariamente indisponível” em Google Video. Pode ver-se em Guba.com, ou Putfile.com.
Eles Se Pudessem
Março 9, 2008
Êles se
pudessem
eu nem água
beberia
27-12-91
Celebramos a retoma da publicação dos escritos de António da Silva Teixeira Electricidade na sua página própria com este recado íntimo, recolhido por nós numa folha solta, numa fase em que os textos já não eram abundantes, arrancados com os seus cartazes, lavados das paredes de pedra sem serem substituídos por novos.
Vamos agora publicar o Segundo Caderno, o maior, usado durante mais tempo. Agradecemos a todos os amigos que têm respondido com generosidade à experiência deste escritor de Lisboa. Vemos nele maior verdade que em muitos que querem dizer muito.
Mulher (Dois Retratos)
Março 8, 2008

Ela tinha maneiras algo inquietantes, como dizer, por exemplo, em certa ocasião: “Ontem à noite sentia-me num estado… o ar de Verão, as estrelas no céu… ah, ontem, qualquer um teria podido possuir-me. Mas ninguém estava lá.”
Histórias. Tudo para se fazer interessante. Nada há de verdadeiro em tais palavras. Sobretudo quando diz que ninguém estava lá.
Dois retratos desencontrados:
texto de Arthur Schnitzler, fotografia de Frida Kahlo por Nickolas Muray
Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher
Março 6, 2008

A maior parte das pessoas possui apenas uma imaginação fraca. O que não as fere directamente, enterrando-se-lhes como uma punhalada em pleno cérebro, não as chega a impressionar; porém, se diante dos seus olhos se produz qualquer coisa, mesmo de pouca importância, mas que esteja ao alcance da sua sensibilidade, imediatamente brota nelas uma paixão desmedida. Assim, com uma veemência imprópria e exagerada, essas pessoas compensam, de certo modo, o pouco interesse que têm pelos outros acontecimentos.
Segundo parágrafo de Vinte e Quatro Horas da Vida Duma Mulher, de Stefan Zweig, tradução de Alice Ogando.
máquina de escrever Adler 30, propriedade de Karina Jeppesen
