À Espera
Abril 30, 2008
O autor e tradutor especializado a tempo inteiro mas regime parcial com estatuto não reconhecido abusivamente taxado e subavaliado logo pelo Estado foi ver as duas belas intermitentes que estão a ensaiar o seu texto mais recente (levado à cena numa casa de banho verdadeira em ambiente dos anos 70) e que estão, graça de grupo, a trabalhar para ele.
À espera da boleia de uma delas, tirou algumas fotos à bomba de gasolina que finalmente acabou, no Jardim do Príncipe Real, a quarenta metros do largo e sempre cheiroso cedro centenário que João César Monteiro amava e Werner Schroeter também amou (deu-lhe uma cena do seu Deux-Duas).



Werner Schroeter em Senses of Cinema
Variedades e Actualidades
Abril 27, 2008

Preferimos a expressão “os nossos tempos” a “o nosso tempo”. Nunca houve um só tempo.
Em que tempo estão os espectadores de uma peça? De preferência, no da peça, ou, melhor, num tempo que a cena criou, sempre imaginário.
Assim são os tempos de cada um dos espectadores, todos diferentes. Uns oitocentistas, ou mais antigos, outros adiante do tempo presente, que é sempre um pouco recuado; uns mais coerentes nos seus tempos, outros mais misturados, conforme puxa cada área da sua experiência. Estão todos ali para estarem unidos na ficção de um só tempo.
As frases que começam com o truísmo “hoje em dia”, começam sempre com um abuso estatístico ou uma extrapolação que só vê uma das faces do presente.
A metáfora do telemóvel é prática, aqui: o aparelho da transição do século é manipulado por uma vasta maioria que nem sequer consegue imaginar como estarão presos os botões (quando os há) e como se produz o efeito de mola, contra a pressão do dedo, por exemplo. A miniaturização de circuitos garantiu um enorme poder comunicativo – embora nunca a comunicação – a qualquer um, que logo se acha no tempo do aparelho.
No entanto, o utilizador está, muitas vezes, num tempo do saber anterior ao tempo mental de Alessandro Volta, e da sua pilha de discos metálicos e tecido embebido em ácido, primeiro passo do caminho para o aparelho. Nas ideias e na imaginação o fosso pode ser ainda maior.

Quem é contemporâneo de Wittgenstein, ou do Shakespeare de King Lear? Nós aqui ainda vamos no longo caminho e muito aquém.
A melhor coisa que um jornalista parece conseguir dizer sobre uma peça de teatro é que é actual. Ora, o critério da actualidade é uma preocupação exclusivamente jornalística. Uma peça ou qualquer obra de arte não são matéria de relatório quotidiano.
Woody Allen lembrou um dia a distinção que o próprio Heródoto fez entre História e Poesia: A História é uma coisa que aconteceu uma vez e nunca mais acontece. A Poesia é uma coisa que nunca aconteceu mas está sempre a acontecer.
O jornalismo, quando vale, serve a primeira categoria. O teatro, quando vive, serve a segunda. Os jornalistas, que decidem duvidosamente sobre a actualidade de muitas notícias, e de muitas e redundantes não-notícias (com uma falsa actualidade de raiz comercial, ou outras), têm uma enorme ânsia em decidir com certeza a actualidade (ou seja, a relação directa com o presente jornalístico) do teatro e da arte em geral. E há no teatro quem acredite.
Sei Quem Ela É
Abril 25, 2008

Esta é a miniatura da composição de uma entrada do blogue Em Terra Molhada, de violeta13. Sabemos quem ela é, mas não podemos elogiá-la por quem ela é, porque a sua energia pseudónima merece ser cuidada.
Quem ela é no blogue é que interessa aqui, com imagens que são mais escrita do que isto. Eis uma personagem que nos desarma (e revista) e às nossas ansiedades ortográficas e estilísticas e teóricas de encartados em Letras.
Ela é uma personalidade artística inteira, e tudo nas suas maneiras de fazer nasce do seu bricolage pessoal. Até a regra é toda interior. Escreve como quer e sempre soube, e fotografa da mesma maneira.
Na sua área profissional, está entre aqueles que o louvor só não vê por estarem altos e não ao nível do nariz e dos ouvidos. Nos vários níveis de bloguismo artístico possível, este é o mais alto e raríssimo entre nós: o da arte propriamente dita.
e toda a série de retratos animados dos dias próximos
& seguintes
Para Quê o Bloco?
Abril 24, 2008
No dia em que soube que um actor de tv e cine tinha sido convidado para gravar um anúncio de telemóveis com um cachet 200 vezes superior ao que recebeu por uma peça original (e 200 vezes superior ao total do que então recebeu cada actor, o que nem lhe pareceu inteiramente justo, equivalente a 500 euros por mês de dois meses de cartaz), um autor pegou na máquina fotográfica e foi para a beira-Tejo guardar imagens do anoitecer (na direcção contrária ao pôr-do-sol, duzentas mil vezes mais profunda).
O poder de um anúncio de telemóvel é este: por números recentes, 96% por cento dos portugueses têm a televisão como o seu principal entretenimento. Quem berrou estes números (televisão incluída) esqueceu-se de contar quantos, de entre estes, têm a televisão como único entretenimento. Sabemos, por números um pouco anteriores, que são a grande massa.

E depois há o número das despesas em comunicação. Os portugueses gastavam, há três ou quatro anos, dez vezes mais em comunicação do que em despesas com a chamada «cultura», ou seja, aquilo a que preferimos chamar «saber, arte e espectáculos».
Tanta comunicação não pode ser apenas pragmática. Supõe a escolha de um entretenimento de escala familiar, embora à distância: a opção pela fantasia pessoal da parte de quem fala e escreve telegramas curtos, e pela fantasia de quem responde, em vez da fantasia produzida por profissionais treinados e artistas. Uma opção pelo amadorismo à escala colectiva, em círculo fechado, a mesma opção que a televisão já fez, e que a todos conforta: você na tevê.
Que comunicação é aquela? Muito como a de uma menina de Guimarães, que nos mandou um sms a pedir umas calças emprestadas. Ao fim de vários dias de mensagens, que obviamente nunca foram respondidas e abriam um coração, foi preciso comunicar-lhe que não voltasse a enviar para o número errado. Nunca falou com a amiga das calças, nem recebeu as calças, enquanto ia confiando no telégrafo portátil. Espelho meu.
Por coisas como isto, o autor de que falámos acabou por lembrar-se da visita que o encenador do seu trabalho recebeu de uma jornalista da rádio pública, que tinha precisado de escrever três perguntas num bloco:
O que é que pretendem transmitir com esta peça?
Que personagens tem esta peça?
A que público se dirige esta peça?
Este tipo de abordagem só lhe fez ocorrer uma pergunta: Para quê o bloco escrito?
Vida ou Morte (Carleton Watkins & Whitman)
Abril 22, 2008
Perguntas ao Meu Septuagésimo Ano
Vens vindo, chegando, curioso,
Tu, vago, espectro incerto – trazes vida ou morte contigo?
Força, fraqueza, cegueira, mais paralisia e mais pesada?
Ou céus plácidos e sol? Vens ainda agitar as águas?
Ou talvez parar-me de vez? Ou vens deixar-me aqui assim,
Teso, como um papagaio, e velho, com a voz seca a teimar,
a arranhar os is?

MemóriasComo são doces, os quietos regressos ao que ficou para trás!
As buscas como em sonhos – a meditação de tempos velhos
acordados – seus amores, alegrias, pessoas, viagens.
fotografia: Carleton Watkins, “Cape Horn, Columbia River”, 1867.
dois poemas de Walt Whitman, tradução Drama Pessoal.
Momento Político Sem Original
Abril 19, 2008
Rebentou, nos últimos dias, uma barragem de manobras verbais, respeitantes a um novo momento político. Os jornalistas vêem nisto variedade e animam-se. Uma frase ganhou destaque: “Pode ter aqui acontecido mais alguma coisa de que não sabemos”.
Uma coisa aqui sabemos: Em política, o passo vital não é o avanço. É o recuo.
Vem ao caso um texto de Almada Negreiros, um homem que antecipou o estudo destes momentos de verbo estratégico.
Em 1928, estavam ambos em Madrid, disse Lorca a Almada, depois de uma leitura de Deseja-se Mulher e S.O.S.: «Dou-te trinta anos para que te entendam». Pouco tempo depois, ainda em Madrid, Almada escreveria O Público em Cena, peça em um acto (1931). Passaram 77 anos e este texto continua à espera de acontecer.

A Conferência Nº1
Há um ano anunciei uma conferência e à hora marcada resolvi instintivamente adiá-la. Sem ter compreendido o meu instinto, obedeci-lhe contudo incondicionalmente. Adoro o meu instinto. Apenas hoje sei que a explicação era a de eu ir dizer a minha conferência com um ano de antecedência.
Peço desculpa.O dia da conferência
Hoje não estou nada bem disposto para dizer a conferência. Ontem sim, ou anteontem. Hoje não estou nos meus dias. Desculpem hoje não ser dos meus dias. Mas a conferência estava marcada para hoje, tem de ser hoje. Que pena não ter sido ontem, ou anteontem, ou talvez amanhã. Não! foi logo hoje que não é dos meus dias bons. Que raiva ainda não saber mandar na minha presença!
Peço desculpa.O original da conferência
Perdi o original da conferência. Vim para pedir desculpa de ter perdido o original.
Além desta conferência que perdi, tenho mais onze, já prontas, e que são a continuação da que perdi. Essas onze não perdi, mas não as trouxe porque só se compreendem depois de ouvido e acreditado o original que perdi.
Porém, tive uma ideia, que me parece que não é para desprezar. É a seguinte: Se é verdade que perdi o original, também é verdade que ainda não me esqueci do que eu ia dizer. Não me lembro da ordem das palavras, mas sei exactamente o que queriam dizer. Deus não consentiria que eu me esquecesse de coisas tão importantes.
Quando anunciei a conferência, antecipadamente ou não, não podia deixar de ser senão por uma coisa muito importante. Ainda não me esqueci. Só desejo que tenhais vindo também, como eu, por uma coisa muito importante. Nem doutro modo vos estimaria.
Para mim e para vocês, o mais importante é cada um de nós. Nem estamos aqui para outra coisa. É isto o que nos interessa – nós estarmos vivos.
Vamos espreitar para tantos vivos que houve antes de nós e para tantos outros que há em volta de nós, para aprendermos a estar vivos.
São estas, lembro-me muito bem, as palavras do original. Prometo não dizer senão palavras que façam lembrar o original que perdi.
Antes de começar, pressinto que tudo vai acontecer bem. Na verdade, nós somos belos números para multiplicar.
Temos aqui dentro desta sala tudo quanto nos é necessário – somos nós. Eu ajudo vocês e vocês ajudam-me a mim, na certeza de que cada um de nós há-de sair hoje daqui com novas coragens, ou com a coragem inteira. Vai ser igual a não ter perdido o original ou ainda melhor.
Ainda que algum de vocês tenha vindo hoje aqui por acaso, não faz mal nenhum, é isto que faz as pessoas – ter a certeza do acaso.[...]
pintura: James Ensor, “Les Cuisiniers Dangereux”, 1896.
texto: “A Conferência Nº1″, Diário de Lisboa, 9 de Julho de 1921.
in Almada Negreiros, Obras Completas, Vol III.-Artigos do Diário de Lisboa, INCM, 1988.
Três Postais da Pontinha
Abril 17, 2008

A casa do canto superior direito está à venda.

A casa do canto superior direito tem roupa de cor.

A casa do canto superior direito tem ar condicionado,
mas a do meio dispensa.
fotos Drama Pessoal
A Pintura Verdadeira do Erro
Abril 15, 2008
A pintura verdadeira do êrro é a pintura indirecta da verdade. A pintura verídica da verdade é a única verdadeira.
Existimos em relação com todos os pontos do universo, tal como com o futuro e com o passado. É só da direcção e da duração da nossa atenção observadora que depende a questão de sabermos que relação preferimos cultivar, que relação será para nós a mais importante e a mais activa.
Toda a descida em nós mesmos é simultâneamente uma ascensão, uma assumpção, uma vista do verdadeiro exterior.
O seio é o peito elevado à categoria de mistério: o peito moralisado.
A luz é símbolo e agente de pureza. Onde a luz não tem nada a fazer, nada a unir ou nada a separar, passa.
Tudo é naturalmente eterno. A mortalidade e a instabilidade são privilégio das naturezas superiores.
Os corpos são pensamentos precipitados e cristalizados no espaço.
Estamos sós com tudo aquilo que amamos.
fotografia: Katy Grannan (ver em Artnet)
texto: fragmentos de Novalis, traduzidos por Mário Cesariny
(ortografia do tradutor)por ordem:
“Dale, Pacifica”, 2006.
“Nicole, Sunnydale Avenue”, 2006.
“Angie”.
“Gail and Dale, Pacifica”, 2007.agradecimentos: Wood S Lot
O Blogue Branco
Abril 12, 2008
Muitos, mesmo que leiam, não identificam a leitura com acção. Não estava a fazer nada, estava a ler.
Ir a um sítio é fazer alguma coisa. Vamos a um sítio. Quem está num sítio está a fazer. Voltar de um sítio também é fazer. Até acabar de voltar de um sítio é fazer alguma coisa. O que é que estão a fazer? Acabámos de voltar daquele sítio. Havia imensa gente a voltar.
Muito do que é considerado fazer alguma coisa lembra os dois versos de Neil Young: It’s noisy at the fair, but all your friends are there. Está muito barulho na feira, mas estão lá todos, de qualquer maneira.
Ouvindo muitos que foram a sítios bem longe no mundo, parece que sentiram pouco enquanto lá estiveram. O viajante filtrou o lugar à escala das suas possibilidades, raramente interessantes. Nada passa. O viajante não teve de fazer o lugar. Não consegue refazê-lo, para que o vejamos. Não conseguiu ler, não conseguimos lê-lo.
Havia uma menina da Tv que ia a todo o lado. Estivesse nos Andes, em Pisa, no México ou nas banais ilhas tropicais cheias de bananais, tudo para ela era “fascinante”. O mesmo efeito de fascínio, comunicado com um discurso circular e uma expressão ocular rodopiante, teria sido conseguido com um painel de cenário, ou um efeito de ecrã azul. (Não andava muito por interiores, a narradora: monumentos, museus, etc).
A leitura pode trazer painéis de cenário sim, mas tantos e por vezes tão intrincados e activos que a viagem mental supera a viagem de quem, sem imaginação, se perde no cenário a que chama real. Não serve que o cenário seja real, se o viajante não o é.
A melhor forma de viajar é sentir, disse Fernando Pessoa, para quem, anos depois do regresso da África do Sul, muito jovem, uma viagem de comboio ao Carregado foi uma jornada imensa e deu, entre outras coisas, “O Comboio Descendente”. Lisboa, meu lar, disse. E nunca mais saiu. Viajou? Pois claro. E não gastou o que não tinha.
Esta divagação de sábado serve para saudar, e encaminhar alguns amigos para um dos melhores blogues que conhecemos, que, talvez por ser íntimo, não revelámos tão depressa. Chama-se “Spurious”, e tem um arranjo gráfico tão limpo que quase dispensa cabeçalho. Não tem cromos, como este blogue. Não precisa.

É o único blogue que invejamos. Não tem nada a ver com o tipo médio de blogues que podemos encontrar em língua portuguesa, estéreis, infantis, ou hipertensos por causa das actualidades, agitados e lentos, camaleões de todos os momentos.
Spurious é branco e linear, no justo sentido dos termos. A vida de quem escreve ali chega-nos por um ponto de vista serenamente assente, e por um estilo sem cores artificiais, espelho claro da experiência ilimitada da leitura. Há ficção (talvez na própria figura do eu que assina o blogue, desdobrada na escrita), e há sobretudo lugares mentais e lugares naturais. Mas, ali, quem escreve esteve nos sítios que descreve, e leva-nos por lá.
Ligação para a entrada How are We to Disappear? e para uma página pequena, dedicada a E.M. Cioran.
O Facho Olímpico
Abril 6, 2008
“A competição desportiva cavalheiresca
ajuda a tecer os laços de paz entre as nações.
Que nunca se extinga a chama olímpica”. Adolf Hitler

O site oficial dos Jogos Olímpicos de Pequim dedicou uma página especial à tocha que inaugurou o costume da chama olímpica. É recente, o costume, data de 1936.
O interesse do objecto, um sólido ícone modernista, não tem qualquer valor, ao pé da perturbadora falsa neutralidade do texto da responsabilidade do Comité Olímpico Internacional, no site do Comité Olímpico Chinês.
A enorme série de falsificações históricas que criou o mito da integridade do género ariano também passava pela fantasia da antiguidade helénica como um primitivo berço racial. A proposta da sagração dessa origem com o ritual do acendimento de um facho, segundo o site, foi feita ao COI pelo Secretário Geral do Comité Organizador dos Jogos de Berlim. O site não dá o nome ao homem.

Chamava-se Carl Diem, e respondia directamente a Josef Goebbels, o plenipotente Ministro da Propaganda.
A acção de rasurar nomes é intensamente política, e exige, obviamente, um cálculo maior do que a sua simples menção. Não é preciso ler-se Theodor Adorno a respeito da política das coisas sem política para se chegar a esta conclusão.
O site dos Jogos de Pequim continua, com mais uma elipse macabra. Segundo o site, o percurso da chama (a que chamamos facho, porque também lembra o fascio, ou feixe, emblema do conceito de unidade nacional pela força bélica que Mussolini apurou e a cuja família o emblema germânico do archote pertenceu) foi uma jornada de puro entusiasmo.
Mas o percurso tinha sido delineado por Goebbels para atravessar todos os territórios cuja anexação era prioritária no plano do III Reich. Três anos mais tarde, nesses territórios do Sudeste, começava o massacre das minorias, muitas vezes pela mão de milícias locais, com carta branca das SS. À passagem da chama, como lembra Chris Bowlby, para a BBC News, músicos ciganos húngaros tocaram a sua música, a pouco mais de três anos de serem deportados em massa.
O facho já ostentava o emblema da Krupp, o gigante da fundição de canhões e munição, que então laborava a pleno vapor.
A Anexação da Áustria começou, pode dizer-se, à passagem do facho, que foi acendendo comícios nazis, organizados em articulação com a propaganda olímpica. Os que não estavam vencidos pela ilusão, foram vencidos pelo ruído e pelo medo.
Mas, para o Comité Olímpico Internacional e o seu parceiro chinês, o calor do desporto está acima de tudo:
Os Comités Olímpicos Nacionais da Grécia, Bulgária, Jugoslávia, Hungria, Áustria, Checoslováquia e Alemanha (os sete países percorridos pelo desfile da chama) foram inteiramente favoráveis à ideia e cooperaram entusiasticamente no projecto. O Comité Organizador planeou uma rota que atravessava as capitais de cada um desses países.
A mesma rota seria cumprida pouco tempo depois, em sentido contrário, pelas tropas de choque do grande vencedor dos jogos (com 33 medalhas de ouro). O desporto, cuja razão de ser, em muitos domínios, se tem perdido catastroficamente, poderá servir, como disse Hitler, para tecer laços entre as nações. Mas deverá servir para rasurar, ou mesmo substituir a história de modo tão absoluto?
Há quem se lembre de quem ganhou o salto em altura em Munique 1972. E o lançamento do peso. E há quem lembre que um banho de sangue não parou os jogos, enquanto o terrorismo de acção directa contra civis estava a ser inventado na sua moderna forma. Sim, talvez o mundo devesse ter parado.
Quem subiu depois ao pódio, festejava o quê?

Já ninguém comenta o falso amadorismo dos Jogos, e o vácuo da expressão “Ideal Olímpico”. Desde então, é duvidoso que os Jogos tenham desenvolvido mais a paz do que os tribalismos nacionais, o doping e o negócio do esforço físico e dos seus equipamentos (ou, menos comerciais, as políticas de mobilização para o desporto de vários estados inimigos da liberdade individual, para comando interno das massas e propaganda atlética no exterior).
Curiosamente, o site dos Jogos de Pequim descreve o facho e nota que transportava a inscrição “Fackelstaffel-Lauf Olympia-Berlin 1936″, com os anéis olímpicos e “uma águia sobreposta”.
Ora, o Comité Olímpico Internacional apagou aqui até a sua própria história. A ideia de Goebbels de fundir a simbologia nazi com a dos jogos, mais nítida no emblema da águia sobreposta aos anéis olímpicos, chegou a ser formalmente rejeitada pelo COI, e o emblema teve de ser retirado (como foi retirada das bancadas oficiais a propaganda anti-semita e anti-homossexual publicada para consumo dos alemães).
Mas o facho, teimosamente, insistiu no símbolo primitivo, e a águia anunciava já a sua própria lei e indiferença a todos os contratos. Se alguém reparou, nada se fez. Achou-se preferível não perturbar a Cerimónia.
Toca Bonito, Ben
Abril 4, 2008

Em cima, fotografia de polícia tirada em Fevereiro de 1956, redescoberta em 2004, durante a limpeza do armazém do Departamento do Xerife de Montgomery, Alabama, tirada aquando da repressão policial do boicote ao serviço de transportes públicos, que impunha a segregação racial nos autocarros. Martin Luther King Jr. tinha 27 anos.
Há quarenta anos a contar de hoje, as últimas palavras do Dr. King antes de ter sido baleado foram dedicadas à sua canção mais amada. Um hino com um poema humilde, que exige uma interpretação carregadíssima.
King falava da varanda para o saxofonista Ben Branch, no pátio do Lorraine Motel, em Memphis, Tennessee. O músico estava convidado para tocar no comício daquele dia. O Dr. King pedia-lhe que tocasse Precious Lord, Take My Hand, um tema de gospel de Thomas A. Dorsey que Mahalia Jackson, a convite de King, tinha cantado em encontros do movimento dos direitos cívicos.
“Ben, make sure you play Precious Lord, Take My Hand in the meeting tonight. Play it real pretty.”
versão online da entrevista de King à revista Playboy, 1965.
em vídeo:
Mahalia Jackson canta Precious Lord, Take My Hand.
Últimas palavras do discurso “I’ve been to the mountain top“, a 3 de Abril de 1968, véspera da morte.
As Obras de Arte
Abril 2, 2008
Mais uma pausa exagerada. Este blogue luta com moinhos de vento. Pela segunda vez este ano, o nosso computador vai a caminho de Espanha, depois de ter deitado fora uma massa de textos e imagens. E ainda nos rimos de carros e telefones e selhas de lavar roupa com manivelas.

Não é só o computador que insiste em dar o exemplo (mais três amigos fazem as malas a esta hora; também com perdas e avarias profundas, mas já sem garantias).

Salvámos duas imagens que resistiram aos dois desastres. Os objectos fotografados estão há anos na mesma vitrina de Lisboa.
São objectos terríveis, pousados no vazio, abandonados pelo gosto de quem os criou e de quem os procurava. Precisam, como se diz em política artística, de um novo contexto.
Precisam de alguém, dirá quem os vende.
“As obras de Arte são grandes pelo indefinido e imperfeito que encerram, pois dessa imperfeição fecunda se alimenta o nosso espírito.”



