Outro dia foi há cinco anos
Maio 27, 2008
Pousámos um livro “outro dia”. Voltámos a pegar-lhe. Como outros, tinha um marcador de ocasião. Um talão de pagamento, do dia em que pusemos de parte essa leitura. Outro dia foi em Dezembro de 2003.
A nossa investigação adentro dos postais antigos que dedicámos a Bernardo Soares termina com esta segunda amostra de três pormenores. Sempre conhecemos o cavalheiro à esquerda como “O Patrão Vasques”. Ter-se-ão cruzado, esta figura de Vasques e o escriturário conhecido como “O Sr. Pessoa”? E o eléctrico No.245, ainda existe? Neste dia, ia para a Graça. Pela sombra, é de manhã, talvez dez da manhã, com sol já forte.

Na imagem que segue, a arcada oeste do Teatro Nacional D. Maria II mostra com mais nitidez o cartaz com o nome da peça em cena: “Mimi”, que permitirá datar exactamente o postal. Não sabemos se esta Mimi será a personagem do romance de Henri Murger Cenas da Vida Boémia, que inspirou as duas La Bohème (de Puccini e Leoncavallo), por exemplo. Ainda não conseguimos descobrir um registo do espectáculo. Talvez uma das tais peças traduzidas do francez, de um teatro imitado quase sem autores.

Na balaustrada do primeiro andar do Teatro, falta uma colunela, talvez a folga para um estandarte. Ainda faltam bastantes anos para o grande incêndio, mas as janelas já chamam por ele, de tão encardidas. A segunda, e especialmente a terceira a contar da esquerda, estão claramente empenadas.

A partir de postais do fotógrafo Otto Auer.
Otto Auer fotografou toda uma série de postais de Lisboa, reproduzidos na Alemanha, por método fotográfico. O Blog da Rua Nove mostra um postal da sua autoria, do Hotel Atlântico, em Monte Estoril, dado como da década de 1930.
Saudades do que me não foi nada
Maio 25, 2008



[...]
Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.
O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da Tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.
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ilustração: pormenores em maior definição do nosso postal “Lisboa, Rossio” da entrada anterior.
texto: fragmento do fragmento «Entrei no Barbeiro…», do Livro do Desassossego.
Postais para o Sr. Bernardo Soares
Maio 23, 2008

Numa das homenagens a Fernando Pessoa por ocasião dos 70 anos da morte, havia uma leitura pública, num teatro de Lisboa. A cerimónia era generosamente aberta, aos da cena e a todos os amigos. Subiam ao palanque actores, jornalistas, amigos de actores, conhecidos de jornalistas, escritores e amigos - e conhecidos - da escrita. (Veja-se como Lisboa era boa para andar. Que boa para andar era Lisboa).

Cada um tinha a liberdade de ler o que lhe fosse mais chegado. Não paravam de chegar pessoas. Porém, a sala nunca extravasava. Percebemos que ia ser como em certos casamentos. Era chegar, circular, provar e debandar. Passou um actor do vídeo que leu do Livro do Desassossego, com um óptimo equilíbrio de ombros, que manteve enquanto prestava o seu depoimento em vídeo.
Se tivéssemos lido, teríamos talvez escolhido um fragmento de Bernardo Soares, que reproduzimos aqui para tornar Bernardo Soares um pouco mais transeunte, e para dar a sentir como se lhe ajustam os postais antigos de Lisboa da nossa colecção.
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Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.
Mas de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado modesto do meio-dia, uma impressão de desagrado me assaltou o sonho: senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse circunstanciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo - tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era uma metade e semelhança da morte.
Aliás, se amanhã me apartasse deles todos, e despisse este trajo da Rua dos Douradores, a que outra coisa me chegaria - porque a outra me haveria de chegar?, de que outro trajo me vestiria - porque de outro me haveria de vestir?
Todos temos o patrão Vasques, para uns visível, para outros invisível. Para mim chama-se realmente Vasques, e é um homem sadio, agradável, de vez em quando brusco mas sem lado de dentro, interesseiro mas no fundo justo, com uma justiça que falta a muitos grandes génios e a muitas maravilhas humanas da civilização, direita e esquerda. Para outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a imortalidade… Prefiro o Vasques homem meu patrão, que é mais tratável, nas horas difíceis, que todos os patrões abstractos do mundo.
Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negócios com todo o Estado: «Você é explorado, Soares.» Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.
Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.
E recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia, escritório amplo, da Rua dos Douradores. Achego-me à minha secretária como a um baluarte contra a vida. Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar - ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas.

Mudava o Meu Nome
Maio 19, 2008
“Mudava o meu nome para Ginger, se pudesse voltar a fazê-lo.”

(Gene Kelly, a propósito da única vez que dançou num musical com Fred Astaire, em Ziegfeld Follies).
Pequena História com Dois Poemas (de Adília Lopes)
Maio 15, 2008
Aqui gostamos de poemas que contam histórias, e especialmente dos que parecem que contam histórias, esses que trazem o que nunca aconteceu, mas está sempre a acontecer.
A propósito dos dois poemas que juntamos aqui, deixamos uma história que temos com a autora, que se calhar mais ninguém tem (para além de uma conversa sobre os ensaios de M.S. Lourenço, a cujo propósito trocámos memórias comuns, e a certa preferência por dois textos muito diferentes).
Foi na loja da editora Assírio & Alvim, na Rua Passos Manuel. Estendemos a mão ao livro Maria Cristina Martins, para comprá-lo. 250 exemplares. 500 escudos. Black Son Editores. Ao lado, havia um volume da mesma cor, rosa: Os 5 livros de versos que salvaram o tio. Edição de autor, com data de Lisboa, 1985. Em vez do preço, tinha um recado a lápis: “Oferta da autora”.
Levámos os dois livros até ao balcão. “Este livro tem aqui escrito…”.
“Sim, sim. Oferta da autora. É isso mesmo. É para levar. Com muito prazer”, disse-nos a responsável da loja.
Para um vil criminoso
Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe
O vestido cor de salmão
Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço
poemas dos livros Um Jogo Bastante Perigoso, e O Decote da Dama de Espadas, de Adília Lopes.
pintura de Mark Ryden: “Inside Sue” (ver galeria em markryden.com)
Robert Rauschenberg e o Quadro Apagado
Maio 14, 2008

Queremos saudar Robert Rauschenberg, que morreu na segunda-feira.
Lembramos a sua série Cardbird, que fez nascer formas de pássaro de cartões de embalagem rasgados, mas cartões montados, fotografados, impressos, recortados e colados em base de cartão para serem iguais a cartões rasgados, em formas de pássaro.
À parte a pintura, e as colagens, queríamos mencionar o seu “Erased de Kooning Drawing” (”Desenho de de Kooning apagado”).
Rauschenberg decidiu levar o desenho ao branco completo, a partir do desenho. Apagou variados desenhos seus.
Mas aquilo não era nada - conta. Cada um parecia um Rauschenberg apagado. Para ser uma obra, teria de começar como arte. Tinha de ser um de Kooning. Uma coisa importante.
Rauschenberg foi ao estúdio do colega. Comprei uma garrafa de Jack Daniels e fui.
Depois de uma cena de espera e silêncio bastante tensa, com uma sombra de conflito, quando de Kooning trancou a porta com a tela que estava a pintar, de Kooning responde:
Tem de ser uma coisa de que eu sinta mesmo muita falta.
“You see how ridiculously you have to think, in order to make this work?” (Rauschenberg)
Vale a pena ver o vídeo do próprio Rauschenberg a contar o episódio, e o seu plano de trabalho, com o seu humor impossivelmente doce.
Já agora, como complemento para qualquer escrúpulo em relação aos cruzamentos nada/arte, humor/arte, e gostar/não gostar, será de ver o vídeo de Marcel Duchamp sobre o “gosto indiferente”.
Pequeno-almoço Fora (Caminhada Matinal)
Maio 13, 2008

Farsa com Farsa
Maio 12, 2008
A inteligência, por vezes, só pode responder à farsa no mesmo registo. O nosso dia começou na Antena 2, a ouvir Vitorino Magalhães Godinho comentando, com uma tristeza leve, o que viu nos programas escolares (diz-se novos) de Português e História.
Vi coisas… diz. Pedem-lhe que diga que género de coisas. Escolhe:
Olhe. Por exemplo. Vi uma coisa, no programa de Português, que era Estratégias de Audição. Mas que estratégias são estas? O que haverá em estratégias de audição? Eu julguei que só havia duas, que era ouvir às portas, e ouvir debaixo das mesas.
A Grande Radiofonia
Maio 10, 2008
[Esta nossa entrada, tão informativa que ela era, perdeu alguma eficácia no dia 20-5-2008, já que o blogue oficioso todo dedicado ao programa Theme Time Radio Hour foi desactivado na sua capacidade de transferência de ficheiros compactados do conteúdo dos programas, por uma queixa de violação de direitos de autor. Patrick Cosley explica (e actualiza a explicação). Um blogue português que preza as artes sente-se obrigado a concordar com a acção restritiva, porque quem ama as artes tem de amar também os direitos de autor. Só pode aceitar-se que o artista não tire a mão do pudim, nem da faca.]
[Entretanto, um amigo sem escrúpulos, que alimenta um amor dividido pelos direitos de autor e pelo seu produto, ele próprio autor espoliado, escreveu-nos a indicar outra ligação para material do programa Theme Time Radio Hour. Seremos coerentes com o já dito e... deixamos à consciência dos leitores os seus actos.]
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A maior ansiedade da indústria da divulgação é divulgar-se a si própria. Remunerar-se e remunerar os seus associados. Tudo serve, para continuar. Maria Felismina está grávida na primeira página, com poster do feto, ou o último grande êxito de Goma Xantana, que saiu ontem, já estão a ouvi-lo.
Nós aqui, sem fins lucrativos, não adiantamos nem temos de adiantar quando não temos nada a adiantar. Fazemos como Suze Rotolo - a namorada da capa de The Freewheelin’ Bob Dylan, o segundo disco, que fará 45 anos a 27 de Maio - que num aniversário do companheiro há muito afastado lhe desejou “Muitos mais anos e menos biografias”.
A Net não tem só defeitos. Com ela, e com o acesso digital, desvaneceu-se o poder de uma rádio portuguesa que passava em bateria a música como tempo de publicidade. Qualquer hipérbole valia, e depois, em ciclos de menos de uma hora, a dúzia de jingles dominantes rodava em contínuo, nas poucas estações que mandavam.
Os empregados das editoras liam pelos papéis que lhes mandavam traduzidos, ou que eles próprios transduziam. Repetiam saberes de ouvido. Historietas. Riam muito. E fizeram a sua vida. Cada super-êxito passava pontual e levava a sua multidão como carruagens do Metro.
Numa rádio que tinha uma memória histórica de alguns meses, Bob Dylan era sempre descrito como a curiosidade de 1961, ou um baladeiro dum além-Tejo americano. Mais umas piadas sobre a voz que não entendiam - num país em que a grande voz era um cantor de peitaça de opereta e reportório de bricabraque. (Quantas vozes tem Dylan?).
Nunca passaram daí. Agora que The Man é um dos temas maiores da sua cultura e chama à sua plateia todo o zoo artístico, o rádio de pilhas pequenino que foi essa rádio distribuidora fica à vista no seu tamanho real.
A dimensão da obra de Dylan que nos interessa aqui é a mais recente, e diz respeito à rádio. Dylan é o apresentador e senhor gerente de Theme Time Radio Hour. Viajando pela história da música popular americana e por uma escolha presente que a continua, com um tema diferente a cada programa de uma hora, ouvimos um contador de histórias e um grande ironista dos dilemas que vão sendo cantados.
Nós aqui descobrimos o programa através da hora com o título «Death and Taxes/Morte e Impostos», onde foi possível ouvir a definição de IRS do próprio Dylan, ou o gingão «I Paid My Income Tax Today», com Gene Autry e o trio de Jimmy Wakely (1942), «Tax Paying Blues», de J.B. Lenoir (1954), «Sunny Afternoon», dos Kinks, «Taxman», dos Beatles (ambas de 1966, ecos do cenário fiscal artístico do Reino Unido, que o anfitrião descreve); ou, ainda, canções com morte como «Freddie’s Dead», de Curtis Mayfield (1972), e «Rock ‘n’ Roll Suicide», de David Bowie (1972), todas alinhadas pelo melhor guia, em ambiente conversado e nocturno.

A conversa vai longa. O que queremos mesmo é enviar os amigos para um blogue de um dos admiradores tipicamente exaustivos de Dylan - e generosos - o músico canadiano Patrick Cosley, que gere Theme Time Radio Hour with Host Bob Dylan - um lugar todo dedicado ao programa, onde é possível fazer a descarga/download das duas temporadas já cumpridas, em pastas compactadas de ficheiros mp3 (zip). Quem sabe lidar com zipes, siga.
Aconselhamos também - mais uma expressão do gigantesco movimento em redor de Dylan - uma página exclusivamente dedicada à listagem de toda a música passada no programa e ao guião da locução (siga o link no blogue TTRH; ou vá directo para The Annotated Theme Time), como uma espécie de manual de serviço. Na Wikipédia, está disponível um artigo para cada uma das duas temporadas já cumpridas, e o elenco, canção a canção, de cada um dos 50 programas por temporada (alguns com duas horas), com datas e ligações aos artigos individuais dos autores, bem como aos artigos dedicados a algumas das canções (Temporada Um & Temporada Dois).
Cosley, também carinhosamente tratado por «Coz», tem o seu próprio blogue, que renasceu este ano, reformulado, depois de ter corrigido a sua política de publicação de gravações (para não infringir direitos da indústria). Assim, publica gravações não-oficiais, ou do domínio público. Tem já disponíveis gravações raras de Dylan, Neil Young, Joni Mitchel, Van Morrison, Rolling Stones, ou Jimi Hendrix e Leonard Cohen (o seu primeiro concerto, ou, melhor, recital de poesia com final à guitarra)… ou Bach. Junta também ligações para rádio de interesse histórico sonoro, curiosidades musicais, e curiosidades curiosas, do seu gosto mais privado.
Drama Pessoal será sempre um blogue com um olho para o teatro. Deixamos aqui o que diz sobre a arte cénica o próprio Bob Dylan, no primeiro volume da sua autobiografia, Chronicles/Crónicas:
Gostei do palco desde sempre, e, ainda mais, do teatro. Sempre me pareceu o trabalho artístico supremo, entre todos os trabalhos artísticos. Em qualquer ambiente, no salão de baile ou na rua, no pó de uma estrada do campo, a acção tinha sempre lugar num eterno “agora”.
Um Nocturno (Juan Luis Panero)
Maio 9, 2008
Às Vezes, Muito Raramente
Quando pouco na vida nos consola
do tempo, esse verdugo indiferente,
às vezes, muito raramente, na monotonia da noite,
entre repetidos sonhos, surge uma imagem
que reflecte o desejo que ali deixámos
e um rosto - a sua remota aparência - reconstrói
um intenso instantâneo da felicidade.
Quando tão misterioso privilégio nos chega,
despertarmos depois é viver o inferno:
não aquele jogo de chamas e demónios,
mas antes o demónio da luz de novo,
o fogo do primeiro cigarro.
Na Savana
Maio 7, 2008

O Zé, à hora do almoço e em geral, gosta de ser breve. Às vezes a conversa entra no grande plano. Pela hora do café, a existência está em revista.
O importante é sabermos que animal somos na savana. Que bicho és tu, na savana da luta primitiva?
Eu acho que sou um babuíno médio. Dou uns tabefes, deito mão a alguma coisa que me interessa, mas tenho de me afastar da sombra quando os violentos gritam ou descem das árvores. Tenho de cheirar o leopardo. De vez em quando, um de nós acaba na boca do grande gato.
Mas aventuro-me. E pronto. Um dia acabo debaixo de um jipe do turismo. E tu, sabes que bicho és, na savana?
- Eu ia a guiar o jipe, pá.
foto dramapessoal
Maio
Maio 5, 2008

[17]
«Deixei o mundo com a ajuda de outro mundo;
um desígnio foi apagado,
por virtude de um desígnio mais alto.
De ora em diante vou a caminho do Repouso,
onde o tempo descansa na Eternidade dos Tempos.
Agora entro no Silêncio.»
Tendo dito isto, Maria ficou em silêncio,
pois fora no silêncio que o Mestre lhe falara.
Então falou André, e disse aos seus irmãos:
«Dizei-me, o que pensais das coisas que ela nos tem dito?
Quanto a mim, não acredito
que o Mestre lhe falasse desta maneira.
Estas ideias são muito diferentes das que aprendemos.»
E Pedro acrescentou:
«Como é possível que o Mestre falasse
desta maneira com uma mulher
a respeito de segredos que nós próprios ignoramos?
Deveremos mudar os nossos costumes,
para ouvirmos esta mulher?
Será que Ele a escolheu, e a preferiu a nós?[18]
Foi então que Maria chorou,
e lhe respondeu:
«Meu irmão Pedro, em que pensas tu?
Pensas que isto sou eu só que o imagino,
que eu inventei esta visão?
Ou crês que eu mentiria a respeito do nosso Mestre?»
Nisto, Levi ergueu a sua voz:
«Pedro, sempre foste colérico no temperamento,
e agora vemos que repudias uma mulher,
assim como fazem os nossos adversários.
Todavia, se o Mestre a ela deu valor,
quem és tu para rejeitá-la?
Por certo o Mestre a conheceu muito bem,
pois a amou mais que a nós.
Tratemos então de achar acordo,
e tornemo-nos em tudo humanos,
para que o Mestre crie raízes em nós.
Cresçamos como Ele nos pediu,
e sigamos ao caminho a espalhar o evangelho,
sem nos metermos a criar quaisquer regras e leis
para além daquelas de que fomos testemunhas».
texto: páginas 17 e 18 do Evangelho de Maria,
também conhecido por Evangelho de Maria Madalena,
apócrifo extraído do Códice de Akhmim, trazido do Cairo, em 1896, por Carl Reinhardt,
e dos Códices de Nag Hammadi, descobertos num vaso selado enterrado no deserto.
fotografia: pormenor de figurino da colecção Primavera-Verão 2007
de Jean-Paul Gaultier: desfile em Style.com ou em Vogue Australia
