A Grande Radiofonia
Maio 10, 2008
[Esta nossa entrada, tão informativa que ela era, perdeu alguma eficácia no dia 20-5-2008, já que o blogue oficioso todo dedicado ao programa Theme Time Radio Hour foi desactivado na sua capacidade de transferência de ficheiros compactados do conteúdo dos programas, por uma queixa de violação de direitos de autor. Patrick Cosley explica (e actualiza a explicação). Um blogue português que preza as artes sente-se obrigado a concordar com a acção restritiva, porque quem ama as artes tem de amar também os direitos de autor. Só pode aceitar-se que o artista não tire a mão do pudim, nem da faca.]
[Entretanto, um amigo sem escrúpulos, que alimenta um amor dividido pelos direitos de autor e pelo seu produto, ele próprio autor espoliado, escreveu-nos a indicar outra ligação para material do programa Theme Time Radio Hour. Seremos coerentes com o já dito e... deixamos à consciência dos leitores os seus actos.]
————————-

A maior ansiedade da indústria da divulgação é divulgar-se a si própria. Remunerar-se e remunerar os seus associados. Tudo serve, para continuar. Maria Felismina está grávida na primeira página, com poster do feto, ou o último grande êxito de Goma Xantana, que saiu ontem, já estão a ouvi-lo.
Nós aqui, sem fins lucrativos, não adiantamos nem temos de adiantar quando não temos nada a adiantar. Fazemos como Suze Rotolo - a namorada da capa de The Freewheelin’ Bob Dylan, o segundo disco, que fará 45 anos a 27 de Maio - que num aniversário do companheiro há muito afastado lhe desejou “Muitos mais anos e menos biografias”.
A Net não tem só defeitos. Com ela, e com o acesso digital, desvaneceu-se o poder de uma rádio portuguesa que passava em bateria a música como tempo de publicidade. Qualquer hipérbole valia, e depois, em ciclos de menos de uma hora, a dúzia de jingles dominantes rodava em contínuo, nas poucas estações que mandavam.
Os empregados das editoras liam pelos papéis que lhes mandavam traduzidos, ou que eles próprios transduziam. Repetiam saberes de ouvido. Historietas. Riam muito. E fizeram a sua vida. Cada super-êxito passava pontual e levava a sua multidão como carruagens do Metro.
Numa rádio que tinha uma memória histórica de alguns meses, Bob Dylan era sempre descrito como a curiosidade de 1961, ou um baladeiro dum além-Tejo americano. Mais umas piadas sobre a voz que não entendiam - num país em que a grande voz era um cantor de peitaça de opereta e reportório de bricabraque. (Quantas vozes tem Dylan?).
Nunca passaram daí. Agora que The Man é um dos temas maiores da sua cultura e chama à sua plateia todo o zoo artístico, o rádio de pilhas pequenino que foi essa rádio distribuidora fica à vista no seu tamanho real.
A dimensão da obra de Dylan que nos interessa aqui é a mais recente, e diz respeito à rádio. Dylan é o apresentador e senhor gerente de Theme Time Radio Hour. Viajando pela história da música popular americana e por uma escolha presente que a continua, com um tema diferente a cada programa de uma hora, ouvimos um contador de histórias e um grande ironista dos dilemas que vão sendo cantados.
Nós aqui descobrimos o programa através da hora com o título «Death and Taxes/Morte e Impostos», onde foi possível ouvir a definição de IRS do próprio Dylan, ou o gingão «I Paid My Income Tax Today», com Gene Autry e o trio de Jimmy Wakely (1942), «Tax Paying Blues», de J.B. Lenoir (1954), «Sunny Afternoon», dos Kinks, «Taxman», dos Beatles (ambas de 1966, ecos do cenário fiscal artístico do Reino Unido, que o anfitrião descreve); ou, ainda, canções com morte como «Freddie’s Dead», de Curtis Mayfield (1972), e «Rock ‘n’ Roll Suicide», de David Bowie (1972), todas alinhadas pelo melhor guia, em ambiente conversado e nocturno.

A conversa vai longa. O que queremos mesmo é enviar os amigos para um blogue de um dos admiradores tipicamente exaustivos de Dylan - e generosos - o músico canadiano Patrick Cosley, que gere Theme Time Radio Hour with Host Bob Dylan - um lugar todo dedicado ao programa, onde é possível fazer a descarga/download das duas temporadas já cumpridas, em pastas compactadas de ficheiros mp3 (zip). Quem sabe lidar com zipes, siga.
Aconselhamos também - mais uma expressão do gigantesco movimento em redor de Dylan - uma página exclusivamente dedicada à listagem de toda a música passada no programa e ao guião da locução (siga o link no blogue TTRH; ou vá directo para The Annotated Theme Time), como uma espécie de manual de serviço. Na Wikipédia, está disponível um artigo para cada uma das duas temporadas já cumpridas, e o elenco, canção a canção, de cada um dos 50 programas por temporada (alguns com duas horas), com datas e ligações aos artigos individuais dos autores, bem como aos artigos dedicados a algumas das canções (Temporada Um & Temporada Dois).
Cosley, também carinhosamente tratado por «Coz», tem o seu próprio blogue, que renasceu este ano, reformulado, depois de ter corrigido a sua política de publicação de gravações (para não infringir direitos da indústria). Assim, publica gravações não-oficiais, ou do domínio público. Tem já disponíveis gravações raras de Dylan, Neil Young, Joni Mitchel, Van Morrison, Rolling Stones, ou Jimi Hendrix e Leonard Cohen (o seu primeiro concerto, ou, melhor, recital de poesia com final à guitarra)… ou Bach. Junta também ligações para rádio de interesse histórico sonoro, curiosidades musicais, e curiosidades curiosas, do seu gosto mais privado.
Drama Pessoal será sempre um blogue com um olho para o teatro. Deixamos aqui o que diz sobre a arte cénica o próprio Bob Dylan, no primeiro volume da sua autobiografia, Chronicles/Crónicas:
Gostei do palco desde sempre, e, ainda mais, do teatro. Sempre me pareceu o trabalho artístico supremo, entre todos os trabalhos artísticos. Em qualquer ambiente, no salão de baile ou na rua, no pó de uma estrada do campo, a acção tinha sempre lugar num eterno “agora”.
Deixe uma Resposta