Sem título (ou “O Sebo do Sul”)
Julho 25, 2008

Queria: que tirassem o mar daqui ao pé. Odeio este mar;
cada ano com mais sentimento de ferocidade. Sobretudo
a orla de grosseria onde ele vem acabar-se em ondas
chilras que também devem ser clandestinas. Quando o
levassem tinham também de levar o calor e essa treta
alta e azul a que chamam o céu e a merdosa luz de
Lisboa; aos quais ainda não consegui substituir melhor
imagem do inferno: desprotector, cambado, cuspindo o
mais branco dos amarelos sobre as coisas todas (as quais
pouco mais merecem, todas, do que se lhes cuspa, mas já
agora um cuspo mais baço e refrescado).
Queria pois, que arrefecessem completamente o verão e
o molhassem de alto a baixo, pelo menos dia sim dia não.
E queria peles alvas, firmes, rosadas de alegrias frias,
e não labregamente queimadas.
Que trouxessem muito mais nuvens, mais pertinho dos
telhados, sem tropeções absurdos de luz em faca por
entre elas. E os dias muito curtos, mais fuliginosos,
acariciadores, um novelo a ajudar-nos a estar quentes
com o gelo das ruas todo o ano. Muita neve, muita água.
Quando chove em Lisboa parece que ainda há mais sol,
que tudo fica mais fluorescente.
Importassem outra chuva. Dividissem este rio em quatro
ou sete pelo meio da cidade, fizessem-nos poder viver em
flutuação entre terra boa, lisa, fresca. Civilizada, sem a
porcaria do sol, a malvadez da claridade, o sebo do sul.
Como vêem, continuarei a não votar em ninguém.
Joaquim Manuel Magalhães
(tal como publicado no extinto jornal O Independente)foto dramapessoal
Tenho inveja
Julho 18, 2008

«Tenho inveja dos que não valem nada, ou não valem grande coisa.»
Maurice Pialat
Le peu de temps qui me reste à faire des trucs – si j’en fais encore -, j’aimerais cesser d’être velléitaire et essayer de faire passer des choses à la hauteur des capacités que je crois avoir et qu’on ne sente pas l’effort derrière. C’est un gros boulot. Ça m’est arrivé par éclats. Dans la première heure de Police par exemple, où il y a un nombre incroyable de mouvements de caméra qu’on ne voit pas. Dans la plupart des films, les mouvements de caméra, on ne voit que ça. Et on continue à trouver que les gens qui font des mouvements de caméra voyants sont des virtuoses alors que c’est la chose la plus facile au monde.
Généralement, les gens sont jaloux de ceux qui ont plus qu’eux : plus de talent, plus d’argent, la belle bagnole. Moi, je suis jaloux de ceux qui ne valent rien ou pas grand-chose.
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No Youtube, três cenas cheias de ilusão cinematográfica de contracena e verdadeira contracena, em tempo dramático real, do filme Police:
Pialat na rua: acção “wheatpaste”, pasta de farinha, colagem clandestina de um cartaz de Pialat com mensagem.
Texto em francês: Pialat em entrevista a Les Inrockuptibles, no único portal dedicado, infelizmente inerte.
A Contracena
Julho 14, 2008

As duas contribuições na entrada anterior completaram-na tão redondamente que nos deixaram em silêncio.
Duas pessoas que conhecemos do irreal quotidiano e da cena reagiram à evocação que o pintor hiper-realista Richard Estes fez da profissão do actor, falando do que será comum às duas artes, em planeamento, em controlo artístico, em execução técnica.
Estamos todos com Oscar Wilde, se negamos uma visão sentimental da expressão artística como maná criativo de um ego mediúnico (ou mediático, num certo presente) e espontâneo. Sim, com bons sentimentos não se faz senão má poesia. O pintor Richard Estes pôs o seu acento no trabalho de repetição do actor, para comparar as faces conscientes dos esforços cénico e pictórico.
Mas uma das duas reacções imediatas ao pequeno texto do pintor que pusemos neste blogue levantou a enorme lebre da contracena. Que rigor pode haver na contracena? Que controlo? Que plano? Que medida? No panorama de uma cena construída, que canais cria esta ou aquela contracena, mais ou menos sensíveis, de dentro e para fora?
A contracena é a maior interrogação do teatro. A maior das peças é um estudo da contracena: Hamlet.
Pensar a contracena empurra-nos para o nevoeiro de energia e dúvida daquela peça. O dilema de Hamlet é o do actor, se o virmos repartido entre dois fossos, o da introspecção e o da expressão. O Fantasma, a voz que instrui, é verdadeira ou falsa? É verdadeira e falsa.
Nós aqui nem conseguimos – epígonos ainda mais ansiosos de Hamlet – chegar a pensar a contracena. “Pensar” é logo o nosso problema. Isto é: até que ponto será produtivo pensar o teatro, se é óbvio que pensar no teatro é sempre um problema?

David Mamet (preferimos o pensador da cena ao autor, porque pende melhor para o primeiro fosso), mexeu neste lodo do pensamento e da cena com o pragmatismo da sua escola. No capítulo “Find Your Mark/Encontra a Tua Marca” (eis mais um pequeno eco do sarilho hamletiano) do livro True and False, tenta ser o mais categórico possível:
Por mais que nós, gente do teatro, gostemos de nos ver como intelectuais, não o somos. A nossa profissão não é uma profissão intelectual. O saber literário inteiro do mundo, as «ideias» todas, não vão capacitar ninguém a fazer Hedda Gabler, e toda a conversa sobre o «arco da personagem» e «baseei a minha personagem nisto…» é tudo babugem. Não há nenhum arco da personagem; e é tão inútil basear uma personagem numa ideia como é basear uma relação amorosa numa ideia. Essas frases não passam de talismãs do actor, que lhe permitem, a ele ou a ela, espantar o mal, e o mal que tentam espantar é o terrível imprevisto.
Essas frases e rituais mágicos são esconjuros para diminuir o terror de sair à frente de corpo nu. Mas é assim que o actor sai à frente, queira ou não queira.
O terrível imprevisto é o chão da contracena.
Pensar o terrível imprevisto é uma actividade condenada à contradição. O livro de Mamet nega ali a sua própria razão de ser, e ao mesmo tempo é certo que um livro sobre o teatro assim faça. O pensamento do teatro é um desertor do palco, e tem de viver com essa condição. Mas, queira Mamet ou não, tem de viver.
Tem de viver, por exemplo, para que um workshop sobre Hamlet suba acima de algumas inquietações caseiras, como aquela a que um amigo assistiu no ano passado: «Se o meu tio matasse o meu pai e casasse com a minha mãe, eu também ficava chateado. Não é?»
Não. Não é. Para chegares à «chatice» de Hamlet precisas de mais que da tua mãe.
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Pintura de James Ensor. Dois quadros de 1891:
“Esqueletos disputando um arenque fumado”
“Esqueletos disputando um enforcado”
Não é assim, de modo nenhum
Julho 11, 2008

Richard Estes, “34th Street, Manhattan, looking east”, 1982
«Penso que o conceito popular do artista é o de uma pessoa que tem uma espécie de grande paixão e entusiasmo e emoção super. Lança-se na sua grande obra-prima e desfalece de exaustão quando termina. Não é assim, de modo nenhum. Geralmente é um processo bastante calculado, continuado e lento, durante o qual uma coisa se vai desenvolvendo. O efeito pode ser de espontaneidade, mas isso faz parte da montagem artística. Um actor pode fazer uma peça na Broadway durante três anos. Todas as noites exprime a mesma emoção, exactamente da mesma maneira. Desenvolveu uma técnica para fazer passar esses sentimentos e assim poder servir a ideia do espectáculo. Ou um músico, que pode não querer tocar aquele raio de música, mas agendou o concerto e tem de fazê-lo. Acho que o verdadeiro teste é planear alguma coisa e ser capaz de a levar mesmo até ao fim. Não que se esteja sempre entusiasmado. É apenas o ter de tirar aquilo para fora. Não se faz com as emoções que tenhamos. Faz-se com a cabeça.»
Richard Estes
Mais, do mesmo autor, em Artnet.
Os Pintores Preferidos do Miúdo
Julho 8, 2008

Numa altura em que por cá os professores de Artes, especialmente os provisórios, se vêem obrigados pelos conselhos de turma a escrever relatórios para justificarem a reprovação de alunos que se recusaram a trabalhar em ambientes já de si muito pouco exigentes, o jornal Guardian de ontem mandou os seus críticos de volta às escolas onde aprenderam o básico, para verem como está tudo agora.
Foram os críticos de Drama e Música Lyn Gardner e Erica Jeal, e também o de Artes Jonathan Jones. Apesar de um esforço de implantação, nalgumas escolas de cá, de cursos de Expressão Dramática, e sabidos os problemas do ensino da Música, que em si é mais um problema do que um ensino, será interessante apenas medir o abismo, nestas áreas.
No caso das Artes, por ser um ensino há muito encaixado no currículo, será interessante ler as diferenças.
Lembramo-nos muito de uma professora de Artes recém-chegada que estava a ler Charlotte Brontë numa sala de professores. Uma colega das disciplinas exigentes comentou: «Ah, és professora de inglês».

No universo compartimentado e surdo-mudo deste modo de ensinar, as artes tornam-se um incómodo, quando se trata de aprovar à força os alunos que fazem troça do sistema. Os renitentes do Português e da Matemática têm de passar nas Artes. Afinal, são só uns bonecos.
É certo que a produtividade de muitos programas lectivos em Artes Visuais ou Expressão Plástica pode chegar a ser confrangedora, e pode ser resumida numa tripla de tarefas, entre as quais a execução de um postal de Natal e outro do dia da Mãe, que pode durar semanas. Mas aí a responsabilidade é das escolas e dos professores individualmente. É possível fazer muito mais.
Mas o curioso é tantos mestres das disciplinas assentes, as “nobres” do tronco comum, acharem que decorar-se uma pilha de datas e nomes estilísticos a respeito de, por exemplo, Bocage, ou decorar-se uma curta série de fórmulas matemáticas em relação às quais os testes só mudam os valores, ou nem isso, pode ser intelectualmente mais sofisticado do que, por exemplo, o estudo da composição de “Guernica”, ou da carga simbólica de um quadro renascentista, ou a execução de um retrato proporcionado.
A falta de imaginação ajuda à concentração – parece ser o lema.
Uma das coisas que impressionou o crítico do Guardian, Jonathan Jones, para além da dimensão das obras de grupo (com um acabamento que o crítico considerou excelente, havia uma recriação das gravuras rupestres de Lascaux, na sala grande de Artes da sua antiga escola), foi que um miúdo tinha como seus “pintores preferidos” dois artistas contemporâneos: Lucian Freud e Chuck Close.
Pintores preferidos?

ou os de Lyn Gardner (Drama) e Erica Jeal (Música)
ilustrações: quadros de Lucian Freud (1&2) e Chuck Close (3).
Dois Cromos Dramáticos
Julho 5, 2008

De volta da nossa pausa, juntamos dois cromos que são restos da oficina da mini-peça Guiné Meu Amor, do festival “Curtas”, no cais do Ginjal, escrita para as actrizes Anabela Brígida e Raquel Dias.
No estudo da fala de Portugal-1970, mesmo a imaginada, principalmente a imaginada, buscámos traduções portuguesas de fotonovelas espanholas do tempo, com os seus eufemismos práticos, mais os seus rasgos de franqueza com redacção cuidada. Como não se dizia o que se acabava por dizer?
Sobram aqui dois cromos coloridos pelo próprio autor do texto, modestos ícones de uma era, distorcidos do preto-e-branco sujo original, que poupava demasiado na tinta.
