O artista londrino Slinkachu monta na rua pequenos dramas com figuras minúsculas.
São as suas pessoas pequenas.

Fotografa-as e abandona-as nos seus cenários, para se cuidarem por si próprias.
De que tamanho é uma cidade?

 

 

Blogue Little People, de Slinkachu. Pequena galeria de cenas, no jornal Guardian.

Título de Fernando Pessoa.

 

Curtas Promessas de Viagem

Agosto 25, 2008

 

 

Os pacotes Nicola são intrigantes. Sob o mote «Um dia…», os amigos do café podem escrever para um endereço electrónico e candidatar uma pequena redacção com uma promessa a si próprios ou a terceiros, a imprimir num pacote.

Os pacotes Nicola são intrigantes porque nunca lemos uma mensagem honesta. A absoluta falta de sentido de humor das mensagens é que é cómica. Não se podem esperar grandes rasgos de um pacote de açúcar português.

Rui Oliveira promete vagamente a alguém uma deslocação de 300 Km. Um dia. Tendo em conta a evidente necessidade de regresso, Rui pode mesmo estar apenas a prometer, com alguma cobardia, uma única deslocação num raio de 150 Km, provavelmente por autoestrada.

Uma única deslocação. A relação assim possível teria de ser um golpe inolvidável. Um golpe tal que fizesse Rui Oliveira preferir não encontrar a quem prometeu. Tantos o fazem. Rui Oliveira não sabe que não é excepção. Uma relação que nenhuma série de pacotes pudesse açucarar.

 

 

“Põe um tigre no meu motor”. “Nós aqui não vendemos tigres”. “Então põe gasolina e cala-te, meu caro”.

 

 

Porém, mesmo que 300 Km seja na frase apenas a distância de referência, contada no mapa ou no GPS (que Rui com certeza escolheu, de entre os 35 modelos em promoção de 5 a 10 por cento, ainda assim dez vezes mais caros que as Obras Completas de Shakespeare, edição Riverside, ou ao preço de uma boa bicicleta, por exemplo, e pronto a ser desligado porque o prazer de conduzir não tem nada a ver com o prazer de ser conduzido por uma espécie de gravador que só constata evidências e mata toda a descoberta, todo o erro), como explicar a um português que 300 Km não são uma grande distância, e não justificam a demora e a separação, e até adiamento, implícitos na mensagem?

 

 

Para que buscamos alguém, Rui, senão para podermos errar?

300 Km não são uma grande distância. Mas, para o português presente, que faz contas à gasolina sem nunca ter feito contas às estradas que andaram a ser construídas para gastos de combustível incomportáveis, 300 Km parecem ser o horizonte do sonho, a declarar num pacote de açúcar. Os fazedores de estradas é que alimentam a fantasia, por cá. E, vistas as contas desses contratos que o povo que despreza as artes que recebam apoios nunca fiscaliza, com os seus prémios e contrapartidas, vemos quem são os verdadeiros subsidiados.

Quem faz 300 Km não faz coisa nenhuma, Rui.

 

 

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Autêntico pacote Nicola.

Fotogramas de Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard, grande destino de Verão.

 

 

 

“Quer que embrulhe?”

“Não, não. É para abrir hoje mesmo, a esta hora.”

 


[Actualizado com a viagem-vídeo de mota. Ver fundo.]

 

 

«No Verão, as pessoas estão diferentes, estão mais bonitas»

 

 

…Dizia uma jornalista, no ano passado, talvez antes de vender uns cremes, uns ginásios, uns resórtes e uns spás. Lá, onde tudo acontece, com tudo o que é preciso para ajudar a acontecer.

Ficou na memória.

 

 

Causa-nos repulsa, já se vê, este jornalismo de banca montada. A notícia de um veleiro encalhado, na barra de não-sei-onde, também não é notícia, é passatempo.

É nesta feira que o teatro tem de continuar a botar o seu cartaz, e tem até de ir falar, fazendo a sua venda e tentando manter alguma subtileza.

Conversa. Vamos dizendo isto para voltar ao ritmo da luz.

 

Uma série cómica de azares de Verão obrigou-nos a uma pausa, justamente quando queríamos ter feito algumas contra-viagens, nesta altura em que a chamada blogoesfera quase pára.

No repouso recomendado pela médica, revisitámos o memorial do lugar da morte de Pasolini, atrás da Vespa de Nanni Moretti, no filme Caro Diario (“Querido Diário”), de 1993. A volta silenciosa pela beira-mar lembra-nos qualquer coisa muito íntima.

Os de cá mais próximos costumam dizer da volta de Nanni: só não é Portugal por causa dos contentores do lixo com tampas laranja. Mas até desses nos lembramos, nós aqui. Da mesma cor das bóias de marcação.

 

 

[Actualização:]

Faça você mesmo a volta de mota. (Mais uma vez, talvez).

 

 

 

 

 

“Meia Janela” – foto dramapessoal

Boarding Pass (Viagens)

Agosto 1, 2008

 

 

PAN AM

J.F.K., PARIS DE GALLE

P 114

DATUM 21 DEZ

BOARDING PASS

NAME

[ilegível]

 

 

 

 

 

 

 

Começamos assim a pequena série Viagens, para estes dias de Agosto. Para os que já conhecem António da Silva Teixeira Electricidade, nascido na freguesia de Nogueiró, concelho de Braga, e têm buscado aqui a sua visão, eis um dos escritos mais compactos que deixou, não datado. Restos de um bilhete encontrado? Lembrança de uma viagem sua ou de alguém? De alguma imagem observada com atenção? Dois aeroportos com nomes de homens políticos que (também) gostavam de falar directamente à História, De Gaulle e J.F.K. E uma referência à que foi a maior companhia aérea do mundo, a Pan American Airlines, Pan Am, cujos aviões com o emblema do globo azul pareciam infinitos, e ainda hoje fazem a carreira comercial para a estação da órbita lunar, no filme 2001, de Clarke e Kubrick, mas que faliu em 1991. Talvez Electricidade tenha colhido um dos últimos bilhetes Pan Am perdidos no chão de Lisboa. Pouco antes de ele próprio deixar estes céus. [ortografia do autor]