A coisa mais embaraçosa

Setembro 28, 2008

 

“A coisa mais embaraçosa é que o meu molho de saladas está a render mais que os filmes”.

 

Paul Newman, 1925-2008

 

Mensagem de voz

Setembro 23, 2008

 

 

«Vivemos, parece, numa era de arrogância. Estamos muito seguros do que sabemos dos antepassados. Mas não gostamos de pensar no que esquecemos do que eles sabiam.»

David Hockney

 

 

 

Eis um escaparate da Rua de São Bento, há um ano. O mecânico ou fogueiro festeja o dia 12-2-1967. Estranhamente, todo o arranjo parecia uma alegoria desse tempo.

O mecânico já foi vendido, e as figuras africanas quase todas. (Figuras africanas com alguma verdade, e ainda não caricaturas de cópias das cópias modernistas). As prateleiras mantêm o seu estilo. E o menino triste ainda está à venda. (É uma peça dos anos de 1920-30, e está agora ao pé de uma menina da mesma época, qual deles o mais perdido).

 

Opiário

Setembro 20, 2008

[revisto]

Quem pesquisar games waste of time vai encontrar enormes quantidades de sugestões de um género particular de jogos electrónicos, ultra-leves, que se gabam de fazer desperdiçar o tempo eficazmente.

 

 

As velhas fotografias dos pavilhões de ópio do século XIX, cheias de homens (e mulheres, nas salas e caves clandestinas de Nova Iorque e São Francisco, ou Sidney) de olhos vidrados, em posição fetal, não tombaram no passado. Estão aqui, com a sua aura e vórtice de fibra óptica.

A caminho de ver um amigo há muito distante, com quem tínhamos partilhado um concerto do guitarrista norueguês Terje Rypdal, fomos procurar um disco do músico na FNAC, de passagem.

Ali, o cinema e a música estão a sofrer uma razia de quantidade, e o desastre, na escolha e ordem. A mostra passou de fraca a aleatória. Os discos de cinema e os de música e vídeo musical migraram e juntaram-se, e a maior clareira é agora dedicada aos jogos de computador e às suas máquinas caras.

A loja que engoliu as outras lojas está confusa. Assente a moda de que os suportes materiais de música e vídeo podem ser substituídos pelo fumo do tráfego digital (e fugidos muitos dos que não pensam assim para a encomenda directa, ou para uma ou outra pequena loja temática) o grande retalhista parece acreditar que pode vender mais jogos em suporte físico. Será por pouco tempo.

Evaporados os narcóticos jogos para o trânsito virtual, vai sobrar muito espaço na loja. Ficarão só as máquinas. Depois trazem-se uns tapetes, e umas enxergas e colchas, para conforto dos experimentadores dos terminais e suas miragens de fogo, vertigem e repetição. Depois umas cortinas, contra a crua luz do dia…

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(Este texto acabou por ser escrito num dia obscuro em que nos perdemos no labirinto da loja em questão e acabámos por imaginar que a secção de cinema era ainda mais pequena do que de facto é. Mas, também de facto, está mais pequena do que já foi. Nos dias obscuros cai-se para fora da rotina, e pode ver-se a sombra que o presente larga para diante. Enfim. Comprámos um disco: de Rabih Abou-Khalil: “em português“, do músico libanês com o fadista Ricardo Ribeiro, & Luciano Biondini, Michel Godard e Jarrod Cagwin; Enja Records, 2008).

 

Bea

Setembro 18, 2008

 

Bea Szenfeld, moda (Suécia).

 

Site da artista.

 

via Emma Cassi, via A cup of Jo, via Design Dig
(para um caminho de pessoas fazedoras e/ou admiradoras de belos objectos)

agradecimentos: Karina Jeppesen

 

Senhoras e Senhores

Setembro 14, 2008

 

No nosso teatro abundam as memórias amargas. Não se fala muito disso.

Dorothy Parker juntou à crítica do espectáculo doses de pessimismo e humor, uma mistura que pode levar à melhor ironia (uma figura do discurso, e, acima de tudo, do pensamento, que, entre nós, muito poucos alcançam e muitos confundem com a inversão de sentido caricatural; mas essa é toda uma outra história).

“No intervalo depois do primeiro acto, acordei com a cessação da conversa, e fui fumar um cigarro para a rua. Por qualquer razão, uma vez à solta, não voltei para o segundo acto de Getting Married. (Ao Diabo. Agora já não tenho nada a perder. Este é o meu último compromisso, mais vale dizer-vos que não lhe fui fiel). (…)

 

E com esta peça, senhoras e senhores, acabam os meus labores. Os adeuses saem bem ditos depressa. Portanto agradeço-vos a todos muitíssimo, e, sendo certo que passei um tempo miserável, tenho muita pena de deixar-vos.”

 

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Dorothy Parker. Último artigo de crítica teatral para The New Yorker, 11 de Abril de 1931.

 

1941-2001

Setembro 11, 2008

 

Alex Schomburg (1905-1998)

 

 

Regressamos muito à autobiografia de Luis Buñuel, O Meu Último Suspiro, um tratado das tropelias da criatividade de grupo, e dos limites da vida e do espectáculo, ou entre ambos. Teve uma edição portuguesa, que hoje se perderia entre novelas de mulheres árabes sofredoras, folhetos de auto-ajuda com receitas místicas e dietéticas, manuais de assassínio comercial e romances portugueses no mau sentido dos dois termos.

Temos falado pouco de teatro. Mas a melhor maneira de falar dele é cada vez mais não falar muito.

«… Quanto a La Mort En Ce Jardin, recordo-me sobretudo de problemas dramáticos em relação ao argumento, o que é a pior das coisas. Não conseguia resolvê-los. Muitas vezes, levantava-me às duas horas da manhã para escrever, durante a noite, as cenas que entregava a Gabriel Arout para que ele me pudesse corrigir o francês. Tinha de rodar essas mesmas cenas no próprio dia. Raymond Queneau veio passar quinze dias ao México para tentar, em vão, ajudar-me a sair desta alhada. Recordo ainda o seu humor, a sua delicadeza. Ele nunca dizia: «Não gosto disto, não é bom», mas fazia sempre começar as suas frases por um: «Pergunto-me se…»

Ele foi o autor de uma descoberta engenhosa. Simone Signoret, no papel de uma prostituta que vive numa pequena cidade mineira onde já tinham ocorrido distúrbios, está a fazer as suas compras numa mercearia. Compra sardinhas, agulhas, diversos produtos de que precisa, e, depois, pede um sabão. Nesse momento, ouvem-se os toques de corneta dos soldados que vinham restabelecer a ordem na cidade. Ela muda de repente de opinião e pede cinco sabões.

Infelizmente, por razões que já não me recordo, esta curta cena de Queneau não pôde figurar no filme.

Julgo que Simone Signoret não tinha qualquer desejo de fazer La Mort En Ce Jardin, preferindo ficar em Roma com Yves Montand. Tendo de passar por Nova Iorque a caminho do México, ela introduziu ostensivamente no seu passaporte documentos comunistas, ou soviéticos, na esperança de que as autoridades americanas a mandassem para trás – no entanto, deixaram-na passar sem qualquer comentário.

Como se mostrou bastante turbulenta durante a rodagem do filme, distraindo os outros actores, um dia pedi ao chefe maquinista que pegasse numa fita métrica, medisse uma distância de cem metros a partir da máquina de filmar e instalasse a esta distância os lugares dos actores franceses.

Em contrapartida, graças a La Mort En Ce Jardin conheci Michel Piccoli, que se tornou um dos meus melhores amigos. Fizemos cinco ou seis filmes juntos. Gosto do seu sentido de humor, da sua generosidade secreta, do seu grão de loucura e do respeito que nunca me tem.»

 

Signoret & Piccoli, La Mort En Ce Jardin

 

A Alegria

Setembro 6, 2008

 

“Penso que a alegria é uma falta de entendimento da situação em que nos encontramos”.

 

 

Andrei Tarkovsky: Interviews, ed. John Gianvito

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via, com agradecimento, Spurious, entrada de 1 de Setembro.

 

foto dramapessoal

Ah, Outra Luz

Setembro 2, 2008

 

foto dramapessoal