Nenhum Sexo Ontem à Noite
Outubro 30, 2008

A maior parte do tempo a direito, entre entrepostos de serviço automóvel, de serviço de restauração e bebidas, de serviço de alojamento nocturno, e de serviço matrimonial, para um gesto de ficção, ou chamemos-lhe fantasia, conforme a escola estética.
Sigamos Sophie Calle e Greg Shephard a encenarem os bastidores de uma relação, nos bastidores de uma América menos iluminada (filme que teve conversão de DV8 para 35 mm e relançamento internacional com estreia portuguesa pela mão do produtor Paulo Branco, ocasião em que mudou de nome, de Double-Blind para No Sex Last Night).
Ligação ao fundo.


«Quando ia à terra da minha avó era sempre este sound»
Outubro 29, 2008
Voltamos. A expressão em título foi colhida num pequeno fórum do Youtube, durante uma busca por uma canção popular comercial, “Voltei, voltei”, do cantor Dino Meira, que se transformou em frase idiomática para celebrar os mais simples regressos, e com a qual pensávamos saudar o próprio regresso de Drama Pessoal à assiduidade.
A frase parece-nos boa para resumir o salto cultural dos últimos anos da maioria sub-educada, e até o enorme vazio preenchido por esse salto. Entre a terra da avó e o rebanho urbano do pop digital compactável e do jargão techno saxónico.
Dino Meira, cantor emigrante dos emigrantes, mesmo depois de ter-se tornado “cantor de sucesso” e tirar bom rendimento da sua arte, pelo que soubemos, manteve sempre o seu apartamento no subúrbio lisboeta da Damaia, por cima do mesmo restaurante da mesma senhora mestra restauradora de sempre, e aí, depois de um almoço português quantitativo, terá falecido durante a sesta, antes do que teria sido mais uma partida para o verdadeiro Portugal musical internacional.
Por diversas razões, interessava-nos continuar a lembrar Dino Meira (“Já passaram tantas horas/ De voltar eu bem preciso/ Deitar as saudades fora/ De cantar já vamos embora/ De regresso ao paraíso”), mas interessa-nos aqui, indirectamente, o assunto da educação pelas & para as Artes, em cuja área incluímos o ensino da literatura e incluiríamos muito de um ensino oficinal produtivo, que não têm nada de estar “ligados ao mundo do trabalho” (como se as formações pessoal e profissional não fossem devidas a sistemas separados e complementares, e os futuros trabalhadores não devessem formar-se inteiramente como pessoas antes da formação profissional e utilitária – causa que estes programadores ministeriais e o porta-voz-macroeconómico-oficioso Belmiro de Azevedo jamais entenderão). Por isso queremos deixar um eco ao que disseram recentemente os Professores Medina Carreira e José Gil sobre o estado da educação.

Este blogue não é, obviamente, um órgão profissional (obrigado à repetição e à mais curta conjuntura), nem um desses blogues sistemáticos e obsessivos-compulsivos dedicados às desventuras quotidianas dos agentes do sistema educativo (e aos seus interesses; obrigados ao mesmo). Só nos interessa deixar duas ou três notas mais pessoais.
Segundo o Prof. Medina Carreira, o estado da educação é simplesmente «uma vergonha», e «os miúdos não aprendem nada». Nos ecos negativos ao que o economista declarou de viva voz na televisão mistura-se, portuguesmente, uma concordância vaga, ou fabricada, com uma crítica à forma das declarações. “Tremendista” foi uma etiqueta atribuída, que pretende, como todas as etiquetas, reduzir o discurso em causa, neste caso a um mero conteúdo emotivo. Por cá, nunca é tremenda a situação. A denúncia, sim, essa é grave. A sua forma é sempre errada e lamentável. As dores dos escandalizados são todas pela denúncia, nunca pelo problema.
O Prof. José Gil publicou na revista Visão um artigo com o ominoso título “A domesticação da sociedade”. No mesmo tom entre abstracto e ilustrativo do seu livro Portugal Hoje – O Medo de Existir (que infelizmente desceu do nível do grande retrato para o da quotidianidade política mais passageira, na sua segunda parte), denuncia, entre outras coisas, um reforço do controlo centralista no sistema de ensino através de um clima de obediência burocrática forçada, sob a forma de uma política activa e planeada, no qual vê um fenómeno social mais largo. Diz:
“Uma burocracia inimaginável, que devora as horas dos professores, em aflição constante para conciliar com uma vida privada cada vez mais residual e mesmo com a preparação das lições, em desnorte com as novas normas [...] – tudo isto sob a ameaça da despromoção e do resultado da avaliação que pode terminar no desemprego”.
Nós achamos mais: Que não só o poder pressiona e condiciona pela burocracia, como a própria matéria do ensino se burocratizou há muito. Esse é todo um outro assunto que nem cabe aqui, fonte de grave prejuízo no ensino artístico.
À escala minimal, pensamos nos professores de Artes, que entram no sistema sem profissionalização, e ouvem dos recentemente mais empossados “Presidentes de Conselho Executivo” (especialmente se escolherem servir directamente a estrutura central, em detrimento do corpo docente local), seus avaliadores, juízos como: “Vai aceitar este horário e os que forem precisos”.
A velha aldeia urbana da Damaia de Dino Meira foi ampliada em urbanizações incorrigíveis e cortadas do mundo como Massamá ou o Cacém, entre tantas, onde estes oficiais de gestão de multidões agem como proprietários-delegados de estabelecimentos que juntam mais de 30 alunos em cada sala, sem que esse número somente seja alvo de indignação pública (como é que é possível dar justo atendimento a 30 alunos numa aula prática, de desenho, por exemplo?).
E dispõem. Soubemos de uma escola onde o painel de afixação da sala dos professores não pode ser usado directamente pelos docentes, como foi tradição de 30 anos: qualquer objecto a afixar tem de ser sujeito à aprovação do Presidente do Conselho.
Contou-nos isto um professor provisório que gostava de ter afixado o artigo de José Gil, mas que ouviu o lema dos outros que educam os portugueses do chamado futuro: «Não te incomodes».
O mesmo professor que, habituado a adaptar à cultura dos grupos de alunos um programa de trabalhos que costuma ser intenso (ao contrário da fraude habitual do mini-bricolage de três trabalhos ao ano), foi este ano obrigado a seguir um “programa de grupo”, subscrito por todos, cumprido por todos no mesmo calendário e alvo da troça silenciosa de quase todos.
O mesmo professor, acabado de chegar ao contacto com os alunos, na fase essencial da motivação (há quem não saiba o que isto é), é imediatamente obrigado a fornecer um “teste-diagnóstico” a 32×7 (alunos x turmas), a levar a cabo durante 2 aulas, e a corrigir num prazo mínimo (de horas não contabilizadas). Teste, aliás, totalmente inútil, com parâmetros que não reconhece, e que se destina a uso estatístico da burocracia escolar junto das altas Entidades.
Porque, no nosso ensino, tal como se viu no hilariante questionário de auto-avaliação aos professores provisórios, tudo o que é traduzível em estatística é ciência, mesmo no caso de um interrogatório puramente verbal sobre um ano inteiro de trabalho. “Estás a ver”, dizem os docentes adeptos do sistema, “em Excel bate tudo certo”.
E, mais chocante ainda, o rebanho obedece, ainda que ruidosamente. Este sistema recompensa generosamente a passividade. (Não é por acaso que entre os alunos mais desligados e preguiçosos, ou até entre os mais indisciplinados e relapsos, estão muitos dos mais inteligentes; já adivinham, parece, que aqueles que hão-de comprar o seu futuro trabalho inqualificado estão noutras escolas).
Para acabar com o abandono escolar, o Conselho Nacional de Educação propõe agora o abandono da avaliação até ao nono ano. O abandono escolar parece-nos ser neste caso muito melhor solução (segundo Frank Zappa, noutros moldes, será sempre, para muitos, a melhor solução).
Imaginamos os Srs. do Conselho Nacional numa destas salas, cheias com 32 niilistas, com janelas para lado nenhum, depois de serem obrigados a deixar o delegado de turma escrever no quadro “Não há chumbos até ao Nono”, a explicarem o seu sistema.
Enfim. Uma menina que pertence a uma turma em que todos menos um nunca tinham ouvido falar de Andy Warhol (há coisas piores, como ignorarem totalmente a existência de uma Primeira Guerra Mundial: “Stôr, também houve uma segunda?”), e cuja melhor aluna é, como é corrente, oriunda da Europa oriental (a que sabia), contou ao professor:
«O meu pai disse-me que Lisboa, para além de ser longe, é horrível, está sempre toda cheia de carros. Aqui ao menos é um sossego».
Tens razão. É muito longe, querida.
Vide
Página do Ministério da educação com questionários de avaliação e, em especial,
o questionário “Ficha de Avaliação do Docente dos 1º, 2º e 3º Ciclos do Ensino Secundário”.
O Xerife (Cristovam Pavia)
Outubro 21, 2008

Trouxeram um esquife
E meteram-no dentro
Com ordem do xerife
P’ra bom isolamento.
Antes ali xerife
Do que em cidades foscas
No género de Lisboa:
Pasmo, calor e moscas.

———————-
poema de Cristovam Pavia
Imagens do livro: Massage – Its Principles And Practice, de James B. Mennell,
P. Blakiston’s Son & Co, 1920.
[Temos tido realmente muito pouco tempo.]
Pouco tempo
Outubro 19, 2008


Temos tido muito pouco tempo.
O Cordeiro do acaso
Outubro 11, 2008

III
o moço pastor que ali vem cantar
a sombra que deu
aos montes que têm o rio a passar
outro azul no céu
vê perto seu canto que ouvido se esconde
e é o que ele sabe
mas longe na noite sem fim lhe responde
a mesma verdade
que é a estação fria como está nos ramos
e na lua-cheia
pequeno cordeiro que há anos e anos
ele pastoreia
poema de Mário Cesariny: Visualizações, III (Manual de Prestidigitação).
Na foto, cordeiro encontrado hoje à porta da Sinagoga de Lisboa.
Paleta de Brooklyn (c.1963)
Outubro 9, 2008


Onde Lou Reed gostava de ter uma rua com o seu nome, desejo à moda antiga.
Não Street. “Lou Reed Way”.
Fotos: James & Karla Murray. Exposição the Disappearing Face
of Brooklyn’s storefronts (cartaz com mais duas fotos, in My Weblog).
via & vide 2 or 3 things I know
(com ligação, em blogroll, a, entre outros, a ervilha cor de rosa).
Blue Note Vote
Outubro 5, 2008

We live in a culture that discourages empathy. A culture that too often tells us our principal goal in life is to be rich, thin, young, famous, safe, and entertained.

Okay. The old man told me to take any rug in the house.


Pausa
Outubro 2, 2008

Pausa. Tirando Sai, e outras assim curtas que pedem muito pouco, Pausa é a didascália mais vulgar, mais impessoal e mais vazia (cheia de possibilidade, para um actor) da escrita teatral do nosso tempo. Às vezes, é um fio de prumo num poço.
Celebramos o primeiro aniversário do lançamento em Dvd de Je Vous Salue, Marie, de Godard, e tencionamos falar disso. Entretanto, uma amiga actriz de palco pôs-se a interrogar pela razão de ser do seu trabalho, e é talvez esse mesmo o osso mais sensível do seu ofício. A fractura exposta do seu ofício. «Aceito a pausa, mas não vou tolerar mais do que isso», foi uma resposta possível. «Só posso mostrar-te alguns colegas na pausa deles. Estão como aquele parceiro que soube dessa vontade de parar e não te disse nada. Abraçou-te e andou. Porque sabe que nada mais passa e já lá esteve». Em palco ou fora dele, a pausa é trabalho.



Actores fotografados: Kristin Scott Thomas, Jeremy Irons, Ian McKellen, Julie Walters.
Fotografia: Simon Annand via Times Online