Pausa
Outubro 2, 2008

Pausa. Tirando Sai, e outras assim curtas que pedem muito pouco, Pausa é a didascália mais vulgar, mais impessoal e mais vazia (cheia de possibilidade, para um actor) da escrita teatral do nosso tempo. Às vezes, é um fio de prumo num poço.
Celebramos o primeiro aniversário do lançamento em Dvd de Je Vous Salue, Marie, de Godard, e tencionamos falar disso. Entretanto, uma amiga actriz de palco pôs-se a interrogar pela razão de ser do seu trabalho, e é talvez esse mesmo o osso mais sensível do seu ofício. A fractura exposta do seu ofício. «Aceito a pausa, mas não vou tolerar mais do que isso», foi uma resposta possível. «Só posso mostrar-te alguns colegas na pausa deles. Estão como aquele parceiro que soube dessa vontade de parar e não te disse nada. Abraçou-te e andou. Porque sabe que nada mais passa e já lá esteve». Em palco ou fora dele, a pausa é trabalho.



Actores fotografados: Kristin Scott Thomas, Jeremy Irons, Ian McKellen, Julie Walters.
Fotografia: Simon Annand via Times Online
São poucos os actores com pausa. Os que não adormecem no colo das palavras. Por isso, não poucas vezes, a pausa se transforma em menopausa. Ou seja, o discurso da pausa torna-se menor, afectado por uma interrupção súbita e brutal. Voltemos ao difícil mas maravilhoso enunciado de Beckett: “fazer o quê aos espaços vazios para quando desaparecidas as palavras?”…
Kristin Scott Thomas é uma interrupção súbita e brutal. Mas é uma Pausa.
Fotografias belíssimas e, simultaneamente tão tristes… deixam em mim uma sensação de desconforto, sem perceber porquê.