Fecho

Dezembro 31, 2008

 

Do maestro Daniel Barenboim herdamos um leitmotiv artístico vigoroso (a propósito de Beethoven):

Não basta haver um crescendo. Não basta fazer-se o crescendo. É preciso querer-se o crescendo.

 

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O luto por Pinter trouxe a algumas salas de estar o problema da relação das artes com a política pública (passe a redundância), a que, parece-nos, alguns têm respondido melhor, digamos com arte, ao longo dos anos.

O maestro Barenboim é cidadão israelita e palestiniano, e mantém no seu blogue uma reflexão sobre o conflito entre os seus dois povos, do ponto de vista da sua terceira cidadania, a artística. Escreve, acima de tudo, sobre essa cidadania, e sobre a urgência que raramente lhe é atribuída.

Vale a pena ler o que escreveu sobre a morte de Arafat; sobre o seu duplo estatuto de cidadão; sobre o cancelamento da temporada de Idomeneo, em Berlim, após ameaças; sobre Wagner e a ideologia, ou sobre o futuro da ópera em Berlim, e sobre a relação entre o financiamento e a produção artística de grande escala, em particular, assunto a respeito do qual, em Portugal, quem tem falado mais alto tem sido um presidente de câmara com feitio de contabilista e sintaxe de proprietário.

 

Paz

Dezembro 25, 2008

 

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Pinter

 

Louvam um prémio de tradução sueco e um discurso medíocre. Enfim, 29 peças de teatro intratáveis não servem obituários e outras oportunidades. A política de um dramaturgo é uma voz, de entre todas as que nem são suas, que lhe valem, porque não são suas.

 

 

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Consulta médica hospitalar e almoço de caminho. Pouca luz do dia.

 

A Farmácia Albano

Dezembro 22, 2008

 

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Os donos da Farmácia Albano não quiseram arrancar os móveis seculares, mais os tectos e os candeeiros, que a empresa renovadora e respectivo arquitecto queriam destinar ao contentor. Não forraram o pequeno estabelecimento a espelhos e contra-espelhos, lâminas de luz e azulejos com enfeites nacarados, e efeitos de cor, como as manchas de óleo na água. Ou com cenografia técnica repetível e desmontável. Tudo é desmontável, enfim, mas agora a Farmácia Albano não é igual a mais duas pastelarias da zona, também esventradas da sua memória, como dos seus melhores hábitos, ou a uma farmácia num desses lugares mal acabados que ainda não existem, e, tudo indica, nunca chegarão a existir.
Na foto, aro de ferro para apoio de toldo sobre placa de parede em mármore. Rua da Escola Politécnica, Lisboa. Note-se a luz branca deste Dezembro do Norte.

 

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Mais Luz

Dezembro 21, 2008

 

Voltámos a não saber calar para observar. Por isso cedemos o espaço à arte que sabe fazê-lo.

 

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Fotografias de Wayne Sorce, da série «Chicago, IL, ca. 1970».

 

Com louvor à Galeria Joseph Bellows

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O Natal dos Hotéis

Dezembro 17, 2008

[revisto]

 

Artigo 1.º

Definição de jornalista

1 – São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.

2 – Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.

[...]

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Natal é tempo de televisão, e o meio quase monopolista de recreio artístico e informação entre nós enche-se de mais luz nesta quadra. Porém, o modo estrondoso como a tv cedeu completamente a quem a financia não é notícia, pela mesma razão por que o aspirador não se aspira a si próprio.

O modo paupérrimo como a tv local reflecte a arte e o espectáculo, mesmo o cinema – servindo valores de popularidade gerados pela própria programação televisiva, com seus critérios de fama e estrelato directamente equivalentes a critérios da análise de mercado (o canal público já começou a usar o termo “audiência” como sinónimo de “público”, quando fala de espectáculos ao vivo) – já nem sequer serve a presunção de base da tv de que é capaz de reflectir qualquer recanto da vida pública.

Com que se espanta o pobre? Das quatro pinturas que foram roubadas na Suíça, em Fevereiro, na Fundação E. G. Bührle, tudo o que os apresentadores noticiosos locais foram capazes de dizer para impressionar o vulgo (e a si próprios) em relação ao roubo foi o valor estimado (o valor monetário segurado) de duas das telas perdidas. Monet, Van Gogh, Degas e Cézanne não impressionam. Os irrelevantes (e meramente formais) milhões do capital seguro, esses espantam e exprimem valor. A quase imediata recuperação de “Campo de Papoilas em Vétheuil“, de Monet, e de “Ramos de Castanheiro em Flor“, de Van Gogh, bem como o continuado desaparecimento de “Ludovic Lepic com as Suas Filhas” e “O Rapaz do Colete Encarnado“, de Degas e Cézanne, respectivamente, já nem sequer tiveram seguimento, ao menos no momento da primeira recuperação.

Nada vos preocupa, porque nada vos comove.

Supõe-se que a esta desatenção pela grande dimensão artística se deverá a um critério relativo de prioridade noticiosa: é preciso mostrar as urgências do presente.

Mas tal proporção nunca existe. Os relances cinematográficos da violência ou instantâneos do palco político mundial recebem o mesmo tratamento das notícias da aldeia: mais uma camioneta fora da estrada, uma junta de freguesia indignada, um mau cheiro na praça, um ministro agastado, um esquilo que dança. Um parágrafo para cada. (Dois para o esquilo).

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Resta o enorme tempo concedido a uma actividade altamente duvidosa à luz da ética profissional do jornalista, a chamada “informação comercial”, que dantes, quando os jornais contavam, era claramente demarcada, tanto que as revistas ainda a demarcam – não a televisão.

Então, temos profissionais com carteira de jornalista, e com o entusiasmo de uma infância reencontrada, a mostrarem um estúpido dispositivo para um jogo de pesca virtual lá em casa, ou a “avaliarem” um carro repetindo à letra a lengalenga acariciadora dos folhetos do fabricante (e percorrendo as mesmas estradas vazias escolhidas pelos anúncios do produto, por onde o produto nunca circulará).

Para que falarão do melhor das artes, estes servidores da sua empresa de fornecimento de exposição televisiva, e defensores acérrimos do seu posto de trabalho? Qual seria o retorno para a empresa, se buscassem o que já nem pessoalmente lhes interessa? (Estamos a supor, exageradamente, que os repórteres debatem critérios de edição).

O jornalismo faz-se agora de acordo com um critério totalmente invertido, o mesmo critério do entretenimento de massas e da publicidade pura e dura: é notícia aquilo que a redacção fornecedora supõe que serve o desejo de consumo (não de “informação”, rarefeita e redundante, mas, em abstracto, de televisão, e, pela natureza do género, dos produtos e serviços associados). É notícia tudo o que servir este círculo de ganho empresarial e satisfação da curiosidade de consumo (e este serviço frequentemente pago é coordenado por empresas que pertencem a, ou empregam, “ex-jornalistas”, que produzem material com padrões sazonais de actualidade: a funerária com um serviço inovador; o ginásio com ofertas únicas; o tratamento revolucionário exclusivo de uma clínica; o que as crianças mais querem). É notícia a própria televisão (ao ponto de os canais terem notícias só suas: os seus próprios desmentidos da vida íntima das estrelas, os seus próprios eventos nacionais, os seus próprios furos políticos, geridos pelos seus próprios comentadores políticos).

Quem discute, entre nós, esta escandalosa mudança na prática jornalística? – que faz negociar-se a matéria informativa exactamente da mesma forma que se negoceia o espaço de prateleiras nos mesmos hipermercados e shoppings que a televisão ama como seus iguais (“Vem ao centro comercial porque é mais prático, porque há mais variedade, por causa da qualidade e dos serviços, ou um pouco por tudo isto?” – pergunta típica de jornalista de Natal).

“O consumidor está cada vez mais farto de telemóveis cheios de botões”, é uma frase que recordamos sempre, articulada por um profissional da informação, no momento em que segurava um novo produto com a extrema funcionalidade de não ter os intuitivos botões. Um profissional da informação não é capaz de franzir o sobrolho a uma falsidade estatística tão cómica? Que entidade multifacetada é esta, o Consumidor, cujas faces este jornalista parecia conhecer pessoalmente?

Uma sondagem inventada, em troca da venda de mais algumas centenas de telemóveis inflacionados?

Ficamos por aqui, com o lema escrito e falado de uma detalhada peça jornalística de Natal que conseguiu encapsular, ao mesmo tempo, a absoluta venalidade da profissão informativa actual e, paradoxalmente, a sua total indiferença à realidade:

“As famílias portuguesas procuram cada vez mais [os] hotéis de luxo para a ceia de Natal.”

 

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Artigo 3.º

Incompatibilidades

1 – O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de:

a) Funções de angariação, concepção ou apresentação, através de texto, voz ou imagem, de mensagens publicitárias;

b) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais;

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artigos estatutários in Estatuto do Jornalista, n’O Sítio do Sindicato dos Jornalistas

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Luz

Dezembro 15, 2008

 

 

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Fotografias de Loretta Lux.

“all images are copyright protected ©  Loretta Lux, VG Bild-Kunst, Bonn”

 

“Sasha and Ruby”, 2005.

“Portrait of Antonia”, 2007.

“The Irish Girls”, 2005.

 

vide galeria da fotógrafa

 

Ou Realismo Popular ou Cinema

Dezembro 11, 2008

 

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- Não me digas que estás a começar a gostar do Gonçalo.

- Eu? Estás louca? Só faço isto porque me dá gozo.

- Humm. Não sei, amiga.

- Ouve lá…

 

Parabéns Manoel de Oliveira.

Um Aniversário solidário.

 

Auto-Retratos

Dezembro 8, 2008

 

O sentido da cor, e de humor (aqui chegam a ser o mesmo) de Benoit Grimbert provocaram-nos uma recaída. Segue-se a série dos Auto/retratos. A fotografia é de dentro para fora.

 

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Florença

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Roma

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São Petersburgo

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Veneza

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Londres

 

na fonte.

 

 

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“Normandie”, série de Benoit Grimbert, completa no seu site homónimo.

Com graças a Mrs. Deane (e a Wood S. Lot, primeira fonte), blogue com luz clara que passa a figurar no nosso blogroll (ao fundo).

 

Odetta

Dezembro 4, 2008

 

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O New York Times deu o título “A Última Palavra/The Last Word” à entrevista que Odetta concedeu ao jornal, em 2007. A conversa acompanha agora o obituário da compositora, cantora e activista, junto a muitos testemunhos de leitores. Odetta ainda esperava actuar na cerimónia de 20 de Janeiro. Manteve sempre, diante da cama do hospital, um cartaz do presidente eleito.

 

Pausa (manhã e noite)

Dezembro 1, 2008

 

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Pandit Pran Nath (1918-1996)

Duas Ragas, em Ubuweb.