Fora

Fevereiro 24, 2009

 

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Foram talvez para Sintra, para buzinar no centro da vila velha, ao fim da Volta do Banho, a atormentar o cadáver do Romantismo, num carrossel de ofensa ao lugar, indignados com os carros uns dos outros. Ou foram antecipar o novo ataque às praias, e cheirar as areias que o mar ainda não acabou de varrer. Ou foram gozar a licença de ridículo desta data, na festa do desprezo pela contemplação. Há ainda menos carros que os que a bendita crise dos combustíveis tirou daqui. Há caminho livre nas ruas mais velhas de Lisboa.

 

 

Foto dramapessoal

À Espera

Fevereiro 20, 2009

 

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«Estavam à minha espera. Tirei três fotos. Esta foi a última.»

 

foto Jem Southam

da série «My best shot», Guardian

 

 

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«Voltemos ao início. Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? – injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

 

Maria Filomena Molder, «Uma Promessa do Deserto» (último parágrafo),
in A Imperfeição da Filosofia, Relógio d’Água, 2003.

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Amanhã, festeja o rebanho. Hoje, e quando calha, tantas vezes quando não calha mesmo nada, festejam os outros. Festejam é como quem diz. Muitos acham que palavras como «amor» têm um sentido muito claro. É porque não sabem nada de Linguística, disciplina sócio-científica que nos diz que as palavras mais usadas de uma língua são, por isso mesmo, as mais ambíguas, i.e., mais polidas de algum depósito de sentido, e mais facilmente conformadas aos muitos pequenos círculos em que são usadas. Círculos muito pequenos, tantas vezes.

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Para o dia da colectivização da intimidade, escolhemos uma curta-metragem que alguns ainda não viram, felizes de frescos. Podem ir a Zinnaglism, se quiserem perder a frescura.

 

- Have you slept with anyone?
- No. Have you?
(pausa)
- No.
- That was a long pause.
(silêncio)
- I guess it doesn’t really matter.
- No it doesn’t.

[...]
- If we fuck, I’m gonna feel like shit tomorrow.
- That’s okay with me.

 

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Hotel Chevalier, de Wes Anderson, com Natalie Portman e Jason Schwartzman (12:59).

 

Boa Altura para o Negócio

Fevereiro 11, 2009

 

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O poder de efabulação de actores e texto é o mais valioso do teatro em relação à restante praça, neste tempo de articulação vácua e ficção a granel. Interessa-nos muito mais o teatro como arte de concentração e economia. Aí é que se ouvem os ruídos humanos.
Interessa-nos tanto isso que temos fugido ao arco enorme da cena italiana, onde, geralmente, a montanha vai parindo ratos.
Quando acontece Beckett, e, quanto a nós, teatro propriamente dito, há-de fazer-se muito com o que parece pouco. É o que acontece em Lindos Dias.
Este espectáculo consegue criar um Outro Lugar.
Cai até no excesso de zelo de se meter numa sala quase escondida, se bem que perfeitamente ajustada à cena: o montículo em lugar nenhum onde Winnie se vai enterrando, enquanto fala copiosamente para não se ouvir.
Deixamos a chamada crítica aos assalariados. Queríamos aqui dizer que ainda temos no ouvido a cantiga final de Winnie, gratos por a termos visto renascer toda inteira no nosso idioma falado, e, já agora, cénico: tão delicada, num campo deserto que se estende para além daquela sala, todo semeado de trambolhos.
Estreou quarta-feira, há uma semana. Ao preço de um ou dois copos a menos, daqueles que já caem em saco roto (7,5 eur) nos bares logo acima, no «Bairro».

 

Lindos Dias [Happy Days] de Samuel Beckett | encenação Bruno Bravo | com Raquel Dias e Gonçalo Amorim | cenário Stephane Alberto | tradução João Paulo Esteves da Silva | apoio à dramaturgia Miguel Castro Caldas | figurinos Ana Teresa Castelo | co-produção Primeiros Sintomas & Galeria Zé dos Bois
De 4 a 21 de Fevereiro, de quarta a sábado às 21:30 no NEGÓCIO/ZDB,
Rua do Século 9 – porta 5, Lisboa
Tel: 213 430 205

 

 

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«Sim. Cortei as velhas árvores; e espalhei a luz eléctrica por todos os salões e corredores… Uma limpeza perfeita. Compreendes?»

 

 

Teixeira de Pascoaes, O Bailado, 1921.

 

beauty «Não há nada que seja feio. Nunca vi nada que fosse feio em toda a minha vida, pois seja qual for a forma de uma coisa, a luz, a sombra e a perspectiva poderão sempre torná-la bela.»

John Constable

«Não há nada que seja tão belo que, sob certas condições, não se torne feio.»

Oscar Wilde

«És a mulher mais linda que eu já vi na minha vida, o que não te favorece grande coisa.»

Groucho Marx

 

 

 

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O Guardian dedicou no sábado uma página interactiva à velha zona dos livros da Charing Cross Road. Vale a pena ver os três curtos filmes de minuto e meio sobre a Murder One, a Any Amount of Books e a Quinto, e espreitar as caves das duas últimas.

O título da peça, qualquer coisa como «O Desvanecente Mundo dos Livros», é demasiado drástico (ou demasiado livresco), mas acaba por oferecer-se uma comoção bastante suave, a propósito do fecho da livraria Murder One, casa especialista da ficção do crime e mistério, vítima da mudança de hábitos (de percurso a pé, de busca e encomenda de livros, de consumo, em tempo de credit crunch).

Já tínhamos visto fechar outras casas daquela rua, na crise de 1992. Assistimos a uma enorme mudança, em 2002, quando descobrimos a desarrumada, labiríntica e infinita Foyles convertida em loja de grandes novidades, limpa, colorida, sem surpresas e cheia de manuais de estilo de vida e fitness. Muitas das outras livrarias foram transformadas em Waterstones, ou semelhantes, todas com os mesmos destaques, os mesmos chamarizes, cheias daqueles objectos que valem seis meses de conversa e ocasionalmente alguma fraca filmografia, a que famosamente Alexandre O’Neill chamou as bestas-céleres.

A Waterstones Booksellers até comprou a verde-escura Hatchards («desde 1797»), a livraria que aceita listas de casamento, e a cuja modesta página também é possível aceder através da página do grossista do livro («Waterstones – discover something new»).

Na cave da Any Amount of Books encontrámos uma cópia da edição Arden d’A Tempestade de Shakespeare, Segunda Série, comentada por Frank Kermode, para substituir a que afinal não tínhamos perdido (a edição de Kermode reinou desde 1954 a 1999 como edição universitária). E pudemos conversar com quem estava na loja sobre pormenores da superioridade dessa edição em relação ao volume da nova Terceira Série (uma coisa carregada dos clichés do multiculturalismo, cheia de pobres escolhas textuais e inchada de falatório, montada por um casal de suburbanos new age que agradecem aos cães e um ao outro a companhia e o mau serviço).

Isto tudo para contrapor à pequena tragédia lenta da rua de Londres o que se passa em Lisboa, no Calhariz, e pela Calçada do Combro até ao Poço dos Negros (incluindo a boca da Rua d’O Século, a caminho da nova sala de teatro «Negócio», a cargo da Zé dos Bois), onde se têm juntado mais lojas dedicadas aos livros sem tempo, e onde há quem conheça o que vende – para quem o que saiu hoje ou vai sair para a semana só talvez interesse daqui a uns bons anos.

 

Guardian: «Charing Cross – the fading world of books»

(Na página de abertura, clique «Next», no canto inferior esquerdo, e, no mapa, em cada video-bt para os mini-vídeos; nos quadrados vermelhos para as fotos).