Boa Altura para o Negócio
Fevereiro 11, 2009

O poder de efabulação de actores e texto é o mais valioso do teatro em relação à restante praça, neste tempo de articulação vácua e ficção a granel. Interessa-nos muito mais o teatro como arte de concentração e economia. Aí é que se ouvem os ruídos humanos.
Interessa-nos tanto isso que temos fugido ao arco enorme da cena italiana, onde, geralmente, a montanha vai parindo ratos.
Quando acontece Beckett, e, quanto a nós, teatro propriamente dito, há-de fazer-se muito com o que parece pouco. É o que acontece em Lindos Dias.
Este espectáculo consegue criar um Outro Lugar.
Cai até no excesso de zelo de se meter numa sala quase escondida, se bem que perfeitamente ajustada à cena: o montículo em lugar nenhum onde Winnie se vai enterrando, enquanto fala copiosamente para não se ouvir.
Deixamos a chamada crítica aos assalariados. Queríamos aqui dizer que ainda temos no ouvido a cantiga final de Winnie, gratos por a termos visto renascer toda inteira no nosso idioma falado, e, já agora, cénico: tão delicada, num campo deserto que se estende para além daquela sala, todo semeado de trambolhos.
Estreou quarta-feira, há uma semana. Ao preço de um ou dois copos a menos, daqueles que já caem em saco roto (7,5 eur) nos bares logo acima, no «Bairro».
Lindos Dias [Happy Days] de Samuel Beckett | encenação Bruno Bravo | com Raquel Dias e Gonçalo Amorim | cenário Stephane Alberto | tradução João Paulo Esteves da Silva | apoio à dramaturgia Miguel Castro Caldas | figurinos Ana Teresa Castelo | co-produção Primeiros Sintomas & Galeria Zé dos Bois
De 4 a 21 de Fevereiro, de quarta a sábado às 21:30 no NEGÓCIO/ZDB,
Rua do Século 9 – porta 5, Lisboa
Tel: 213 430 205