Este vídeo é falso, não liga. O de baixo também é totalmente falso.

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Entrevista completa, no jornal Guardian

 

[texto do Guardian] Gilbert e George nunca casaram, preferindo, dizem, «viver em pecado». «Queremos ser esquisitos normais», diz George. «Não queremos estar informados, como toda a gente está, porque nesse caso não teríamos nada para dizer». A orientação política de George parece brotar do mesmo impulso: «Eu não sou nada, mas o George é Conservador», diz Gilbert. «Estranhamente, isso é perfeitamente aceitável para qualquer taxista, qualquer empregado de mesa, mas não no mundo da arte», diz George. «Para eles, a esquerda é bom. E a arte é esquerda». Gilbert acrescenta: «Eles acreditam na igualdade. Nós não. Nós queremos ser diferentes».

 

 

[Estranhamente para qualquer taxista, a foto do artigo foi trocada, de uma que mostrava os artistas a fazerem o icónico boca-a-boca-dos-dedos para outra com ambos perfilados, no icónico duelo de gravatas e fatos, até ser substituída pelo vídeo com que fizemos este jogo gráfico rudimentar.]

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Números

Junho 21, 2009

 

Recebemos um e-mail de uma amiga com uma foto de outra amiga. Algures no bairro da Graça, em Lisboa.

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A responsável da Educação achou que os números dos exames eram óptimos, embora não soubesse quais eram os números. Embora ainda não soubesse que não se trata de números. Não leu aquele jornal inglês que dizia que, na Europa, há três maneiras de tratar os números da educação.
A primeira é fazer como os ingleses: apresentar os números verdadeiros e falsificar nas desculpas. A segunda é fazer como os italianos: falsificar os números. A terceira é fazer como os gregos e os portugueses: falsificar o sistema para conseguir os números certos.
A Sociedade Portuguesa de Matemática respondeu aos números: pôs miúdos a fazerem os exames dos anos seguintes ao seu nível, com resultados integralmente positivos. Segundo um professor envolvido no estudo, as provas actuais estão armadas com um mínimo de perguntas de matéria não estritamente matemática, de senso-comum e lógica ao nível do senso-comum, para garantir um nível mínimo positivo.

No meio da confusão, os putos é que são números. Os putos ardinas, como o do boneco, treinavam com os trocos, e não era mau, quando havia trocos.

 

Eu sou a minha mãe

Junho 17, 2009

 

Uma das fraquezas da ficção dramática popular, para além do maniqueísmo católico que racha a sua colecção de tipos básicos em dois grupos, os justos e os perversos (há um terceiro grupo, o dos figurantes, parte dos quais falam), é a falta de um elemento de escrita que no teatro romântico dava pelo nome de «grande deixa»: a tensão de uma cena resolvida numa fala, ou numa riposta a uma fala.

 

Prusik-Parkin

 

O novaiorquino Thomas Prusik-Parkin foi recentemente forçado a levar à cena da sua própria vida este recurso estilístico, e fê-lo com eficácia. Foi acusado de falsificação de documentos, fraude, uso de falsa identidade, e etc, depois de ter usado peruca, vestido, maquilhagem e óculos escuros para se fazer passar pela própria mãe, falecida em 2003, e poder receber, em nome dela, cerca de 115 mil dólares em benefícios sociais e subsídios de renda.

Quando foi preso, declarou às autoridades: «Segurei a minha mãe nos meus braços enquanto morria, e respirei o seu último suspiro. Portanto, eu sou a minha mãe».

 

via BBC NEWS

 

 

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Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.

 

foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas

 

Tudo de férias

Junho 8, 2009

 

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A flagelação (também conhecida como auto-flagelação) é um passatempo nacional em que não gostamos de ter grande parte. Mas…
Mas que país curto o do chamado rescaldo das eleições. A retórica notarial do idoso precoce que «ganhou» as eleições, as outras vitórias todas, os discursos de junta de freguesia nacional, as previsões, oh, as previsões, os hotéis vazios, os jovens, os agradecimentos aos jovens, a festa, enfim, por um milhão e cem mil votos, a conta de uma vitória magra numa cidade europeia média. E a lírica de: «É jota, é dê, é jota-ésse-dê».

 

Ser-se Natural

Junho 4, 2009

 

«O ser-se natural é simplesmente uma pose, e uma das poses mais irritantes que conheço».

A entrada anterior poderia ter sido substituída por esta, do manuscrito de «Frases e Filosofias», que Oscar Wilde tanto apreciou que ofereceu ao seu Lorde Henry, de O Retrato de Dorian Gray. Curioso é como um princípio que opõe a verosimilhança cénica à «naturalidade» apareça sob a forma de uma regra de postura no convívio social, num fingimento que transforma a etiqueta na arte cénica por excelência, e, por implicação, todo o «realismo» numa falta de regra, ou quando muito, numa insolência simples. O que Wilde sabia bem, e alguns da cena fingem que não sabem, é que a representação dramática se move sempre, quer se queira quer não, num palco social mais-que-verdadeiro, sejam quais forem os efeitos oferecidos ao estimável público: a naturalidade é um preceito estético da classe-média, tanto quanto o teatro urbano português é uma arte de classe-média, e mais do que nunca quando não se toma como tal. E, já agora, nada há mais classe-média do que a ansiedade de verificar e medir a relação da arte com o dinheiro público. Nada mais propenso à imaterialidade e à fraude do que a mais-valia artística. Enfim, a classe-média, por definição, lida mal com imaterialidades: financeiras, estéticas, morais.

 

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O Artifício Agradável

Junho 2, 2009

 

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No teatro, ou noutras artes, eis o que muitos ignoram e Boileau já sabia, à sua maneira, no auge do neoclassicismo francês. Que:

 

………………………………………. o artifício agradável,
Do mais afrontoso objecto, faz um objecto amável.

(Boileau, Arte Poética, Capítulo 3)

Todas as épocas têm o seu catálogo de tiques estéticos, que fornecem a público e artistas as suas fugas satisfatórias. E, em larga medida, as épocas artísticas constroem a sua segurança vilipendiando os tiques das épocas passadas (mas não vencidas). Os tiques de muitos de agora, em cena, tendem para o inverso do que Boileau acreditava, e certos actores sabem melhor correr (sim, em palco) ou cuspir, ou mastigar impropérios, do que articular completamente, ou, já agora, projectar com rendimento, ou, agora ainda, estar.
Ou seja, a voga presente tende para a convicção de que o artifício desagradável (para usar os termos de Boileau) faz de todo o objecto amável o afrontoso objecto procurado.

 

 

Pormenor de livro exposto no escaparate da Livraria Sá da Costa,
Chiado, Lisboa, com alegoria de louvor a Boileau
(elástico que prende a página à vista, à esquerda).

 

Queres saber

Junho 1, 2009

 

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