Editorial nº2
Este é um blogue pessoal de amor à arte.
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Editorial nº1 (Novembro de 2007)
Não pretendo escrever, como já fiz, em nenhum órgão de comunicação, como se diz. Portanto, faço-me ao virtual.
Conheço o termo de língua inglesa para o acto de publicar por publicar: «inverse vandalism», i.e., vandalismo invertido, ou, melhor, vandalismo passivo: o acto de usar um suporte público como o blogue só porque se pode. Ninguém saberá o que tomei ao pequeno-almoço, nem que animais prefiro, ainda que as minhas preferências vão para os animais.
Este blogue é dedicado à emoção artística, conforme se pode alcançar e partilhar na Net, especialmente em suporte gráfico, fotográfico e escrito, os menos poluentes e invasivos. Interessa aqui a emoção artística por si. E a emoção artística como fonte de liberdade política.
Oscar Wilde perdoaria este segundo passo de idealismo, se visse como a Net espalha do mesmo modo contagioso a liberdade e as formas de estupidez e crime que a minam.
Este blogue gosta de gatos e, muito, da pintura de Edward Hopper, e até da sátira ao picante político de captação televisiva, ou, não tanto, das meditações sobre as profundezas e as simplicidades do suspiro e do olhar, mas vai evitar a todo o custo esses transportes públicos locais (talvez já ninguém entenda o sentido figurado de «transporte»).
O blogue deve procurar, e também deve trazer. Assim se fará. O teatro, a que dedico o meu trabalho, merecerá a sua atenção, se bem que com distância. O meio é pequeno. Quem está no meio, está mesmo no meio. Pede-se pouco barulho. As notas sobre espectáculos vão ser raras. Creio.
Este blogue também responde a um novo aspecto que a Net trouxe ao deserto comunicativo do teatro em língua portuguesa europeia: as sentenças sobre espectáculos em estilo de querido diário analítico, ou apenas sem estilo, mas muitas vezes maldosas e exibicionistas na razão indirecta da sua inteligência, da parte de quem se exprime, como diz a sabedoria Zen, antes de ter nascido e antes de se vestir.
Feita a busca de uma peça em cartaz, de que queremos conhecer o horário ou a ficha técnica, por exemplo, ou matéria de divulgação, somos obrigados a cruzar-nos com repentes declarativos que escapam à razão (e aos correctores ortográficos), da parte de pessoas sujeitas a intenso desacerto cognitivo.
Mas Drama Pessoal não é um blogue de teatro. Tudo o que se intitule «de teatro» que não seja um espectáculo merece suspeita.
Nas listas temáticas nunca aparecem muitos blogues «de teatro». Faz todo o sentido. Tal como os objectos da arte que ama, o verdadeiro blogue de teatro sabe que tem de ser ágil, continente e incontido. O resto são guias complementares da hotelaria.
E eis outro dos interesses deste blogue: a recolha de reflexões sobre o vazio documental e arquivístico da Net no presente, as aparências da sua riqueza e o vazadouro que a coisa também pode ser, de acordo com alguns que, apesar de tudo, têm nela o seu posto de observação. Buscarei lugares sólidos, às vezes disfarçados de meras curiosidades. E tratarei de ligá-los, resistindo à torrente.
Este blogue tratará de juntar materiais com links para outras línguas, especialmente o inglês, língua franca da Net, porque a minha pátria é toda a língua que não está presa. Não aportuguesarei à força termos que são ferramentas passageiras do mundo em movimento e não têm raízes nem relações familiares na nossa etimologia.
Stress é stress. Link é link. Site é site. São palavras universais, multiusos, sem bandeira, como igloo (tristemente extinto), ou kiwi, ou vodka, Nosferatu, sushi, King Kong, bunker, robot, Batman, Dvd, bongo, flash, post mortem, Titanic, e mesmo iceberg, bacon, quid pro quo, chantilly, cocktail, Empire State Building, Chrysler Building, pizza, pasta, alien, ménage à trois, baked beans, Flamenco, lingerie, Big Ben. Só localizarei «blogue» porque tem um som cómico, porque lembra blague (palavra queirosiana) e porque é uma sigla e pode moldar-se mais à vontade (web+log).
Voltando ao assunto. Não acredito no infinitamente enfadonho «problema do teatro português», que parece consistir, em parte importante, na falta de autores e de obras originais. O problema não está no teatro, está no Drama, fenómeno muito mais amplo que o palco. Em terra onde não há Drama não há teatro, esse chão onde se concentram e recriam os combates vitais. Se os houver.
Sobre o teatro português escreveram-se e escrevem-se alguns dos textos mais dormentes, burocráticos e recurvados de toda a língua. O teatro não tem nada a ver com aquilo, tenho a certeza inteira e absoluta.
O Drama será um interesse deste blogue. Uma sociedade que cultiva o remédio do esquecimento, a prudência, o adiamento, o eufemismo, o circunlóquio, a redundância, a ocultação da prova e do crime, da paixão e até da personalidade - ou seja, que cultiva as mil formas do desvio afirmativo - não pode ter drama artístico. Não o quer, não precisa dele. O Drama é Humberto Delgado. Portugal é muito mais Salazar, essa figura de síntese de séculos de paternidade transida de Espírito Santo. É incerto se o país apenas se calou ou mandou calar o autor da maior deixa dramática do seu século.
Trato este blogue por «almanaque» porque pretendo que seja aberto à curiosidade, e só por simpatia informativo.
Este blogue também não pretende ser mais uma daquelas estranhas compilações de frases feitas a que se costuma chamar, com alguma graça, «a reflexão em torno do teatro». Não gosto de tornos de reflexão. E de teatro, assim no geral, também não.
A poesia é uma arte vigorosa. Mas pouco há de mais nulo do que muito do que corre com esse nome, que só desacredita e encobre o que tem valor. Esse o perigo das grandes tabuletas. Não é o teatro. São certas peças, autores, artistas, maneiras de fazer. Coisas singulares.
Mas este não é um blogue de crítica. Nunca tivemos tantos na profissão de opinar sobre o espectáculo. Alguns mesmo ligados a organizações internacionais, para jovens ou para adultos, outros a jornais «de referência», um termo não se sabe se roubado à moda se à finança, talvez referente ao hábito que os portugueses têm de «referir» sem terem lido tudo até ao fim. Quem escreve aqui não gosta de sair de um espectáculo a falar dele. Muito menos para falar dele.
Não há nada de novo sob o Sol, mas há muitas novidades. Vivemos numa época oficinal. O espanto é maior pelas ferramentas do que pelo uso que se faça delas. Muitos blogues não passam de colagens de ideias parvas (ou seja, etimologicamente, pequenas), seguros de que são mais rápidos do que os livros só porque são feitos de cromos intermitentes. No mundo dos blogues, toda a ilha deserta se acha no centro do mapa. Mas, até por isso, para criar desequilíbrio dinâmico, vale a pena pôr mais uma bandeirinha a um canto.
Por fim: este blogue são dois. Na página Electricidade irão estando disponíveis, como um dia estiveram nas paredes e nos cantos vazios dos cartazes de Lisboa, os escritos de António da Silva Teixeira Electricidade, copiados dos blocos de notas que pude ir enchendo, enquanto ia no meu caminho, pelo fim dos anos 80 e adentro dos 90. Um dia não muito distante a colecção estará completa e assim ficará à disposição de novos leitores. Senti sempre o dever de devolvê-la a quem passa.
Bem-vindos.
Fernando Villas-Boas
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