Este Verão Cru

Agosto 3, 2009

 

 

Riviera - Palm Springs - small

 

Este Verão cru continua o seu estrago. Deixou agora o seu posto de observação elevado o escritor M.S. Lourenço, tradutor de Wittgenstein e autor de obras como O Doge (sob a capa de tradutor do Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov) ou Os Degraus do Parnaso, volume de crónicas devotado, em parte importante, à contradição do culto da novidade e da mudança pela novidade, instaurado nas artes e nas vidas pelo império daquilo a que Adorno chamou «A Indústria da Cultura» e alguns chamam, por ser isso o que chamam a tudo o que os cerca, «A Arte Pop».

Devemos-lhe alguns dos poucos ensaios de qualidade que temos sobre Cesário Verde (poeta que tem sofrido terríveis assaltos de banalidade académica) e devemos-lhe o mais digno e bem-humorado obituário da velha Estrada de Sintra, sob a forma de um ensaio intitulado «À sombra das acácias em flor», que seria leitura obrigatória das classes aprendizes que habitam o erro urbanístico alternativo aos campos que foram dessa Estrada, fossem leitores de Literatura os programadores e muitos dos professores que por esses sítios exercem a sua rotina de nivelamento das imaginações.

Não é do extraordinário ensaio «Epopeia crepuscular», louvor de «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, que guardamos uma amostra, mas de «À sombra das acácias em flor», lamento pela devastação estética e ambiental que os povos da periferia lisboeta identificam com a modernidade, ou, como famosamente cunhou o mais alto magistrado da nação, «o pogresso»:

«Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida.

Sobre a linha dos telhados ergue-se um enorme bloco em construção, com a aparência de ser uma das muitas modernas garagens de cinco pisos de altura, onde os muitos automóveis do Cacém vão poder ser arrumados para descanso dos seus proprietários […]. Qual não foi a minha surpresa quando há duas semanas o bloco entrou numa nova fase de construção, da qual se segue, irrefutavelmente, que se trata afinal de uma igreja e, assim, em vez dos automóveis, terão que se arrumar lá dentro as almas do Cacém. É a estas almas do Cacém que, no escasso e sincopado vocabulário do dialecto tropical que agora se fala, vai ser transmitida a doutrina do Infinito, […]»

 

Os Degraus do Parnaso está disponível numa edição Assírio & Alvim.

 

 

Tivemos umas indignações cívicas, que já calámos e apagámos.
Preferimos fugir à opinião como fugimos ao «show aéreo» que atraiu duzentos mil – ó balão – ou fugimos às «actividades de Verão do agrado de todos» ou mesmo ao «campo de treino para jovens muçulmanos convertidos ao Islão», uma sugestão jornalística típica da época balnear.
Saudamos Merce Cunningham na sua partida, aos noventa anos, e podíamo-lo ter feito com outros, como o actor Karl Malden (ou Mladen Sekulovich, de mãe checa e pai sérvio). A perda de Pina B. entristeceu mais, pela impressão de incompletude do seu caminho, mas completo, afinal, só o universo ptolomaico, em que já só as tirinhas astrológicas e os programas de trash-talk acreditam, ou seja, quase toda a gente.

 

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Na partida de Merce Cunningham vamos buscar um pequeno testemunho que um português depositou na página dedicada à notícia no jornal Público, porque há um português sempre, em cada acontecimento planetário, e chega a ser comovente o português ausente, como no desastre que causou duzentas vítimas, menos o português, felizmente. O texto fica aqui como foi publicado, evidentemente truncado no início, e nalguma dactilografia.

 

esta era a forma como nos compnheiros de trabalho nos referiamos ao senhor Merce Cunningham, e e espantoso como tem que falecer uma pessoa para que possamos saber a grandeza da sua historia. Sou um imigrante nos E. U. A. e tenho 20 anos a trabalhar no predio a onde este o mister Merce tem o seu apartamento, tem 16 janelas com frente para 6=a avenida que foram subestituidas por novas e por mim, e que foram feitas e importadas de Portugal, em Pinheiro da Bemposta O. de Azemeis de onde sou natural Orgulho de Portugues

de Manuel Ferreira, New York, U.S.A.

 

Não, nunca

Julho 9, 2009

 

 

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Não, não estamos na praia.
Nunca, nunca quisemos que este blogue fosse a coisa vagante que o género pede e acabámos por cumprir.

Cremos naquilo a que se chama o jornalismo popular (pelo menos na sua melhor expressão), tanto quanto não cremos no novo jornalismo profissional em estilo faça-você-mesmo.

Mas estamos em retiro, depois de um confronto com o sistema legal-policial português, mais a sua aplicação aleatória e selectiva da letra da lei, com o seu estilo 1940 com internet e multibanco.

Abdicámos das nossas contribuições cívicas, e estudamos neste momento a melhor forma de desobedecer civilmente de forma sistemática, sem maior prejuízo financeiro.

 

 

 

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«Voltemos ao início. Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? – injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

 

Maria Filomena Molder, «Uma Promessa do Deserto» (último parágrafo),
in A Imperfeição da Filosofia, Relógio d’Água, 2003.

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Mais Luz

Dezembro 21, 2008

 

Voltámos a não saber calar para observar. Por isso cedemos o espaço à arte que sabe fazê-lo.

 

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Fotografias de Wayne Sorce, da série «Chicago, IL, ca. 1970».

 

Com louvor à Galeria Joseph Bellows

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Agenda

Novembro 30, 2008

 

 

une Chambre a L’Hotel Matignon

 

et du Travail a Paris

PIF

 

 

Com este pequeno enigma sem data de António da Silva Teixeira Electricidade, aparente homenagem ao seu próprio caminho de trabalho por França (enigma de tão compacto, e porque «Hôtel Matignon» é também o nome da residência oficial do Primeiro Ministro de França), marcamos o regresso à publicação dos seus textos, na página própria.

Imagine-se o escrito de Electricidade rascunhado, não, gravado num resto de cartaz molhado, e visto à luz dos muitos amarelos da hora-de-ponta de inverno, entre gente que não repara, água fria, impaciência automóvel, e recupera-se algo da capacidade que a mensagem teve, na sua parede, para fazer parar e pensar noutro tempo, e numa experiência estranha.

 

Um ano

Novembro 24, 2008

 

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Drama Pessoal fez ontem um ano.

As opiniões, mesmo recentes, escritas na retórica cívica contrariada de que sempre nos arrependemos, foram. Os textos livres e as imagens que buscámos ou fizemos, mais as suas relações, persistem.

Queremos, como se diz na moda, explorar a segunda tendência. Queremos um blogue ainda mais surdo, como se diz, ao que nos cerca.

Aos blogues interessa, cremos, o princípio de William James, para quem a sabedoria consiste no saber do que vale a pena ignorar.

Não falámos muito de teatro. Uns apartes técnico-líricos de louvor aos amigos actores. Nada de grave. Aí soubemos fugir à opinião.

Não cuidámos intensamente da edição do escritor Electricidade, na sua página própria. Essa edição avançará mais depressa até completar-se.

Obrigado pela companhia.

 

Pouco tempo

Outubro 19, 2008

 

 

 

Temos tido muito pouco tempo.

 

 

Pausa

Outubro 2, 2008

 

 

Pausa. Tirando Sai, e outras assim curtas que pedem muito pouco, Pausa é a didascália mais vulgar, mais impessoal e mais vazia (cheia de possibilidade, para um actor) da escrita teatral do nosso tempo. Às vezes, é um fio de prumo num poço.

Celebramos o primeiro aniversário do lançamento em Dvd de Je Vous Salue, Marie, de Godard, e tencionamos falar disso. Entretanto, uma amiga actriz de palco pôs-se a interrogar pela razão de ser do seu trabalho, e é talvez esse mesmo o osso mais sensível do seu ofício. A fractura exposta do seu ofício. «Aceito a pausa, mas não vou tolerar mais do que isso», foi uma resposta possível. «Só posso mostrar-te alguns colegas na pausa deles. Estão como aquele parceiro que soube dessa vontade de parar e não te disse nada. Abraçou-te e andou. Porque sabe que nada mais passa e já lá esteve». Em palco ou fora dele, a pausa é trabalho.

 

Actores fotografados: Kristin Scott Thomas, Jeremy Irons, Ian McKellen, Julie Walters.

 

Fotografia: Simon Annand via Times Online

 

A Alegria

Setembro 6, 2008

 

“Penso que a alegria é uma falta de entendimento da situação em que nos encontramos”.

 

 

Andrei Tarkovsky: Interviews, ed. John Gianvito

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via, com agradecimento, Spurious, entrada de 1 de Setembro.

 

foto dramapessoal

A Contracena

Julho 14, 2008

 

 

As duas contribuições na entrada anterior completaram-na tão redondamente que nos deixaram em silêncio.

Duas pessoas que conhecemos do irreal quotidiano e da cena reagiram à evocação que o pintor hiper-realista Richard Estes fez da profissão do actor, falando do que será comum às duas artes, em planeamento, em controlo artístico, em execução técnica.

Estamos todos com Oscar Wilde, se negamos uma visão sentimental da expressão artística como maná criativo de um ego mediúnico (ou mediático, num certo presente) e espontâneo. Sim, com bons sentimentos não se faz senão má poesia. O pintor Richard Estes pôs o seu acento no trabalho de repetição do actor, para comparar as faces conscientes dos esforços cénico e pictórico.

Mas uma das duas reacções imediatas ao pequeno texto do pintor que pusemos neste blogue levantou a enorme lebre da contracena. Que rigor pode haver na contracena? Que controlo? Que plano? Que medida? No panorama de uma cena construída, que canais cria esta ou aquela contracena, mais ou menos sensíveis, de dentro e para fora?

A contracena é a maior interrogação do teatro. A maior das peças é um estudo da contracena: Hamlet.

Pensar a contracena empurra-nos para o nevoeiro de energia e dúvida daquela peça. O dilema de Hamlet é o do actor, se o virmos repartido entre dois fossos, o da introspecção e o da expressão. O Fantasma, a voz que instrui, é verdadeira ou falsa? É verdadeira e falsa.

Nós aqui nem conseguimos – epígonos ainda mais ansiosos de Hamlet – chegar a pensar a contracena. “Pensar” é logo o nosso problema. Isto é: até que ponto será produtivo pensar o teatro, se é óbvio que pensar no teatro é sempre um problema?

 

 

David Mamet (preferimos o pensador da cena ao autor, porque pende melhor para o primeiro fosso), mexeu neste lodo do pensamento e da cena com o pragmatismo da sua escola. No capítulo “Find Your Mark/Encontra a Tua Marca” (eis mais um pequeno eco do sarilho hamletiano) do livro True and False, tenta ser o mais categórico possível:

 

Por mais que nós, gente do teatro, gostemos de nos ver como intelectuais, não o somos. A nossa profissão não é uma profissão intelectual. O saber literário inteiro do mundo, as «ideias» todas, não vão capacitar ninguém a fazer Hedda Gabler, e toda a conversa sobre o «arco da personagem» e «baseei a minha personagem nisto…» é tudo babugem. Não há nenhum arco da personagem; e é tão inútil basear uma personagem numa ideia como é basear uma relação amorosa numa ideia. Essas frases não passam de talismãs do actor, que lhe permitem, a ele ou a ela, espantar o mal, e o mal que tentam espantar é o terrível imprevisto.

Essas frases e rituais mágicos são esconjuros para diminuir o terror de sair à frente de corpo nu. Mas é assim que o actor sai à frente, queira ou não queira.

 

O terrível imprevisto é o chão da contracena.

Pensar o terrível imprevisto é uma actividade condenada à contradição. O livro de Mamet nega ali a sua própria razão de ser, e ao mesmo tempo é certo que um livro sobre o teatro assim faça. O pensamento do teatro é um desertor do palco, e tem de viver com essa condição. Mas, queira Mamet ou não, tem de viver.

Tem de viver, por exemplo, para que um workshop sobre Hamlet suba acima de algumas inquietações caseiras, como aquela a que um amigo assistiu no ano passado: «Se o meu tio matasse o meu pai e casasse com a minha mãe, eu também ficava chateado. Não é?»

Não. Não é. Para chegares à «chatice» de Hamlet precisas de mais que da tua mãe.

 

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Pintura de James Ensor. Dois quadros de 1891:

“Esqueletos disputando um arenque fumado”
“Esqueletos disputando um enforcado”

 

O Estrado

Junho 25, 2008

 

Incomoda-nos tanto descair para o dia-a-dia. Mas decidimos louvar o Estrado.

Consta que em várias escolas, por indicação da responsabilidade directa ou indirecta do Ministério da Educação, os estrados foram retirados das salas de aula «para que os professores fiquem ao nível dos alunos».

O princípio entre aspas tem um potencial caricatural que fala por si.

Os burocratas estruturalistas que administram a catástrofe educativa, vendo bem, têm, na sua grande massa, apenas um defeito: nunca deram aulas.

Caso contrário, saberiam respeitar o estrado.

Um, o estrado pode ser contornado. E o efeito dramático da descida do estrado não é de desprezar, assim como o da subida. Quem quer que tenha tido um grande professor sabe do que falamos.

O estrado não impede a aproximação. Apenas encoraja a que o seu momento seja escolhido, controlado pelo professor, em vez de uma mera sujeição ao espaço.

Dois, o estrado é um palco. O seu uso traduz-se num enorme ganho acústico. Quando o professor fala do estrado, na maioria das salas, todos os alunos ouvem melhor e por igual. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Três, enquanto palco, o estrado permite, na maioria das salas, muito melhor visão de todos os alunos em relação à figura do professor ou a qualquer material exposto. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Quatro, o estrado permite ao professor uma visão completa da sala em qualquer momento, o que lhe permite atender instantaneamente o contacto dos alunos sentados nas cadeiras recuadas, em vez de se aproximar de alguns virando as costas a todos os outros. Verdadeiramente ao mesmo nível. Os alunos.

Cinco, o que não vêem os que chegam à teoria pelo caminho da estupidez empírica: enquanto palco, o estrado permite aos alunos que subam a ele, e demonstrem, exponham, expliquem aos colegas numa posição que tem todas as qualidades da mais elementar arte dramática, e lhes permite o que esta escola lhes nega constantemente ou não sabe permitir: um teste formal à autonomia da sua voz individual.

 

O mundo

Junho 20, 2008

 

 

 

 

 

 

“O mundo é independente da minha vontade.”

 

proposição 6.373, Tractatus Logico-Philosophicus, Ludwig Wittgenstein

 

 

Pousámos um livro “outro dia”. Voltámos a pegar-lhe. Como outros, tinha um marcador de ocasião. Um talão de pagamento, do dia em que pusemos de parte essa leitura. Outro dia foi em Dezembro de 2003.

A nossa investigação adentro dos postais antigos que dedicámos a Bernardo Soares termina com esta segunda amostra de três pormenores. Sempre conhecemos o cavalheiro à esquerda como “O Patrão Vasques”. Ter-se-ão cruzado, esta figura de Vasques e o escriturário conhecido como “O Sr. Pessoa”? E o eléctrico No.245, ainda existe? Neste dia, ia para a Graça. Pela sombra, é de manhã, talvez dez da manhã, com sol já forte.

 

 

Na imagem que segue, a arcada oeste do Teatro Nacional D. Maria II mostra com mais nitidez o cartaz com o nome da peça em cena: “Mimi”, que permitirá datar exactamente o postal. Não sabemos se esta Mimi será a personagem do romance de Henri Murger Cenas da Vida Boémia, que inspirou as duas La Bohème (de Puccini e Leoncavallo), por exemplo. Ainda não conseguimos descobrir um registo do espectáculo. Talvez uma das tais peças traduzidas do francez, de um teatro imitado quase sem autores.

 

 

Na balaustrada do primeiro andar do Teatro, falta uma colunela, talvez a folga para um estandarte. Ainda faltam bastantes anos para o grande incêndio, mas as janelas já chamam por ele, de tão encardidas. A segunda, e especialmente a terceira a contar da esquerda, estão claramente empenadas.

 

 

A partir de postais do fotógrafo Otto Auer.

Otto Auer fotografou toda uma série de postais de Lisboa, reproduzidos na Alemanha, por método fotográfico. O Blog da Rua Nove mostra um postal da sua autoria, do Hotel Atlântico, em Monte Estoril, dado como da década de 1930.