O Estrado
Junho 25, 2008
Incomoda-nos tanto descair para o dia-a-dia. Mas decidimos louvar o Estrado.
Consta que em várias escolas, por indicação da responsabilidade directa ou indirecta do Ministério da Educação, os estrados foram retirados das salas de aula «para que os professores fiquem ao nível dos alunos».
O princípio entre aspas tem um potencial caricatural que fala por si.
Os burocratas estruturalistas que administram a catástrofe educativa, vendo bem, têm, na sua grande massa, apenas um defeito: nunca deram aulas.
Caso contrário, saberiam respeitar o estrado.
Um, o estrado pode ser contornado. E o efeito dramático da descida do estrado não é de desprezar, assim como o da subida. Quem quer que tenha tido um grande professor sabe do que falamos.
O estrado não impede a aproximação. Apenas encoraja a que o seu momento seja escolhido, controlado pelo professor, em vez de uma mera sujeição ao espaço.
Dois, o estrado é um palco. O seu uso traduz-se num enorme ganho acústico. Quando o professor fala do estrado, na maioria das salas, todos os alunos ouvem melhor e por igual. Verdadeiramente ao mesmo nível.
Três, enquanto palco, o estrado permite, na maioria das salas, muito melhor visão de todos os alunos em relação à figura do professor ou a qualquer material exposto. Verdadeiramente ao mesmo nível.
Quatro, o estrado permite ao professor uma visão completa da sala em qualquer momento, o que lhe permite atender instantaneamente o contacto dos alunos sentados nas cadeiras recuadas, em vez de se aproximar de alguns virando as costas a todos os outros. Verdadeiramente ao mesmo nível. Os alunos.
Cinco, o que não vêem os que chegam à teoria pelo caminho da estupidez empírica: enquanto palco, o estrado permite aos alunos que subam a ele, e demonstrem, exponham, expliquem aos colegas numa posição que tem todas as qualidades da mais elementar arte dramática, e lhes permite o que esta escola lhes nega constantemente ou não sabe permitir: um teste formal à autonomia da sua voz individual.
O mundo
Junho 20, 2008

“O mundo é independente da minha vontade.”
proposição 6.373, Tractatus Logico-Philosophicus, Ludwig Wittgenstein
Outro dia foi há cinco anos
Maio 27, 2008
Pousámos um livro “outro dia”. Voltámos a pegar-lhe. Como outros, tinha um marcador de ocasião. Um talão de pagamento, do dia em que pusemos de parte essa leitura. Outro dia foi em Dezembro de 2003.
A nossa investigação adentro dos postais antigos que dedicámos a Bernardo Soares termina com esta segunda amostra de três pormenores. Sempre conhecemos o cavalheiro à esquerda como “O Patrão Vasques”. Ter-se-ão cruzado, esta figura de Vasques e o escriturário conhecido como “O Sr. Pessoa”? E o eléctrico No.245, ainda existe? Neste dia, ia para a Graça. Pela sombra, é de manhã, talvez dez da manhã, com sol já forte.

Na imagem que segue, a arcada oeste do Teatro Nacional D. Maria II mostra com mais nitidez o cartaz com o nome da peça em cena: “Mimi”, que permitirá datar exactamente o postal. Não sabemos se esta Mimi será a personagem do romance de Henri Murger Cenas da Vida Boémia, que inspirou as duas La Bohème (de Puccini e Leoncavallo), por exemplo. Ainda não conseguimos descobrir um registo do espectáculo. Talvez uma das tais peças traduzidas do francez, de um teatro imitado quase sem autores.

Na balaustrada do primeiro andar do Teatro, falta uma colunela, talvez a folga para um estandarte. Ainda faltam bastantes anos para o grande incêndio, mas as janelas já chamam por ele, de tão encardidas. A segunda, e especialmente a terceira a contar da esquerda, estão claramente empenadas.

A partir de postais do fotógrafo Otto Auer.
Otto Auer fotografou toda uma série de postais de Lisboa, reproduzidos na Alemanha, por método fotográfico. O Blog da Rua Nove mostra um postal da sua autoria, do Hotel Atlântico, em Monte Estoril, dado como da década de 1930.
Pequena História com Dois Poemas (de Adília Lopes)
Maio 15, 2008
Aqui gostamos de poemas que contam histórias, e especialmente dos que parecem que contam histórias, esses que trazem o que nunca aconteceu, mas está sempre a acontecer.
A propósito dos dois poemas que juntamos aqui, deixamos uma história que temos com a autora, que se calhar mais ninguém tem (para além de uma conversa sobre os ensaios de M.S. Lourenço, a cujo propósito trocámos memórias comuns, e a certa preferência por dois textos muito diferentes).
Foi na loja da editora Assírio & Alvim, na Rua Passos Manuel. Estendemos a mão ao livro Maria Cristina Martins, para comprá-lo. 250 exemplares. 500 escudos. Black Son Editores. Ao lado, havia um volume da mesma cor, rosa: Os 5 livros de versos que salvaram o tio. Edição de autor, com data de Lisboa, 1985. Em vez do preço, tinha um recado a lápis: “Oferta da autora”.
Levámos os dois livros até ao balcão. “Este livro tem aqui escrito…”.
“Sim, sim. Oferta da autora. É isso mesmo. É para levar. Com muito prazer”, disse-nos a responsável da loja.
Para um vil criminoso
Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe
O vestido cor de salmão
Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço
poemas dos livros Um Jogo Bastante Perigoso, e O Decote da Dama de Espadas, de Adília Lopes.
pintura de Mark Ryden: “Inside Sue” (ver galeria em markryden.com)
A Grande Radiofonia
Maio 10, 2008
[Esta nossa entrada, tão informativa que ela era, perdeu alguma eficácia no dia 20-5-2008, já que o blogue oficioso todo dedicado ao programa Theme Time Radio Hour foi desactivado na sua capacidade de transferência de ficheiros compactados do conteúdo dos programas, por uma queixa de violação de direitos de autor. Patrick Cosley explica (e actualiza a explicação). Um blogue português que preza as artes sente-se obrigado a concordar com a acção restritiva, porque quem ama as artes tem de amar também os direitos de autor. Só pode aceitar-se que o artista não tire a mão do pudim, nem da faca.]
[Entretanto, um amigo sem escrúpulos, que alimenta um amor dividido pelos direitos de autor e pelo seu produto, ele próprio autor espoliado, escreveu-nos a indicar outra ligação para material do programa Theme Time Radio Hour. Seremos coerentes com o já dito e... deixamos à consciência dos leitores os seus actos.]
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A maior ansiedade da indústria da divulgação é divulgar-se a si própria. Remunerar-se e remunerar os seus associados. Tudo serve, para continuar. Maria Felismina está grávida na primeira página, com poster do feto, ou o último grande êxito de Goma Xantana, que saiu ontem, já estão a ouvi-lo.
Nós aqui, sem fins lucrativos, não adiantamos nem temos de adiantar quando não temos nada a adiantar. Fazemos como Suze Rotolo - a namorada da capa de The Freewheelin’ Bob Dylan, o segundo disco, que fará 45 anos a 27 de Maio - que num aniversário do companheiro há muito afastado lhe desejou “Muitos mais anos e menos biografias”.
A Net não tem só defeitos. Com ela, e com o acesso digital, desvaneceu-se o poder de uma rádio portuguesa que passava em bateria a música como tempo de publicidade. Qualquer hipérbole valia, e depois, em ciclos de menos de uma hora, a dúzia de jingles dominantes rodava em contínuo, nas poucas estações que mandavam.
Os empregados das editoras liam pelos papéis que lhes mandavam traduzidos, ou que eles próprios transduziam. Repetiam saberes de ouvido. Historietas. Riam muito. E fizeram a sua vida. Cada super-êxito passava pontual e levava a sua multidão como carruagens do Metro.
Numa rádio que tinha uma memória histórica de alguns meses, Bob Dylan era sempre descrito como a curiosidade de 1961, ou um baladeiro dum além-Tejo americano. Mais umas piadas sobre a voz que não entendiam - num país em que a grande voz era um cantor de peitaça de opereta e reportório de bricabraque. (Quantas vozes tem Dylan?).
Nunca passaram daí. Agora que The Man é um dos temas maiores da sua cultura e chama à sua plateia todo o zoo artístico, o rádio de pilhas pequenino que foi essa rádio distribuidora fica à vista no seu tamanho real.
A dimensão da obra de Dylan que nos interessa aqui é a mais recente, e diz respeito à rádio. Dylan é o apresentador e senhor gerente de Theme Time Radio Hour. Viajando pela história da música popular americana e por uma escolha presente que a continua, com um tema diferente a cada programa de uma hora, ouvimos um contador de histórias e um grande ironista dos dilemas que vão sendo cantados.
Nós aqui descobrimos o programa através da hora com o título «Death and Taxes/Morte e Impostos», onde foi possível ouvir a definição de IRS do próprio Dylan, ou o gingão «I Paid My Income Tax Today», com Gene Autry e o trio de Jimmy Wakely (1942), «Tax Paying Blues», de J.B. Lenoir (1954), «Sunny Afternoon», dos Kinks, «Taxman», dos Beatles (ambas de 1966, ecos do cenário fiscal artístico do Reino Unido, que o anfitrião descreve); ou, ainda, canções com morte como «Freddie’s Dead», de Curtis Mayfield (1972), e «Rock ‘n’ Roll Suicide», de David Bowie (1972), todas alinhadas pelo melhor guia, em ambiente conversado e nocturno.

A conversa vai longa. O que queremos mesmo é enviar os amigos para um blogue de um dos admiradores tipicamente exaustivos de Dylan - e generosos - o músico canadiano Patrick Cosley, que gere Theme Time Radio Hour with Host Bob Dylan - um lugar todo dedicado ao programa, onde é possível fazer a descarga/download das duas temporadas já cumpridas, em pastas compactadas de ficheiros mp3 (zip). Quem sabe lidar com zipes, siga.
Aconselhamos também - mais uma expressão do gigantesco movimento em redor de Dylan - uma página exclusivamente dedicada à listagem de toda a música passada no programa e ao guião da locução (siga o link no blogue TTRH; ou vá directo para The Annotated Theme Time), como uma espécie de manual de serviço. Na Wikipédia, está disponível um artigo para cada uma das duas temporadas já cumpridas, e o elenco, canção a canção, de cada um dos 50 programas por temporada (alguns com duas horas), com datas e ligações aos artigos individuais dos autores, bem como aos artigos dedicados a algumas das canções (Temporada Um & Temporada Dois).
Cosley, também carinhosamente tratado por «Coz», tem o seu próprio blogue, que renasceu este ano, reformulado, depois de ter corrigido a sua política de publicação de gravações (para não infringir direitos da indústria). Assim, publica gravações não-oficiais, ou do domínio público. Tem já disponíveis gravações raras de Dylan, Neil Young, Joni Mitchel, Van Morrison, Rolling Stones, ou Jimi Hendrix e Leonard Cohen (o seu primeiro concerto, ou, melhor, recital de poesia com final à guitarra)… ou Bach. Junta também ligações para rádio de interesse histórico sonoro, curiosidades musicais, e curiosidades curiosas, do seu gosto mais privado.
Drama Pessoal será sempre um blogue com um olho para o teatro. Deixamos aqui o que diz sobre a arte cénica o próprio Bob Dylan, no primeiro volume da sua autobiografia, Chronicles/Crónicas:
Gostei do palco desde sempre, e, ainda mais, do teatro. Sempre me pareceu o trabalho artístico supremo, entre todos os trabalhos artísticos. Em qualquer ambiente, no salão de baile ou na rua, no pó de uma estrada do campo, a acção tinha sempre lugar num eterno “agora”.
À Espera
Abril 30, 2008
O autor e tradutor especializado a tempo inteiro mas regime parcial com estatuto não reconhecido abusivamente taxado e subavaliado logo pelo Estado foi ver as duas belas intermitentes que estão a ensaiar o seu texto mais recente (levado à cena numa casa de banho verdadeira em ambiente dos anos 70) e que estão, graça de grupo, a trabalhar para ele.
À espera da boleia de uma delas, tirou algumas fotos à bomba de gasolina que finalmente acabou, no Jardim do Príncipe Real, a quarenta metros do largo e sempre cheiroso cedro centenário que João César Monteiro amava e Werner Schroeter também amou (deu-lhe uma cena do seu Deux-Duas).



Werner Schroeter em Senses of Cinema
Sei Quem Ela É
Abril 25, 2008

Esta é a miniatura da composição de uma entrada do blogue Em Terra Molhada, de violeta13. Sabemos quem ela é, mas não podemos elogiá-la por quem ela é, porque a sua energia pseudónima merece ser cuidada.
Quem ela é no blogue é que interessa aqui, com imagens que são mais escrita do que isto. Eis uma personagem que nos desarma (e revista) e às nossas ansiedades ortográficas e estilísticas e teóricas de encartados em Letras.
Ela é uma personalidade artística inteira, e tudo nas suas maneiras de fazer nasce do seu bricolage pessoal. Até a regra é toda interior. Escreve como quer e sempre soube, e fotografa da mesma maneira.
Na sua área profissional, está entre aqueles que o louvor só não vê por estarem altos e não ao nível do nariz e dos ouvidos. Nos vários níveis de bloguismo artístico possível, este é o mais alto e raríssimo entre nós: o da arte propriamente dita.
e toda a série de retratos animados dos dias próximos
& seguintes
Momento Político Sem Original
Abril 19, 2008
Rebentou, nos últimos dias, uma barragem de manobras verbais, respeitantes a um novo momento político. Os jornalistas vêem nisto variedade e animam-se. Uma frase ganhou destaque: “Pode ter aqui acontecido mais alguma coisa de que não sabemos”.
Uma coisa aqui sabemos: Em política, o passo vital não é o avanço. É o recuo.
Vem ao caso um texto de Almada Negreiros, um homem que antecipou o estudo destes momentos de verbo estratégico.
Em 1928, estavam ambos em Madrid, disse Lorca a Almada, depois de uma leitura de Deseja-se Mulher e S.O.S.: «Dou-te trinta anos para que te entendam». Pouco tempo depois, ainda em Madrid, Almada escreveria O Público em Cena, peça em um acto (1931). Passaram 77 anos e este texto continua à espera de acontecer.

A Conferência Nº1
Há um ano anunciei uma conferência e à hora marcada resolvi instintivamente adiá-la. Sem ter compreendido o meu instinto, obedeci-lhe contudo incondicionalmente. Adoro o meu instinto. Apenas hoje sei que a explicação era a de eu ir dizer a minha conferência com um ano de antecedência.
Peço desculpa.O dia da conferência
Hoje não estou nada bem disposto para dizer a conferência. Ontem sim, ou anteontem. Hoje não estou nos meus dias. Desculpem hoje não ser dos meus dias. Mas a conferência estava marcada para hoje, tem de ser hoje. Que pena não ter sido ontem, ou anteontem, ou talvez amanhã. Não! foi logo hoje que não é dos meus dias bons. Que raiva ainda não saber mandar na minha presença!
Peço desculpa.O original da conferência
Perdi o original da conferência. Vim para pedir desculpa de ter perdido o original.
Além desta conferência que perdi, tenho mais onze, já prontas, e que são a continuação da que perdi. Essas onze não perdi, mas não as trouxe porque só se compreendem depois de ouvido e acreditado o original que perdi.
Porém, tive uma ideia, que me parece que não é para desprezar. É a seguinte: Se é verdade que perdi o original, também é verdade que ainda não me esqueci do que eu ia dizer. Não me lembro da ordem das palavras, mas sei exactamente o que queriam dizer. Deus não consentiria que eu me esquecesse de coisas tão importantes.
Quando anunciei a conferência, antecipadamente ou não, não podia deixar de ser senão por uma coisa muito importante. Ainda não me esqueci. Só desejo que tenhais vindo também, como eu, por uma coisa muito importante. Nem doutro modo vos estimaria.
Para mim e para vocês, o mais importante é cada um de nós. Nem estamos aqui para outra coisa. É isto o que nos interessa - nós estarmos vivos.
Vamos espreitar para tantos vivos que houve antes de nós e para tantos outros que há em volta de nós, para aprendermos a estar vivos.
São estas, lembro-me muito bem, as palavras do original. Prometo não dizer senão palavras que façam lembrar o original que perdi.
Antes de começar, pressinto que tudo vai acontecer bem. Na verdade, nós somos belos números para multiplicar.
Temos aqui dentro desta sala tudo quanto nos é necessário - somos nós. Eu ajudo vocês e vocês ajudam-me a mim, na certeza de que cada um de nós há-de sair hoje daqui com novas coragens, ou com a coragem inteira. Vai ser igual a não ter perdido o original ou ainda melhor.
Ainda que algum de vocês tenha vindo hoje aqui por acaso, não faz mal nenhum, é isto que faz as pessoas - ter a certeza do acaso.[...]
pintura: James Ensor, “Les Cuisiniers Dangereux”, 1896.
texto: “A Conferência Nº1″, Diário de Lisboa, 9 de Julho de 1921.
in Almada Negreiros, Obras Completas, Vol III.-Artigos do Diário de Lisboa, INCM, 1988.
As Obras de Arte
Abril 2, 2008
Mais uma pausa exagerada. Este blogue luta com moinhos de vento. Pela segunda vez este ano, o nosso computador vai a caminho de Espanha, depois de ter deitado fora uma massa de textos e imagens. E ainda nos rimos de carros e telefones e selhas de lavar roupa com manivelas.

Não é só o computador que insiste em dar o exemplo (mais três amigos fazem as malas a esta hora; também com perdas e avarias profundas, mas já sem garantias).

Salvámos duas imagens que resistiram aos dois desastres. Os objectos fotografados estão há anos na mesma vitrina de Lisboa.
São objectos terríveis, pousados no vazio, abandonados pelo gosto de quem os criou e de quem os procurava. Precisam, como se diz em política artística, de um novo contexto.
Precisam de alguém, dirá quem os vende.
“As obras de Arte são grandes pelo indefinido e imperfeito que encerram, pois dessa imperfeição fecunda se alimenta o nosso espírito.”
Todos Terão o Seu Fim
Março 28, 2008
Viemos de ver De Man Zijn Haar Koort Liet Knippen (”O Homem da Cabeça Rapada”), de André Delvaux, no princípio do mês, com a ideia de escrever aqui sobre o filme, mas não o fizemos. O comentador da folha da Cinemateca tinha optado pelo mesmo. Algumas referências cinéfilas evocadas em círculo, pouco mais.

A folha de sala gastava o nome de Murnau, mas não lembrava forças estritamente visuais como a pintura de James Ensor, ou, na continuação, Blue Velvet de David Lynch, com os seus insectos a marulharem na terra e a sua orelha cortada em cima de um tabuleiro de aço.
O Homem da Cabeça Rapada costuma ser tratado como um drama psicológico, a história de qualquer coisa a que chamam desagregação, por exemplo. Mas depois a desagregação é contada de uma forma tão linear e articulada que qualquer um terá medo de sofrê-la também, a caminho do Minipreço, sem poder regressar à vida vulgar.
Na festa de fim de curso de um liceu, depois de uma sessão solene cadavérica, uma finalista canta “A canção da vida verdadeira”. Um homem torturado de ansiedade olha-a dos bastidores. É um dos mestres. Um pouco antes, o barbeiro tinha-lhe tesourado o cabelo, vaporizado, secado a vento, e massajado o crânio com a ajuda de uma maquineta eléctrica.
A sensação, depois da massagem, tinha dito o barbeiro, ia ser gloriosa.
O filme leva-nos depois por um caminho cinzento e lento que Tarantino ensinou às massas com Pulp Fiction, mas com música que bate no estômago e personagens em delírio retórico, a saber: que em cinema é menos a sequência que narra do que o ponto de vista. Vemos por outros olhos, ou de onde mais ninguém vê, e vemos o que não veríamos, e quando não seria de ver. E movemo-nos no tempo como no espaço, à margem dos factos.
Já ninguém se lembra, porque já toda a gente cresceu, ou esqueceu, mas saíam muitos do filme de Tarantino a usar o tal verbo: não tinham percebido nada. Não tinham percebido “a ordem das cenas”. O que não tinham percebido é maquinal: do ponto de vista de quem é que tinham visto a história, contada mais que uma vez.
O truque é tão velho como os romances epistolares, em que cada cortesão vê pelo seu prisma a mentira e a verdade dos outros, e as suas.
Mais perto do cinema, aquele é um truque convencional da literatura pulp, mas também da narrativa épica-jornalística de um Norman Mailer, que, em The Executioner’s Song (“A Canção do Carrasco”), molda o discurso sempre económico e apontado do narrador à personagem mais influente de cada um dos muitos capítulos, ao seu modo de ver e modo de dizer. Mas o que tem sido prático em literatura parece ser um problema para as massas de uma arte ao mesmo tempo demasiado nova e vulgarizada, que, segundo alguns, Godard, Lynch ou Sokurov, ainda nem sequer achou a linguagem própria.

Voltámos do último filme dos Coen, No Country For Old Men, a pensar nos maus tratos que uma obra visual pode sofrer, entregue a quem já não se emociona com imagens. “Não percebi o final”, foi a primeira coisa que uma fulana espectadora ao nosso lado disse (tinha entrado no filme a mandar um sms). Decidimos não passar o nosso entusiasmo pelo filme para este blogue depois de termos reparado que, no Google, havia 7.620.000 textos que se intitulavam «críticas (reviews)» do filme, e 5.010.000 dedicados ao tema do «final (ending)». Dizia um site semi-profissional:
With the increased scrutiny which comes with the honor [Oscar], No Country… can be questioned for its lack of a discernible message and indecisive ending.
Não vamos especular também aqui. Ficámos a saber que muitos já não entendem o que é um epílogo, não sabem que uma história pode acabar antes das últimas cenas. E que muitos não estão prontos para um romance, e bastam-lhes histórias exemplares (“discernible message“), para usar velhos termos da literatura. É o mundo, afinal, daquela apresentadora de notícias que questionava o prémio Grammy entregue a Amy Winehouse: «Não sei se é este o exemplo que queremos dar com a música». Que música é que tu tocas, Lady-laca? Dá-me o teu exemplo.
A personagem de Javier Bardem, um assassino com um gosto por uma máquina de matar gado e feroz crítico social (ah, a cena da loja do posto de gasolina) já disse tudo, na resposta que tem para quando lhe pedem misericórdia: «Você não precisa de fazer isto».
«Mas porque é que dizem todos a mesma coisa?»
O melhor comentário que temos a deixar a No Country For Old Men é um poema com a mesma arte de lembrar sucessivos guerreiros e seus feitos, entre justos e vilões. De Bertolt Brecht. O poema lembra a montagem do filme, quando um golpe de surpresa banal conclui um duelo, ou, ao virar da esquina, uma personagem que chamava o nosso afecto já caiu de vez.

PLACA COMEMORATIVA PARA 9 CAMPEÕES DO MUNDO
Aqui vai a história dos campeões do mundo de pesos médios
Dos seus combates das suas carreiras
Desde 1884
Até aos nossos dias.Começo a série pelo ano de 1884
Quando os combates iam além de 50 ou 70 rounds
E só acabavam com o K.O.
E por Jack Dempsey
Vencedor de Georges Fulljames
O maior boxeur dos tempos do boxe bruto
Vencido porBob Fitzimmons, pai do boxe técnico
Detentor do título mundial de pesos médios
E de pesos pesados
Graças à sua vitória de 17.3.1897 sobre Jim Corbet.
34 anos de ring e apenas 6 derrotas.
Bob foi tão temido que em todo o ano de 1889
Não houve adversário para ele. Só em 1914,
Com 51 anos feitos, travou
Os dois últimos combates.
Um homem sem idade.
Em 1905, Bob Fitzimmons perdeu o título para
Jack O’brien, dito Philadelphia Jack.
Jack O’brien começou a carreira
Aos 18 anos
Disputou mais de 200 combates.
Nunca
Philadelphia Jack se preocupou com o dinheiro
Partia do princípio
Que é no ring que se aprende
E enquanto aprendeu sempre venceu.
A sua derrota com o peso pesado Tommy Burns,
Jack O’brien, já a caminho da sua velhice, dizia-a
A luta da sua vida.
E na verdade os seus combates posteriores
Não tiveram qualquer importância.A Jack O’brien sucedeu
Stanley Ketchel
Célebre por 4 verdadeiras batalhas
Que travou com Billie Papke
E por ser o mais bruto boxeur de todos os tempos.
Foi abatido pelas costas aos 23 anos
Num sorridente dia de Outono
Quando estava sentado diante da sua quinta
Invicto.Continuo o meu relatório com
Billie Papke
Primeiro génio do infighting.
O maior combate de Billie
Foi a famosa desforra contra Stanley Ketchel
- O combate dos combates.
Ouviu-se então pela primeira vez a expressão:
Máquina humana de boxe.
Como uma máquina
O bruto Ketchel socou Billie
Até lhe fazer sair o coração do peito.
Mas nesse dia Billie foi grande,
Classe fora de série: imbatível.
Mal se tendo nas pernas
Pôs a K.O. Ketchel, o dos punhos de ferro.
Esta grande vitória abalou no entanto o coração do grande Billie.
Ainda conseguiu liquidar Hugo Kelly
Ao primeiro round.
Tal como o furação que sobre os campos cai
Caiu Billie sobre Kelly.
Mas no último combate contra Ketchel
O rei dos pesos médios acabou com
O que ainda restava do grande coração de outrora.
E num combate com Frank Klaus
Em Paris, em 1913,
Foi batido
Por um maior do que ele na arte do infighting.
Klaus manteve sempre Billie colado às cordas
Depois Billie desafiou-o
A bater-se como um homem.
Ao 15º round era um homem
Vencido.Frank Klaus, seu sucessor, travou combates com
Os maiores pesos médios do seu tempo:
Jim Gardener, Billie Berger,
Willie Lewis,
Jack Dillon, e
Georges Carpentier que, ao lado dele, se mostrava fraco como um menino.
Frank Klaus era mestre no combate de perto, corpo a corpo,
Sabia pôr todo o peso nos golpes.Bateu-o
George Chip
Que fora disso nunca conseguiu fazer nada de notável
E foi batido porAl Mac Coy
O pior dos campeões dos pesos médios
- Só sabia apanhar.
Finalmente, em 1917,
Mike O’Dowd mandou para o tapete
Esse crânio de ferro
E arrancou-lhe o título.
in Poemas, Bertolt Brecht, Editorial Presença,
trad. Arnaldo Saraiva e Sylvie Deswarte
Porque não Escrevi sobre Oito Peças que Vi
Março 18, 2008

James Ensor, “Au Conservatoire”, 1902
Este blogue tem um subtítulo: declara-se almanaque de coisas teatrais e totais. No entanto, tem sido discreto em relação à coisa do teatro. Nas coisas totais, faz-se o que se pode.
Muitos já não sabem o que é um almanaque. Para nós, a palavra tem a ver com um baú onde foram cair os restos da biblioteca de um avô cientista e engenheiro industrial amador. Tem a ver com um molho descosido de folhas de papel vulgaríssimo, já sem muitas folhas e sem capas.
Um almanaque francês de 1942, que agora só temos na memória. Entre fases da lua, marés, curiosidades planetárias e históricas, havia um plano do loteamento dos jardins de Paris, dividido por bairros, para os cidadãos organizarem as suas hortas de emergência com os vizinhos.
Havia um pedido público aos parisienses para não comerem os gatos, com uma ameaça de doenças graves por causa da rataria. Era um manual da redução da vida ao mais valioso: água, abrigos, hortas, preços do pão, refeições, males do corpo, ferramentas e engenhos úteis.
Alguns pensamentos (curtos) e casos da vida; rimas filosóficas ou práticas (o que vai dar ao mesmo, em guerra). Sim, também alguma coisa disso.
É neste campo das ferramentas básicas e do cuidar dos corpos que o teatro faz sentido que se faça. E os que o fazem, hão-de ter algum sentido de sobrevivência. O mesmo sentido de sobrevivência e de procura de alguma espécie de pão que hão-de ter os que estão para ver o que se faz.
Isto não são metáforas. Quando faltar a electricidade, ninguém vai ao cinema nem vai mexer no blu-ray à procura da ficção mais carnal. Ficam os actores como ficam os ratos. Os críticos que vão para as hortas, se quiserem.
Era aqui que íamos escrever sobre a razão por que não escrevemos sobre oito peças que vimos desde o Natal, sendo este um blogue sem fins lucrativos com interesse pelo teatro. Não há razão para não o termos feito, se falta tanto testemunho do que por cá vai sendo vivido em cena, e se lá estivemos.
Porém, em arte trabalha-se melhor a muito longo prazo, ou sem ele, e podemos sempre escrever sobre o que vimos, escrevendo desse terraço sobre outra coisa ainda. E, como diz o Outro, essa coisa é que é linda.
O dia do Sr. Benjamin Franklin
Março 14, 2008
Temos um encanto pelo quadro das obrigações diárias que Benjamin Franklin registou na sua Autobiografia.
Os conferencistas do rendimento laboral terão razão quando lembram que a má gestão do tempo é o maior criador de tensão interior (vulgo stress), ou quando avisam que o dia de trabalho não pode começar com a leitura do correio electrónico, por criar-se uma cascata de desvios. Mas poucos falam menos que a hora do mínimo cobrável.
Pouco pode comparar-se com o escorreito quadro de tarefas diárias que Benjamin Franklin fez para si próprio.

Retrato (pormenor), por
Joseph-Siffred Duplessis (1725-1802)
O quadro foi de certeza cumprido, ou este Pai Fundador não teria tido tempo para inventar o pára-raios, as lentes bifocais, o odómetro (ou conta-quilómetros, originalmente aplicado a um carro de cavalos da distribuição postal), ou a primeira biblioteca pública para empréstimo de livros.
A Franklin se deve a expressão “Lembrai-vos de que tempo é dinheiro”. Mas também “Três guardam segredo se dois deles morrerem”. A mesma seriedade bem disposta produziu ditados políticos que continuam a alimentar o debate:
Uma sociedade que abdique de alguma liberdade para ganhar alguma segurança não merece nem uma nem a outra e há-de perder ambas.
Foi ele quem apontou a cerveja como prova de que Deus nos ama e nos quer felizes, e foram dele conselhos de almanaque como “Um homem embrulhado em si mesmo faz um embrulho bem pequeno”, ou o que Bob Dylan escolheu como um dos motes do seu programa de rádio (de que humildemente falaremos):
In this world nothing is certain but death and taxes.
Afinal, e já que temos falado pouco de teatro, tudo isto serve para lembrar um princípio geral deste velho Quaker, que muitas vezes nos ocorre, mas a respeito da arte de representar:
Não confundas movimento com acção.
Eis o Quadro (transcrito da tabela original):
Que Bem farei eu hoje?
Hora 5ª à 8ª
Erguer-me, lavar-me, e saudar a Poderosa Bondade.
Fazer lista dos trabalhos para hoje e tomar a Resolução do Dia.
Prosseguir o Estudo presente.
E pequeno almoço.
Hora 8ª à 12ª
Trabalhar.
Hora 12ª à 2ª
Ler, ou verificar as minhas contas, e almoçar.
Hora 2ª à 6ª
Trabalhar.
Hora 6ª à 10ª
Pôr as Coisas nos seus Lugares, Ceia, Música, ou Diversão, ou Conversação, Exame do Dia.
Pergunta da Noite:
Que Bem fiz eu hoje?
Hora 10ª à 5ª
Dormir.
