Uma desculpa melhor do que outra qualquer
Novembro 13, 2009

Temos estado ocupados. A nossa desculpa para a ausência fomos buscá-la a William Blake, pela mão do desenhador Robert Crumb, na sua Art & Beauty Magazine (Taschen). Reflexão desenhada e comentada sobre o modelo artístico feminino. Temos para nós que o teatro nunca deve esquecer que é uma arte popular. Blake, exemplo daquele que não pára na escada da visão e do sublime, pensava o mesmo da poesia: «Todo o empenho do homem está nas artes, e em tudo o que é comum». As Artes. Espanta-nos sempre o sentido manual e oficinal que o místico dá ao termo Artes. Como se a sua voz laboral fosse sempre a do desenhador.

Espera
Outubro 31, 2009

à espera da toalha de papel – foto dramapessoal
Retrato (em leilão)
Outubro 28, 2009

Katy Grannan, Middleton, WI, 2000
Faça a sua oferta à galeria Phillips de Pury & Company.
(Estimativa 3,000-5,000 US$)
Retrato (Sasha Grey)
Outubro 22, 2009

Sasha Grey, por Richard Kern
Father death blues
Setembro 28, 2009

A presença da morte trouxe a sua monotonia a este blogue. Cada pausa foi sendo alongada por mais uma ocasião de afastamento. Na partida do nosso querido Jorge Vasques, actor, 51 anos, depois de uma récita, louvámos connosco a sua alma calorosa buscando o testemunho de outro comediante triste, o poeta Allen Ginsberg. Quando lhe perguntaram como queria ser lembrado, Ginsberg disse o nome de uma canção, feita para saudar o próprio pai na morte, lembrando a recomendação do pai espiritual na fé budista: «Por favor, deixa-o ir, e continua a tua celebração». Puxou da concertina que tinha aos pés e cantou «Father Death Blues», um hino à graça que tem morrer.
A canção está disponível em Youtube, e a entrevista completa, do programa Face to Face, com Jeremy Isaacs, autêntica autobiografia compacta com despedida, pode achar-se em Ubuweb (na mesma página de «A video diary of Ginsberg in the days immediately before and after his death», por Jonas Mekas).
Father Death Blues
Hey Father Death, I’m flying home
Hey poor man, you’re all alone
Hey old daddy, I know where I’m goingFather Death, Don’t cry any more
Mama’s there, underneath the floor
Brother Death, please mind the storeOld Aunty Death Don’t hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moansO Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts’ll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the restGenius Death your art is done
Lover Death your body’s gone
Father Death I’m coming homeGuru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this BluesBuddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we’ll work it throughSuffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scornFather Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.Allen Ginsberg
Pássaros de Guerra
Setembro 11, 2009

Uma revista de passatempo para a infância e juventude, coisa deseducativa, era tão irrelevante como qualquer blogue pessoal pouco frequente. O importante, diz-se, é ver as coisas tal como são.
Família
Agosto 30, 2009

«A família demorou-se junto à sepultura do senador Edward M. Kennedy, no Cemitério Nacional de Arlington». (New York Times)
Apesar de transformada em miniatura, a fotografia de Doug Mills não fraqueja na sua mecânica intensa. Não há crepúsculo, há só dia. Imobilidade nenhuma.
Tarantan
Agosto 9, 2009

Tarantino acha que não seria possível fazer hoje The Dirty Dozen (boa prosódia «pulp», a do título português Doze Indomáveis Patifes). Porque já não há aquele género de actores. Ernest Borgnine. Charles Bronson. Homens a sério. Porque os actores de agora são macios, diz.
Não nos parece prestável o que Tarantino tem feito depois de Jackie Brown, muito menos a convicção que tem de ter “crescido e superado” Godard (mas quem lhe disse que seria capaz de crescer nessa direcção?). Vale na última entrevista ao Guardian o elogio à escrita de Joseph L. Mankiewicz, mesmo se feito à custa de toda a escrita do teatro americano (quem nos dera este tipo de jactância teatral, num meio em que nem os parzinhos de parágrafos das revistas de agenda de espectáculos conseguem ter alguma energia oral, ou conseguem crescer e superar os limites da mera multiplicação do óbvio, para não falar nos limites imaginativos e retóricos da escolaridade obrigatória). Ao menos algum tarantan:
«He could have held the script for All About Eve up against every play ever written for the American stage and said, ‘Suck my dick!’ – It’s that good.»
via Guardian
Postal de Lisboa (2)
Agosto 8, 2009

A cor radiante da placa de número prendeu-nos a atenção. Mas um mero toque de filtro digital podia ter feito aquele borrão de vermelho. Sempre foi possível retocar fotografias, em laboratório ou em acção. Mas a dúvida e as ferramentas banalizaram-se. Neste caso, ainda assim, quem anda por Lisboa em Agosto não duvidará da relativa legitimidade dos tons. Continua a ser possível manter algum optimismo criativo em relação à fotografia a cores. Como diz David Hockney, finalmente a fotografia vem ter com a pintura. Com o computador, diz, as mãos entram no retrato.
foto dramapessoal (não-tratada; em modo de imitação de cromatografia)
Deus em Pacote
Agosto 6, 2009
Depois de fazermos o «louvor e simplificação» da obra de M.S. Lourenço apenas pelo mais caricatural dos seus humores, nada nos poderia fazer sentir ainda mais a areia das palavras ao vento que um pacote de açúcar dedicado a Deus. O açúcar que não consumimos insiste em mandar-nos recados.
O certo é que nunca perceberemos por que razão à cólera dos homens corresponde por hábito justamente o oposto do que diz o pacote.

Este Verão Cru
Agosto 3, 2009

Este Verão cru continua o seu estrago. Deixou agora o seu posto de observação elevado o escritor M.S. Lourenço, tradutor de Wittgenstein e autor de obras como O Doge (sob a capa de tradutor do Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov) ou Os Degraus do Parnaso, volume de crónicas devotado, em parte importante, à contradição do culto da novidade e da mudança pela novidade, instaurado nas artes e nas vidas pelo império daquilo a que Adorno chamou «A Indústria da Cultura» e alguns chamam, por ser isso o que chamam a tudo o que os cerca, «A Arte Pop».
Devemos-lhe alguns dos poucos ensaios de qualidade que temos sobre Cesário Verde (poeta que tem sofrido terríveis assaltos de banalidade académica) e devemos-lhe o mais digno e bem-humorado obituário da velha Estrada de Sintra, sob a forma de um ensaio intitulado «À sombra das acácias em flor», que seria leitura obrigatória das classes aprendizes que habitam o erro urbanístico alternativo aos campos que foram dessa Estrada, fossem leitores de Literatura os programadores e muitos dos professores que por esses sítios exercem a sua rotina de nivelamento das imaginações.
Não é do extraordinário ensaio «Epopeia crepuscular», louvor de «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, que guardamos uma amostra, mas de «À sombra das acácias em flor», lamento pela devastação estética e ambiental que os povos da periferia lisboeta identificam com a modernidade, ou, como famosamente cunhou o mais alto magistrado da nação, «o pogresso»:
«Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida.
Sobre a linha dos telhados ergue-se um enorme bloco em construção, com a aparência de ser uma das muitas modernas garagens de cinco pisos de altura, onde os muitos automóveis do Cacém vão poder ser arrumados para descanso dos seus proprietários […]. Qual não foi a minha surpresa quando há duas semanas o bloco entrou numa nova fase de construção, da qual se segue, irrefutavelmente, que se trata afinal de uma igreja e, assim, em vez dos automóveis, terão que se arrumar lá dentro as almas do Cacém. É a estas almas do Cacém que, no escasso e sincopado vocabulário do dialecto tropical que agora se fala, vai ser transmitida a doutrina do Infinito, […]»
Os Degraus do Parnaso está disponível numa edição Assírio & Alvim.
Postal de Lisboa
Julho 30, 2009

foto dramapessoal
(luz crua: fotografia não-tratada)
O ponto de vista português
Julho 28, 2009
Tivemos umas indignações cívicas, que já calámos e apagámos.
Preferimos fugir à opinião como fugimos ao «show aéreo» que atraiu duzentos mil – ó balão – ou fugimos às «actividades de Verão do agrado de todos» ou mesmo ao «campo de treino para jovens muçulmanos convertidos ao Islão», uma sugestão jornalística típica da época balnear.
Saudamos Merce Cunningham na sua partida, aos noventa anos, e podíamo-lo ter feito com outros, como o actor Karl Malden (ou Mladen Sekulovich, de mãe checa e pai sérvio). A perda de Pina B. entristeceu mais, pela impressão de incompletude do seu caminho, mas completo, afinal, só o universo ptolomaico, em que já só as tirinhas astrológicas e os programas de trash-talk acreditam, ou seja, quase toda a gente.

Na partida de Merce Cunningham vamos buscar um pequeno testemunho que um português depositou na página dedicada à notícia no jornal Público, porque há um português sempre, em cada acontecimento planetário, e chega a ser comovente o português ausente, como no desastre que causou duzentas vítimas, menos o português, felizmente. O texto fica aqui como foi publicado, evidentemente truncado no início, e nalguma dactilografia.
esta era a forma como nos compnheiros de trabalho nos referiamos ao senhor Merce Cunningham, e e espantoso como tem que falecer uma pessoa para que possamos saber a grandeza da sua historia. Sou um imigrante nos E. U. A. e tenho 20 anos a trabalhar no predio a onde este o mister Merce tem o seu apartamento, tem 16 janelas com frente para 6=a avenida que foram subestituidas por novas e por mim, e que foram feitas e importadas de Portugal, em Pinheiro da Bemposta O. de Azemeis de onde sou natural Orgulho de Portugues
de Manuel Ferreira, New York, U.S.A.
Não, nunca
Julho 9, 2009

Não, não estamos na praia.
Nunca, nunca quisemos que este blogue fosse a coisa vagante que o género pede e acabámos por cumprir.
Cremos naquilo a que se chama o jornalismo popular (pelo menos na sua melhor expressão), tanto quanto não cremos no novo jornalismo profissional em estilo faça-você-mesmo.
Mas estamos em retiro, depois de um confronto com o sistema legal-policial português, mais a sua aplicação aleatória e selectiva da letra da lei, com o seu estilo 1940 com internet e multibanco.
Abdicámos das nossas contribuições cívicas, e estudamos neste momento a melhor forma de desobedecer civilmente de forma sistemática, sem maior prejuízo financeiro.