Dois Cromos Dramáticos

Julho 5, 2008

 

 

De volta da nossa pausa, juntamos dois cromos que são restos da oficina da mini-peça Guiné Meu Amor, do festival “Curtas”, no cais do Ginjal, escrita para as actrizes Anabela Brígida e Raquel Dias.

No estudo da fala de Portugal-1970, mesmo a imaginada, principalmente a imaginada, buscámos traduções portuguesas de fotonovelas espanholas do tempo, com os seus eufemismos práticos, mais os seus rasgos de franqueza com redacção cuidada. Como não se dizia o que se acabava por dizer?

Sobram aqui dois cromos coloridos pelo próprio autor do texto, modestos ícones de uma era, distorcidos do preto-e-branco sujo original, que poupava demasiado na tinta.

 

 

Porquê, o clichê?

Junho 22, 2008

 

- Na rádio. Canal todo virado para as pessoas. Entrevistadora bem disposta.
- Estou a ver.
- Diz que as séries portuguesas de ficção têm um problema.
- Bem disposta.

 

 

- E que, agora que temos cabo, quase toda a gente tem cabo, não é?, temos tantas séries estrangeiras!
- Não lhe falta nada. Tirando alguma memória.
- Mas alegre.
- O problema é a alegria.

- Pergunta ela aos que filmam. Porque é que são tão paradas as «nossas». Os planos são tão parados.
- As entrevistadoras…
- Vemos que, sei lá… diz ela, nas outras tudo mexe. Sei lá. Como num clip de música. Porquê?
- Outra vez essa música. Outra vez esse clichê.
- E insiste com alegria. Tudo mexe!
- Soa bem: porquê, o clichê?
- Porque é que aqui não mexe, como nas séries dos outros?
- Este vinho é bom para se falar de cultura popular… Espera. Jane Austen mexe?

 

A Morte Interessa

Junho 18, 2008

 

(take 3 - assim é que foi)

 

- Agora já sei porque estive tanto tempo sem escrever.
- Ah, sim? Queres alguma coisa com o café?
- Porque identifiquei o verso em português com morte, não com vida.
- E agora já não vês bem assim?
- Não. Vejo de lá dessa morte. E de lá para cá, a morte interessa.
- Pudim?
- Nada.

 

Não é bom

Junho 15, 2008

 

“O sexo não é bom, porque põe pregas nos vestidos.”

 

 

 

Minimal

Junho 13, 2008

 

Olhai, um vídeo de divulgação de teatro muito bem feito.

 

Num período de enorme ruído colectivo, em que mais uma vez se prova que o país vê televisão a mais, o desafio do blogue é ser discreto. Vamos ter uma fase minimal, nos próximos quinze dias. Menos frequente, mais concentrado. Como sempre. Mas mais.

O país que se diz que é o do momento, o país-alcatrão, o país-gasóleo parado, já se previa há mais de vinte e cinco anos. Nós aqui estamos cerca de quarenta anos adiantados, e preocupa-nos um país igual ao de agora, mas noutro calendário. Quanto ao resto, até a objecção à feira futebol é vulgar e repetitiva, e não vale de todo a pena. Não esquecer nunca, apesar de tudo, que a arte vale mais, no PIB, do que o futebol. Não esquecer.

Raramente vendemos aqui o nosso peixe. Mas o nosso trabalho mais recente levou-nos ao Cais do Ginjal, em Cacilhas, onde laborou intensamente a indústria do peixe de Lisboa & Almada, a pesca de mar alto, e onde, à parte uma ou outra oficina mecânica, ou restaurante decaído (e, no final do passeio, um par de restaurantes para a classe média mais alheada e sobranceira, que funcionam, e funciona, por lugares marcados), há um lugar para a arte cénica, entre restos de maquinaria.

Ali, no armazém do Ginjal, a arte cénica já teve os seus momentos. Talvez volte a despertar, no armazém pintado de preto. Rua do Ginjal 54.

 

vídeo:

CURTAS - Mostra Teatral de Peças de Curta Duração, realização de Edgar Feldman
(Actor: David Almeida)
Divulgação de um evento teatral do grupo Primeiros Sintomas e seus convidados

de 19 de Junho a 6 de Julho, de quinta a domingo, 20 horas

 

Ninguém

Junho 7, 2008

 

 

Nunca fui camarada de alguém por assumir por acaso a mesma tarefa que eu, nunca fui colega de ninguém por estar sentado no mesmo banco de escola que eu.

De igual modo não amo toda a humanidade; apenas alguns indivíduos isolados.

Não me sinto solidário de ninguém por pertencer por acaso à mesma nação, ao mesmo grupo social, à mesma raça e à mesma família que eu. É qualquer coisa que só a mim diz respeito saber com quem desejo sentir afinidades; não conheço nesse aspecto qualquer obrigação de nascença. Tenho concidadãos em todas as nações, camaradas em todos os grupos sociais e irmãos que não têm nenhuma ideia de que eu existo.

Arthur Schnitzler

 

 

in Relações e Solidão - aforismos,
trad. Manuel Alberto (c/revisão dramapessoal)
Relógio d’Água Editores.
À venda na Feira do Livro de Lisboa do ano passado por 5 eur. (promoção)

 

 

Nem com o tempo

Junho 5, 2008

 

Minibiografia

 

Não me quero com o tempo nem com a moda,
Olho como um deus para tudo de alto,
Mas, zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda.

E, se a nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.

 

 

Lisboa. Rua da Misericórdia. Ao cimo, à esquina, o Teatro da Trindade.
Mãe e filha (poeta Luiza Neto Jorge), fotografia da década de 1950.

 

A Tarefa

Junho 3, 2008

 

 

“Procrastination”, de Dave Walker

 

Pousámos um livro “outro dia”. Voltámos a pegar-lhe. Como outros, tinha um marcador de ocasião. Um talão de pagamento, do dia em que pusemos de parte essa leitura. Outro dia foi em Dezembro de 2003.

A nossa investigação adentro dos postais antigos que dedicámos a Bernardo Soares termina com esta segunda amostra de três pormenores. Sempre conhecemos o cavalheiro à esquerda como “O Patrão Vasques”. Ter-se-ão cruzado, esta figura de Vasques e o escriturário conhecido como “O Sr. Pessoa”? E o eléctrico No.245, ainda existe? Neste dia, ia para a Graça. Pela sombra, é de manhã, talvez dez da manhã, com sol já forte.

 

 

Na imagem que segue, a arcada oeste do Teatro Nacional D. Maria II mostra com mais nitidez o cartaz com o nome da peça em cena: “Mimi”, que permitirá datar exactamente o postal. Não sabemos se esta Mimi será a personagem do romance de Henri Murger Cenas da Vida Boémia, que inspirou as duas La Bohème (de Puccini e Leoncavallo), por exemplo. Ainda não conseguimos descobrir um registo do espectáculo. Talvez uma das tais peças traduzidas do francez, de um teatro imitado quase sem autores.

 

 

Na balaustrada do primeiro andar do Teatro, falta uma colunela, talvez a folga para um estandarte. Ainda faltam bastantes anos para o grande incêndio, mas as janelas já chamam por ele, de tão encardidas. A segunda, e especialmente a terceira a contar da esquerda, estão claramente empenadas.

 

 

A partir de postais do fotógrafo Otto Auer.

Otto Auer fotografou toda uma série de postais de Lisboa, reproduzidos na Alemanha, por método fotográfico. O Blog da Rua Nove mostra um postal da sua autoria, do Hotel Atlântico, em Monte Estoril, dado como da década de 1930.

 

 

 

[...]

Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.

O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da Tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.

 

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ilustração: pormenores em maior definição do nosso postal “Lisboa, Rossio” da entrada anterior.

texto: fragmento do fragmento «Entrei no Barbeiro…», do Livro do Desassossego.

 

 

 

Numa das homenagens a Fernando Pessoa por ocasião dos 70 anos da morte, havia uma leitura pública, num teatro de Lisboa. A cerimónia era generosamente aberta, aos da cena e a todos os amigos. Subiam ao palanque actores, jornalistas, amigos de actores, conhecidos de jornalistas, escritores e amigos - e conhecidos - da escrita. (Veja-se como Lisboa era boa para andar. Que boa para andar era Lisboa).

 

 

Cada um tinha a liberdade de ler o que lhe fosse mais chegado. Não paravam de chegar pessoas. Porém, a sala nunca extravasava. Percebemos que ia ser como em certos casamentos. Era chegar, circular, provar e debandar. Passou um actor do vídeo que leu do Livro do Desassossego, com um óptimo equilíbrio de ombros, que manteve enquanto prestava o seu depoimento em vídeo.

Se tivéssemos lido, teríamos talvez escolhido um fragmento de Bernardo Soares, que reproduzimos aqui para tornar Bernardo Soares um pouco mais transeunte, e para dar a sentir como se lhe ajustam os postais antigos de Lisboa da nossa colecção.

 

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Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.

Mas de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado modesto do meio-dia, uma impressão de desagrado me assaltou o sonho: senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse circunstanciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo - tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era uma metade e semelhança da morte.

Aliás, se amanhã me apartasse deles todos, e despisse este trajo da Rua dos Douradores, a que outra coisa me chegaria - porque a outra me haveria de chegar?, de que outro trajo me vestiria - porque de outro me haveria de vestir?

Todos temos o patrão Vasques, para uns visível, para outros invisível. Para mim chama-se realmente Vasques, e é um homem sadio, agradável, de vez em quando brusco mas sem lado de dentro, interesseiro mas no fundo justo, com uma justiça que falta a muitos grandes génios e a muitas maravilhas humanas da civilização, direita e esquerda. Para outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a imortalidade… Prefiro o Vasques homem meu patrão, que é mais tratável, nas horas difíceis, que todos os patrões abstractos do mundo.

Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negócios com todo o Estado: «Você é explorado, Soares.» Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.

Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.

E recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia, escritório amplo, da Rua dos Douradores. Achego-me à minha secretária como a um baluarte contra a vida. Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar - ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas.

 

Mudava o Meu Nome

Maio 19, 2008

 

“Mudava o meu nome para Ginger, se pudesse voltar a fazê-lo.”

(Gene Kelly, a propósito da única vez que dançou num musical com Fred Astaire, em Ziegfeld Follies).