A Tarefa
Junho 3, 2008

“Procrastination”, de Dave Walker
A Grande Radiofonia
Maio 10, 2008
[Esta nossa entrada, tão informativa que ela era, perdeu alguma eficácia no dia 20-5-2008, já que o blogue oficioso todo dedicado ao programa Theme Time Radio Hour foi desactivado na sua capacidade de transferência de ficheiros compactados do conteúdo dos programas, por uma queixa de violação de direitos de autor. Patrick Cosley explica (e actualiza a explicação). Um blogue português que preza as artes sente-se obrigado a concordar com a acção restritiva, porque quem ama as artes tem de amar também os direitos de autor. Só pode aceitar-se que o artista não tire a mão do pudim, nem da faca.]
[Entretanto, um amigo sem escrúpulos, que alimenta um amor dividido pelos direitos de autor e pelo seu produto, ele próprio autor espoliado, escreveu-nos a indicar outra ligação para material do programa Theme Time Radio Hour. Seremos coerentes com o já dito e... deixamos à consciência dos leitores os seus actos.]
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A maior ansiedade da indústria da divulgação é divulgar-se a si própria. Remunerar-se e remunerar os seus associados. Tudo serve, para continuar. Maria Felismina está grávida na primeira página, com poster do feto, ou o último grande êxito de Goma Xantana, que saiu ontem, já estão a ouvi-lo.
Nós aqui, sem fins lucrativos, não adiantamos nem temos de adiantar quando não temos nada a adiantar. Fazemos como Suze Rotolo - a namorada da capa de The Freewheelin’ Bob Dylan, o segundo disco, que fará 45 anos a 27 de Maio - que num aniversário do companheiro há muito afastado lhe desejou “Muitos mais anos e menos biografias”.
A Net não tem só defeitos. Com ela, e com o acesso digital, desvaneceu-se o poder de uma rádio portuguesa que passava em bateria a música como tempo de publicidade. Qualquer hipérbole valia, e depois, em ciclos de menos de uma hora, a dúzia de jingles dominantes rodava em contínuo, nas poucas estações que mandavam.
Os empregados das editoras liam pelos papéis que lhes mandavam traduzidos, ou que eles próprios transduziam. Repetiam saberes de ouvido. Historietas. Riam muito. E fizeram a sua vida. Cada super-êxito passava pontual e levava a sua multidão como carruagens do Metro.
Numa rádio que tinha uma memória histórica de alguns meses, Bob Dylan era sempre descrito como a curiosidade de 1961, ou um baladeiro dum além-Tejo americano. Mais umas piadas sobre a voz que não entendiam - num país em que a grande voz era um cantor de peitaça de opereta e reportório de bricabraque. (Quantas vozes tem Dylan?).
Nunca passaram daí. Agora que The Man é um dos temas maiores da sua cultura e chama à sua plateia todo o zoo artístico, o rádio de pilhas pequenino que foi essa rádio distribuidora fica à vista no seu tamanho real.
A dimensão da obra de Dylan que nos interessa aqui é a mais recente, e diz respeito à rádio. Dylan é o apresentador e senhor gerente de Theme Time Radio Hour. Viajando pela história da música popular americana e por uma escolha presente que a continua, com um tema diferente a cada programa de uma hora, ouvimos um contador de histórias e um grande ironista dos dilemas que vão sendo cantados.
Nós aqui descobrimos o programa através da hora com o título «Death and Taxes/Morte e Impostos», onde foi possível ouvir a definição de IRS do próprio Dylan, ou o gingão «I Paid My Income Tax Today», com Gene Autry e o trio de Jimmy Wakely (1942), «Tax Paying Blues», de J.B. Lenoir (1954), «Sunny Afternoon», dos Kinks, «Taxman», dos Beatles (ambas de 1966, ecos do cenário fiscal artístico do Reino Unido, que o anfitrião descreve); ou, ainda, canções com morte como «Freddie’s Dead», de Curtis Mayfield (1972), e «Rock ‘n’ Roll Suicide», de David Bowie (1972), todas alinhadas pelo melhor guia, em ambiente conversado e nocturno.

A conversa vai longa. O que queremos mesmo é enviar os amigos para um blogue de um dos admiradores tipicamente exaustivos de Dylan - e generosos - o músico canadiano Patrick Cosley, que gere Theme Time Radio Hour with Host Bob Dylan - um lugar todo dedicado ao programa, onde é possível fazer a descarga/download das duas temporadas já cumpridas, em pastas compactadas de ficheiros mp3 (zip). Quem sabe lidar com zipes, siga.
Aconselhamos também - mais uma expressão do gigantesco movimento em redor de Dylan - uma página exclusivamente dedicada à listagem de toda a música passada no programa e ao guião da locução (siga o link no blogue TTRH; ou vá directo para The Annotated Theme Time), como uma espécie de manual de serviço. Na Wikipédia, está disponível um artigo para cada uma das duas temporadas já cumpridas, e o elenco, canção a canção, de cada um dos 50 programas por temporada (alguns com duas horas), com datas e ligações aos artigos individuais dos autores, bem como aos artigos dedicados a algumas das canções (Temporada Um & Temporada Dois).
Cosley, também carinhosamente tratado por «Coz», tem o seu próprio blogue, que renasceu este ano, reformulado, depois de ter corrigido a sua política de publicação de gravações (para não infringir direitos da indústria). Assim, publica gravações não-oficiais, ou do domínio público. Tem já disponíveis gravações raras de Dylan, Neil Young, Joni Mitchel, Van Morrison, Rolling Stones, ou Jimi Hendrix e Leonard Cohen (o seu primeiro concerto, ou, melhor, recital de poesia com final à guitarra)… ou Bach. Junta também ligações para rádio de interesse histórico sonoro, curiosidades musicais, e curiosidades curiosas, do seu gosto mais privado.
Drama Pessoal será sempre um blogue com um olho para o teatro. Deixamos aqui o que diz sobre a arte cénica o próprio Bob Dylan, no primeiro volume da sua autobiografia, Chronicles/Crónicas:
Gostei do palco desde sempre, e, ainda mais, do teatro. Sempre me pareceu o trabalho artístico supremo, entre todos os trabalhos artísticos. Em qualquer ambiente, no salão de baile ou na rua, no pó de uma estrada do campo, a acção tinha sempre lugar num eterno “agora”.
Sei Quem Ela É
Abril 25, 2008

Esta é a miniatura da composição de uma entrada do blogue Em Terra Molhada, de violeta13. Sabemos quem ela é, mas não podemos elogiá-la por quem ela é, porque a sua energia pseudónima merece ser cuidada.
Quem ela é no blogue é que interessa aqui, com imagens que são mais escrita do que isto. Eis uma personagem que nos desarma (e revista) e às nossas ansiedades ortográficas e estilísticas e teóricas de encartados em Letras.
Ela é uma personalidade artística inteira, e tudo nas suas maneiras de fazer nasce do seu bricolage pessoal. Até a regra é toda interior. Escreve como quer e sempre soube, e fotografa da mesma maneira.
Na sua área profissional, está entre aqueles que o louvor só não vê por estarem altos e não ao nível do nariz e dos ouvidos. Nos vários níveis de bloguismo artístico possível, este é o mais alto e raríssimo entre nós: o da arte propriamente dita.
e toda a série de retratos animados dos dias próximos
& seguintes
O Blogue Branco
Abril 12, 2008
Muitos, mesmo que leiam, não identificam a leitura com acção. Não estava a fazer nada, estava a ler.
Ir a um sítio é fazer alguma coisa. Vamos a um sítio. Quem está num sítio está a fazer. Voltar de um sítio também é fazer. Até acabar de voltar de um sítio é fazer alguma coisa. O que é que estão a fazer? Acabámos de voltar daquele sítio. Havia imensa gente a voltar.
Muito do que é considerado fazer alguma coisa lembra os dois versos de Neil Young: It’s noisy at the fair, but all your friends are there. Está muito barulho na feira, mas estão lá todos, de qualquer maneira.
Ouvindo muitos que foram a sítios bem longe no mundo, parece que sentiram pouco enquanto lá estiveram. O viajante filtrou o lugar à escala das suas possibilidades, raramente interessantes. Nada passa. O viajante não teve de fazer o lugar. Não consegue refazê-lo, para que o vejamos. Não conseguiu ler, não conseguimos lê-lo.
Havia uma menina da Tv que ia a todo o lado. Estivesse nos Andes, em Pisa, no México ou nas banais ilhas tropicais cheias de bananais, tudo para ela era “fascinante”. O mesmo efeito de fascínio, comunicado com um discurso circular e uma expressão ocular rodopiante, teria sido conseguido com um painel de cenário, ou um efeito de ecrã azul. (Não andava muito por interiores, a narradora: monumentos, museus, etc).
A leitura pode trazer painéis de cenário sim, mas tantos e por vezes tão intrincados e activos que a viagem mental supera a viagem de quem, sem imaginação, se perde no cenário a que chama real. Não serve que o cenário seja real, se o viajante não o é.
A melhor forma de viajar é sentir, disse Fernando Pessoa, para quem, anos depois do regresso da África do Sul, muito jovem, uma viagem de comboio ao Carregado foi uma jornada imensa e deu, entre outras coisas, “O Comboio Descendente”. Lisboa, meu lar, disse. E nunca mais saiu. Viajou? Pois claro. E não gastou o que não tinha.
Esta divagação de sábado serve para saudar, e encaminhar alguns amigos para um dos melhores blogues que conhecemos, que, talvez por ser íntimo, não revelámos tão depressa. Chama-se “Spurious”, e tem um arranjo gráfico tão limpo que quase dispensa cabeçalho. Não tem cromos, como este blogue. Não precisa.

É o único blogue que invejamos. Não tem nada a ver com o tipo médio de blogues que podemos encontrar em língua portuguesa, estéreis, infantis, ou hipertensos por causa das actualidades, agitados e lentos, camaleões de todos os momentos.
Spurious é branco e linear, no justo sentido dos termos. A vida de quem escreve ali chega-nos por um ponto de vista serenamente assente, e por um estilo sem cores artificiais, espelho claro da experiência ilimitada da leitura. Há ficção (talvez na própria figura do eu que assina o blogue, desdobrada na escrita), e há sobretudo lugares mentais e lugares naturais. Mas, ali, quem escreve esteve nos sítios que descreve, e leva-nos por lá.
Ligação para a entrada How are We to Disappear? e para uma página pequena, dedicada a E.M. Cioran.
As Obras de Arte
Abril 2, 2008
Mais uma pausa exagerada. Este blogue luta com moinhos de vento. Pela segunda vez este ano, o nosso computador vai a caminho de Espanha, depois de ter deitado fora uma massa de textos e imagens. E ainda nos rimos de carros e telefones e selhas de lavar roupa com manivelas.

Não é só o computador que insiste em dar o exemplo (mais três amigos fazem as malas a esta hora; também com perdas e avarias profundas, mas já sem garantias).

Salvámos duas imagens que resistiram aos dois desastres. Os objectos fotografados estão há anos na mesma vitrina de Lisboa.
São objectos terríveis, pousados no vazio, abandonados pelo gosto de quem os criou e de quem os procurava. Precisam, como se diz em política artística, de um novo contexto.
Precisam de alguém, dirá quem os vende.
“As obras de Arte são grandes pelo indefinido e imperfeito que encerram, pois dessa imperfeição fecunda se alimenta o nosso espírito.”
Todos Terão o Seu Fim
Março 28, 2008
Viemos de ver De Man Zijn Haar Koort Liet Knippen (”O Homem da Cabeça Rapada”), de André Delvaux, no princípio do mês, com a ideia de escrever aqui sobre o filme, mas não o fizemos. O comentador da folha da Cinemateca tinha optado pelo mesmo. Algumas referências cinéfilas evocadas em círculo, pouco mais.

A folha de sala gastava o nome de Murnau, mas não lembrava forças estritamente visuais como a pintura de James Ensor, ou, na continuação, Blue Velvet de David Lynch, com os seus insectos a marulharem na terra e a sua orelha cortada em cima de um tabuleiro de aço.
O Homem da Cabeça Rapada costuma ser tratado como um drama psicológico, a história de qualquer coisa a que chamam desagregação, por exemplo. Mas depois a desagregação é contada de uma forma tão linear e articulada que qualquer um terá medo de sofrê-la também, a caminho do Minipreço, sem poder regressar à vida vulgar.
Na festa de fim de curso de um liceu, depois de uma sessão solene cadavérica, uma finalista canta “A canção da vida verdadeira”. Um homem torturado de ansiedade olha-a dos bastidores. É um dos mestres. Um pouco antes, o barbeiro tinha-lhe tesourado o cabelo, vaporizado, secado a vento, e massajado o crânio com a ajuda de uma maquineta eléctrica.
A sensação, depois da massagem, tinha dito o barbeiro, ia ser gloriosa.
O filme leva-nos depois por um caminho cinzento e lento que Tarantino ensinou às massas com Pulp Fiction, mas com música que bate no estômago e personagens em delírio retórico, a saber: que em cinema é menos a sequência que narra do que o ponto de vista. Vemos por outros olhos, ou de onde mais ninguém vê, e vemos o que não veríamos, e quando não seria de ver. E movemo-nos no tempo como no espaço, à margem dos factos.
Já ninguém se lembra, porque já toda a gente cresceu, ou esqueceu, mas saíam muitos do filme de Tarantino a usar o tal verbo: não tinham percebido nada. Não tinham percebido “a ordem das cenas”. O que não tinham percebido é maquinal: do ponto de vista de quem é que tinham visto a história, contada mais que uma vez.
O truque é tão velho como os romances epistolares, em que cada cortesão vê pelo seu prisma a mentira e a verdade dos outros, e as suas.
Mais perto do cinema, aquele é um truque convencional da literatura pulp, mas também da narrativa épica-jornalística de um Norman Mailer, que, em The Executioner’s Song (“A Canção do Carrasco”), molda o discurso sempre económico e apontado do narrador à personagem mais influente de cada um dos muitos capítulos, ao seu modo de ver e modo de dizer. Mas o que tem sido prático em literatura parece ser um problema para as massas de uma arte ao mesmo tempo demasiado nova e vulgarizada, que, segundo alguns, Godard, Lynch ou Sokurov, ainda nem sequer achou a linguagem própria.

Voltámos do último filme dos Coen, No Country For Old Men, a pensar nos maus tratos que uma obra visual pode sofrer, entregue a quem já não se emociona com imagens. “Não percebi o final”, foi a primeira coisa que uma fulana espectadora ao nosso lado disse (tinha entrado no filme a mandar um sms). Decidimos não passar o nosso entusiasmo pelo filme para este blogue depois de termos reparado que, no Google, havia 7.620.000 textos que se intitulavam «críticas (reviews)» do filme, e 5.010.000 dedicados ao tema do «final (ending)». Dizia um site semi-profissional:
With the increased scrutiny which comes with the honor [Oscar], No Country… can be questioned for its lack of a discernible message and indecisive ending.
Não vamos especular também aqui. Ficámos a saber que muitos já não entendem o que é um epílogo, não sabem que uma história pode acabar antes das últimas cenas. E que muitos não estão prontos para um romance, e bastam-lhes histórias exemplares (“discernible message“), para usar velhos termos da literatura. É o mundo, afinal, daquela apresentadora de notícias que questionava o prémio Grammy entregue a Amy Winehouse: «Não sei se é este o exemplo que queremos dar com a música». Que música é que tu tocas, Lady-laca? Dá-me o teu exemplo.
A personagem de Javier Bardem, um assassino com um gosto por uma máquina de matar gado e feroz crítico social (ah, a cena da loja do posto de gasolina) já disse tudo, na resposta que tem para quando lhe pedem misericórdia: «Você não precisa de fazer isto».
«Mas porque é que dizem todos a mesma coisa?»
O melhor comentário que temos a deixar a No Country For Old Men é um poema com a mesma arte de lembrar sucessivos guerreiros e seus feitos, entre justos e vilões. De Bertolt Brecht. O poema lembra a montagem do filme, quando um golpe de surpresa banal conclui um duelo, ou, ao virar da esquina, uma personagem que chamava o nosso afecto já caiu de vez.

PLACA COMEMORATIVA PARA 9 CAMPEÕES DO MUNDO
Aqui vai a história dos campeões do mundo de pesos médios
Dos seus combates das suas carreiras
Desde 1884
Até aos nossos dias.Começo a série pelo ano de 1884
Quando os combates iam além de 50 ou 70 rounds
E só acabavam com o K.O.
E por Jack Dempsey
Vencedor de Georges Fulljames
O maior boxeur dos tempos do boxe bruto
Vencido porBob Fitzimmons, pai do boxe técnico
Detentor do título mundial de pesos médios
E de pesos pesados
Graças à sua vitória de 17.3.1897 sobre Jim Corbet.
34 anos de ring e apenas 6 derrotas.
Bob foi tão temido que em todo o ano de 1889
Não houve adversário para ele. Só em 1914,
Com 51 anos feitos, travou
Os dois últimos combates.
Um homem sem idade.
Em 1905, Bob Fitzimmons perdeu o título para
Jack O’brien, dito Philadelphia Jack.
Jack O’brien começou a carreira
Aos 18 anos
Disputou mais de 200 combates.
Nunca
Philadelphia Jack se preocupou com o dinheiro
Partia do princípio
Que é no ring que se aprende
E enquanto aprendeu sempre venceu.
A sua derrota com o peso pesado Tommy Burns,
Jack O’brien, já a caminho da sua velhice, dizia-a
A luta da sua vida.
E na verdade os seus combates posteriores
Não tiveram qualquer importância.A Jack O’brien sucedeu
Stanley Ketchel
Célebre por 4 verdadeiras batalhas
Que travou com Billie Papke
E por ser o mais bruto boxeur de todos os tempos.
Foi abatido pelas costas aos 23 anos
Num sorridente dia de Outono
Quando estava sentado diante da sua quinta
Invicto.Continuo o meu relatório com
Billie Papke
Primeiro génio do infighting.
O maior combate de Billie
Foi a famosa desforra contra Stanley Ketchel
- O combate dos combates.
Ouviu-se então pela primeira vez a expressão:
Máquina humana de boxe.
Como uma máquina
O bruto Ketchel socou Billie
Até lhe fazer sair o coração do peito.
Mas nesse dia Billie foi grande,
Classe fora de série: imbatível.
Mal se tendo nas pernas
Pôs a K.O. Ketchel, o dos punhos de ferro.
Esta grande vitória abalou no entanto o coração do grande Billie.
Ainda conseguiu liquidar Hugo Kelly
Ao primeiro round.
Tal como o furação que sobre os campos cai
Caiu Billie sobre Kelly.
Mas no último combate contra Ketchel
O rei dos pesos médios acabou com
O que ainda restava do grande coração de outrora.
E num combate com Frank Klaus
Em Paris, em 1913,
Foi batido
Por um maior do que ele na arte do infighting.
Klaus manteve sempre Billie colado às cordas
Depois Billie desafiou-o
A bater-se como um homem.
Ao 15º round era um homem
Vencido.Frank Klaus, seu sucessor, travou combates com
Os maiores pesos médios do seu tempo:
Jim Gardener, Billie Berger,
Willie Lewis,
Jack Dillon, e
Georges Carpentier que, ao lado dele, se mostrava fraco como um menino.
Frank Klaus era mestre no combate de perto, corpo a corpo,
Sabia pôr todo o peso nos golpes.Bateu-o
George Chip
Que fora disso nunca conseguiu fazer nada de notável
E foi batido porAl Mac Coy
O pior dos campeões dos pesos médios
- Só sabia apanhar.
Finalmente, em 1917,
Mike O’Dowd mandou para o tapete
Esse crânio de ferro
E arrancou-lhe o título.
in Poemas, Bertolt Brecht, Editorial Presença,
trad. Arnaldo Saraiva e Sylvie Deswarte
Quão Intoxicado?
Março 11, 2008
A empresa de captação e gestão dos interesses e património de dependentes psíquicos fundada pelo falsário e escritor de ficção científica mitómano L. Ron Hubbard fez-nos chegar às mãos um papelinho com um questionário elementar, destinado à auto-avaliação de fracturas existenciais.
Faça este teste e descubra - anunciam. As respostas serão em Sim/Não, para contagem e diagnóstico.
1. Ocasionalmente sente-se fatigado sem razão aparente? 2. Sente-se por vezes “preso” e sem vida?… etc.
Charles Baudelaire sentiu-se fatigado sem razão aparente, e escreveu As Flores do Mal. Franz Kafka sentiu-se “preso” e sem vida, e escreveu A Metamorfose. Cesário Verde, fatigado e preso, escreveu “O Sentimento Dum Ocidental”. A Cientologia tem para nos dar, em alternativa, um actor medíocre apologista de uma alegria à prova de bala.

“Quão Intoxicado está?” - perguntam. Pela nossa pontuação, estamos em estado de “poluição física”, cheios de toxinas que não nos deixam Pensar de Forma Clara. Precisamos de Purificação (ou de Purification Rundown, o nome de um processo com marca registada, tal como Pensar de Forma Clara/Think Clearly, ou Cientologia).
Purificação, com letras maiúsculas, ficamos a saber, é uma marca registada de Religious Technology Center.
A nós, ver Tom Cruise a “pensar de forma clara” só nos dá mais certeza de que a obscuridade é o caminho.
O questionário lembra-nos antes um importante texto de auto-ajuda da literatura portuguesa: o poema “Inquérito”, de Alberto Pimenta, incluído na antologia Metamorfoses do Vídeo, que nos foi calorosamente oferecida a meio de uma conversa entre autor e muito jovem leitor, na Feira do Livro de Lisboa de 1986, e a cujo abraço autógrafo voltamos a responder com esta homenagem. Segue excerto (o poema tem perguntas até ao número 13):
INQUÉRITO
1. que motivos supõe v.exa. levaram os progenitores de v.exa a gerar v.exa., isto é, os levaram ao coito em consequência do qual v.exa. foi gerado?
- a vontade de gerar v.exa.?
- o prazer sexual?
- cumprimento das obrigações conjugais?
- embriaguês de um, ou de ambos os progenitores de v.exa.?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
2. crê v.exa. que os progenitores de v.exa. tinham o declarado desejo de que v.exa. nascesse?
- sim
- não
em que fundamenta v.exa. a sua opinião? ………………………………………………………………
no caso afirmativo, supõe v.exa. corresponder à ideia que os progenitores de v.exa. faziam do descendente que esperavam?
- no sexo?
- aspecto físico?
- inteligência?
3. por sua vez, correspondem os progenitores de v.exa. àquilo que v.exa. acha desejável?
- nos títulos?
- rendimentos?
- carácter?
4. quais as primeiras dificuldades da vida de que v.exa. se lembra?
- obedecer, quando se tratava de defecar?
- obedecer, quando se tratava de não defecar?
- obedecer, quando se tratava de comer?
- obedecer, quando se tratava de falar?
- obedecer, quando se tratava de não comer?
- obedecer, quando se tratava de não falar?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
[...]
[No texto do poema, os separadores deveriam, idealmente, ser quadrados de preenchimento.]
Para saber-se mais sobre a Cientologia, o documentário da série Panorama da BBC está “temporariamente indisponível” em Google Video. Pode ver-se em Guba.com, ou Putfile.com.
Uma Nota de Wallace Stevens
Março 3, 2008
Uma Nota de Rodapé a Ganhos e Perdas, de Saul Bellow.Há alguns anos, um carro eléctrico de São Francisco soltou-se do cabo e ao tempo de chegar ao fundo da Rua Califórnia já os passageiros estavam espalhados por todo o lado. Um homem que não tinha visto o que acontecera saiu de uma rua lateral, foi ter com a vítima mais próxima e perguntou-lhe o que era aquilo. O homem que estava estendido na rua respondeu-lhe: “Bom, houve um acidente e estamos à espera que o avaliador de seguros da companhia dos eléctricos apareça”. “Importa-se”, disse o recém-chegado, “que eu me deite aqui consigo?”

Richard Burton a ler a poesia amorosa de John Donne
Alguém Aqui Se Chama Bingo?
Fevereiro 21, 2008

No seguimento do nosso louvor a Ryan Larkin e ao filme de Chris Landreth que por sua vez o louvava, deixamos aqui a referência a outro filme de Landreth disponível na feira popular digital: Bingo, inspirado num jogo teatral.
Na página Youtube, seguem-se os testemunhos pessoais de resposta ao vídeo. Uma reacção típica da maré popular anglo-saxónica a um objecto artístico tem a ver com a necessidade de “entender” qualquer que seja o objecto, de saber a todo o custo “qual é o significado”, um significado cortado à medida de quem pergunta, claro.
“O maior bem para o maior número“: a fé puritana, moldada pela certeza utilitarista, penetrou o quotidiano do idioma e habituou muitos a um tipo de angústia básica, mas não menos impaciente de revelação; mesmo sem fé nem filosofia - e sem ortografia - sempre a mesma urgência:
okay can someone explain what this video is supposed to meen??
Se a pergunta visse o seu medo ao espelho via a resposta.
Olhem Para a Cena
Fevereiro 15, 2008
O regresso à normalidade da máquina que nos comanda foi mais complicado do que se esperava. «Vamos fazer figas», dizia-nos um técnico. «Felizmente você tem intuição para estas coisas». Figas, intuição, e alguma compatibilidade entre drivers e sistema, três aspectos essenciais para uma boa estabilidade informática.
Esta saga técnica meio artesanal fez lembrar um livro querido dos tempos da longa antecipação do ano maravilhoso de 2000. Muitos anos depois da publicação, já amarelados, ainda se vendiam os volumes da colecção Emílio Salgari, com as páginas por separar (para garantir a novidade e limpeza), edição Romano Torres.

A aventura do nº 32 da colecção não se passava na Índia ou nos confins do Oriente, mas antes no futuro. Os heróis induzem-se um sono de cem anos, graças a um elixir de flor de lótus, velho segredo egípcio. Acordam num mundo acelerado, cheio de electricidade no ar, que acabará por fazê-los definhar e morrer. Entretanto, correm esse lugar de caos misturado de conforto.
Folheando o livro seco e roído do peixinho de prata, encontramos uma descrição da televisão (com som canalizado), e de um estado de coisas brutal, estranho fruto de uma imaginação delirante:
O doutor ouvira, com um assombro fácil de adivinhar, aquela voz que anunciava espantoso desastre. Levantou rapidamente a roupa, pois lhe pareceu que a voz se fizera ouvir precisamente dentro da cabeceira da cama. Deu com uma espécie de tubo, em cuja borda estava escrito: “Assina-se no World”.
- Uma maravilha do ano dois mil – exclamou – Os jornais comunicavam directamente a notícia para casa dos assinantes. Teriam sido suprimidos o papel e as máquinas de imprimir? Nos nossos tempos ainda não se conheciam estas comodidades. Como o mundo tem progredido!
Estava para chamar o amigo, que não se decidia a abrir os olhos, quando ouviu sair do tubo outro aviso: “Olhem para a cena”.
No mesmo instante viu iluminar-se grande quadro suspenso na parede que ficava defronte do leito, no qual se desenrolou horrível cena de uma veracidade extraordinária.
Via-se uma rua cheia de homens, que atacavam diversos prédios à bomba, fugindo depois em debandada. As paredes desmoronavam-se, os telhados abatiam; homens, mulheres e crianças precipitavam-se para a rua, enquanto compridas línguas de fogo se erguiam sobre aquela amálgama de destroços, tingindo todo o quadro de vermelho…
Há também uma antevisão do e-mail, que, como se sabe, é uma coisa muito simples.
- Aí chega a minha correspondência – disse Holker, levantando-se.
- Outra maravilha! - exclamaram Toby e Brandok, levantando-se também.
- É uma coisa muito simples – respondeu Holker – Olhem, meus amigos.
Premiu um botão na parte inferior de um quadro que representava uma batalha naval. O quadro desapareceu, subindo dentro de duas ranhuras, deixando à vista um vão de meio metro quadrado. Dentro estava um cilindro de metal, de sessenta ou setenta centímetros, com uma circunferência de trinta ou quarenta, coberto de números pintados a preto.
- O meu número de assinatura postal é o mil novecentos e oitenta e sete – elucidou Holker – Ei-lo aqui, e as minhas cartas estão metidas num pequeno compartimento.
Carregou no número, abriu-se uma portinha e tirou a correspondência; depois fez descer o quadro, e premiu outro botão.
- O cilindro já partiu – disse – Vai distribuir a correspondência pelos inquilinos do prédio.
A Wikipédia em inglês (em português há pouco mais que o retrato) dá conta da grande popularidade de Salgari em Portugal e nos países hispânicos. Nunca conseguiu gerir os ganhos de milhões de livros vendidos. Pôs fim à miséria em 1911. Entre os pequenos adeptos da sua fantasia contam-se Sergio Leone, Fellini, Borges, Neruda e Che Guevara.
Um Minuto e Vinte Segundos
Janeiro 17, 2008

Um leitor que conhecemos de outras paragens mandou-nos uma saudação. Eis a amostra do e-mail de Alberto Barbosa:
Caro amigo:
Você, que escrevia artigos de duas e três páginas de jornal, com a mesma medida de esperteza e Carnaval, agora fala por entre espelhos? [...]
Já me disse que a bombarda de outros tempos só lhe valeu chatices inúteis e inimigos desinteressantes (as chatices úteis são a obrigação do panfletista). [...]
Entre várias outras coisas, gostei da sua entrada sobre o interior das casas dos arredores de Lisboa, a lembrar ao mesmo tempo a cantora popular esquecida. Aí gostei de se ter poupado ao comentário. [...]
Foi pena não ter posto a fotografia da janela dessa penúltima morada, que tinha as grades em forma de sol, dessas que se vêem por todo o lado (e muito à beira-mar, não sei nem quero saber porquê). Foi uma imagem que me ficou da notícia da altura. [...] Triste, enfim.
Votos de boa continuação ao Drama Pessoal.
Caro Alberto,
Obrigado pelo entusiasmo. Sabemos do que fala. Não encontrámos essa fotografia, que, pelos vistos, ficou na memória de mais pessoas.
Parte da presente contenção tem razões técnicas. Pela outra parte, tem sido natural.
Entretanto, recebemos de Espanha um sms da assistência técnica da HP, em português do Brasil, formal, a dizer-nos que o computador original deste blogue está “pendente de pega”. Parece que quer dizer, no dialecto europeu informal, que ainda não lhe pegaram.
A prazo, planeamos ter mais uma página, para textos longos, ensaios. E talvez outra, mais irregular, mais poética.
Se um blogue traz alguma coisa de bom é a pressão para a concisão. Diz o que tens a dizer antes que me vá embora.
Esse lado directo é positivo, neste meio. Mas também não deve ser idealizado: um dos nossos blogues preferidos está com cerca de 2200 visitas diárias, se bem que a duração média de cada visita esteja em 1,20 minutos. Ou seja, muita gente clica e desclica. Talvez contem como saídas as consultas de links, que não faltam nesse blogue. Ainda assim, um blogue é mais uma estação de metro que uma galeria de arte ou sala de conferências, como o bloguista desejaria. Por exemplo, neste momento já ninguém está a ler. Portanto, obrigado Alberto Barbosa.
Volte sempre.


fotos do “No Pants Day” 2008, 12 de Janeiro, em Nova Iorque.
(Site Oficial: Improv Everywhere: We Cause Scenes)
via Village Voice
Tudo Canos Vazios
Janeiro 8, 2008
Podemos ler em blogues nacionais (vede o paradoxo) o que andam a escrever sobre a qualidade dos blogues nacionais. Ou podemos escolher melhor o que lemos.

Podemos antes ler o que vale em qualquer suporte, seja um painel, o papel ou um ecrã, ou mesmo um blogue, desses que correm mundo sem bandeira certa, como os navios transoceânicos.
Curioso é os blogues, especialmente os locais, discursarem como se não fossem um meio minoritário, com um conteúdo que, em massa, traz mais espuma do que maré.

Os blogues que escrevem sobre a qualidade dos blogues recomendam-se a si próprios.
Drama Pessoal, até porque acabou de chegar, responde ao dilema da qualidade dos blogues com o que tem na sua lista de visitas recomendadas, o seu blogroll, que junta, neste momento, quatro blogues que ganharam o seu lugar no mundo.
Discussão mais vasta e ainda mais entediante que a da qualidade dos blogues é a dos males da Internet, repetição das que aconteceram quando a música popular, a rádio, o cinema, os livros aos quadradinhos, a televisão, sucessivamente, sacudiram as massas, e, parece, abateram gerações inteiras.

Nós, os sobreviventes, sabemos que não há ninguém que se perca na Internet e perca todo o seu tempo a bater palmas com o macaco da pandeireta que, não houvesse Net, estaria antes a ler o ensaio «Proust», de Samuel Beckett. (a)
Doris Lessing falava das «inanidades da Internet» no seu discurso de recepção do Nobel da Literatura (sempre o mais inane), enquanto, com termos dignos, prezava a fome de livros que viu entre gente que sofre da outra, sem sacrificar a primeira, no seu amado Zimbabwe.
Esqueceu as inanidades dos livros, onde, como por todo o lado onde há gente, escorre o lixo e sempre escorreu.
Na mesma edição do Guardian Unlimited (a excelente edição online do Guardian) que publicou o discurso, o actor, realizador, escritor e divulgador artístico Stephen Fry entretinha-se a explicar as vantagens do seu browser Mozilla Firefox.

Entre outras coisas, o browser permite encomendar livros que já não chegam às nossas livrarias, e cinema que deixou de chegar às salas, ou vídeo que já não passa na tv, para além da leitura do queixoso discurso Nobel.
Stephen Fry é como aquele monge budista japonês que sorri ao pulo e ao tremor da tecnologia como à montanha quieta, porque por tudo passa o mesmo vento de sempre, e ainda explica que tem uma Skuteru para não amarrotar o seu hábito, mas preferia uma Motobaiku, para correr a cavalo por entre os arrozais e ir beber chá com os crentes mais idosos e benzê-los de acordo com o ritual milenar.
Cabe aqui uma frase recente do blogue Hak Pak Sak, um dos da nossa lista, a respeito da Internet (falando da questão da greve americana dos argumentistas):
«…os media são apenas aquilo que a palavra implica, i.e., fibra óptica inerte e canos vazios, veículos para transporte de conteúdo, nada mais…» (b)
«…media are just what the word implies, i.e. “dark fiber” and “empty pipes”, vehicles for conveying content and no more…»

Hak Pak Sak é um blogue sem efeitos de apresentação, dedicado a temas de política, sociedade e comunicação, história e memória, ou, de acordo com o seu lema: «Stephen Lewis escreve sobre Infraestruturas, Identidades, Comunicação e Mudança». Temos muito pouco em papel periódico que se lhe pareça (temos muito pouco em papel e em geral). Um bom começo poderá ser o artigo «Library Access, the Limits of the Web, and the Shelling of Sarajevo», um apanhado limpo e drástico da má qualidade arquivística da Internet no presente, lembrando a destruição da histórica biblioteca de Sarajevo durante a última guerra dos Balcãs.
Em contrapeso a este pessimismo informado, ou ao de Doris Lessing, há muitos blogues de leitura e de amor aos livros a consultar (uma lista do Guardian), de cunho mais pessoal, para além de sites que já são arquivos sérios dos autores a que são dedicados, como o de Walt Whitman ou o de Dante Gabriel Rossetti.
Entre os sites dedicados ao serviço do livro e ao debate do futuro da qualidade documental da Internet, que compensam aquela visão mais negativa, há o «Fob», de nome completo The Future of The Book, dedicado ao livro-objecto-de-papel, onde também se fala de tudo o que são maquinetas para o texto, como o último leitor digital, que a moda volta a dizer que é alternativa ao papel. Ali preferem perguntar se não será «mais uma marmita», porque compraram todas até agora (curiosamente, são os produtores e os vendedores que já não lhe chamam «livro digital», mas «dispositivo de leitura/reading device»). O site festejou nove anos de idade recentemente, o que, em Internet, são duas épocas.
Mas já que é óbvio que as mãos preferem o papel ao plástico, os olhos, mais fáceis de enganar, podem continuar a amar o livro através de um dos blogues visualmente mais ricos de toda a Net, e um calmo guia do mundo ilustrado: BibliOdyssey. Tirando Stephen Fry no seu sofá, todas as ilustrações deste post foram roubadas nos variadíssimos capítulos desse blogue.

Para dar espaço à liberdade, fica só um parágrafo para cada um dos outros dois blogues extraordinários:
Horses Think tem um grande título, grande cabeçalho, conteúdo bem contado e sempre bem contido: belos lugares, belos objectos de arte. Estilo curto, falado. Boa companhia.
Wood S Lot é o blogue que faz acreditar na capacidade do género. Da autoria do canadiano Mark Woods, é um blogue pessoal com as dimensões de uma revista. Não fala de si, a não ser por raras fotos da natureza do seu Canadá. Recolhe amostras de leituras de reflexão estética e política, e poética, que vão seguindo o seu veio. WSL traz escolhas muito fortes de fotografia e artes plásticas, com ligações para as séries completas dos objectos, em arquivos ou galerias, ou para a História, ou histórias. Um elemento especialmente comovente é o modo como WSL vai lembrando artistas notáveis que viveram mais ou menos na sombra, ou estão na sombra do presente imediato, ou nem por isso, com uma ou outra notícia necrológica muito sóbria, uma data comemorativa, mais um retrato, um objecto que conta uma vida, um curto manifesto. O blogroll de WSL tem uma colecção de blogues capaz de atirar qualquer generalização sobre o fenómeno para o canto de qualquer café.
A urgência de um blogue, vendo bem, não é maior que a urgência do livro. As vidas continuam curtas.
[...]
O que procuro, o que neles descubro
é a visão do mundo a que assistiram
no espaço-tempo de entre ir e vir
e o regresso ao desconhecido.
O que procuro – algumas palavras
que me revelem o prodigioso
mistério aberto entre duas almas,
antes que seja tarde e a noite avance,
a morte vença de uma vez para sempre
e deles não fique senão o vislumbre.
Ruy Cinatti
[pedaço partido do poema «Os Pela Segunda Vez Nascidos», de 56 Poemas, Regra do Jogo, 1981.]
Notas
(a) Volume IV - «Poems, Short Fiction, Criticism» da edição internacional do Centenário de Beckett, da Grove Press, esgotou entretanto. Guarde o link da Book Depository, onde poderá mandar vir livros sem custos de envio para todo o mundo, mais em conta que pela Amazon.
(b) Já agora, media [diz-se /média/] é a palavra latina, igual ao plural português meios, e tornou-se o termo abrangente para dizer «meios de comunicação»; o inglês usa directamente termos do latim na linguagem oral e corrente (mais do que nós), mas usa-os com as normas de pronúncia adaptadas à sua fonética; ou seja, a palavra brasileira mídia ou a pronúncia à inglesa, por cá, são sinais exteriores de pobreza.
