Normal surreal
Maio 23, 2009

Num dos caminhos da Internet que vão dar a nenhures, soubemos que um dos muitos jornalistas-romancistas de tv, ou romancistas-jornalistas de tv, foi afectado por uma pleuresia. O golpe de realidade – que classificou como «Uma coisa chata e morosa» (com termos idênticos àqueles um colega descreveu o sentimento dos que ficaram fechados no Metro, parece que «indignados e chateados») – recebeu dois comentários numa página de Internet anexa a um jornal gratuito. Enfim, duas pessoas dispensaram minutos dos seus dias (com um mês de intervalo) para fazerem como nós aqui, mas num canto de uma de infinitas páginas de um jornal que se oferece nos corredores do Metro real e virtual.
Que emoções trazem consigo, quando se dedicam a registar nessa espécie de imensa parede pública?
* Olá [Nome].
Desejo que esta fase má da sua vida passe depressa e que regresse rapidamente (com mais calma) aos telejornais da TVI e restante actividade profissional.
Acredite que o telejornal da TVI não é o mesmo sem si.
Rápido restabelecimento e acredite que há mais coisas para além do trabalho…
Um abraço solidário
Isabel Cruz
MARIA ISABEL CRUZ | 12.05.2009 | 18.17H | DENUNCIAR COMENTÁRIO
* Olha, aproveita e lava a cabeça!…
JFK | 14.04.2009 | 15.34H | DENUNCIAR COMENTÁRIO
Personalização
Maio 4, 2009

Depois de algumas reclamações de amigos, e após mais umas férias da chamada realidade portuguesa, chegamos para ver a rua animadamente regressada aos princípios dos anos 80.
Nada de novo, sob este sol.
Entretanto, temos a relatar um pequeno episódio português. Ao comprarmos um leitor de dvd externo, para uso com um computador de pequeno formato, ofereceram-nos à escolha dois sólidos rectangulares com gaveta exactamente iguais, um com uma marca coreana e outro com o nome de magalhães em letra pequena, dizem, de tecnologia nacional.
«Olhe, eles são exactamente a mesma coisa, só que este diz magalhães e fica mais barato», disse-nos o vendedor, com genuína simpatia, depois de ter buscado com cuidado no armazém. «Não sei se lhe faz diferença».
Claro que faz diferença. Levámos o mais caro. Explicámos que não queríamos que o leitor de discos nos lembrasse, por um segundo, o programa que assenta no fornecimento de um bem de equipamento (medíocre) a um aprendiz geralmente incapaz de enfrentar um texto durante mais de dez minutos, seja num ecrã, seja numa página de papel impresso.
Um idiota à frente de um computador é um idiota à frente de um computador.
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… O que nos lembra um dos melhores aspectos da internet: a fuga ao condicionamento televisivo. Uma das nossas últimas entradas saudava, de maneira talvez demasiado concisa, a forma de comunicação conhecida por filesharing: a partilha automatizada de conteúdos de arte & entretenimento.
A nossa informação televisiva, sempre paroquial e alegremente mainstream, festejou vivamente a «prisão» dos responsáveis do site de partilha The Pirate Bay, parecendo contentar-se em exibir um conhecimento absolutamente rudimentar do processo judicial, longe de concluído (para além de uma total ignorância da ferramenta informática P2P, confundida com um dos aspectos do seu uso; porém, o tédio de argumentar sobre isto paralisa-nos).
É normal que a televisão colabore na «televisionação» da internet, ou seja, no condicionamento e racionamento comercial da circulação de todos os conteúdos. A mesma televisão que abdicou, tal como as indústrias irmãs do audiovisual, de muitos dos conteúdos de valor artístico que agora circulam democraticamente, muitas vezes exclusivamente, por sistemas de intercâmbio e divulgação como o filesharing.
Continuamos a receber cadeias de e-mails de preocupação pelas ameaças de estreitamento comercial da internet. Entretanto, a defesa da internet como praça aberta está, precisamente, nas mãos dos que se deixaram arrebanhar em facebooks e myspaces e twitterlands onde são diariamente mungidos de dados de perfil e comportamento por aqueles mesmos que lhes querem lotear o espaço.
O rebanho é fácil de tocar. Um opinador antecipava na nossa tv o futuro da internet 3.0 como um ambiente em que o acesso será «mais personalizado».
A personalização, explicada num português elíptico e assintáctico, era então a adequação das nossas (dele) buscas e escolhas aos nossos (dele) gostos. Ou seja, a personalidade toda de acordo com o manual básico da tipificação de grupos de consumo. O indivíduo enquanto cliente satisfeito.
Ou seja, encurtado o jargão pseudo-técnico e os exemplos complacentes, a personalização equivaleria à velha fórmula de mais do mesmo aplicada a cada um (em complemento da fórmula televisiva de mais do mesmo para todos). Quanto a nós, eis o exacto oposto da personalização, se é que o termo designa um aprofundamento individual, mas em relação com o mundo, e em tudo oposto àquele contentamento obsessivo-compulsivo do admirável mundo 3.0.
Direito de Partilha (fotografias de Arthur Rothstein)
Abril 20, 2009


(pormenor)
Fotografias do Domínio Público (reduzidas), parte de uma série obtida pelo processo de «Filesharing». Coligidas e oferecidas à partilha por um utilizador de software P2P, sem fins lucrativos. Não disponíveis comercialmente em conjunto e neste formato.


Normandia (série de Benoit Grimbert)
Dezembro 6, 2008






“Normandie”, série de Benoit Grimbert, completa no seu site homónimo.
Com graças a Mrs. Deane (e a Wood S. Lot, primeira fonte), blogue com luz clara que passa a figurar no nosso blogroll (ao fundo).
Devagar
Novembro 14, 2008

Cartoon de Dave Walker.
Opiário
Setembro 20, 2008
[revisto]
Quem pesquisar games waste of time vai encontrar enormes quantidades de sugestões de um género particular de jogos electrónicos, ultra-leves, que se gabam de fazer desperdiçar o tempo eficazmente.

As velhas fotografias dos pavilhões de ópio do século XIX, cheias de homens (e mulheres, nas salas e caves clandestinas de Nova Iorque e São Francisco, ou Sidney) de olhos vidrados, em posição fetal, não tombaram no passado. Estão aqui, com a sua aura e vórtice de fibra óptica.
A caminho de ver um amigo há muito distante, com quem tínhamos partilhado um concerto do guitarrista norueguês Terje Rypdal, fomos procurar um disco do músico na FNAC, de passagem.
Ali, o cinema e a música estão a sofrer uma razia de quantidade, e o desastre, na escolha e ordem. A mostra passou de fraca a aleatória. Os discos de cinema e os de música e vídeo musical migraram e juntaram-se, e a maior clareira é agora dedicada aos jogos de computador e às suas máquinas caras.
A loja que engoliu as outras lojas está confusa. Assente a moda de que os suportes materiais de música e vídeo podem ser substituídos pelo fumo do tráfego digital (e fugidos muitos dos que não pensam assim para a encomenda directa, ou para uma ou outra pequena loja temática) o grande retalhista parece acreditar que pode vender mais jogos em suporte físico. Será por pouco tempo.
Evaporados os narcóticos jogos para o trânsito virtual, vai sobrar muito espaço na loja. Ficarão só as máquinas. Depois trazem-se uns tapetes, e umas enxergas e colchas, para conforto dos experimentadores dos terminais e suas miragens de fogo, vertigem e repetição. Depois umas cortinas, contra a crua luz do dia…
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(Este texto acabou por ser escrito num dia obscuro em que nos perdemos no labirinto da loja em questão e acabámos por imaginar que a secção de cinema era ainda mais pequena do que de facto é. Mas, também de facto, está mais pequena do que já foi. Nos dias obscuros cai-se para fora da rotina, e pode ver-se a sombra que o presente larga para diante. Enfim. Comprámos um disco: de Rabih Abou-Khalil: “em português“, do músico libanês com o fadista Ricardo Ribeiro, & Luciano Biondini, Michel Godard e Jarrod Cagwin; Enja Records, 2008).
A Alegria
Setembro 6, 2008

“Penso que a alegria é uma falta de entendimento da situação em que nos encontramos”.
Andrei Tarkovsky: Interviews, ed. John Gianvito
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via, com agradecimento, Spurious, entrada de 1 de Setembro.
foto dramapessoal
A Tarefa
Junho 3, 2008

“Procrastination”, de Dave Walker
A Grande Radiofonia
Maio 10, 2008
[Esta nossa entrada, tão informativa que ela era, perdeu alguma eficácia no dia 20-5-2008, já que o blogue oficioso todo dedicado ao programa Theme Time Radio Hour foi desactivado na sua capacidade de transferência de ficheiros compactados do conteúdo dos programas, por uma queixa de violação de direitos de autor. Patrick Cosley entretanto, montou um novo estabelecimento, com novas regras, mas a mesma entrega à causa: a página TTRH fica agora dentro do seu blogue, CROZ.FM.]
[Um blogue português que preza as artes sente-se obrigado a concordar com a acção restritiva, porque quem ama as artes tem de amar também os direitos de autor. Só pode aceitar-se que o artista não tire a mão do pudim, nem da faca.]
[Entretanto, um amigo sem escrúpulos, que alimenta um amor dividido pelos direitos de autor e pelo seu produto, ele próprio autor espoliado, escreveu-nos a indicar outra ligação para material do programa Theme Time Radio Hour. Seremos coerentes com o já dito e... deixamos à consciência dos leitores os seus actos.]
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A maior ansiedade da indústria da divulgação é divulgar-se a si própria. Remunerar-se e remunerar os seus associados. Tudo serve, para continuar. Maria Felismina está grávida na primeira página, com poster do feto, ou o último grande êxito de Goma Xantana, que saiu ontem, já estão a ouvi-lo.
Nós aqui, sem fins lucrativos, não adiantamos nem temos de adiantar quando não temos nada a adiantar. Fazemos como Suze Rotolo – a namorada da capa de The Freewheelin’ Bob Dylan, o segundo disco, que fará 45 anos a 27 de Maio – que num aniversário do companheiro há muito afastado lhe desejou “Muitos mais anos e menos biografias”.
A Net não tem só defeitos. Com ela, e com o acesso digital, desvaneceu-se o poder de uma rádio portuguesa que passava em bateria a música como tempo de publicidade. Qualquer hipérbole valia, e depois, em ciclos de menos de uma hora, a dúzia de jingles dominantes rodava em contínuo, nas poucas estações que mandavam.
Os empregados das editoras liam pelos papéis que lhes mandavam traduzidos, ou que eles próprios transduziam. Repetiam saberes de ouvido. Historietas. Riam muito. E fizeram a sua vida. Cada super-êxito passava pontual e levava a sua multidão como carruagens do Metro.
Numa rádio que tinha uma memória histórica de alguns meses, Bob Dylan era sempre descrito como a curiosidade de 1961, ou um baladeiro dum além-Tejo americano. Mais umas piadas sobre a voz que não entendiam – num país em que a grande voz era um cantor de peitaça de opereta e reportório de bricabraque. (Quantas vozes tem Dylan?).
Nunca passaram daí. Agora que The Man é um dos temas maiores da sua cultura e chama à sua plateia todo o zoo artístico, o rádio de pilhas pequenino que foi essa rádio distribuidora fica à vista no seu tamanho real.
A dimensão da obra de Dylan que nos interessa aqui é a mais recente, e diz respeito à rádio. Dylan é o apresentador e senhor gerente de Theme Time Radio Hour. Viajando pela história da música popular americana e por uma escolha presente que a continua, com um tema diferente a cada programa de uma hora, ouvimos um contador de histórias e um grande ironista dos dilemas que vão sendo cantados.
Nós aqui descobrimos o programa através da hora com o título «Death and Taxes/Morte e Impostos», onde foi possível ouvir a definição de IRS do próprio Dylan, ou o gingão «I Paid My Income Tax Today», com Gene Autry e o trio de Jimmy Wakely (1942), «Tax Paying Blues», de J.B. Lenoir (1954), «Sunny Afternoon», dos Kinks, «Taxman», dos Beatles (ambas de 1966, ecos do cenário fiscal artístico do Reino Unido, que o anfitrião descreve); ou, ainda, canções com morte como «Freddie’s Dead», de Curtis Mayfield (1972), e «Rock ‘n’ Roll Suicide», de David Bowie (1972), todas alinhadas pelo melhor guia, em ambiente conversado e nocturno.

A conversa vai longa. O que queremos mesmo é enviar os amigos para um blogue de um dos admiradores tipicamente exaustivos de Dylan – e generosos – o músico canadiano Patrick Cosley, que gere Theme Time Radio Hour with Host Bob Dylan – um lugar todo dedicado ao programa, onde é possível fazer a descarga/download das duas temporadas já cumpridas, em pastas compactadas de ficheiros mp3 (zip). Quem sabe lidar com zipes, siga. [Ver nova morada ao alto.]
Aconselhamos também – mais uma expressão do gigantesco movimento em redor de Dylan – uma página exclusivamente dedicada à listagem de toda a música passada no programa e ao guião da locução (siga o link no blogue TTRH; ou vá directo para The Annotated Theme Time), como uma espécie de manual de serviço. Na Wikipédia, está disponível um artigo para cada uma das duas temporadas já cumpridas, e o elenco, canção a canção, de cada um dos 50 programas por temporada (alguns com duas horas), com datas e ligações aos artigos individuais dos autores, bem como aos artigos dedicados a algumas das canções (Temporada Um & Temporada Dois).
Cosley, também carinhosamente tratado por «Coz», tem o seu próprio blogue, que renasceu este ano, reformulado, depois de ter corrigido a sua política de publicação de gravações (para não infringir direitos da indústria). Assim, publica gravações não-oficiais, ou do domínio público. Tem já disponíveis gravações raras de Dylan, Neil Young, Joni Mitchel, Van Morrison, Rolling Stones, ou Jimi Hendrix e Leonard Cohen (o seu primeiro concerto, ou, melhor, recital de poesia com final à guitarra)… ou Bach. Junta também ligações para rádio de interesse histórico sonoro, curiosidades musicais, e curiosidades curiosas, do seu gosto mais privado.
Drama Pessoal será sempre um blogue com um olho para o teatro. Deixamos aqui o que diz sobre a arte cénica o próprio Bob Dylan, no primeiro volume da sua autobiografia, Chronicles/Crónicas:
Gostei do palco desde sempre, e, ainda mais, do teatro. Sempre me pareceu o trabalho artístico supremo, entre todos os trabalhos artísticos. Em qualquer ambiente, no salão de baile ou na rua, no pó de uma estrada do campo, a acção tinha sempre lugar num eterno “agora”.
Sei Quem Ela É
Abril 25, 2008

Esta é a miniatura da composição de uma entrada do blogue Em Terra Molhada, de violeta13. Sabemos quem ela é, mas não podemos elogiá-la por quem ela é, porque a sua energia pseudónima merece ser cuidada.
Quem ela é no blogue é que interessa aqui, com imagens que são mais escrita do que isto. Eis uma personagem que nos desarma (e revista) e às nossas ansiedades ortográficas e estilísticas e teóricas de encartados em Letras.
Ela é uma personalidade artística inteira, e tudo nas suas maneiras de fazer nasce do seu bricolage pessoal. Até a regra é toda interior. Escreve como quer e sempre soube, e fotografa da mesma maneira.
Na sua área profissional, está entre aqueles que o louvor só não vê por estarem altos e não ao nível do nariz e dos ouvidos. Nos vários níveis de bloguismo artístico possível, este é o mais alto e raríssimo entre nós: o da arte propriamente dita.
e toda a série de retratos animados dos dias próximos
& seguintes
O Blogue Branco
Abril 12, 2008
Muitos, mesmo que leiam, não identificam a leitura com acção. Não estava a fazer nada, estava a ler.
Ir a um sítio é fazer alguma coisa. Vamos a um sítio. Quem está num sítio está a fazer. Voltar de um sítio também é fazer. Até acabar de voltar de um sítio é fazer alguma coisa. O que é que estão a fazer? Acabámos de voltar daquele sítio. Havia imensa gente a voltar.
Muito do que é considerado fazer alguma coisa lembra os dois versos de Neil Young: It’s noisy at the fair, but all your friends are there. Está muito barulho na feira, mas estão lá todos, de qualquer maneira.
Ouvindo muitos que foram a sítios bem longe no mundo, parece que sentiram pouco enquanto lá estiveram. O viajante filtrou o lugar à escala das suas possibilidades, raramente interessantes. Nada passa. O viajante não teve de fazer o lugar. Não consegue refazê-lo, para que o vejamos. Não conseguiu ler, não conseguimos lê-lo.
Havia uma menina da Tv que ia a todo o lado. Estivesse nos Andes, em Pisa, no México ou nas banais ilhas tropicais cheias de bananais, tudo para ela era “fascinante”. O mesmo efeito de fascínio, comunicado com um discurso circular e uma expressão ocular rodopiante, teria sido conseguido com um painel de cenário, ou um efeito de ecrã azul. (Não andava muito por interiores, a narradora: monumentos, museus, etc).
A leitura pode trazer painéis de cenário sim, mas tantos e por vezes tão intrincados e activos que a viagem mental supera a viagem de quem, sem imaginação, se perde no cenário a que chama real. Não serve que o cenário seja real, se o viajante não o é.
A melhor forma de viajar é sentir, disse Fernando Pessoa, para quem, anos depois do regresso da África do Sul, muito jovem, uma viagem de comboio ao Carregado foi uma jornada imensa e deu, entre outras coisas, “O Comboio Descendente”. Lisboa, meu lar, disse. E nunca mais saiu. Viajou? Pois claro. E não gastou o que não tinha.
Esta divagação de sábado serve para saudar, e encaminhar alguns amigos para um dos melhores blogues que conhecemos, que, talvez por ser íntimo, não revelámos tão depressa. Chama-se “Spurious”, e tem um arranjo gráfico tão limpo que quase dispensa cabeçalho. Não tem cromos, como este blogue. Não precisa.

É o único blogue que invejamos. Não tem nada a ver com o tipo médio de blogues que podemos encontrar em língua portuguesa, estéreis, infantis, ou hipertensos por causa das actualidades, agitados e lentos, camaleões de todos os momentos.
Spurious é branco e linear, no justo sentido dos termos. A vida de quem escreve ali chega-nos por um ponto de vista serenamente assente, e por um estilo sem cores artificiais, espelho claro da experiência ilimitada da leitura. Há ficção (talvez na própria figura do eu que assina o blogue, desdobrada na escrita), e há sobretudo lugares mentais e lugares naturais. Mas, ali, quem escreve esteve nos sítios que descreve, e leva-nos por lá.
Ligação para a entrada How are We to Disappear? e para uma página pequena, dedicada a E.M. Cioran.
As Obras de Arte
Abril 2, 2008
Mais uma pausa exagerada. Este blogue luta com moinhos de vento. Pela segunda vez este ano, o nosso computador vai a caminho de Espanha, depois de ter deitado fora uma massa de textos e imagens. E ainda nos rimos de carros e telefones e selhas de lavar roupa com manivelas.

Não é só o computador que insiste em dar o exemplo (mais três amigos fazem as malas a esta hora; também com perdas e avarias profundas, mas já sem garantias).

Salvámos duas imagens que resistiram aos dois desastres. Os objectos fotografados estão há anos na mesma vitrina de Lisboa.
São objectos terríveis, pousados no vazio, abandonados pelo gosto de quem os criou e de quem os procurava. Precisam, como se diz em política artística, de um novo contexto.
Precisam de alguém, dirá quem os vende.
“As obras de Arte são grandes pelo indefinido e imperfeito que encerram, pois dessa imperfeição fecunda se alimenta o nosso espírito.”
Quão Intoxicado?
Março 11, 2008
A empresa de captação e gestão dos interesses e património de dependentes psíquicos fundada pelo falsário e escritor de ficção científica mitómano L. Ron Hubbard fez-nos chegar às mãos um papelinho com um questionário elementar, destinado à auto-avaliação de fracturas existenciais.
Faça este teste e descubra – anunciam. As respostas serão em Sim/Não, para contagem e diagnóstico.
1. Ocasionalmente sente-se fatigado sem razão aparente? 2. Sente-se por vezes “preso” e sem vida?… etc.
Charles Baudelaire sentiu-se fatigado sem razão aparente, e escreveu As Flores do Mal. Franz Kafka sentiu-se “preso” e sem vida, e escreveu A Metamorfose. Cesário Verde, fatigado e preso, escreveu “O Sentimento Dum Ocidental”. A Cientologia tem para nos dar, em alternativa, um actor medíocre apologista de uma alegria à prova de bala.

“Quão Intoxicado está?” – perguntam. Pela nossa pontuação, estamos em estado de “poluição física”, cheios de toxinas que não nos deixam Pensar de Forma Clara. Precisamos de Purificação (ou de Purification Rundown, o nome de um processo com marca registada, tal como Pensar de Forma Clara/Think Clearly, ou Cientologia).
Purificação, com letras maiúsculas, ficamos a saber, é uma marca registada de Religious Technology Center.
A nós, ver Tom Cruise a “pensar de forma clara” só nos dá mais certeza de que a obscuridade é o caminho.
O questionário lembra-nos antes um importante texto de auto-ajuda da literatura portuguesa: o poema “Inquérito”, de Alberto Pimenta, incluído na antologia Metamorfoses do Vídeo, que nos foi calorosamente oferecida a meio de uma conversa entre autor e muito jovem leitor, na Feira do Livro de Lisboa de 1986, e a cujo abraço autógrafo voltamos a responder com esta homenagem. Segue excerto (o poema tem perguntas até ao número 13):
INQUÉRITO
1. que motivos supõe v.exa. levaram os progenitores de v.exa a gerar v.exa., isto é, os levaram ao coito em consequência do qual v.exa. foi gerado?
- a vontade de gerar v.exa.?
- o prazer sexual?
- cumprimento das obrigações conjugais?
- embriaguês de um, ou de ambos os progenitores de v.exa.?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
2. crê v.exa. que os progenitores de v.exa. tinham o declarado desejo de que v.exa. nascesse?
- sim
- não
em que fundamenta v.exa. a sua opinião? ………………………………………………………………
no caso afirmativo, supõe v.exa. corresponder à ideia que os progenitores de v.exa. faziam do descendente que esperavam?
- no sexo?
- aspecto físico?
- inteligência?
3. por sua vez, correspondem os progenitores de v.exa. àquilo que v.exa. acha desejável?
- nos títulos?
- rendimentos?
- carácter?
4. quais as primeiras dificuldades da vida de que v.exa. se lembra?
- obedecer, quando se tratava de defecar?
- obedecer, quando se tratava de não defecar?
- obedecer, quando se tratava de comer?
- obedecer, quando se tratava de falar?
- obedecer, quando se tratava de não comer?
- obedecer, quando se tratava de não falar?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
[...]
[No texto do poema, os separadores deveriam, idealmente, ser quadrados de preenchimento.]
Para saber-se mais sobre a Cientologia, o documentário da série Panorama da BBC está “temporariamente indisponível” em Google Video. Pode ver-se em Guba.com, ou Putfile.com.


