Ida e volta, 2ª classe

Agosto 29, 2009

 

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Quilómetros de quintais industriais, cabos aéreos entre telhados, pinheiros misturados com palmeiras, restaurantes entre garagens e entre armazéns, gente a caminhar pela berma da estrada, de cores amarelas e bordões, com a alegria comum de um clã desportivo. É o país.

O maior inimigo deste blogue é o trabalho. Fomos em missão. Mas a ida e a volta, de propósito pela Nacional 1 e Itinerário Complementar 2, por entre casas fechadas e negócios parados, foi uma excursão pelo incerto e o inacabado. O país é uma estrada secundária.

 

Este Verão Cru

Agosto 3, 2009

 

 

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Este Verão cru continua o seu estrago. Deixou agora o seu posto de observação elevado o escritor M.S. Lourenço, tradutor de Wittgenstein e autor de obras como O Doge (sob a capa de tradutor do Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov) ou Os Degraus do Parnaso, volume de crónicas devotado, em parte importante, à contradição do culto da novidade e da mudança pela novidade, instaurado nas artes e nas vidas pelo império daquilo a que Adorno chamou «A Indústria da Cultura» e alguns chamam, por ser isso o que chamam a tudo o que os cerca, «A Arte Pop».

Devemos-lhe alguns dos poucos ensaios de qualidade que temos sobre Cesário Verde (poeta que tem sofrido terríveis assaltos de banalidade académica) e devemos-lhe o mais digno e bem-humorado obituário da velha Estrada de Sintra, sob a forma de um ensaio intitulado «À sombra das acácias em flor», que seria leitura obrigatória das classes aprendizes que habitam o erro urbanístico alternativo aos campos que foram dessa Estrada, fossem leitores de Literatura os programadores e muitos dos professores que por esses sítios exercem a sua rotina de nivelamento das imaginações.

Não é do extraordinário ensaio «Epopeia crepuscular», louvor de «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, que guardamos uma amostra, mas de «À sombra das acácias em flor», lamento pela devastação estética e ambiental que os povos da periferia lisboeta identificam com a modernidade, ou, como famosamente cunhou o mais alto magistrado da nação, «o pogresso»:

«Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida.

Sobre a linha dos telhados ergue-se um enorme bloco em construção, com a aparência de ser uma das muitas modernas garagens de cinco pisos de altura, onde os muitos automóveis do Cacém vão poder ser arrumados para descanso dos seus proprietários […]. Qual não foi a minha surpresa quando há duas semanas o bloco entrou numa nova fase de construção, da qual se segue, irrefutavelmente, que se trata afinal de uma igreja e, assim, em vez dos automóveis, terão que se arrumar lá dentro as almas do Cacém. É a estas almas do Cacém que, no escasso e sincopado vocabulário do dialecto tropical que agora se fala, vai ser transmitida a doutrina do Infinito, […]»

 

Os Degraus do Parnaso está disponível numa edição Assírio & Alvim.

 

Postal de Lisboa

Julho 30, 2009

 

 

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(luz crua: fotografia não-tratada)

 

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Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.

 

foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas

 

O Artifício Agradável

Junho 2, 2009

 

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No teatro, ou noutras artes, eis o que muitos ignoram e Boileau já sabia, à sua maneira, no auge do neoclassicismo francês. Que:

 

………………………………………. o artifício agradável,
Do mais afrontoso objecto, faz um objecto amável.

(Boileau, Arte Poética, Capítulo 3)

Todas as épocas têm o seu catálogo de tiques estéticos, que fornecem a público e artistas as suas fugas satisfatórias. E, em larga medida, as épocas artísticas constroem a sua segurança vilipendiando os tiques das épocas passadas (mas não vencidas). Os tiques de muitos de agora, em cena, tendem para o inverso do que Boileau acreditava, e certos actores sabem melhor correr (sim, em palco) ou cuspir, ou mastigar impropérios, do que articular completamente, ou, já agora, projectar com rendimento, ou, agora ainda, estar.
Ou seja, a voga presente tende para a convicção de que o artifício desagradável (para usar os termos de Boileau) faz de todo o objecto amável o afrontoso objecto procurado.

 

 

Pormenor de livro exposto no escaparate da Livraria Sá da Costa,
Chiado, Lisboa, com alegoria de louvor a Boileau
(elástico que prende a página à vista, à esquerda).

 

Queres saber

Junho 1, 2009

 

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Meus amiguinhos

Maio 9, 2009

 

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Nos nichos de um urbanismo tantas vezes absurdamente inclemente para com a memória e os seus animais, a natureza faz por não esquecer os seus hábitos mais disciplinados. O ninho de andorinhas que o Zé acompanhou este ano, no fundo de um saguão do século XIX, serviu desta vez três irmãos. Os fios que se notam são cabelos humanos, colhidos nos salões de coiffure da zona.

 

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À espera que a Staples de Alfragide abrisse, eram 9:30 de um sábado recente, fomos ver o quadro natural nas fendas da que é hoje uma zona industrial e comercial tipicamente sobrelotada. O cheiro a contágio fecal e fosfatos não consegue destruir alguma paz harmónica. A posar para a fotografia do desfiladeiro fabril da ribeira de Algés, acima, descobrimos um amiguinho a tratar do pequeno-almoço.

 

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e (ao alto) JGF.
a imagem ao fundo é um pormenor.

 

Paisagem

Abril 6, 2009

 

O resto é paisagem, diz o cliché português. Para falar do que não conta.

Da Torre de Anto, de onde se poderia hoje voltar a ver a distância que António viu, nas suas gazetas visionárias, vê-se hoje aquilo a que se chama, no dialecto local, uma urbanização. Ou seja, um grupo de blocos colectivos distribuídos de acordo com um critério rodoviário.

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Numa pausa deste trabalho que nos tem afastado do blogue, recebemos um e-mail convidativo de uma imobiliária, que nos pareceu resumir toda a televisão que não vemos, e jornais que não lemos, cheios de segredos de justiça, e «casos» do futebol mais entediante de toda a Europa.

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Prometem-nos uma «moradia fantástica». Veja-se-lhe o preço. E a arquitectura, do melhor da escola clandestina portuguesa. Volume interior contra tudo em redor. Espreitámos na mesma altura o New York Times e uma selecção de casas a 130.000 dólares (faça-se a conversão para o nosso mercado suburbano e veja-se a paisagem). Escolhemos fotos de uma delas, uma casa anterior à guerra-civil, em Louisville, no Kentucky, redecorada em estilo eclético. Perdoe-se-nos a mistura caótica desta entrada.

 

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Mas o que temos pena de não ver é a paisagem da «moradia fantástica», no Casal da Mira. Temos apenas um resto, um volume de paredão amarelo com uma janela quadrada, e alguns cabos eléctricos livres de qualquer constrangimento. Na casa do Kentucky, como nota sentimental, veja-se o cartaz Porto Sandeman.

 

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O Guardian dedicou no sábado uma página interactiva à velha zona dos livros da Charing Cross Road. Vale a pena ver os três curtos filmes de minuto e meio sobre a Murder One, a Any Amount of Books e a Quinto, e espreitar as caves das duas últimas.

O título da peça, qualquer coisa como «O Desvanecente Mundo dos Livros», é demasiado drástico (ou demasiado livresco), mas acaba por oferecer-se uma comoção bastante suave, a propósito do fecho da livraria Murder One, casa especialista da ficção do crime e mistério, vítima da mudança de hábitos (de percurso a pé, de busca e encomenda de livros, de consumo, em tempo de credit crunch).

Já tínhamos visto fechar outras casas daquela rua, na crise de 1992. Assistimos a uma enorme mudança, em 2002, quando descobrimos a desarrumada, labiríntica e infinita Foyles convertida em loja de grandes novidades, limpa, colorida, sem surpresas e cheia de manuais de estilo de vida e fitness. Muitas das outras livrarias foram transformadas em Waterstones, ou semelhantes, todas com os mesmos destaques, os mesmos chamarizes, cheias daqueles objectos que valem seis meses de conversa e ocasionalmente alguma fraca filmografia, a que famosamente Alexandre O’Neill chamou as bestas-céleres.

A Waterstones Booksellers até comprou a verde-escura Hatchards («desde 1797»), a livraria que aceita listas de casamento, e a cuja modesta página também é possível aceder através da página do grossista do livro («Waterstones – discover something new»).

Na cave da Any Amount of Books encontrámos uma cópia da edição Arden d’A Tempestade de Shakespeare, Segunda Série, comentada por Frank Kermode, para substituir a que afinal não tínhamos perdido (a edição de Kermode reinou desde 1954 a 1999 como edição universitária). E pudemos conversar com quem estava na loja sobre pormenores da superioridade dessa edição em relação ao volume da nova Terceira Série (uma coisa carregada dos clichés do multiculturalismo, cheia de pobres escolhas textuais e inchada de falatório, montada por um casal de suburbanos new age que agradecem aos cães e um ao outro a companhia e o mau serviço).

Isto tudo para contrapor à pequena tragédia lenta da rua de Londres o que se passa em Lisboa, no Calhariz, e pela Calçada do Combro até ao Poço dos Negros (incluindo a boca da Rua d’O Século, a caminho da nova sala de teatro «Negócio», a cargo da Zé dos Bois), onde se têm juntado mais lojas dedicadas aos livros sem tempo, e onde há quem conheça o que vende – para quem o que saiu hoje ou vai sair para a semana só talvez interesse daqui a uns bons anos.

 

Guardian: «Charing Cross – the fading world of books»

(Na página de abertura, clique «Next», no canto inferior esquerdo, e, no mapa, em cada video-bt para os mini-vídeos; nos quadrados vermelhos para as fotos).

 

 

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“Normandie”, série de Benoit Grimbert, completa no seu site homónimo.

Com graças a Mrs. Deane (e a Wood S. Lot, primeira fonte), blogue com luz clara que passa a figurar no nosso blogroll (ao fundo).

 

Bela

Novembro 27, 2008

 

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Chamamos-lhe Bela. Não sabemos quem é.
Comprámos a fotografia por dez escudos, há uns vinte anos.
As arcadas de metal que intrigam alguns, nas varandas velhas de Lisboa, funcionavam assim, como suportes de divisórias.
Bela tem uma vida pela frente. É muito jovem.
Talvez demasiado, diria ela.

 

 

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“We are the ones we’ve been waiting for. We are the change that we seek.”

 

 

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Fotografias (à venda) de Stephen Salmieri, via Artnet:

Coney Island, NY (1968)
1963 Coupe de Ville, New York City (1973)
Coney Island, NY, 1969 (imp.2000)

 

Aleluia

Novembro 5, 2008

 

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Fotografias de Dave Jordano,

das storefront churches, as pequenas igrejas de “frente de loja” de Chicago, para o fotógrafo lugares de “esperança, conforto e ligação”. Fotografias das séries “Articles of Faith I & II”, disponíveis por inteiro no capítulo “projects” da sua página profissional.
“Ideal” é a legenda na bacia baptismal da primeira foto.

 

Agradecimentos: Wood S Lot

 

Nenhum Sexo Ontem à Noite

Outubro 30, 2008

 

 

 

A maior parte do tempo a direito, entre entrepostos de serviço automóvel, de serviço de restauração e bebidas, de serviço de alojamento nocturno, e de serviço matrimonial, para um gesto de ficção, ou chamemos-lhe fantasia, conforme a escola estética.

Sigamos Sophie Calle e Greg Shephard a encenarem os bastidores de uma relação, nos bastidores de uma América menos iluminada (filme que teve conversão de DV8 para 35 mm e relançamento internacional com estreia portuguesa pela mão do produtor Paulo Branco, ocasião em que mudou de nome, de Double-Blind para No Sex Last Night).

 

Ligação ao fundo.

Disponível em Ubuweb.