Retrato (em leilão)
Outubro 28, 2009

Katy Grannan, Middleton, WI, 2000
Faça a sua oferta à galeria Phillips de Pury & Company.
(Estimativa 3,000-5,000 US$)
Polaróide
Março 1, 2009

Faz um ano que a empresa Polaroid anunciou a «descontinuação» das suas películas instantâneas, mais tarde ou mais cedo, progressivamente, «de acordo com a procura», num último gesto de chantagem emocional-comercial. Por esta altura, os últimos pacotes de películas produzidos em 2008 começaram a caducar (ver tabela oficial), e irão caducando até ao fim do Verão deste ano.
O filme que fundiu o instante e a sua fixação sem a cerimónia fotográfica – graças a uma transição química que estranhamente beneficiava com o calor do corpo – não é fácil de imitar com os novos meios que banalizaram o imediato e parecem ter arrefecido a relação com ele. A paleta saturada, incendiada ou submersa, conforme o clima do lugar, foi comparada por alguns às cores da própria memória. O filme era dramático por excelência, favorecia a cena, não o pormenor. Foge, que já te apanho. Não fujas, que só tenho dez imagens para gastar.
(A polaróide em cima não é autêntica. Falsificação digital & foto dramapessoal).
Tarde lisboeta (caminhada, com meditação sobre o bloguismo)
Fevereiro 16, 2009
«Voltemos ao início. Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? – injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»
Maria Filomena Molder, «Uma Promessa do Deserto» (último parágrafo),
in A Imperfeição da Filosofia, Relógio d’Água, 2003.
fotos dramapessoal
Ia todos os dias ao teu blogue
Janeiro 7, 2009
“Ia todos os dias ao teu blogue. Mas ao fim de algum tempo percebi que só punhas alguma coisa de vez em quando…”

“Não gosto de fazer esperar. Amanhã ponho este copo.”
Aleluia
Novembro 5, 2008





Fotografias de Dave Jordano,
das storefront churches, as pequenas igrejas de “frente de loja” de Chicago, para o fotógrafo lugares de “esperança, conforto e ligação”. Fotografias das séries “Articles of Faith I & II”, disponíveis por inteiro no capítulo “projects” da sua página profissional.
“Ideal” é a legenda na bacia baptismal da primeira foto.
Agradecimentos: Wood S Lot
Pouco tempo
Outubro 19, 2008


Temos tido muito pouco tempo.
Portugal 67 (Caminhada Matinal)
Setembro 22, 2008


Eis um escaparate da Rua de São Bento, há um ano. O mecânico ou fogueiro festeja o dia 12-2-1967. Estranhamente, todo o arranjo parecia uma alegoria desse tempo.
O mecânico já foi vendido, e as figuras africanas quase todas. (Figuras africanas com alguma verdade, e ainda não caricaturas de cópias das cópias modernistas). As prateleiras mantêm o seu estilo. E o menino triste ainda está à venda. (É uma peça dos anos de 1920-30, e está agora ao pé de uma menina da mesma época, qual deles o mais perdido).
Opiário
Setembro 20, 2008
[revisto]
Quem pesquisar games waste of time vai encontrar enormes quantidades de sugestões de um género particular de jogos electrónicos, ultra-leves, que se gabam de fazer desperdiçar o tempo eficazmente.

As velhas fotografias dos pavilhões de ópio do século XIX, cheias de homens (e mulheres, nas salas e caves clandestinas de Nova Iorque e São Francisco, ou Sidney) de olhos vidrados, em posição fetal, não tombaram no passado. Estão aqui, com a sua aura e vórtice de fibra óptica.
A caminho de ver um amigo há muito distante, com quem tínhamos partilhado um concerto do guitarrista norueguês Terje Rypdal, fomos procurar um disco do músico na FNAC, de passagem.
Ali, o cinema e a música estão a sofrer uma razia de quantidade, e o desastre, na escolha e ordem. A mostra passou de fraca a aleatória. Os discos de cinema e os de música e vídeo musical migraram e juntaram-se, e a maior clareira é agora dedicada aos jogos de computador e às suas máquinas caras.
A loja que engoliu as outras lojas está confusa. Assente a moda de que os suportes materiais de música e vídeo podem ser substituídos pelo fumo do tráfego digital (e fugidos muitos dos que não pensam assim para a encomenda directa, ou para uma ou outra pequena loja temática) o grande retalhista parece acreditar que pode vender mais jogos em suporte físico. Será por pouco tempo.
Evaporados os narcóticos jogos para o trânsito virtual, vai sobrar muito espaço na loja. Ficarão só as máquinas. Depois trazem-se uns tapetes, e umas enxergas e colchas, para conforto dos experimentadores dos terminais e suas miragens de fogo, vertigem e repetição. Depois umas cortinas, contra a crua luz do dia…
————-
(Este texto acabou por ser escrito num dia obscuro em que nos perdemos no labirinto da loja em questão e acabámos por imaginar que a secção de cinema era ainda mais pequena do que de facto é. Mas, também de facto, está mais pequena do que já foi. Nos dias obscuros cai-se para fora da rotina, e pode ver-se a sombra que o presente larga para diante. Enfim. Comprámos um disco: de Rabih Abou-Khalil: “em português“, do músico libanês com o fadista Ricardo Ribeiro, & Luciano Biondini, Michel Godard e Jarrod Cagwin; Enja Records, 2008).
Bea
Setembro 18, 2008

Bea Szenfeld, moda (Suécia).

via Emma Cassi, via A cup of Jo, via Design Dig
(para um caminho de pessoas fazedoras e/ou admiradoras de belos objectos)
agradecimentos: Karina Jeppesen
Ah, Outra Luz
Setembro 2, 2008

foto dramapessoal
“A melhor forma de viajar é sentir”
Agosto 28, 2008


O artista londrino Slinkachu monta na rua pequenos dramas com figuras minúsculas.
São as suas pessoas pequenas.
Fotografa-as e abandona-as nos seus cenários, para se cuidarem por si próprias.
De que tamanho é uma cidade?


Blogue Little People, de Slinkachu. Pequena galeria de cenas, no jornal Guardian.
Título de Fernando Pessoa.
Pequeno-almoço Fora (Caminhada Matinal)
Maio 13, 2008

Maio
Maio 5, 2008

[17]
«Deixei o mundo com a ajuda de outro mundo;
um desígnio foi apagado,
por virtude de um desígnio mais alto.
De ora em diante vou a caminho do Repouso,
onde o tempo descansa na Eternidade dos Tempos.
Agora entro no Silêncio.»
Tendo dito isto, Maria ficou em silêncio,
pois fora no silêncio que o Mestre lhe falara.
Então falou André, e disse aos seus irmãos:
«Dizei-me, o que pensais das coisas que ela nos tem dito?
Quanto a mim, não acredito
que o Mestre lhe falasse desta maneira.
Estas ideias são muito diferentes das que aprendemos.»
E Pedro acrescentou:
«Como é possível que o Mestre falasse
desta maneira com uma mulher
a respeito de segredos que nós próprios ignoramos?
Deveremos mudar os nossos costumes,
para ouvirmos esta mulher?
Será que Ele a escolheu, e a preferiu a nós?[18]
Foi então que Maria chorou,
e lhe respondeu:
«Meu irmão Pedro, em que pensas tu?
Pensas que isto sou eu só que o imagino,
que eu inventei esta visão?
Ou crês que eu mentiria a respeito do nosso Mestre?»
Nisto, Levi ergueu a sua voz:
«Pedro, sempre foste colérico no temperamento,
e agora vemos que repudias uma mulher,
assim como fazem os nossos adversários.
Todavia, se o Mestre a ela deu valor,
quem és tu para rejeitá-la?
Por certo o Mestre a conheceu muito bem,
pois a amou mais que a nós.
Tratemos então de achar acordo,
e tornemo-nos em tudo humanos,
para que o Mestre crie raízes em nós.
Cresçamos como Ele nos pediu,
e sigamos ao caminho a espalhar o evangelho,
sem nos metermos a criar quaisquer regras e leis
para além daquelas de que fomos testemunhas».
texto: páginas 17 e 18 do Evangelho de Maria,
também conhecido por Evangelho de Maria Madalena,
apócrifo extraído do Códice de Akhmim, trazido do Cairo, em 1896, por Carl Reinhardt,
e dos Códices de Nag Hammadi, descobertos num vaso selado enterrado no deserto.
fotografia: pormenor de figurino da colecção Primavera-Verão 2007
de Jean-Paul Gaultier: desfile em Style.com ou em Vogue Australia
O Facho Olímpico
Abril 6, 2008
“A competição desportiva cavalheiresca
ajuda a tecer os laços de paz entre as nações.
Que nunca se extinga a chama olímpica”. Adolf Hitler

O site oficial dos Jogos Olímpicos de Pequim dedicou uma página especial à tocha que inaugurou o costume da chama olímpica. É recente, o costume, data de 1936.
O interesse do objecto, um sólido ícone modernista, não tem qualquer valor, ao pé da perturbadora falsa neutralidade do texto da responsabilidade do Comité Olímpico Internacional, no site do Comité Olímpico Chinês.
A enorme série de falsificações históricas que criou o mito da integridade do género ariano também passava pela fantasia da antiguidade helénica como um primitivo berço racial. A proposta da sagração dessa origem com o ritual do acendimento de um facho, segundo o site, foi feita ao COI pelo Secretário Geral do Comité Organizador dos Jogos de Berlim. O site não dá o nome ao homem.

Chamava-se Carl Diem, e respondia directamente a Josef Goebbels, o plenipotente Ministro da Propaganda.
A acção de rasurar nomes é intensamente política, e exige, obviamente, um cálculo maior do que a sua simples menção. Não é preciso ler-se Theodor Adorno a respeito da política das coisas sem política para se chegar a esta conclusão.
O site dos Jogos de Pequim continua, com mais uma elipse macabra. Segundo o site, o percurso da chama (a que chamamos facho, porque também lembra o fascio, ou feixe, emblema do conceito de unidade nacional pela força bélica que Mussolini apurou e a cuja família o emblema germânico do archote pertenceu) foi uma jornada de puro entusiasmo.
Mas o percurso tinha sido delineado por Goebbels para atravessar todos os territórios cuja anexação era prioritária no plano do III Reich. Três anos mais tarde, nesses territórios do Sudeste, começava o massacre das minorias, muitas vezes pela mão de milícias locais, com carta branca das SS. À passagem da chama, como lembra Chris Bowlby, para a BBC News, músicos ciganos húngaros tocaram a sua música, a pouco mais de três anos de serem deportados em massa.
O facho já ostentava o emblema da Krupp, o gigante da fundição de canhões e munição, que então laborava a pleno vapor.
A Anexação da Áustria começou, pode dizer-se, à passagem do facho, que foi acendendo comícios nazis, organizados em articulação com a propaganda olímpica. Os que não estavam vencidos pela ilusão, foram vencidos pelo ruído e pelo medo.
Mas, para o Comité Olímpico Internacional e o seu parceiro chinês, o calor do desporto está acima de tudo:
Os Comités Olímpicos Nacionais da Grécia, Bulgária, Jugoslávia, Hungria, Áustria, Checoslováquia e Alemanha (os sete países percorridos pelo desfile da chama) foram inteiramente favoráveis à ideia e cooperaram entusiasticamente no projecto. O Comité Organizador planeou uma rota que atravessava as capitais de cada um desses países.
A mesma rota seria cumprida pouco tempo depois, em sentido contrário, pelas tropas de choque do grande vencedor dos jogos (com 33 medalhas de ouro). O desporto, cuja razão de ser, em muitos domínios, se tem perdido catastroficamente, poderá servir, como disse Hitler, para tecer laços entre as nações. Mas deverá servir para rasurar, ou mesmo substituir a história de modo tão absoluto?
Há quem se lembre de quem ganhou o salto em altura em Munique 1972. E o lançamento do peso. E há quem lembre que um banho de sangue não parou os jogos, enquanto o terrorismo de acção directa contra civis estava a ser inventado na sua moderna forma. Sim, talvez o mundo devesse ter parado.
Quem subiu depois ao pódio, festejava o quê?

Já ninguém comenta o falso amadorismo dos Jogos, e o vácuo da expressão “Ideal Olímpico”. Desde então, é duvidoso que os Jogos tenham desenvolvido mais a paz do que os tribalismos nacionais, o doping e o negócio do esforço físico e dos seus equipamentos (ou, menos comerciais, as políticas de mobilização para o desporto de vários estados inimigos da liberdade individual, para comando interno das massas e propaganda atlética no exterior).
Curiosamente, o site dos Jogos de Pequim descreve o facho e nota que transportava a inscrição “Fackelstaffel-Lauf Olympia-Berlin 1936″, com os anéis olímpicos e “uma águia sobreposta”.
Ora, o Comité Olímpico Internacional apagou aqui até a sua própria história. A ideia de Goebbels de fundir a simbologia nazi com a dos jogos, mais nítida no emblema da águia sobreposta aos anéis olímpicos, chegou a ser formalmente rejeitada pelo COI, e o emblema teve de ser retirado (como foi retirada das bancadas oficiais a propaganda anti-semita e anti-homossexual publicada para consumo dos alemães).
Mas o facho, teimosamente, insistiu no símbolo primitivo, e a águia anunciava já a sua própria lei e indiferença a todos os contratos. Se alguém reparou, nada se fez. Achou-se preferível não perturbar a Cerimónia.