Retrato (Sasha Grey)

Outubro 22, 2009

 

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Sasha Grey, por Richard Kern

 

Família

Agosto 30, 2009

 

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«A família demorou-se junto à sepultura do senador Edward M. Kennedy, no Cemitério Nacional de Arlington». (New York Times)

Apesar de transformada em miniatura, a fotografia de Doug Mills não fraqueja na sua mecânica intensa. Não há crepúsculo, há só dia. Imobilidade nenhuma.

 

Deus em Pacote

Agosto 6, 2009

 

Depois de fazermos o «louvor e simplificação» da obra de M.S. Lourenço apenas pelo mais caricatural dos seus humores, nada nos poderia fazer sentir ainda mais a areia das palavras ao vento que um pacote de açúcar dedicado a Deus. O açúcar que não consumimos insiste em mandar-nos recados.
O certo é que nunca perceberemos por que razão à cólera dos homens corresponde por hábito justamente o oposto do que diz o pacote.

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Este Verão Cru

Agosto 3, 2009

 

 

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Este Verão cru continua o seu estrago. Deixou agora o seu posto de observação elevado o escritor M.S. Lourenço, tradutor de Wittgenstein e autor de obras como O Doge (sob a capa de tradutor do Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov) ou Os Degraus do Parnaso, volume de crónicas devotado, em parte importante, à contradição do culto da novidade e da mudança pela novidade, instaurado nas artes e nas vidas pelo império daquilo a que Adorno chamou «A Indústria da Cultura» e alguns chamam, por ser isso o que chamam a tudo o que os cerca, «A Arte Pop».

Devemos-lhe alguns dos poucos ensaios de qualidade que temos sobre Cesário Verde (poeta que tem sofrido terríveis assaltos de banalidade académica) e devemos-lhe o mais digno e bem-humorado obituário da velha Estrada de Sintra, sob a forma de um ensaio intitulado «À sombra das acácias em flor», que seria leitura obrigatória das classes aprendizes que habitam o erro urbanístico alternativo aos campos que foram dessa Estrada, fossem leitores de Literatura os programadores e muitos dos professores que por esses sítios exercem a sua rotina de nivelamento das imaginações.

Não é do extraordinário ensaio «Epopeia crepuscular», louvor de «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, que guardamos uma amostra, mas de «À sombra das acácias em flor», lamento pela devastação estética e ambiental que os povos da periferia lisboeta identificam com a modernidade, ou, como famosamente cunhou o mais alto magistrado da nação, «o pogresso»:

«Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida.

Sobre a linha dos telhados ergue-se um enorme bloco em construção, com a aparência de ser uma das muitas modernas garagens de cinco pisos de altura, onde os muitos automóveis do Cacém vão poder ser arrumados para descanso dos seus proprietários […]. Qual não foi a minha surpresa quando há duas semanas o bloco entrou numa nova fase de construção, da qual se segue, irrefutavelmente, que se trata afinal de uma igreja e, assim, em vez dos automóveis, terão que se arrumar lá dentro as almas do Cacém. É a estas almas do Cacém que, no escasso e sincopado vocabulário do dialecto tropical que agora se fala, vai ser transmitida a doutrina do Infinito, […]»

 

Os Degraus do Parnaso está disponível numa edição Assírio & Alvim.

 

 

Tivemos umas indignações cívicas, que já calámos e apagámos.
Preferimos fugir à opinião como fugimos ao «show aéreo» que atraiu duzentos mil – ó balão – ou fugimos às «actividades de Verão do agrado de todos» ou mesmo ao «campo de treino para jovens muçulmanos convertidos ao Islão», uma sugestão jornalística típica da época balnear.
Saudamos Merce Cunningham na sua partida, aos noventa anos, e podíamo-lo ter feito com outros, como o actor Karl Malden (ou Mladen Sekulovich, de mãe checa e pai sérvio). A perda de Pina B. entristeceu mais, pela impressão de incompletude do seu caminho, mas completo, afinal, só o universo ptolomaico, em que já só as tirinhas astrológicas e os programas de trash-talk acreditam, ou seja, quase toda a gente.

 

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Na partida de Merce Cunningham vamos buscar um pequeno testemunho que um português depositou na página dedicada à notícia no jornal Público, porque há um português sempre, em cada acontecimento planetário, e chega a ser comovente o português ausente, como no desastre que causou duzentas vítimas, menos o português, felizmente. O texto fica aqui como foi publicado, evidentemente truncado no início, e nalguma dactilografia.

 

esta era a forma como nos compnheiros de trabalho nos referiamos ao senhor Merce Cunningham, e e espantoso como tem que falecer uma pessoa para que possamos saber a grandeza da sua historia. Sou um imigrante nos E. U. A. e tenho 20 anos a trabalhar no predio a onde este o mister Merce tem o seu apartamento, tem 16 janelas com frente para 6=a avenida que foram subestituidas por novas e por mim, e que foram feitas e importadas de Portugal, em Pinheiro da Bemposta O. de Azemeis de onde sou natural Orgulho de Portugues

de Manuel Ferreira, New York, U.S.A.

 

Há mais mundo

Julho 1, 2009

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Há uns dias, parece que morreu
«o maior artista de todos os tempos de todo o mundo».
Hoje relembramos, com alegria e tristeza, que há mais mundo.

 

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Este vídeo é falso, não liga. O de baixo também é totalmente falso.

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Entrevista completa, no jornal Guardian

 

[texto do Guardian] Gilbert e George nunca casaram, preferindo, dizem, «viver em pecado». «Queremos ser esquisitos normais», diz George. «Não queremos estar informados, como toda a gente está, porque nesse caso não teríamos nada para dizer». A orientação política de George parece brotar do mesmo impulso: «Eu não sou nada, mas o George é Conservador», diz Gilbert. «Estranhamente, isso é perfeitamente aceitável para qualquer taxista, qualquer empregado de mesa, mas não no mundo da arte», diz George. «Para eles, a esquerda é bom. E a arte é esquerda». Gilbert acrescenta: «Eles acreditam na igualdade. Nós não. Nós queremos ser diferentes».

 

 

[Estranhamente para qualquer taxista, a foto do artigo foi trocada, de uma que mostrava os artistas a fazerem o icónico boca-a-boca-dos-dedos para outra com ambos perfilados, no icónico duelo de gravatas e fatos, até ser substituída pelo vídeo com que fizemos este jogo gráfico rudimentar.]

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Eu sou a minha mãe

Junho 17, 2009

 

Uma das fraquezas da ficção dramática popular, para além do maniqueísmo católico que racha a sua colecção de tipos básicos em dois grupos, os justos e os perversos (há um terceiro grupo, o dos figurantes, parte dos quais falam), é a falta de um elemento de escrita que no teatro romântico dava pelo nome de «grande deixa»: a tensão de uma cena resolvida numa fala, ou numa riposta a uma fala.

 

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O novaiorquino Thomas Prusik-Parkin foi recentemente forçado a levar à cena da sua própria vida este recurso estilístico, e fê-lo com eficácia. Foi acusado de falsificação de documentos, fraude, uso de falsa identidade, e etc, depois de ter usado peruca, vestido, maquilhagem e óculos escuros para se fazer passar pela própria mãe, falecida em 2003, e poder receber, em nome dela, cerca de 115 mil dólares em benefícios sociais e subsídios de renda.

Quando foi preso, declarou às autoridades: «Segurei a minha mãe nos meus braços enquanto morria, e respirei o seu último suspiro. Portanto, eu sou a minha mãe».

 

via BBC NEWS

 

Normal surreal

Maio 23, 2009

 

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Num dos caminhos da Internet que vão dar a nenhures, soubemos que um dos muitos jornalistas-romancistas de tv, ou romancistas-jornalistas de tv, foi afectado por uma pleuresia. O golpe de realidade – que classificou como «Uma coisa chata e morosa» (com termos idênticos àqueles um colega descreveu o sentimento dos que ficaram fechados no Metro, parece que «indignados e chateados») – recebeu dois comentários numa página de Internet anexa a um jornal gratuito. Enfim, duas pessoas dispensaram minutos dos seus dias (com um mês de intervalo) para fazerem como nós aqui, mas num canto de uma de infinitas páginas de um jornal que se oferece nos corredores do Metro real e virtual.

Que emoções trazem consigo, quando se dedicam a registar nessa espécie de imensa parede pública?


* Olá [Nome].
Desejo que esta fase má da sua vida passe depressa e que regresse rapidamente (com mais calma) aos telejornais da TVI e restante actividade profissional.
Acredite que o telejornal da TVI não é o mesmo sem si.
Rápido restabelecimento e acredite que há mais coisas para além do trabalho…
Um abraço solidário
Isabel Cruz

MARIA ISABEL CRUZ | 12.05.2009 | 18.17H | DENUNCIAR COMENTÁRIO

* Olha, aproveita e lava a cabeça!…
JFK | 14.04.2009 | 15.34H | DENUNCIAR COMENTÁRIO

 

Adeus Vasco Granja

Maio 6, 2009

 

Vasco Granja morreu anteontem de madrugada, com 83 anos. A arte do obituário é uma coisa patética, mas a morte de mais um educador artístico não deve deixar-se cair.

Durante anos, uma das polémicas artísticas deste país, talvez a maior, a que formou gerações, foi em redor da escolha de filmes de animação de V.G. para os seus programas: sobre se devia pôr no ar mais filmes da Warner Brothers, da série Looney Tunes, de montagem rápida, banda sonora estridente e humor de choque, ou se tinha o direito de insistir no material de outros mestres, como o checo Jirí Trnka, ou o canadiano Norman McLaren, entre tantos.

 

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Os filmes da Warner já tinham saída na transmissão corrente, e já tinham formado o gosto dominante, aquele mesmo que se alimenta dos filmes-de-acção & catástrofe-com-chacota de um Bruce Willis, ou infinitas variantes dessa variante. O próprio Vasco Granja brincava com a sede de muitos espectadores pelos brinquedos ruidosos, extraordinários, diga-se, mesmo quando apostavam no mecanismo tão televisivo da rotina cómica com estreita variação.

Mas até esses filmes caíram vítimas da psicologia popular de reacção piedosa à «violência» na tv. Nós aqui achamos mais violento que um champô prometa «biovitaminas», e «alimente» o tecido morto do cabelo directamente. Nós aqui só aprendemos com aquela que foi talvez a única sequência sem fuga histriónica de toda essa cinematografia, a famosa noite de insónia do gato Silvester/Silvestre, um momento de Kafka-para-todas-as-criancinhas, que o avô Granja apreciava especialmente.

Não sabemos se Vasco Granja morreu com a mesma sensação de dever cumprido de Mel Blanc, pai da voz de Bugs Bunny & outros, que deixou no seu próprio epitáfio a legenda final desses filmes: That’s All Folks! – ao mesmo tempo uma espécie de «manguito» existencialista.

 

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Mas sabemos que muitos lhe estão gratos como nós. Por ter aberto o ponto de vista, algo de que hoje a nossa televisão foge a sete pés (… eis uma figura animada). Porque, dizem os seus donos, «não têm nada que educar as massas». Nesta fórmula, que F.P. Balsemão usou, está escondido, curiosamente, o eco talvez involuntário de uma caricatura de Vasco Granja, vinda do tempo da guerra fria, de quando o divulgador era visto, sempre com uma bonomia pálida, como uma «espécie de embaixador dos países de Leste».

Por isso escolhemos agradecer especialmente a Vasco Granja a descoberta do insuspeito canadiano Norman McLaren, músico e desenhador, a cujos filmes sonoros, baseados exactamente no mesmo princípio jazzístico dos Looney Tunes, dedicámos uma parte do dia de ontem. No Youtube é possível ver o enérgico «Sinchronomy», bem como «Sinchronomy on Mars» ou «Lignes Verticales/Lines Vertical».

 

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Imagens do filme «Synchronomy», de Norman McLaren.

 

50 Anos

Março 10, 2009

 

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Sagrámos o dia com o envio desta imagem para os e-mails:

 

chinaemb_pt@mail.mfa.gov.cn
chinaemb_pt@mfa.gov.cn

 

 

Prússia: liberdade de movimentos, com uma mordaça. Áustria: confinamento solitário, com permissão para gritar.

Schiller punha maçãs podres na secretária, para inspiração dramática. Desde então, os públicos da Alemanha têm medo de usá-las como arma.

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A prostituição decente depende da crença na monogamia.

Para o filisteu, a arte é um trajo vistoso para a rotina e os problemas do dia-a-dia. Deita a língua de fora aos ornamentos como o cão às salsichas.

As donas dos bordéis são as guardiãs da regra social.

A vida industrial abre estradas à poesia interior que os jardins artísticos afogam.

 

 

 

trad. dramapessoal

Fecho

Dezembro 31, 2008

 

Do maestro Daniel Barenboim herdamos um leitmotiv artístico vigoroso (a propósito de Beethoven):

Não basta haver um crescendo. Não basta fazer-se o crescendo. É preciso querer-se o crescendo.

 

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O luto por Pinter trouxe a algumas salas de estar o problema da relação das artes com a política pública (passe a redundância), a que, parece-nos, alguns têm respondido melhor, digamos com arte, ao longo dos anos.

O maestro Barenboim é cidadão israelita e palestiniano, e mantém no seu blogue uma reflexão sobre o conflito entre os seus dois povos, do ponto de vista da sua terceira cidadania, a artística. Escreve, acima de tudo, sobre essa cidadania, e sobre a urgência que raramente lhe é atribuída.

Vale a pena ler o que escreveu sobre a morte de Arafat; sobre o seu duplo estatuto de cidadão; sobre o cancelamento da temporada de Idomeneo, em Berlim, após ameaças; sobre Wagner e a ideologia, ou sobre o futuro da ópera em Berlim, e sobre a relação entre o financiamento e a produção artística de grande escala, em particular, assunto a respeito do qual, em Portugal, quem tem falado mais alto tem sido um presidente de câmara com feitio de contabilista e sintaxe de proprietário.

 

Odetta

Dezembro 4, 2008

 

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O New York Times deu o título “A Última Palavra/The Last Word” à entrevista que Odetta concedeu ao jornal, em 2007. A conversa acompanha agora o obituário da compositora, cantora e activista, junto a muitos testemunhos de leitores. Odetta ainda esperava actuar na cerimónia de 20 de Janeiro. Manteve sempre, diante da cama do hospital, um cartaz do presidente eleito.