O Estrado
Junho 25, 2008
Incomoda-nos tanto descair para o dia-a-dia. Mas decidimos louvar o Estrado.
Consta que em várias escolas, por indicação da responsabilidade directa ou indirecta do Ministério da Educação, os estrados foram retirados das salas de aula «para que os professores fiquem ao nível dos alunos».
O princípio entre aspas tem um potencial caricatural que fala por si.
Os burocratas estruturalistas que administram a catástrofe educativa, vendo bem, têm, na sua grande massa, apenas um defeito: nunca deram aulas.
Caso contrário, saberiam respeitar o estrado.
Um, o estrado pode ser contornado. E o efeito dramático da descida do estrado não é de desprezar, assim como o da subida. Quem quer que tenha tido um grande professor sabe do que falamos.
O estrado não impede a aproximação. Apenas encoraja a que o seu momento seja escolhido, controlado pelo professor, em vez de uma mera sujeição ao espaço.
Dois, o estrado é um palco. O seu uso traduz-se num enorme ganho acústico. Quando o professor fala do estrado, na maioria das salas, todos os alunos ouvem melhor e por igual. Verdadeiramente ao mesmo nível.
Três, enquanto palco, o estrado permite, na maioria das salas, muito melhor visão de todos os alunos em relação à figura do professor ou a qualquer material exposto. Verdadeiramente ao mesmo nível.
Quatro, o estrado permite ao professor uma visão completa da sala em qualquer momento, o que lhe permite atender instantaneamente o contacto dos alunos sentados nas cadeiras recuadas, em vez de se aproximar de alguns virando as costas a todos os outros. Verdadeiramente ao mesmo nível. Os alunos.
Cinco, o que não vêem os que chegam à teoria pelo caminho da estupidez empírica: enquanto palco, o estrado permite aos alunos que subam a ele, e demonstrem, exponham, expliquem aos colegas numa posição que tem todas as qualidades da mais elementar arte dramática, e lhes permite o que esta escola lhes nega constantemente ou não sabe permitir: um teste formal à autonomia da sua voz individual.
Porquê, o clichê?
Junho 22, 2008
- Na rádio. Canal todo virado para as pessoas. Entrevistadora bem disposta.
- Estou a ver.
- Diz que as séries portuguesas de ficção têm um problema.
- Bem disposta.

- E que, agora que temos cabo, quase toda a gente tem cabo, não é?, temos tantas séries estrangeiras!
- Não lhe falta nada. Tirando alguma memória.
- Mas alegre.
- O problema é a alegria.- Pergunta ela aos que filmam. Porque é que são tão paradas as «nossas». Os planos são tão parados.
- As entrevistadoras…
- Vemos que, sei lá… diz ela, nas outras tudo mexe. Sei lá. Como num clip de música. Porquê?
- Outra vez essa música. Outra vez esse clichê.
- E insiste com alegria. Tudo mexe!
- Soa bem: porquê, o clichê?
- Porque é que aqui não mexe, como nas séries dos outros?
- Este vinho é bom para se falar de cultura popular… Espera. Jane Austen mexe?
O mundo
Junho 20, 2008

“O mundo é independente da minha vontade.”
proposição 6.373, Tractatus Logico-Philosophicus, Ludwig Wittgenstein
“Portugal tem todas as condições”
Junho 1, 2008

Na Savana
Maio 7, 2008

O Zé, à hora do almoço e em geral, gosta de ser breve. Às vezes a conversa entra no grande plano. Pela hora do café, a existência está em revista.
O importante é sabermos que animal somos na savana. Que bicho és tu, na savana da luta primitiva?
Eu acho que sou um babuíno médio. Dou uns tabefes, deito mão a alguma coisa que me interessa, mas tenho de me afastar da sombra quando os violentos gritam ou descem das árvores. Tenho de cheirar o leopardo. De vez em quando, um de nós acaba na boca do grande gato.
Mas aventuro-me. E pronto. Um dia acabo debaixo de um jipe do turismo. E tu, sabes que bicho és, na savana?
- Eu ia a guiar o jipe, pá.
foto dramapessoal
Para Quê o Bloco?
Abril 24, 2008
No dia em que soube que um actor de tv e cine tinha sido convidado para gravar um anúncio de telemóveis com um cachet 200 vezes superior ao que recebeu por uma peça original (e 200 vezes superior ao total do que então recebeu cada actor, o que nem lhe pareceu inteiramente justo, equivalente a 500 euros por mês de dois meses de cartaz), um autor pegou na máquina fotográfica e foi para a beira-Tejo guardar imagens do anoitecer (na direcção contrária ao pôr-do-sol, duzentas mil vezes mais profunda).
O poder de um anúncio de telemóvel é este: por números recentes, 96% por cento dos portugueses têm a televisão como o seu principal entretenimento. Quem berrou estes números (televisão incluída) esqueceu-se de contar quantos, de entre estes, têm a televisão como único entretenimento. Sabemos, por números um pouco anteriores, que são a grande massa.

E depois há o número das despesas em comunicação. Os portugueses gastavam, há três ou quatro anos, dez vezes mais em comunicação do que em despesas com a chamada «cultura», ou seja, aquilo a que preferimos chamar «saber, arte e espectáculos».
Tanta comunicação não pode ser apenas pragmática. Supõe a escolha de um entretenimento de escala familiar, embora à distância: a opção pela fantasia pessoal da parte de quem fala e escreve telegramas curtos, e pela fantasia de quem responde, em vez da fantasia produzida por profissionais treinados e artistas. Uma opção pelo amadorismo à escala colectiva, em círculo fechado, a mesma opção que a televisão já fez, e que a todos conforta: você na tevê.
Que comunicação é aquela? Muito como a de uma menina de Guimarães, que nos mandou um sms a pedir umas calças emprestadas. Ao fim de vários dias de mensagens, que obviamente nunca foram respondidas e abriam um coração, foi preciso comunicar-lhe que não voltasse a enviar para o número errado. Nunca falou com a amiga das calças, nem recebeu as calças, enquanto ia confiando no telégrafo portátil. Espelho meu.
Por coisas como isto, o autor de que falámos acabou por lembrar-se da visita que o encenador do seu trabalho recebeu de uma jornalista da rádio pública, que tinha precisado de escrever três perguntas num bloco:
O que é que pretendem transmitir com esta peça?
Que personagens tem esta peça?
A que público se dirige esta peça?
Este tipo de abordagem só lhe fez ocorrer uma pergunta: Para quê o bloco escrito?
Momento Político Sem Original
Abril 19, 2008
Rebentou, nos últimos dias, uma barragem de manobras verbais, respeitantes a um novo momento político. Os jornalistas vêem nisto variedade e animam-se. Uma frase ganhou destaque: “Pode ter aqui acontecido mais alguma coisa de que não sabemos”.
Uma coisa aqui sabemos: Em política, o passo vital não é o avanço. É o recuo.
Vem ao caso um texto de Almada Negreiros, um homem que antecipou o estudo destes momentos de verbo estratégico.
Em 1928, estavam ambos em Madrid, disse Lorca a Almada, depois de uma leitura de Deseja-se Mulher e S.O.S.: «Dou-te trinta anos para que te entendam». Pouco tempo depois, ainda em Madrid, Almada escreveria O Público em Cena, peça em um acto (1931). Passaram 77 anos e este texto continua à espera de acontecer.

A Conferência Nº1
Há um ano anunciei uma conferência e à hora marcada resolvi instintivamente adiá-la. Sem ter compreendido o meu instinto, obedeci-lhe contudo incondicionalmente. Adoro o meu instinto. Apenas hoje sei que a explicação era a de eu ir dizer a minha conferência com um ano de antecedência.
Peço desculpa.O dia da conferência
Hoje não estou nada bem disposto para dizer a conferência. Ontem sim, ou anteontem. Hoje não estou nos meus dias. Desculpem hoje não ser dos meus dias. Mas a conferência estava marcada para hoje, tem de ser hoje. Que pena não ter sido ontem, ou anteontem, ou talvez amanhã. Não! foi logo hoje que não é dos meus dias bons. Que raiva ainda não saber mandar na minha presença!
Peço desculpa.O original da conferência
Perdi o original da conferência. Vim para pedir desculpa de ter perdido o original.
Além desta conferência que perdi, tenho mais onze, já prontas, e que são a continuação da que perdi. Essas onze não perdi, mas não as trouxe porque só se compreendem depois de ouvido e acreditado o original que perdi.
Porém, tive uma ideia, que me parece que não é para desprezar. É a seguinte: Se é verdade que perdi o original, também é verdade que ainda não me esqueci do que eu ia dizer. Não me lembro da ordem das palavras, mas sei exactamente o que queriam dizer. Deus não consentiria que eu me esquecesse de coisas tão importantes.
Quando anunciei a conferência, antecipadamente ou não, não podia deixar de ser senão por uma coisa muito importante. Ainda não me esqueci. Só desejo que tenhais vindo também, como eu, por uma coisa muito importante. Nem doutro modo vos estimaria.
Para mim e para vocês, o mais importante é cada um de nós. Nem estamos aqui para outra coisa. É isto o que nos interessa - nós estarmos vivos.
Vamos espreitar para tantos vivos que houve antes de nós e para tantos outros que há em volta de nós, para aprendermos a estar vivos.
São estas, lembro-me muito bem, as palavras do original. Prometo não dizer senão palavras que façam lembrar o original que perdi.
Antes de começar, pressinto que tudo vai acontecer bem. Na verdade, nós somos belos números para multiplicar.
Temos aqui dentro desta sala tudo quanto nos é necessário - somos nós. Eu ajudo vocês e vocês ajudam-me a mim, na certeza de que cada um de nós há-de sair hoje daqui com novas coragens, ou com a coragem inteira. Vai ser igual a não ter perdido o original ou ainda melhor.
Ainda que algum de vocês tenha vindo hoje aqui por acaso, não faz mal nenhum, é isto que faz as pessoas - ter a certeza do acaso.[...]
pintura: James Ensor, “Les Cuisiniers Dangereux”, 1896.
texto: “A Conferência Nº1″, Diário de Lisboa, 9 de Julho de 1921.
in Almada Negreiros, Obras Completas, Vol III.-Artigos do Diário de Lisboa, INCM, 1988.
O Acordo Hortográfico
Abril 10, 2008
O título desta entrada é o mesmo do primeiro artigo da nova secção de Drama Pessoal, justamente intitulada Artigos.
O texto cresceu demasiado, e talvez também em demasias, para caber na página normal, que também se desviou ultimamente do cuidado pela arte e seus objectos (um desvio afinal aparente).
A nova secção vai abrigar textos mais ou menos ruidosos, mas, acima de tudo, longos. Alguns amigos pedem-nos que publiquemos textos mais antigos, mas o blogue tem preferido começar de fresco.
Diz o artigo:
Segundo o presidente presente, há na Índia uns palácios muito bonitos, onde estão uns retratos muito bonitos, com os antigos governadores. O mesmo presidente já se declarou muito pouco incomodado com as projectadas alterações na nossa maneira de escrever. Quem somos nós? Nós não somos ele.
Quão Intoxicado?
Março 11, 2008
A empresa de captação e gestão dos interesses e património de dependentes psíquicos fundada pelo falsário e escritor de ficção científica mitómano L. Ron Hubbard fez-nos chegar às mãos um papelinho com um questionário elementar, destinado à auto-avaliação de fracturas existenciais.
Faça este teste e descubra - anunciam. As respostas serão em Sim/Não, para contagem e diagnóstico.
1. Ocasionalmente sente-se fatigado sem razão aparente? 2. Sente-se por vezes “preso” e sem vida?… etc.
Charles Baudelaire sentiu-se fatigado sem razão aparente, e escreveu As Flores do Mal. Franz Kafka sentiu-se “preso” e sem vida, e escreveu A Metamorfose. Cesário Verde, fatigado e preso, escreveu “O Sentimento Dum Ocidental”. A Cientologia tem para nos dar, em alternativa, um actor medíocre apologista de uma alegria à prova de bala.

“Quão Intoxicado está?” - perguntam. Pela nossa pontuação, estamos em estado de “poluição física”, cheios de toxinas que não nos deixam Pensar de Forma Clara. Precisamos de Purificação (ou de Purification Rundown, o nome de um processo com marca registada, tal como Pensar de Forma Clara/Think Clearly, ou Cientologia).
Purificação, com letras maiúsculas, ficamos a saber, é uma marca registada de Religious Technology Center.
A nós, ver Tom Cruise a “pensar de forma clara” só nos dá mais certeza de que a obscuridade é o caminho.
O questionário lembra-nos antes um importante texto de auto-ajuda da literatura portuguesa: o poema “Inquérito”, de Alberto Pimenta, incluído na antologia Metamorfoses do Vídeo, que nos foi calorosamente oferecida a meio de uma conversa entre autor e muito jovem leitor, na Feira do Livro de Lisboa de 1986, e a cujo abraço autógrafo voltamos a responder com esta homenagem. Segue excerto (o poema tem perguntas até ao número 13):
INQUÉRITO
1. que motivos supõe v.exa. levaram os progenitores de v.exa a gerar v.exa., isto é, os levaram ao coito em consequência do qual v.exa. foi gerado?
- a vontade de gerar v.exa.?
- o prazer sexual?
- cumprimento das obrigações conjugais?
- embriaguês de um, ou de ambos os progenitores de v.exa.?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
2. crê v.exa. que os progenitores de v.exa. tinham o declarado desejo de que v.exa. nascesse?
- sim
- não
em que fundamenta v.exa. a sua opinião? ………………………………………………………………
no caso afirmativo, supõe v.exa. corresponder à ideia que os progenitores de v.exa. faziam do descendente que esperavam?
- no sexo?
- aspecto físico?
- inteligência?
3. por sua vez, correspondem os progenitores de v.exa. àquilo que v.exa. acha desejável?
- nos títulos?
- rendimentos?
- carácter?
4. quais as primeiras dificuldades da vida de que v.exa. se lembra?
- obedecer, quando se tratava de defecar?
- obedecer, quando se tratava de não defecar?
- obedecer, quando se tratava de comer?
- obedecer, quando se tratava de falar?
- obedecer, quando se tratava de não comer?
- obedecer, quando se tratava de não falar?
- outras? ……………………………………………………………………………………………….
[...]
[No texto do poema, os separadores deveriam, idealmente, ser quadrados de preenchimento.]
Para saber-se mais sobre a Cientologia, o documentário da série Panorama da BBC está “temporariamente indisponível” em Google Video. Pode ver-se em Guba.com, ou Putfile.com.
Um Casal Novo
Março 1, 2008

Estacionamento ao ar livre de grande superfície de artigos de decoração. Um casal novo. Diz ela: «Se um bebé quiser passar por aqui. Se alguém quiser passar por aqui com um bebé. Por onde é que vai? Tem de ir dar a volta toda. É ridículo. Completamente ridículo».
foto Adbusters, The Magazine, patrocinadores do Buy Nothing Day
e divulgadores dos Spoof Ads
Volto Já
Dezembro 29, 2007
Depois de uma gata chartreux chamada Mísia ter decidido urinar o portátil em que devia ter arrancado em Junho, este blogue foi traído pelo colapso da placa gráfica da nova máquina. Muda de planos mais uma vez, sem as bibliotecas de imagens e de textos em que mal tinha pegado, limpo como quem sai livre de mais um divórcio, de mais um extravio de bagagem, de um traumatismo craniano com perda de conhecimento (experiência que se recomenda). Até já.
Um Dia
Dezembro 1, 2007
