Não, nunca
Julho 9, 2009

Não, não estamos na praia.
Nunca, nunca quisemos que este blogue fosse a coisa vagante que o género pede e acabámos por cumprir.
Cremos naquilo a que se chama o jornalismo popular (pelo menos na sua melhor expressão), tanto quanto não cremos no novo jornalismo profissional em estilo faça-você-mesmo.
Mas estamos em retiro, depois de um confronto com o sistema legal-policial português, mais a sua aplicação aleatória e selectiva da letra da lei, com o seu estilo 1940 com internet e multibanco.
Abdicámos das nossas contribuições cívicas, e estudamos neste momento a melhor forma de desobedecer civilmente de forma sistemática, sem maior prejuízo financeiro.
Insónia e marcha (caminhada nocturna)
Junho 13, 2009

Nada indica que um QI relevante venha a fazer falta para as tarefas individuais e colectivas das próximas décadas.
Assim se entende a liberdade daqueles pais, que arrancaram as crianças às tocas dos arredores onde foram buscar a sua versão de modernidade e as trouxeram a contemplar em directo e ao vivo (expressão da tevê que um deles usava) o pátio das cantigas de papier maché e contraplacado.
Contámos uma dezena de cadeirinhas com bebés de boca aberta, às duas e meia da manhã, e dezenas de crianças embrutecidas de sono, numa volta relativamente curta, sempre a fugir às gentes.
Marchas populares. O nome serve melhor à marcha que vem assistir às marchas.
Um dos bebés trazia a cabeça cuidadosamente tapada com um pano, num exemplo de esmero educativo. Não queríamos ver aqueles rostos de tédio inconsolado, de mais uma festa falhada. Os mais encervejados gritavam de alegria. O tédio é um benefício do neocórtex, e frágil perante os psicoactivos, especialmente os mais económicos. Vinham sóbrios os que traziam crianças.
foto dramapessoal, tirada em rua isenta de festas
Tudo de férias
Junho 8, 2009

A flagelação (também conhecida como auto-flagelação) é um passatempo nacional em que não gostamos de ter grande parte. Mas…
Mas que país curto o do chamado rescaldo das eleições. A retórica notarial do idoso precoce que «ganhou» as eleições, as outras vitórias todas, os discursos de junta de freguesia nacional, as previsões, oh, as previsões, os hotéis vazios, os jovens, os agradecimentos aos jovens, a festa, enfim, por um milhão e cem mil votos, a conta de uma vitória magra numa cidade europeia média. E a lírica de: «É jota, é dê, é jota-ésse-dê».
Queres saber
Junho 1, 2009

Normal surreal
Maio 23, 2009

Num dos caminhos da Internet que vão dar a nenhures, soubemos que um dos muitos jornalistas-romancistas de tv, ou romancistas-jornalistas de tv, foi afectado por uma pleuresia. O golpe de realidade – que classificou como «Uma coisa chata e morosa» (com termos idênticos àqueles um colega descreveu o sentimento dos que ficaram fechados no Metro, parece que «indignados e chateados») – recebeu dois comentários numa página de Internet anexa a um jornal gratuito. Enfim, duas pessoas dispensaram minutos dos seus dias (com um mês de intervalo) para fazerem como nós aqui, mas num canto de uma de infinitas páginas de um jornal que se oferece nos corredores do Metro real e virtual.
Que emoções trazem consigo, quando se dedicam a registar nessa espécie de imensa parede pública?
* Olá [Nome].
Desejo que esta fase má da sua vida passe depressa e que regresse rapidamente (com mais calma) aos telejornais da TVI e restante actividade profissional.
Acredite que o telejornal da TVI não é o mesmo sem si.
Rápido restabelecimento e acredite que há mais coisas para além do trabalho…
Um abraço solidário
Isabel Cruz
MARIA ISABEL CRUZ | 12.05.2009 | 18.17H | DENUNCIAR COMENTÁRIO
* Olha, aproveita e lava a cabeça!…
JFK | 14.04.2009 | 15.34H | DENUNCIAR COMENTÁRIO
Personalização
Maio 4, 2009

Depois de algumas reclamações de amigos, e após mais umas férias da chamada realidade portuguesa, chegamos para ver a rua animadamente regressada aos princípios dos anos 80.
Nada de novo, sob este sol.
Entretanto, temos a relatar um pequeno episódio português. Ao comprarmos um leitor de dvd externo, para uso com um computador de pequeno formato, ofereceram-nos à escolha dois sólidos rectangulares com gaveta exactamente iguais, um com uma marca coreana e outro com o nome de magalhães em letra pequena, dizem, de tecnologia nacional.
«Olhe, eles são exactamente a mesma coisa, só que este diz magalhães e fica mais barato», disse-nos o vendedor, com genuína simpatia, depois de ter buscado com cuidado no armazém. «Não sei se lhe faz diferença».
Claro que faz diferença. Levámos o mais caro. Explicámos que não queríamos que o leitor de discos nos lembrasse, por um segundo, o programa que assenta no fornecimento de um bem de equipamento (medíocre) a um aprendiz geralmente incapaz de enfrentar um texto durante mais de dez minutos, seja num ecrã, seja numa página de papel impresso.
Um idiota à frente de um computador é um idiota à frente de um computador.
————
… O que nos lembra um dos melhores aspectos da internet: a fuga ao condicionamento televisivo. Uma das nossas últimas entradas saudava, de maneira talvez demasiado concisa, a forma de comunicação conhecida por filesharing: a partilha automatizada de conteúdos de arte & entretenimento.
A nossa informação televisiva, sempre paroquial e alegremente mainstream, festejou vivamente a «prisão» dos responsáveis do site de partilha The Pirate Bay, parecendo contentar-se em exibir um conhecimento absolutamente rudimentar do processo judicial, longe de concluído (para além de uma total ignorância da ferramenta informática P2P, confundida com um dos aspectos do seu uso; porém, o tédio de argumentar sobre isto paralisa-nos).
É normal que a televisão colabore na «televisionação» da internet, ou seja, no condicionamento e racionamento comercial da circulação de todos os conteúdos. A mesma televisão que abdicou, tal como as indústrias irmãs do audiovisual, de muitos dos conteúdos de valor artístico que agora circulam democraticamente, muitas vezes exclusivamente, por sistemas de intercâmbio e divulgação como o filesharing.
Continuamos a receber cadeias de e-mails de preocupação pelas ameaças de estreitamento comercial da internet. Entretanto, a defesa da internet como praça aberta está, precisamente, nas mãos dos que se deixaram arrebanhar em facebooks e myspaces e twitterlands onde são diariamente mungidos de dados de perfil e comportamento por aqueles mesmos que lhes querem lotear o espaço.
O rebanho é fácil de tocar. Um opinador antecipava na nossa tv o futuro da internet 3.0 como um ambiente em que o acesso será «mais personalizado».
A personalização, explicada num português elíptico e assintáctico, era então a adequação das nossas (dele) buscas e escolhas aos nossos (dele) gostos. Ou seja, a personalidade toda de acordo com o manual básico da tipificação de grupos de consumo. O indivíduo enquanto cliente satisfeito.
Ou seja, encurtado o jargão pseudo-técnico e os exemplos complacentes, a personalização equivaleria à velha fórmula de mais do mesmo aplicada a cada um (em complemento da fórmula televisiva de mais do mesmo para todos). Quanto a nós, eis o exacto oposto da personalização, se é que o termo designa um aprofundamento individual, mas em relação com o mundo, e em tudo oposto àquele contentamento obsessivo-compulsivo do admirável mundo 3.0.
Tarde lisboeta (caminhada, com meditação sobre o bloguismo)
Fevereiro 16, 2009
«Voltemos ao início. Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato – e tantas vezes durante quanto tempo? – injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»
Maria Filomena Molder, «Uma Promessa do Deserto» (último parágrafo),
in A Imperfeição da Filosofia, Relógio d’Água, 2003.
fotos dramapessoal
O Natal dos Hotéis
Dezembro 17, 2008
[revisto]
Artigo 1.º
Definição de jornalista
1 – São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.
2 – Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.
[...]
—————————
Natal é tempo de televisão, e o meio quase monopolista de recreio artístico e informação entre nós enche-se de mais luz nesta quadra. Porém, o modo estrondoso como a tv cedeu completamente a quem a financia não é notícia, pela mesma razão por que o aspirador não se aspira a si próprio.
O modo paupérrimo como a tv local reflecte a arte e o espectáculo, mesmo o cinema – servindo valores de popularidade gerados pela própria programação televisiva, com seus critérios de fama e estrelato directamente equivalentes a critérios da análise de mercado (o canal público já começou a usar o termo “audiência” como sinónimo de “público”, quando fala de espectáculos ao vivo) – já nem sequer serve a presunção de base da tv de que é capaz de reflectir qualquer recanto da vida pública.
Com que se espanta o pobre? Das quatro pinturas que foram roubadas na Suíça, em Fevereiro, na Fundação E. G. Bührle, tudo o que os apresentadores noticiosos locais foram capazes de dizer para impressionar o vulgo (e a si próprios) em relação ao roubo foi o valor estimado (o valor monetário segurado) de duas das telas perdidas. Monet, Van Gogh, Degas e Cézanne não impressionam. Os irrelevantes (e meramente formais) milhões do capital seguro, esses espantam e exprimem valor. A quase imediata recuperação de “Campo de Papoilas em Vétheuil“, de Monet, e de “Ramos de Castanheiro em Flor“, de Van Gogh, bem como o continuado desaparecimento de “Ludovic Lepic com as Suas Filhas” e “O Rapaz do Colete Encarnado“, de Degas e Cézanne, respectivamente, já nem sequer tiveram seguimento, ao menos no momento da primeira recuperação.
Nada vos preocupa, porque nada vos comove.
Supõe-se que a esta desatenção pela grande dimensão artística se deverá a um critério relativo de prioridade noticiosa: é preciso mostrar as urgências do presente.
Mas tal proporção nunca existe. Os relances cinematográficos da violência ou instantâneos do palco político mundial recebem o mesmo tratamento das notícias da aldeia: mais uma camioneta fora da estrada, uma junta de freguesia indignada, um mau cheiro na praça, um ministro agastado, um esquilo que dança. Um parágrafo para cada. (Dois para o esquilo).

Resta o enorme tempo concedido a uma actividade altamente duvidosa à luz da ética profissional do jornalista, a chamada “informação comercial”, que dantes, quando os jornais contavam, era claramente demarcada, tanto que as revistas ainda a demarcam – não a televisão.
Então, temos profissionais com carteira de jornalista, e com o entusiasmo de uma infância reencontrada, a mostrarem um estúpido dispositivo para um jogo de pesca virtual lá em casa, ou a “avaliarem” um carro repetindo à letra a lengalenga acariciadora dos folhetos do fabricante (e percorrendo as mesmas estradas vazias escolhidas pelos anúncios do produto, por onde o produto nunca circulará).
Para que falarão do melhor das artes, estes servidores da sua empresa de fornecimento de exposição televisiva, e defensores acérrimos do seu posto de trabalho? Qual seria o retorno para a empresa, se buscassem o que já nem pessoalmente lhes interessa? (Estamos a supor, exageradamente, que os repórteres debatem critérios de edição).
O jornalismo faz-se agora de acordo com um critério totalmente invertido, o mesmo critério do entretenimento de massas e da publicidade pura e dura: é notícia aquilo que a redacção fornecedora supõe que serve o desejo de consumo (não de “informação”, rarefeita e redundante, mas, em abstracto, de televisão, e, pela natureza do género, dos produtos e serviços associados). É notícia tudo o que servir este círculo de ganho empresarial e satisfação da curiosidade de consumo (e este serviço frequentemente pago é coordenado por empresas que pertencem a, ou empregam, “ex-jornalistas”, que produzem material com padrões sazonais de actualidade: a funerária com um serviço inovador; o ginásio com ofertas únicas; o tratamento revolucionário exclusivo de uma clínica; o que as crianças mais querem). É notícia a própria televisão (ao ponto de os canais terem notícias só suas: os seus próprios desmentidos da vida íntima das estrelas, os seus próprios eventos nacionais, os seus próprios furos políticos, geridos pelos seus próprios comentadores políticos).
Quem discute, entre nós, esta escandalosa mudança na prática jornalística? – que faz negociar-se a matéria informativa exactamente da mesma forma que se negoceia o espaço de prateleiras nos mesmos hipermercados e shoppings que a televisão ama como seus iguais (“Vem ao centro comercial porque é mais prático, porque há mais variedade, por causa da qualidade e dos serviços, ou um pouco por tudo isto?” – pergunta típica de jornalista de Natal).
“O consumidor está cada vez mais farto de telemóveis cheios de botões”, é uma frase que recordamos sempre, articulada por um profissional da informação, no momento em que segurava um novo produto com a extrema funcionalidade de não ter os intuitivos botões. Um profissional da informação não é capaz de franzir o sobrolho a uma falsidade estatística tão cómica? Que entidade multifacetada é esta, o Consumidor, cujas faces este jornalista parecia conhecer pessoalmente?
Uma sondagem inventada, em troca da venda de mais algumas centenas de telemóveis inflacionados?
Ficamos por aqui, com o lema escrito e falado de uma detalhada peça jornalística de Natal que conseguiu encapsular, ao mesmo tempo, a absoluta venalidade da profissão informativa actual e, paradoxalmente, a sua total indiferença à realidade:
“As famílias portuguesas procuram cada vez mais [os] hotéis de luxo para a ceia de Natal.”
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Artigo 3.º
Incompatibilidades
1 – O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de:
a) Funções de angariação, concepção ou apresentação, através de texto, voz ou imagem, de mensagens publicitárias;
b) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais;
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artigos estatutários in Estatuto do Jornalista, n’O Sítio do Sindicato dos Jornalistas
fotos dramapessoal
«Quando ia à terra da minha avó era sempre este sound»
Outubro 29, 2008
Voltamos. A expressão em título foi colhida num pequeno fórum do Youtube, durante uma busca por uma canção popular comercial, “Voltei, voltei”, do cantor Dino Meira, que se transformou em frase idiomática para celebrar os mais simples regressos, e com a qual pensávamos saudar o próprio regresso de Drama Pessoal à assiduidade.
A frase parece-nos boa para resumir o salto cultural dos últimos anos da maioria sub-educada, e até o enorme vazio preenchido por esse salto. Entre a terra da avó e o rebanho urbano do pop digital compactável e do jargão techno saxónico.
Dino Meira, cantor emigrante dos emigrantes, mesmo depois de ter-se tornado “cantor de sucesso” e tirar bom rendimento da sua arte, pelo que soubemos, manteve sempre o seu apartamento no subúrbio lisboeta da Damaia, por cima do mesmo restaurante da mesma senhora mestra restauradora de sempre, e aí, depois de um almoço português quantitativo, terá falecido durante a sesta, antes do que teria sido mais uma partida para o verdadeiro Portugal musical internacional.
Por diversas razões, interessava-nos continuar a lembrar Dino Meira (“Já passaram tantas horas/ De voltar eu bem preciso/ Deitar as saudades fora/ De cantar já vamos embora/ De regresso ao paraíso”), mas interessa-nos aqui, indirectamente, o assunto da educação pelas & para as Artes, em cuja área incluímos o ensino da literatura e incluiríamos muito de um ensino oficinal produtivo, que não têm nada de estar “ligados ao mundo do trabalho” (como se as formações pessoal e profissional não fossem devidas a sistemas separados e complementares, e os futuros trabalhadores não devessem formar-se inteiramente como pessoas antes da formação profissional e utilitária – causa que estes programadores ministeriais e o porta-voz-macroeconómico-oficioso Belmiro de Azevedo jamais entenderão). Por isso queremos deixar um eco ao que disseram recentemente os Professores Medina Carreira e José Gil sobre o estado da educação.

Este blogue não é, obviamente, um órgão profissional (obrigado à repetição e à mais curta conjuntura), nem um desses blogues sistemáticos e obsessivos-compulsivos dedicados às desventuras quotidianas dos agentes do sistema educativo (e aos seus interesses; obrigados ao mesmo). Só nos interessa deixar duas ou três notas mais pessoais.
Segundo o Prof. Medina Carreira, o estado da educação é simplesmente «uma vergonha», e «os miúdos não aprendem nada». Nos ecos negativos ao que o economista declarou de viva voz na televisão mistura-se, portuguesmente, uma concordância vaga, ou fabricada, com uma crítica à forma das declarações. “Tremendista” foi uma etiqueta atribuída, que pretende, como todas as etiquetas, reduzir o discurso em causa, neste caso a um mero conteúdo emotivo. Por cá, nunca é tremenda a situação. A denúncia, sim, essa é grave. A sua forma é sempre errada e lamentável. As dores dos escandalizados são todas pela denúncia, nunca pelo problema.
O Prof. José Gil publicou na revista Visão um artigo com o ominoso título “A domesticação da sociedade”. No mesmo tom entre abstracto e ilustrativo do seu livro Portugal Hoje – O Medo de Existir (que infelizmente desceu do nível do grande retrato para o da quotidianidade política mais passageira, na sua segunda parte), denuncia, entre outras coisas, um reforço do controlo centralista no sistema de ensino através de um clima de obediência burocrática forçada, sob a forma de uma política activa e planeada, no qual vê um fenómeno social mais largo. Diz:
“Uma burocracia inimaginável, que devora as horas dos professores, em aflição constante para conciliar com uma vida privada cada vez mais residual e mesmo com a preparação das lições, em desnorte com as novas normas [...] – tudo isto sob a ameaça da despromoção e do resultado da avaliação que pode terminar no desemprego”.
Nós achamos mais: Que não só o poder pressiona e condiciona pela burocracia, como a própria matéria do ensino se burocratizou há muito. Esse é todo um outro assunto que nem cabe aqui, fonte de grave prejuízo no ensino artístico.
À escala minimal, pensamos nos professores de Artes, que entram no sistema sem profissionalização, e ouvem dos recentemente mais empossados “Presidentes de Conselho Executivo” (especialmente se escolherem servir directamente a estrutura central, em detrimento do corpo docente local), seus avaliadores, juízos como: “Vai aceitar este horário e os que forem precisos”.
A velha aldeia urbana da Damaia de Dino Meira foi ampliada em urbanizações incorrigíveis e cortadas do mundo como Massamá ou o Cacém, entre tantas, onde estes oficiais de gestão de multidões agem como proprietários-delegados de estabelecimentos que juntam mais de 30 alunos em cada sala, sem que esse número somente seja alvo de indignação pública (como é que é possível dar justo atendimento a 30 alunos numa aula prática, de desenho, por exemplo?).
E dispõem. Soubemos de uma escola onde o painel de afixação da sala dos professores não pode ser usado directamente pelos docentes, como foi tradição de 30 anos: qualquer objecto a afixar tem de ser sujeito à aprovação do Presidente do Conselho.
Contou-nos isto um professor provisório que gostava de ter afixado o artigo de José Gil, mas que ouviu o lema dos outros que educam os portugueses do chamado futuro: «Não te incomodes».
O mesmo professor que, habituado a adaptar à cultura dos grupos de alunos um programa de trabalhos que costuma ser intenso (ao contrário da fraude habitual do mini-bricolage de três trabalhos ao ano), foi este ano obrigado a seguir um “programa de grupo”, subscrito por todos, cumprido por todos no mesmo calendário e alvo da troça silenciosa de quase todos.
O mesmo professor, acabado de chegar ao contacto com os alunos, na fase essencial da motivação (há quem não saiba o que isto é), é imediatamente obrigado a fornecer um “teste-diagnóstico” a 32×7 (alunos x turmas), a levar a cabo durante 2 aulas, e a corrigir num prazo mínimo (de horas não contabilizadas). Teste, aliás, totalmente inútil, com parâmetros que não reconhece, e que se destina a uso estatístico da burocracia escolar junto das altas Entidades.
Porque, no nosso ensino, tal como se viu no hilariante questionário de auto-avaliação aos professores provisórios, tudo o que é traduzível em estatística é ciência, mesmo no caso de um interrogatório puramente verbal sobre um ano inteiro de trabalho. “Estás a ver”, dizem os docentes adeptos do sistema, “em Excel bate tudo certo”.
E, mais chocante ainda, o rebanho obedece, ainda que ruidosamente. Este sistema recompensa generosamente a passividade. (Não é por acaso que entre os alunos mais desligados e preguiçosos, ou até entre os mais indisciplinados e relapsos, estão muitos dos mais inteligentes; já adivinham, parece, que aqueles que hão-de comprar o seu futuro trabalho inqualificado estão noutras escolas).
Para acabar com o abandono escolar, o Conselho Nacional de Educação propõe agora o abandono da avaliação até ao nono ano. O abandono escolar parece-nos ser neste caso muito melhor solução (segundo Frank Zappa, noutros moldes, será sempre, para muitos, a melhor solução).
Imaginamos os Srs. do Conselho Nacional numa destas salas, cheias com 32 niilistas, com janelas para lado nenhum, depois de serem obrigados a deixar o delegado de turma escrever no quadro “Não há chumbos até ao Nono”, a explicarem o seu sistema.
Enfim. Uma menina que pertence a uma turma em que todos menos um nunca tinham ouvido falar de Andy Warhol (há coisas piores, como ignorarem totalmente a existência de uma Primeira Guerra Mundial: “Stôr, também houve uma segunda?”), e cuja melhor aluna é, como é corrente, oriunda da Europa oriental (a que sabia), contou ao professor:
«O meu pai disse-me que Lisboa, para além de ser longe, é horrível, está sempre toda cheia de carros. Aqui ao menos é um sossego».
Tens razão. É muito longe, querida.
Vide
Página do Ministério da educação com questionários de avaliação e, em especial,
o questionário “Ficha de Avaliação do Docente dos 1º, 2º e 3º Ciclos do Ensino Secundário”.
Pouco tempo
Outubro 19, 2008


Temos tido muito pouco tempo.
Opiário
Setembro 20, 2008
[revisto]
Quem pesquisar games waste of time vai encontrar enormes quantidades de sugestões de um género particular de jogos electrónicos, ultra-leves, que se gabam de fazer desperdiçar o tempo eficazmente.

As velhas fotografias dos pavilhões de ópio do século XIX, cheias de homens (e mulheres, nas salas e caves clandestinas de Nova Iorque e São Francisco, ou Sidney) de olhos vidrados, em posição fetal, não tombaram no passado. Estão aqui, com a sua aura e vórtice de fibra óptica.
A caminho de ver um amigo há muito distante, com quem tínhamos partilhado um concerto do guitarrista norueguês Terje Rypdal, fomos procurar um disco do músico na FNAC, de passagem.
Ali, o cinema e a música estão a sofrer uma razia de quantidade, e o desastre, na escolha e ordem. A mostra passou de fraca a aleatória. Os discos de cinema e os de música e vídeo musical migraram e juntaram-se, e a maior clareira é agora dedicada aos jogos de computador e às suas máquinas caras.
A loja que engoliu as outras lojas está confusa. Assente a moda de que os suportes materiais de música e vídeo podem ser substituídos pelo fumo do tráfego digital (e fugidos muitos dos que não pensam assim para a encomenda directa, ou para uma ou outra pequena loja temática) o grande retalhista parece acreditar que pode vender mais jogos em suporte físico. Será por pouco tempo.
Evaporados os narcóticos jogos para o trânsito virtual, vai sobrar muito espaço na loja. Ficarão só as máquinas. Depois trazem-se uns tapetes, e umas enxergas e colchas, para conforto dos experimentadores dos terminais e suas miragens de fogo, vertigem e repetição. Depois umas cortinas, contra a crua luz do dia…
————-
(Este texto acabou por ser escrito num dia obscuro em que nos perdemos no labirinto da loja em questão e acabámos por imaginar que a secção de cinema era ainda mais pequena do que de facto é. Mas, também de facto, está mais pequena do que já foi. Nos dias obscuros cai-se para fora da rotina, e pode ver-se a sombra que o presente larga para diante. Enfim. Comprámos um disco: de Rabih Abou-Khalil: “em português“, do músico libanês com o fadista Ricardo Ribeiro, & Luciano Biondini, Michel Godard e Jarrod Cagwin; Enja Records, 2008).
1941-2001
Setembro 11, 2008

Alex Schomburg (1905-1998)
O Estrado
Junho 25, 2008
Incomoda-nos tanto descair para o dia-a-dia. Mas decidimos louvar o Estrado.
Consta que em várias escolas, por indicação da responsabilidade directa ou indirecta do Ministério da Educação, os estrados foram retirados das salas de aula «para que os professores fiquem ao nível dos alunos».
O princípio entre aspas tem um potencial caricatural que fala por si.
Os burocratas estruturalistas que administram a catástrofe educativa, vendo bem, têm, na sua grande massa, apenas um defeito: nunca deram aulas.
Caso contrário, saberiam respeitar o estrado.
Um, o estrado pode ser contornado. E o efeito dramático da descida do estrado não é de desprezar, assim como o da subida. Quem quer que tenha tido um grande professor sabe do que falamos.
O estrado não impede a aproximação. Apenas encoraja a que o seu momento seja escolhido, controlado pelo professor, em vez de uma mera sujeição ao espaço.
Dois, o estrado é um palco. O seu uso traduz-se num enorme ganho acústico. Quando o professor fala do estrado, na maioria das salas, todos os alunos ouvem melhor e por igual. Verdadeiramente ao mesmo nível.
Três, enquanto palco, o estrado permite, na maioria das salas, muito melhor visão de todos os alunos em relação à figura do professor ou a qualquer material exposto. Verdadeiramente ao mesmo nível.
Quatro, o estrado permite ao professor uma visão completa da sala em qualquer momento, o que lhe permite atender instantaneamente o contacto dos alunos sentados nas cadeiras recuadas, em vez de se aproximar de alguns virando as costas a todos os outros. Verdadeiramente ao mesmo nível. Os alunos.
Cinco, o que não vêem os que chegam à teoria pelo caminho da estupidez empírica: enquanto palco, o estrado permite aos alunos que subam a ele, e demonstrem, exponham, expliquem aos colegas numa posição que tem todas as qualidades da mais elementar arte dramática, e lhes permite o que esta escola lhes nega constantemente ou não sabe permitir: um teste formal à autonomia da sua voz individual.
Porquê, o clichê?
Junho 22, 2008
- Na rádio. Canal todo virado para as pessoas. Entrevistadora bem disposta.
- Estou a ver.
- Diz que as séries portuguesas de ficção têm um problema.
- Bem disposta.

- E que, agora que temos cabo, quase toda a gente tem cabo, não é?, temos tantas séries estrangeiras!
- Não lhe falta nada. Tirando a memória.
- Mas alegre.
- O problema é a alegria.- Pergunta ela aos que filmam. Porque é que são tão paradas as «nossas». Os planos são tão parados.
- As entrevistadoras…
- Vemos que, sei lá… diz ela, nas outras tudo mexe. Sei lá. Como num clip de música. Porquê?
- Outra vez essa música. Outra vez esse clichê.
- E insiste com alegria. Tudo mexe!
- Soa bem: porquê, o clichê?
- Porque é que aqui não mexe, como nas séries dos outros?
- Este vinho é bom para se falar de cultura popular… Espera. Jane Austen mexe?
