O Som Que Nos Sai Da Boca

A título de exemplo. Numa peça, uma personagem diz: «Quem vê caras não vê emoções, minha querida». E, já se sabe, o actor tem de dizê-lo num tempo todo seu – fazer que a frase seja daquela hora. E, todas as noites, é o que ela é, ou quase.

A nossa posse da linguagem, como a nossa posse do momento, é fumo. Um actor quer produzir isso que foge. O encenador que escolhe o texto, e o guionista – tradutor ou autor – também. Neste sentido o teatro é a arte de saber perder, todas as noites. Para produzir esse fumo leve, em cena, é preciso queimar muita coisa.

Curioso é como no nosso teatro há sempre alguém que, depois da peça, vem alertar com simpatia: «Não é Quem vê caras não vê emoções. É corações. Quem vê caras não vê corações».

Ou diz apenas, em relação a qualquer parte do texto: «Mas isso diz-se?». Ao que o actor responde sempre, uma mão no vinho e um olho no croquete, se a noite é a primeira: «Não tenho nada a ver com isso. O autor está ali. É uma pessoa bastante acessível».

E o autor só queria dizer, enquanto vai ouvindo e os aperitivos se transformam em fumo: «A personagem está ali. É uma pessoa bastante acessível». Ou, se é tradutor, só queria poder dizer o mesmo que o actor, e ir ao brinde com tempo.

 

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Vários pequenos males concorrem para esta cena crónica. Fora a hipercorrecção maníaca que afecta a colectividade – ainda que não saiba escrever, todo o português é um gramático e um enciclopedista – há o elemento universal de muitos não conseguirem ouvir o rasgo. Só ouvem a regra. O esperado.

E depois há, num grau mais perturbante, a enorme percentagem de som que nos sai da boca, na vida corrente, que apenas serve para abrir caminho e despachar serviço – serviço emocional incluído.

Muitos só querem ouvir esse som em cena como verdade, e não admitem o transporte do teatro para o seu tempo e fala invulgarmente concentrados.

O tempo do teatro e da sua fala compara-se, neste sentido, à memória, por ser violentamente comprimido. Por ter um nexo ao mesmo tempo truncado e irresistível, feito de instantes de clímax e dos lapsos estritamente necessários para uni-los. Ali, vemos somente o facto emocional e o seu ruído. Ou somente o ruído, que nisto das emoções o ruído tende a ser mais que o facto.

 

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Fotografias de um ensaio de Boneca, em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II

 

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