Escolas Para Quê?

Mais um fim-de-semana prolongado na educação. Um dia mais, perdido para milhares de jovens, mais uma vez desertados por professores e escolas vazias de funcionários que não lhes concederam o benefício do pré-aviso. Jovens que já aprenderam, todavia, a responder ao desrespeito, e somem-se aos magotes ao mínimo sinal de jornadas de luta.

Entretanto, os que já têm o caminho todo aberto e um lugar reservado tiveram um dia de trabalho normal e um fim-de-semana planeado em família.

Foi uma sexta-feira de games, de engate com os pais fora, de pastilhas de mp3 pelos ouvidos, Sms, palhaçadas no shopping (dando de caras com os stôres).

 

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Penso no que já fiz profissionalmente. Pelo modo como se serve a poesia nas escolas (por quem, na sala de espera que se chama dos professores, só vê revistas), um dia à solta pode valer mais para o crescimento. Do mal o menos.

Os dois poemas que agora escolho nunca os vi nos livros que me recusei a usar quando era professor, cortados e colados por idiotas. Quando começaram a aparecer os poemas dos «poetas contemporâneos», eram obviamente escolhidos ao calhas, por gente que não os lia nas suas vidas, se as tinham.

Parte dos poetas que começaram a publicar nos anos 60 e 70 também são bons contadores de histórias. E as histórias chegam melhor aos jovens, que preferem e precisam de comparar experiências e tentar linguagem narrativa; respeitam sempre, como ouvi dizer, «uma boca bem mandada». Mas não costumam ter sorte. Em troca, são massacrados com uma carga de terminologia sem fim, a que têm de obedecer – mil etiquetas retóricas e divisórias temporais altamente duvidosas que só servem, e pouco, a quem faz análise estilística comparativa. E gráficos. Também há gráficos.

 

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Tudo porque as sobras das sebentas são fáceis de repetir indefinidamente, até à redução de horário e ao topo da carreira. Que medo da sombra difícil de descrever. Que medo do comentário pessoal. Os jovens saem da escola com o vício católico de respeitar o comentário fixado acima da leitura. A audição mais que a declaração. Se não saem antes. Afinal, é só isto.

Muitas aulas de português matam a poesia para sempre.

Dos poemas João Miguel Fernandes Jorge que contam histórias, por exemplo, até do seu ponto de vista de professor, nunca vi nada nesses livros de papel pesado para roubar aos pais e ao Estado no preço. Cheguei a ver um poema copiado só em metade porque o autor não soube ler onde começava e acabava. Ao calhas, juntava-se um texto sobre uma viagem americana a outro com a sua chave numa pintura renascentista, sem qualquer trabalho de ao menos pesquisarem-se as imagens ou lugares em causa. Nada. Apenas umas aguarelas de quermesse de Natal, ou alguma obra-prima de postal com as cores trocadas.

Falam os poetas que foram professores. E chega.

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11.

Cortei-me num caco de garrafa na rua de Medreiros
e o dr. Egídio deu-me soro anti-tetânico ao anoitecer.
Esta primeira memória atravessa comigo o rio
a caminho do Seixal anos a fio levantava-me
de manhã cedo os braços à procura
dum cigarro os óculos entre frascos de remédios.
Corria pelas ruas até um autocarro e depois o metro
e depois outro autocarro daí ao cacilheiro
e à camioneta por povoações de dormitório,
charcos oleosos de estaleiros, braços de rio
de marés apodrecidas e mulheres mal dormidas
nas primeiras limpezas da manhã.
Chegava aos pré-fabricados da escola
com rapazotes sujos a assobiarem às pedradas
e bandos de raparigas vestidas à foto-novela.
Ao cheiro ordinário de café e bolos
o iludido grupo dos que partiriam
para as divisórias de madeira prensada
a ensinar por livrecos imbecis o ilusório comum.
Vindos da presunção de faculdades arengavam
pelo dinheiro menor dos vencimentos,
livros de ponto nos braços submissos
a confirmá-los num mister mesquinho.
Do local enganador da secretária
no reprodutor vazio dessas aulas
levava os olhos para a cela da janela.
Um céu de fumos dava-me o que eu perdia.
Do suposto centro donde me sentavam
até à boca morta de uma chaminé de fábrica
a perspectiva assujeitada do lugar
despenhava-se das coisas reais.
Trinta anos depois de ter nascido.

Joaquim Manuel Magalhães,
da série «Fotografias de Jorge Molder», do livro Os Dias, Pequenos Charcos

 

DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA

Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso di-
zer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)

Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.

 

João Miguel Fernandes Jorge,
do livro A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte

 

[fotos dramapessoal, 30 de Novembro de 2007]

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