Ubuweb, «O Youtube Dos Inteligentes»

 

Ubuweb é uma cinemateca/videoteca e audioteca digital.
Ou, numa definição para a próxima época balnear, é o Youtube dos inteligentes.
Este post é apenas uma introdução turística e misturada a um longo percurso, de muitos que o leitor fará, e que faremos aqui muitas vezes.

[Os links desta página para UbuWeb foram corrigidos desde a publicação deste post, e ligam às páginas de origem dos vídeos em vez de ligarem a cada vídeo directamente, por essas ligações se terem mostrado instáveis.]

 

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Samuel Beckett é a face que identifica o site, na página de abertura, e o seu Film, com o actor mais sério do mundo, Buster Keaton, pode ser um bom passo de entrada. Quem sente que «já viu» não volte a ver. Não volte a ver nada. Não volte a casa.
À esquerda da página de abertura, está a lista das áreas do site, cada uma um site por si: conceptual writing, contemporary, mp3 archive, etc, para lá dos centrais Film & Video e Sound que nos ocupam agora.
Também há uma lista dos parceiros de UbuWeb – cada qual uma biblioteca de recursos a explorar.

Na página Film & Video, o nome de Samuel Beckett vem numa já enorme lista de autores de filmes, ou de artistas que são assunto de documentários.
Na página de imagens de Beckett, Film tem, por agora, uma companhia: Not I, pela actriz Billie Whitelaw, com introdução da própria, num mini-documentário… «It is not possible, but he wanted you to be perfect».
Billie conta como, durante a carreira do espectáculo que montou com Beckett, foram tiradas as lâmpadas do corredor da sala e dos sanitários, para não haver fugas à boca inquieta. (Consegue-se no Youtube um «take» só com a peça, desta mesma versão cénica).

 

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Na zona sonora do site – UbuWeb: Sound – outro bom achado será o triste-cómico A Piece of Monologue, pelo actor David Warrilow (que tive o prazer de uma vida de ver em Krapp’s Last Tapes). Eis um trabalho com todo o pigarro da paleta, com a fala não-verbal da garganta que não vem no papel. Neste sentido, os actores que foram dirigidos por Beckett e as suas gravações também são texto.
(A peça Krapp´s Last Tapes também está disponível em UbuWeb, em dois ficheiros mp3, pelo actor Donald Davis. A versão com o actor Jim Norton, da Naxos Audiobooks, junta o grande trabalho do actor a uma maior clareza «cénica» da produção sonora. Na Amazon.uk também pode ver-se uma das páginas cheias de registos sonoros de textos de Beckett.)

Outro passo ritual será ir ver Un Chien Andalou (nos formatos .avi ou .mpg). Eis uma passagem da biografia de Luís Buñuel, O Meu Último Suspiro, um dos mais ofegantes livros de histórias pessoais jamais escritos (que comprei a peso numa «venda de existências»):

Esta primeira exibição de Un Chien Andalou foi organizada com convites pagos no Ursulines e reuniu o que se chamava então a fina flor de Paris, isto é, alguns aristocratas, alguns escritores ou pintores já célebres (Picasso, Le Corbusier, Christian Bérard, o músico Georges Auric) e, claro, também todo o grupo surrealista.
Bastante nervoso, como se pode imaginar, fiquei atrás do ecrã com um gramofone e, durante a projecção, fiz alternar tangos argentinos e Tristão e Isolda. Colocara algumas pedras dentro dos meus bolsos, para lançá-las sobre a assistência, em caso de falhanço. Alguns tempos antes, os surrealistas haviam apupado La Coquille et le Clergyman, um filme de Germaine Dulac (com um argumento de Antonin Artaud) que, no entanto, me agradara. Esperava o pior.
As minhas pedras não foram necessárias. No fim do filme, atrás do ecrã, ouvi os aplausos prolongados e desembaracei-me discretamente dos meus projécteis, atirando-os para o chão.

(Germaine Dulac tem uma secção em UbuWeb que inclui La Coquille et le Clergyman, de 1926. Buñuel tinha razão.)

Noutra zona do mapa artístico, mas no mesmo primeiro e largo patamar da invenção da linguagem própria do cinema, UbuWeb oferece as curtas metragens de Maya Deren. Os curtos filmes coreográficos de Deren são o sabão macaco que faz falta aos olhos de muito supervídeo.

 

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Rasgamos o tempo para três destaques de objectos mais recentes:

1: Der Tod der Maria Malibran, de Werner Schroeter, 1972.
2: Anthem, de Bill Viola, 1983.
3: Stigmata, de Beth B, 1991.

Schroeter partiu da lenda de Maria Malibran – uma diva do século XIX a quem a máxima popularidade levou à morte por esgotamento – para fazer uma série de quadros, no sentido cénico e pictórico do termo, em que busca os extremos da canção tocante e da expressão emotiva em palco. Este é o grande cabaret da ópera. Aqui a ópera sobe mais alto que a grande altura, para ser maior a queda. (Um bom antídoto para os preciosismos da melomania romântica em estilo Antena 2, ou, para quem gosta de uma veia mais ideológica, segundo Amos Voguel, numa nota ao filme na própria página: «um destronar da ópera e uma rejeição metafórica da sociedade burguesa»).
Outro excesso romântico, este tipo de opinião. Como diria (mais adiante) Francis Bacon, o intelecto fica para trás na reacção a este filme, porque este filme cria imagens que ele não seria capaz de criar.
Ao som de discos gastos de ópera, canções românticas, blues ou monólogos de Hamlet, acumulam-se imagens de sofrimento com falsas dobragens do canto e da declamação, e, num grau sempre incerto, falsas dobragens dos gestos e das expressões da emoção aguda. Schoroeter consegue, seguindo no fio da navalha do exagero, voltar a comover, depois de toda a ênfase já se ter despedaçado. Como o consegue é um dos mistérios de assistir àquela coisa.

 

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Bill Viola compõe, em Anthem [Hino], um corte horizontal de uma cidade e da sua vida maquinal e humana, num vídeo guiado pelas torções de um grito.

Beth B, artista plástica e cineasta, põe-nos de frente a uma série de depoimentos de vários homens e mulheres sujeitos a um esforço de clareza tão impressionante como os factos das histórias pessoais que estão a narrar. São os seus «Estigmas». Para um actor – para todos os que se sentem a «actuar» – será como um intervalo no ruído pessoal seguir o compasso daquelas falas, as pausas, os arranques, as escolhas de palavras. A dor como prosódia.

 

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UbuWeb também liga o trabalho de Beth B a uma secção dedicada a todo o grupo do «Cinema of Transgression», do qual também oferece uma antologia (Manifesto disponível na Wikipédia, com caminhos relacionados, ou na própria página UbuWeb dedicada ao grupo).
Mudando o registo para o documentário mais documental, Ubuweb também proporciona o reencontro com um grande documentário de pintura (feito em 1985), dos tempos de um bom Canal 2 da RTP: o documentário-entrevista de Melvyn Bragg com o pintor Francis Bacon, da série «South Bank». A conversa entre os dois é de uma prontidão e de uma naturalidade capazes de ensinar muita gente da tv a falar de artes, em vez de enfeitarem oralmente com termos recomendáveis. Ali não há «cumplicidades», nem «transposições», nem «mensagens».

Há uma conversa à mesa de café sobre o acaso, ou mesmo a sorte, na pintura:
«Why is chance more important than conscious intellect?»
«Because I’ve made images that intellect could never make».

 

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Conhecemos o estúdio de Bacon e o seu Pub também, com toda a sua gente. Os lugares e os materiais do trabalho. E, por exemplo, a história da opinião sobre Jackson Pollock:
«O Pollock lá na América é uma espécie de herói nacional. Uma vaca que trabalhava para uma coisa qualquer veio perguntar-me o que é que eu achava. Disse-lhe que me pareciam rendas velhas. Aquilo caiu muito mal. Desde essa altura não gostam de mim na América».

Voltando a mudar de registo, por fim, Alexander Sokurov. Drama Pessoal tinha prometido apontar onde está a sua «Sonata para Hitler». Sonata dlya Glitera, de 1979-89.

 

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