A Maior Actriz Para Alguém Que O Diz

 

O director de um teatro anunciava a actriz principal de uma peça: «Quanto a mim, a maior actriz portuguesa». A primeira utilidade da afirmação é legítima: encher uma sala de espectáculos.

 

«La critique c’est utile. Les compliments, ça c’est inutile.»
Louise Bourgeois

 

«Gostas mais do pai ou da mãe?» é um dilema indecoroso que nos devia ter ensinado desde cedo a desprezar títulos absolutos e exclusivos. Uma forte ironia contra esta ânsia de tributo sem padrão encontrou-a o poeta T. S. Eliot: O maior crítico é Deus.

Os louvores dão vantagem a quem os faz, já se sabe. Um Grande Prémio permite ao dono de uma tv comercial e empresário jornalístico aparecer como Mecenas, sem ter de o ser seriamente, e permite-lhe ter meses de publicidade nacional com um mísero investimento para qualquer orçamento de marketing. Permite-lhe, por exemplo, – promovido a «agente cultural» – aspirar a tomar conta do único canal de televisão capaz de ter, a espaços, uma programação digna de história, artes, espectáculos e agenda de cinema fora do circuito comercial-repetitivo. Permite-lhe até admitir, enquanto presidente do júri, que nunca entrou na sala da companhia de um encenador experiente, depois de lhe ter entregue o prémio «inteiramente merecido». O louvor nunca tem muito de particular a dizer, e aqui, visivelmente, traiu ruidosamente o princípio de Orson Welles: «O mecenas paga e cala».

Em breve, outro será louvado e pago, mas o proclamador será o mesmo, com ganho acumulado. É bom, o sistema do louvor. Logo à partida, equilibra o esquema de descuido formal e produção por grosso da ficção dramática comercial. Depois, dá assunto à imprensa medíocre que está nas mesmas mãos. Quanto mais os amadores baratos tomam conta da loja, mais necessário é gritar louvores a alguns profissionais comprados para estarem na montra.

 

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Mas o teatro não faz nada com os louvores, a não ser chamar gente com falsas promessas. E os do palco sabem-no. Não esqueço o enorme ramo de flores que Mário Viegas recebeu numa homenagem e foi entregar a alguém logo no dia a seguir, noutro sarau de vaidades. Nem o deve ter posto em água de um dia para o outro. Ele é que sabia.

O actor louvado é, como se diz no safari fotográfico, o interesse da manada. O mesmo é dizer, se o safari for de caça, que é o alvo a abater.

As capacidades de saltar à frente socialmente e em palco não têm muito em comum, e a segunda, que tem qualquer coisa de prático, nem sequer faz falta à maioria das peças. Um actor louvado apenas preenche uma vaga aberta num vasto serviço montado à sua revelia, e que lhe há-de pedir retorno, sempre, ou substituir, na altura certa.

A principal emancipação que o modernismo teatral do século XX conseguiu da herança romântica foi derrubar o sistema de vedetismo que deformava as próprias peças, para dar aos Grandes Nomes o seu espaço completamente livre em palco. As aclamações podiam romper a qualquer momento, para saudar as Figuras, mesmo à entrada das cenas. As claques repartiam a plateia. Veio contra isso o princípio de Stanislavsky: «O interlocutor do actor não é o público, mas o actor à sua frente». O princípio básico da contracena, por mais estranho que pareça, trouxe novidade.

 

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Comparável ao intenso ambiente romântico do teatro, talvez seja a actual hipertrofia do «Star System» anexo às indústrias cinematográficas americana e indiana, que levou recentemente a Disney a justificar a escolha de uma actriz principal «desconhecida» por «a sua imagem estar livre de implicações». Roubando o termo à Disney, ao actor de teatro interessa muito esta margem de manobra do «desconhecimento». Não ser «grande». Ser do tamanho da personagem.

Está em causa a voz que espalha, a Fama, palavra velha que na cultura do fado tem um sentido pejorativo, de maledicência, de abuso do nome. Nalguma iconografia, a fama aparece como um avejão coberto de penas com olhos. Trocando sempre as penas, gritando sempre por novos lugares. Ou como canta Nick Drake, em «Fruit Tree», é uma árvore pouco sã, que só dá flor depois de deixar cair os frutos.

A aclamação tem custos, e um deles não interessa ao teatro, que é misturarem-se o camarim, ou o foyer e o grande salão, com o palco. Ou, graças à hiperactiva indústria do louvor, misturarem-se a rua e o palco, e a pessoa civil do actor – uma pessoa com o interesse de qualquer outra – com o seu trabalho de ficção.

Há uma boa advertência sobre a separação entre o entusiasmo e a arte, feita por António Pedro: «A ilusão é para o público».

 

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