Tudo Canos Vazios

Podemos ler em blogues nacionais (vede o paradoxo) o que andam a escrever sobre a qualidade dos blogues nacionais. Ou podemos escolher melhor o que lemos.

 

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Podemos antes ler o que vale em qualquer suporte, seja um painel, o papel ou um ecrã, ou mesmo um blogue, desses que correm mundo sem bandeira certa, como os navios transoceânicos.

Curioso é os blogues, especialmente os locais, discursarem como se não fossem um meio minoritário, com um conteúdo que, em massa, traz mais espuma do que maré.

 

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Os blogues que escrevem sobre a qualidade dos blogues recomendam-se a si próprios.
Drama Pessoal, até porque acabou de chegar, responde ao dilema da qualidade dos blogues com o que tem na sua lista de visitas recomendadas, o seu blogroll, que junta, neste momento, quatro blogues que ganharam o seu lugar no mundo.

Discussão mais vasta e ainda mais entediante que a da qualidade dos blogues é a dos males da Internet, repetição das que aconteceram quando a música popular, a rádio, o cinema, os livros aos quadradinhos, a televisão, sucessivamente, sacudiram as massas, e, parece, abateram gerações inteiras.

 

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Nós, os sobreviventes, sabemos que não há ninguém que se perca na Internet e perca todo o seu tempo a bater palmas com o macaco da pandeireta que, não houvesse Net, estaria antes a ler o ensaio «Proust», de Samuel Beckett. (a)

Doris Lessing falava das «inanidades da Internet» no seu discurso de recepção do Nobel da Literatura (sempre o mais inane), enquanto, com termos dignos, prezava a fome de livros que viu entre gente que sofre da outra, sem sacrificar a primeira, no seu amado Zimbabwe.

Esqueceu as inanidades dos livros, onde, como por todo o lado onde há gente, escorre o lixo e sempre escorreu.

Na mesma edição do Guardian Unlimited (a excelente edição online do Guardian) que publicou o discurso, o actor, realizador, escritor e divulgador artístico Stephen Fry entretinha-se a explicar as vantagens do seu browser Mozilla Firefox.

 

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Entre outras coisas, o browser permite encomendar livros que já não chegam às nossas livrarias, e cinema que deixou de chegar às salas, ou vídeo que já não passa na tv, para além da leitura do queixoso discurso Nobel.

Stephen Fry é como aquele monge budista japonês que sorri ao pulo e ao tremor da tecnologia como à montanha quieta, porque por tudo passa o mesmo vento de sempre, e ainda explica que tem uma Skuteru para não amarrotar o seu hábito, mas preferia uma Motobaiku, para correr a cavalo por entre os arrozais e ir beber chá com os crentes mais idosos e benzê-los de acordo com o ritual milenar.

Cabe aqui uma frase recente do blogue Hak Pak Sak, um dos da nossa lista, a respeito da Internet (falando da questão da greve americana dos argumentistas):

«…os media são apenas aquilo que a palavra implica, i.e., fibra óptica inerte e canos vazios, veículos para transporte de conteúdo, nada mais…» (b)
«…media are just what the word implies, i.e. “dark fiber” and “empty pipes”, vehicles for conveying content and no more…»

 

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Hak Pak Sak é um blogue sem efeitos de apresentação, dedicado a temas de política, sociedade e comunicação, história e memória, ou, de acordo com o seu lema: «Stephen Lewis escreve sobre Infraestruturas, Identidades, Comunicação e Mudança». Temos muito pouco em papel periódico que se lhe pareça (temos muito pouco em papel e em geral). Um bom começo poderá ser o artigo «Library Access, the Limits of the Web, and the Shelling of Sarajevo», um apanhado limpo e drástico da má qualidade arquivística da Internet no presente, lembrando a destruição da histórica biblioteca de Sarajevo durante a última guerra dos Balcãs.

Em contrapeso a este pessimismo informado, ou ao de Doris Lessing, há muitos blogues de leitura e de amor aos livros a consultar (uma lista do Guardian), de cunho mais pessoal, para além de sites que já são arquivos sérios dos autores a que são dedicados, como o de Walt Whitman ou o de Dante Gabriel Rossetti.

Entre os sites dedicados ao serviço do livro e ao debate do futuro da qualidade documental da Internet, que compensam aquela visão mais negativa, há o «Fob», de nome completo The Future of The Book, dedicado ao livro-objecto-de-papel, onde também se fala de tudo o que são maquinetas para o texto, como o último leitor digital, que a moda volta a dizer que é alternativa ao papel. Ali preferem perguntar se não será «mais uma marmita», porque compraram todas até agora (curiosamente, são os produtores e os vendedores que já não lhe chamam «livro digital», mas «dispositivo de leitura/reading device»). O site festejou nove anos de idade recentemente, o que, em Internet, são duas épocas.

Mas já que é óbvio que as mãos preferem o papel ao plástico, os olhos, mais fáceis de enganar, podem continuar a amar o livro através de um dos blogues visualmente mais ricos de toda a Net, e um calmo guia do mundo ilustrado: BibliOdyssey. Tirando Stephen Fry no seu sofá, todas as ilustrações deste post foram roubadas nos variadíssimos capítulos desse blogue.

 

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Para dar espaço à liberdade, fica só um parágrafo para cada um dos outros dois blogues extraordinários:

Horses Think tem um grande título, grande cabeçalho, conteúdo bem contado e sempre bem contido: belos lugares, belos objectos de arte. Estilo curto, falado. Boa companhia.

Wood S Lot é o blogue que faz acreditar na capacidade do género. Da autoria do canadiano Mark Woods, é um blogue pessoal com as dimensões de uma revista. Não fala de si, a não ser por raras fotos da natureza do seu Canadá. Recolhe amostras de leituras de reflexão estética e política, e poética, que vão seguindo o seu veio. WSL traz escolhas muito fortes de fotografia e artes plásticas, com ligações para as séries completas dos objectos, em arquivos ou galerias, ou para a História, ou histórias. Um elemento especialmente comovente é o modo como WSL vai lembrando artistas notáveis que viveram mais ou menos na sombra, ou estão na sombra do presente imediato, ou nem por isso, com uma ou outra notícia necrológica muito sóbria, uma data comemorativa, mais um retrato, um objecto que conta uma vida, um curto manifesto. O blogroll de WSL tem uma colecção de blogues capaz de atirar qualquer generalização sobre o fenómeno para o canto de qualquer café.

A urgência de um blogue, vendo bem, não é maior que a urgência do livro. As vidas continuam curtas.

[…]
O que procuro, o que neles descubro
é a visão do mundo a que assistiram
no espaço-tempo de entre ir e vir
e o regresso ao desconhecido.
O que procuro – algumas palavras
que me revelem o prodigioso
mistério aberto entre duas almas,
antes que seja tarde e a noite avance,
a morte vença de uma vez para sempre
e deles não fique senão o vislumbre.

Ruy Cinatti

[pedaço partido do poema «Os Pela Segunda Vez Nascidos», de 56 Poemas, Regra do Jogo, 1981.]

Notas

(a) Volume IV – «Poems, Short Fiction, Criticism» da edição internacional do Centenário de Beckett, da Grove Press, esgotou entretanto. Guarde o link da Book Depository, onde poderá mandar vir livros sem custos de envio para todo o mundo, mais em conta que pela Amazon.

(b) Já agora, media [diz-se /média/] é a palavra latina, igual ao plural português meios, e tornou-se o termo abrangente para dizer «meios de comunicação»; o inglês usa directamente termos do latim na linguagem oral e corrente (mais do que nós), mas usa-os com as normas de pronúncia adaptadas à sua fonética; ou seja, a palavra brasileira mídia ou a pronúncia à inglesa, por cá, são sinais exteriores de pobreza.

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