Elogio do Desastre

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“Em portugal existe o hábito parolo de se presumir que o que sabe mal faz bem. Se uma peça de teatro é imperceptível, aparece logo alguém a presumir que é muito boa. Só está é ao alcance da percepção de alguns iluminados; se um filme é um aborrecimento pegado é porque deve ser uma grande obra prima, etc, etc”

[de uma discussão online; minúscula do original]

Há uma coisa que atrai mais os necrófagos do que uma carcaça aberta na savana: uma obra de arte montada com meios públicos, e tida publicamente como dispendiosa, que “corre mal” para o público e para os comentadores ao mesmo tempo.

Alguns blogues encheram-se de reacções ao aparente desastre da ópera de Emmanuel Nunes no S. Carlos. As discussões deste género juntam poucas opiniões informadas, e pouco apreço pelas artes, mas nunca lhes falta uma intensa sensibilidade para com as contas da mercearia nacional. Ainda assim, mesmo nas contas, a sensibilidade é sempre muito superior ao conhecimento. Se o português fiscalizasse a despesa pública geral e local como fiscaliza a despesa com as artes de que não usufrui, estávamos muito melhor, em participação cívica.

Um desastre, em arte, é um fenómeno natural e mesmo necessário. Se não existisse a possibilidade de o trapezista cair e de o domador ser devorado, o circo estaria às moscas.

Lidar com o desastre é o dever do artista. O desastre é, afinal, o assunto do drama artístico, e, por vezes, o seu único resultado!

É todavia naturalíssimo, numa sociedade de pobreza recente (e presente), que especialmente o mundo do trabalho por conta de outrem se vire com rancor contra a arte, que produz objectos muito difíceis de medir, pela mão de indivíduos com um regime de trabalho liberal. Especialmente quando, ao contrário do que se passa noutros países pobres, os contribuintes nem sequer frequentam (ou podem frequentar, longe, nas duas únicas grandes cidades) a arte que sentem que pagam.

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Este blogue não aprecia polémicas. Nem sequer tem por princípio ter razão. Por isso não fazemos a ligação àquelas discussões correntes.

Só temos a sugerir:

Busque, por si, resposta para a fórmula: O desperdício é justamente uma das características que desde sempre distinguiram a arte.

Repare na violência depreciativa do termo intelectual no português europeu actual.

Consulte os orçamentos de estado da Espanha e da Áustria e tente ver o que “deitam fora” nas artes. Procure os PIB desses países, e veja quanto reembolsam no turismo (e directamente na “indústria da cultura”), mais nitidamente a Áustria, que não tem praias soalheiras. Quanto custa, a fundo perdido, a orquestra nacional deste último país, a Wiener Staatsoper? Uma fortuna inacreditável. Vale a pena ir ao site oficial só para ver a lista dos sponsoren e donatoren, ou seja, dos parceiros comerciais e mecenas.

Repare como falam das disciplinas artísticas, aos seus alunos, os nossos professores das disciplinas do tronco comum, as “principais”. É com respeito? Como está o ensino das artes?

Repare, por fim, na citação que está no início desta entrada: para o Ego em questão, o facto de uma peça de teatro ser imperceptível – o haver peças imperceptíveis – aparece como uma categoria absoluta; já o facto de alguém presumir que uma peça imperceptível possa ser muito boa é relativo (veja-se o curioso “aparece logo alguém” – que incomodativo, quando alguém aprecia o imperceptível). Do mesmo modo, existe como certa a categoria absoluta do filme aborrecido, se bem que a presunção de que um filme aborrecido possa ser uma obra-prima se apresente como duvidosa.

Repare como este tipo de declarações do direito ao usufruto universal de todo e qualquer objecto artístico estão sempre baseadas em verbos sensoriais: “o que sabe mal“. Por isso os romanos diziam: os gostos e as cores não se discutem (e não apenas os gostos…). Ou seja, a deformação sensorial é pessoal e intransmissível, e é ela que trama as discussões estéticas. Vendo bem, o sábio provérbio romano declara, numa inversão inteligente, que os gostos se discutem. Num plano mais alto do que o dos sabores

ilustrações: pormenores de colagens-cartoons de Ad Reinhardt

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