Olhem Para a Cena

O regresso à normalidade da máquina que nos comanda foi mais complicado do que se esperava. «Vamos fazer figas», dizia-nos um técnico. «Felizmente você tem intuição para estas coisas». Figas, intuição, e alguma compatibilidade entre drivers e sistema, três aspectos essenciais para uma boa estabilidade informática.

Esta saga técnica meio artesanal fez lembrar um livro querido dos tempos da longa antecipação do ano maravilhoso de 2000. Muitos anos depois da publicação, já amarelados, ainda se vendiam os volumes da colecção Emílio Salgari, com as páginas por separar (para garantir a novidade e limpeza), edição Romano Torres.

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A aventura do nº 32 da colecção não se passava na Índia ou nos confins do Oriente, mas antes no futuro. Os heróis induzem-se um sono de cem anos, graças a um elixir de flor de lótus, velho segredo egípcio. Acordam num mundo acelerado, cheio de electricidade no ar, que acabará por fazê-los definhar e morrer. Entretanto, correm esse lugar de caos misturado de conforto.

Folheando o livro seco e roído do peixinho de prata, encontramos uma descrição da televisão (com som canalizado), e de um estado de coisas brutal, estranho fruto de uma imaginação delirante:

O doutor ouvira, com um assombro fácil de adivinhar, aquela voz que anunciava espantoso desastre. Levantou rapidamente a roupa, pois lhe pareceu que a voz se fizera ouvir precisamente dentro da cabeceira da cama. Deu com uma espécie de tubo, em cuja borda estava escrito: “Assina-se no World”.
– Uma maravilha do ano dois mil – exclamou – Os jornais comunicavam directamente a notícia para casa dos assinantes. Teriam sido suprimidos o papel e as máquinas de imprimir? Nos nossos tempos ainda não se conheciam estas comodidades. Como o mundo tem progredido!
Estava para chamar o amigo, que não se decidia a abrir os olhos, quando ouviu sair do tubo outro aviso: “Olhem para a cena”.
No mesmo instante viu iluminar-se grande quadro suspenso na parede que ficava defronte do leito, no qual se desenrolou horrível cena de uma veracidade extraordinária.
Via-se uma rua cheia de homens, que atacavam diversos prédios à bomba, fugindo depois em debandada. As paredes desmoronavam-se, os telhados abatiam; homens, mulheres e crianças precipitavam-se para a rua, enquanto compridas línguas de fogo se erguiam sobre aquela amálgama de destroços, tingindo todo o quadro de vermelho…

Há também uma antevisão do e-mail, que, como se sabe, é uma coisa muito simples.

– Aí chega a minha correspondência – disse Holker, levantando-se.
– Outra maravilha! – exclamaram Toby e Brandok, levantando-se também.
– É uma coisa muito simples – respondeu Holker – Olhem, meus amigos.
Premiu um botão na parte inferior de um quadro que representava uma batalha naval. O quadro desapareceu, subindo dentro de duas ranhuras, deixando à vista um vão de meio metro quadrado. Dentro estava um cilindro de metal, de sessenta ou setenta centímetros, com uma circunferência de trinta ou quarenta, coberto de números pintados a preto.
– O meu número de assinatura postal é o mil novecentos e oitenta e sete – elucidou Holker – Ei-lo aqui, e as minhas cartas estão metidas num pequeno compartimento.
Carregou no número, abriu-se uma portinha e tirou a correspondência; depois fez descer o quadro, e premiu outro botão.
– O cilindro já partiu – disse – Vai distribuir a correspondência pelos inquilinos do prédio.

A Wikipédia em inglês (em português há pouco mais que o retrato) dá conta da grande popularidade de Salgari em Portugal e nos países hispânicos. Nunca conseguiu gerir os ganhos de milhões de livros vendidos. Pôs fim à miséria em 1911. Entre os pequenos adeptos da sua fantasia contam-se Sergio Leone, Fellini, Borges, Neruda e Che Guevara.

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