Decomposição Controlada

Houve uma geração que brincou na rua e viu, ou podia ter visto, o melhor do cinema de animação, na tv pública, à mesma hora a que os que agora crescem vêem gente excipiente e hidrogenada a louvar o veneno bacteriano diluído que injecta nas rugas de expressão.

Há um humor especial em chamar-se rejuvenescimento a uma decomposição controlada.

Na procura quase falhada por um filme de que tínhamos saudades recentes, achámos um filme de ainda mais longa espera. História da nossa vida. Um mal por uma coisa leva a um conforto por outra, um erro leva ao único caminho para um acerto.

O primeiro filme desejado era Ce Que Je Vous Dois (“O Que Eu Vos Devo”), curta-metragem de Olivier Bouffard, com o actor Michael Lonsdale como um velho que vive num apartamento privado de um lar. A cena da teimosia da mão que treme contra a velha Philishave último modelo tem o melhor tempo real que se poderia arranjar.

 

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Não se contam filmes. Não se entra a pé e a falar no comboio-fantasma. Tem de ser rápido e nos carris, para poupar no que Coleridge chamou a “suspensão da descrença”. (“Deixei de gostar de filmes quando comecei a fazê-los” – Orson Welles).

Esta curta-metragem foi uma das perdas da nossa catástrofe informática, mas vai ser transmitida na TV5 Monde no dia 25/2, às 3.25h. Quem puder, não se arrependerá de mandar alguma máquina gravá-la, ou de vê-la ao fim do serão. (Bouffard, curiosamente, foi assistente de realização do filme mais recente de Manoel de Oliveira, Cristóvão Colombo – O Enigma).

Graças ao nosso estimado blogue Wood S Lot, voltámos a encontrar-nos com o outro filme muito procurado, dedicado ao desenhador e animador Ryan Larkin. Fizemos uma colecção no Youtube de várias peças que documentam o trabalho e a pessoa do artista morto em Fevereiro, há um ano. Ryan Larkin fez todo o caminho, desde a cerimónia dos Óscares ao peditório de rua.

O filme Ryan, de Chris Landreth, regista o encontro do cineasta com o seu mentor, no cenário de uma cantina social onde as chagas interiores e as exteriores de ambos transparecem à vista desarmada.

A cópia disponível não tem a definição ideal, mas nada que impeça o choque estético. (Ainda assim, visto online, em corrente, o filme tem menor qualidade do que gravado e lido num leitor interno. Recebeu há uns anos o boneco dourado para a melhor animação e foi apoiado pelo mesmo National Film Board of Canada que tinha acolhido o “creative meaningful stuff” de Ryan Larkin, nas palavras de Landreth).

ver o filme Ryan

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A mesma cantina social surge de relance no curtíssimo documentário Ryan after Ryan by Gibran Ramos, onde têm voz Chris Landreth e o próprio Ryan Larkin.

Na mesma avenida Youtube acha-se o noticiário em género “dinâmico” sobre a morte de Ryan, da CBC News. Ryan é tratado como “both talented and troubled”.

Ficam aqui os caminhos para três dos filmes de Ryan Larkin disponíveis no canal aberto: Syrinx, Walking, e Street Musique.

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