Um Poema do General Franco Portugal

Retomamos a publicação da escrita de António da Silva Teixeira Electricidade com o último texto que faltava do Primeiro Caderno, quando foi a nossa interrupção técnica. É uma poesia, como diria Álvaro de Campos e não gostam de dizer os doutores. A assinatura de Electricidade variou desta vez para General Franco Portugal. Muitos dos que o conheciam da rua tratavam-no por “O General”.

universo250.jpg

Electricidade transformou um poema de Almeida Garrett do livro Folhas Caídas, quem sabe trazido de memória da escola, e fê-lo seu, mudando até o título, de “Saudades” para “Felicidades”, que depois riscou para pôr “Felecidades” (ver interessantíssimo artigo de Anna Beer, no Guardian Online, sobre a instrução da memória na escola renascentista inglesa, através da memorização metódica de poemas e imagens; já agora, veja-se também, da mesma autora, só porque tem interesse, num tempo de banalização da escrita, “How the mainstream dilutes literature”).

3coversvertical250.jpg

A escolha que vamos ver aqui é uma lição de poesia, por ser uma lição de síntese, que, ao contrário do que muitos acham, é a primeira característica dessa arte, por maiores em extensão que sejam os textos. Os Lusíadas são extraordinariamente sintéticos, assim como o fado “Estranha forma de vida”. Ao contrário, certos poemas curtos que andam aí não têm síntese, têm só conversa. A “Saudades” faltava-lhe a síntese. Electricidade arrancou o coração melancólico do poema e cuidou-o ao ritmo do seu dizer de natural de Nogueiró, concelho de Braga.
Livrou o original de Garrett, que queria ser campestre e tradicional, da canga literária que ainda lhe punha peso.
Curto, o poema ficou mais intacto, mais triste, porque mais declarativo, menos enrolado sobre si próprio. Na página Electricidade deste blogue estará o poema inteiro à maneira do novo autor. Aqui fica a versão de Electricidade com as estrofes de Garrett que foram rasuradas, para se ver como funcionou uma memória poética sobre a outra.
Como fez Mário de Sá-Carneiro, Electricidade também gostava de pôr em maiúsculas os termos com maior sentido simbólico ou emotivo.

selectedprose200.jpgthepoems200.jpg

As ilustrações são rascunhos a esferográfica das nossas aulas de Letras do tempo da primeira recolha dos textos de Electricidade, anos oitenta. Miniaturas das edições internacionais de Electricidade: Penguin Classics, Oxford Paperbacks, etc. Edições dos textos, uma tese académica, e um guia de Lisboa, com as torres das Amoreiras na capa. Cartoon da mesma série.

 

Saudades (Felicidades) FELECIDADES

 

Leva este Ramo, Pepita,
De Saudades Portuguezas:
É flor nossa, e tão Bonita
Não na Há noutras devezas

Seu perfume não seduz
não tem variado matiz,
vive à sombra, foge à luz,
as glórias d’amor não diz;

mas na modesta beleza
de sua melodia
é tão suave tristeza,
inspira tal simpatia!…

E tem um Dóte esta flor
que de outro igual se não diz:
Não Perde Viço ou frescôr
Quando a Tiram da Raiz

Antes mais e mais floresce
com tudo o que as outras mata;
até às vezes mais cresce
na terra que é mais ingrata.

Só tem um Cruel Senão
Que te não devo Esconder:
Plantada no Coração
Toda outra flor faz Morrer.

E, se o quebra e despedaça
com as raízes mofinas,
mais ela tem brilho e graça,
é como a flor das ruínas. Não,

Pepita, Não Ta dou
Não te dou esta flor
Que eu Sei que Me Custou
Tratá-la Com Tanto Amor

General Franco Portugal

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s