Porque não Escrevi sobre Oito Peças que Vi

 

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James Ensor, “Au Conservatoire”, 1902

 

Este blogue tem um subtítulo: declara-se almanaque de coisas teatrais e totais. No entanto, tem sido discreto em relação à coisa do teatro. Nas coisas totais, faz-se o que se pode.

Muitos já não sabem o que é um almanaque. Para nós, a palavra tem a ver com um baú onde foram cair os restos da biblioteca de um avô cientista e engenheiro industrial amador. Tem a ver com um molho descosido de folhas de papel vulgaríssimo, já sem muitas folhas e sem capas.

Um almanaque francês de 1942, que agora só temos na memória. Entre fases da lua, marés, curiosidades planetárias e históricas, havia um plano do loteamento dos jardins de Paris, dividido por bairros, para os cidadãos organizarem as suas hortas de emergência com os vizinhos.

Havia um pedido público aos parisienses para não comerem os gatos, com uma ameaça de doenças graves por causa da rataria. Era um manual da redução da vida ao mais valioso: água, abrigos, hortas, preços do pão, refeições, males do corpo, ferramentas e engenhos úteis.

Alguns pensamentos (curtos) e casos da vida; rimas filosóficas ou práticas (o que vai dar ao mesmo, em guerra). Sim, também alguma coisa disso.

É neste campo das ferramentas básicas e do cuidar dos corpos que o teatro faz sentido que se faça. E os que o fazem, hão-de ter algum sentido de sobrevivência. O mesmo sentido de sobrevivência e de procura de alguma espécie de pão que hão-de ter os que estão para ver o que se faz.

Isto não são metáforas. Quando faltar a electricidade, ninguém vai ao cinema nem vai mexer no blu-ray à procura da ficção mais carnal. Ficam os actores como ficam os ratos. Os críticos que vão para as hortas, se quiserem.

Era aqui que íamos escrever sobre a razão por que não escrevemos sobre oito peças que vimos desde o Natal, sendo este um blogue sem fins lucrativos com interesse pelo teatro. Não há razão para não o termos feito, se falta tanto testemunho do que por cá vai sendo vivido em cena, e se lá estivemos.

Porém, em arte trabalha-se melhor a muito longo prazo, ou sem ele, e podemos sempre escrever sobre o que vimos, escrevendo desse terraço sobre outra coisa ainda. E, como diz o Outro, essa coisa é que é linda.

 

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