O Facho Olímpico

 

“A competição desportiva cavalheiresca
ajuda a tecer os laços de paz entre as nações.
Que nunca se extinga a chama olímpica”. Adolf Hitler

 

 

O site oficial dos Jogos Olímpicos de Pequim dedicou uma página especial à tocha que inaugurou o costume da chama olímpica. É recente, o costume, data de 1936.

O interesse do objecto, um sólido ícone modernista, não tem qualquer valor, ao pé da perturbadora falsa neutralidade do texto da responsabilidade do Comité Olímpico Internacional, no site do Comité Olímpico Chinês.

A enorme série de falsificações históricas que criou o mito da integridade do género ariano também passava pela fantasia da antiguidade helénica como um primitivo berço racial. A proposta da sagração dessa origem com o ritual do acendimento de um facho, segundo o site, foi feita ao COI pelo Secretário Geral do Comité Organizador dos Jogos de Berlim. O site não dá o nome ao homem.

 

 

Chamava-se Carl Diem, e respondia directamente a Josef Goebbels, o plenipotente Ministro da Propaganda.

A acção de rasurar nomes é intensamente política, e exige, obviamente, um cálculo maior do que a sua simples menção. Não é preciso ler-se Theodor Adorno a respeito da política das coisas sem política para se chegar a esta conclusão.

O site dos Jogos de Pequim continua, com mais uma elipse macabra. Segundo o site, o percurso da chama (a que chamamos facho, porque também lembra o fascio, ou feixe, emblema do conceito de unidade nacional pela força bélica que Mussolini apurou e a cuja família o emblema germânico do archote pertenceu) foi uma jornada de puro entusiasmo.

Mas o percurso tinha sido delineado por Goebbels para atravessar todos os territórios cuja anexação era prioritária no plano do III Reich. Três anos mais tarde, nesses territórios do Sudeste, começava o massacre das minorias, muitas vezes pela mão de milícias locais, com carta branca das SS. À passagem da chama, como lembra Chris Bowlby, para a BBC News, músicos ciganos húngaros tocaram a sua música, a pouco mais de três anos de serem deportados em massa.

O facho já ostentava o emblema da Krupp, o gigante da fundição de canhões e munição, que então laborava a pleno vapor.

A Anexação da Áustria começou, pode dizer-se, à passagem do facho, que foi acendendo comícios nazis, organizados em articulação com a propaganda olímpica. Os que não estavam vencidos pela ilusão, foram vencidos pelo ruído e pelo medo.

Mas, para o Comité Olímpico Internacional e o seu parceiro chinês, o calor do desporto está acima de tudo:

Os Comités Olímpicos Nacionais da Grécia, Bulgária, Jugoslávia, Hungria, Áustria, Checoslováquia e Alemanha (os sete países percorridos pelo desfile da chama) foram inteiramente favoráveis à ideia e cooperaram entusiasticamente no projecto. O Comité Organizador planeou uma rota que atravessava as capitais de cada um desses países.

A mesma rota seria cumprida pouco tempo depois, em sentido contrário, pelas tropas de choque do grande vencedor dos jogos (com 33 medalhas de ouro). O desporto, cuja razão de ser, em muitos domínios, se tem perdido catastroficamente, poderá servir, como disse Hitler, para tecer laços entre as nações. Mas deverá servir para rasurar, ou mesmo substituir a história de modo tão absoluto?

Há quem se lembre de quem ganhou o salto em altura em Munique 1972. E o lançamento do peso. E há quem lembre que um banho de sangue não parou os jogos, enquanto o terrorismo de acção directa contra civis estava a ser inventado na sua moderna forma. Sim, talvez o mundo devesse ter parado.

Quem subiu depois ao pódio, festejava o quê?

 

 

Já ninguém comenta o falso amadorismo dos Jogos, e o vácuo da expressão “Ideal Olímpico”. Desde então, é duvidoso que os Jogos tenham desenvolvido mais a paz do que os tribalismos nacionais, o doping e o negócio do esforço físico e dos seus equipamentos (ou, menos comerciais, as políticas de mobilização para o desporto de vários estados inimigos da liberdade individual, para comando interno das massas e propaganda atlética no exterior).

Curiosamente, o site dos Jogos de Pequim descreve o facho e nota que transportava a inscrição “Fackelstaffel-Lauf Olympia-Berlin 1936”, com os anéis olímpicos e “uma águia sobreposta”.

Ora, o Comité Olímpico Internacional apagou aqui até a sua própria história. A ideia de Goebbels de fundir a simbologia nazi com a dos jogos, mais nítida no emblema da águia sobreposta aos anéis olímpicos, chegou a ser formalmente rejeitada pelo COI, e o emblema teve de ser retirado (como foi retirada das bancadas oficiais a propaganda anti-semita e anti-homossexual publicada para consumo dos alemães).

Mas o facho, teimosamente, insistiu no símbolo primitivo, e a águia anunciava já a sua própria lei e indiferença a todos os contratos. Se alguém reparou, nada se fez. Achou-se preferível não perturbar a Cerimónia.

 

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