Para Quê o Bloco?

No dia em que soube que um actor de tv e cine tinha sido convidado para gravar um anúncio de telemóveis com um cachet 200 vezes superior ao que recebeu por uma peça original (e 200 vezes superior ao total do que então recebeu cada actor, o que nem lhe pareceu inteiramente justo, equivalente a 500 euros por mês de dois meses de cartaz), um autor pegou na máquina fotográfica e foi para a beira-Tejo guardar imagens do anoitecer (na direcção contrária ao pôr-do-sol, duzentas mil vezes mais profunda).

O poder de um anúncio de telemóvel é este: por números recentes, 96% por cento dos portugueses têm a televisão como o seu principal entretenimento. Quem berrou estes números (televisão incluída) esqueceu-se de contar quantos, de entre estes, têm a televisão como único entretenimento. Sabemos, por números um pouco anteriores, que são a grande massa.

E depois há o número das despesas em comunicação. Os portugueses gastavam, há três ou quatro anos, dez vezes mais em comunicação do que em despesas com a chamada «cultura», ou seja, aquilo a que preferimos chamar «saber, arte e espectáculos».

Tanta comunicação não pode ser apenas pragmática. Supõe a escolha de um entretenimento de escala familiar, embora à distância: a opção pela fantasia pessoal da parte de quem fala e escreve telegramas curtos, e pela fantasia de quem responde, em vez da fantasia produzida por profissionais treinados e artistas. Uma opção pelo amadorismo à escala colectiva, em círculo fechado, a mesma opção que a televisão já fez, e que a todos conforta: você na tevê.

Que comunicação é aquela? Muito como a de uma menina de Guimarães, que nos mandou um sms a pedir umas calças emprestadas. Ao fim de vários dias de mensagens, que obviamente nunca foram respondidas e abriam um coração, foi preciso comunicar-lhe que não voltasse a enviar para o número errado. Nunca falou com a amiga das calças, nem recebeu as calças, enquanto ia confiando no telégrafo portátil. Espelho meu.

Por coisas como isto, o autor de que falámos acabou por lembrar-se da visita que o encenador do seu trabalho recebeu de uma jornalista da rádio pública, que tinha precisado de escrever três perguntas num bloco:

O que é que pretendem transmitir com esta peça?
Que personagens tem esta peça?
A que público se dirige esta peça?

Este tipo de abordagem só lhe fez ocorrer uma pergunta: Para quê o bloco escrito?

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