Pequena História com Dois Poemas (de Adília Lopes)

 

Aqui gostamos de poemas que contam histórias, e especialmente dos que parecem que contam histórias, esses que trazem o que nunca aconteceu, mas está sempre a acontecer.

A propósito dos dois poemas que juntamos aqui, deixamos uma história que temos com a autora, que se calhar mais ninguém tem (para além de uma conversa sobre os ensaios de M.S. Lourenço, a cujo propósito trocámos memórias comuns, e a certa preferência por dois textos muito diferentes).

Foi na loja da editora Assírio & Alvim, na Rua Passos Manuel. Estendemos a mão ao livro Maria Cristina Martins, para comprá-lo. 250 exemplares. 500 escudos. Black Son Editores. Ao lado, havia um volume da mesma cor, rosa: Os 5 livros de versos que salvaram o tio. Edição de autor, com data de Lisboa, 1985. Em vez do preço, tinha um recado a lápis: “Oferta da autora”.

Levámos os dois livros até ao balcão. “Este livro tem aqui escrito…”.
“Sim, sim. Oferta da autora. É isso mesmo. É para levar. Com muito prazer”, disse-nos a responsável da loja.

 

 

 

Para um vil criminoso

Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe

 

O vestido cor de salmão

Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço

 

poemas dos livros Um Jogo Bastante Perigoso, e O Decote da Dama de Espadas, de Adília Lopes.

pintura de Mark Ryden: “Inside Sue” (ver galeria em markryden.com)

 

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