O Estrado

 

Incomoda-nos tanto descair para o dia-a-dia. Mas decidimos louvar o Estrado.

Consta que em várias escolas, por indicação da responsabilidade directa ou indirecta do Ministério da Educação, os estrados foram retirados das salas de aula «para que os professores fiquem ao nível dos alunos».

O princípio entre aspas tem um potencial caricatural que fala por si.

Os burocratas estruturalistas que administram a catástrofe educativa, vendo bem, têm, na sua grande massa, apenas um defeito: nunca deram aulas.

Caso contrário, saberiam respeitar o estrado.

Um, o estrado pode ser contornado. E o efeito dramático da descida do estrado não é de desprezar, assim como o da subida. Quem quer que tenha tido um grande professor sabe do que falamos.

O estrado não impede a aproximação. Apenas encoraja a que o seu momento seja escolhido, controlado pelo professor, em vez de uma mera sujeição ao espaço.

Dois, o estrado é um palco. O seu uso traduz-se num enorme ganho acústico. Quando o professor fala do estrado, na maioria das salas, todos os alunos ouvem melhor e por igual. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Três, enquanto palco, o estrado permite, na maioria das salas, muito melhor visão de todos os alunos em relação à figura do professor ou a qualquer material exposto. Verdadeiramente ao mesmo nível.

Quatro, o estrado permite ao professor uma visão completa da sala em qualquer momento, o que lhe permite atender instantaneamente o contacto dos alunos sentados nas cadeiras recuadas, em vez de se aproximar de alguns virando as costas a todos os outros. Verdadeiramente ao mesmo nível. Os alunos.

Cinco, o que não vêem os que chegam à teoria pelo caminho da estupidez empírica: enquanto palco, o estrado permite aos alunos que subam a ele, e demonstrem, exponham, expliquem aos colegas numa posição que tem todas as qualidades da mais elementar arte dramática, e lhes permite o que esta escola lhes nega constantemente ou não sabe permitir: um teste formal à autonomia da sua voz individual.

 

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8 thoughts on “O Estrado

  1. O problema deste tipo de decisões administrativas escandalosamente ambiciosas (esta vai contra gerações de experiência, e não conhece o que se faz em sistemas muito mais produtivos), está em que nunca sabemos quem é que as tomou. Quem tem rancor contra os estrados, por exemplo. Qual é o seu passado escolar? E político? Quais são as suas razões objectivas?… Quem é?

  2. os estrados, como toda a gente sabe, aproximam-nos mais do céu, e o céu, como naquela velha canção dos Talking Heads, é um lugar onde nunca acontece nada. ora, acabar com os estrados é uma intenção nobre porque pretende criar um acontecimento. o céu passa assim a estar ao alcance democrático de professores e alunos, uma remix ensemble, uma banda como a do Titanic que continuava a tocar enquanto se afunda o navio. é o chamado estrado de sítio. já agora: porque não acabar com os palcos à italiana? para irmos todos juntos ao céu do teatro.

  3. Bem-vindo, kingsexpress. De facto, o estrado tem qualquer coisa de pequeno pátio universal. Num nível mais chão, o curioso é que numa sala com estrado pode acontecer tudo o que acontece numa sala sem estrado, mais as possibilidades do estrado. Como é possível não verem isto? O velho estrado é assim mais um bode expiatório de uma modernidade falsa. O resultado de tal medida é afinal retrógrado, escolástico, e o mesmo de sempre: limitar, controlar, uniformizar.

  4. Sem estrado ou com estrado é-me indiferente, desde que o Professor seja um Professor a sério e não um que ande a brincar aos Professores. Eu tive a sorte de ter um Grande Professor de Português que nos deixava pensar com as nossas cabecinhas e não pelas cabecinhas dos Senhores/as que fazem os manuais escolares :-)

  5. Podia haver um blogue só sobre os manuais escolares. Os de literatura, por exemplo. A lista de qualidades não reconhecidas do Estrado podia continuar sem parar. Podia medir-se o ângulo de visão médio (e obstruções) em relação a um estrado ao nível do chão plano, por comparação com um quadro elevado pelo estrado. Atrás de filas ocupadas, numa sala de tamanho médio, que visibilidade têm os alunos de um colega que foi ao quadro, e do próprio quadro, à altura a que o colega pode escrever, em especial nas turmas mais novas?

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