Os Pintores Preferidos do Miúdo

 

 

Numa altura em que por cá os professores de Artes, especialmente os provisórios, se vêem obrigados pelos conselhos de turma a escrever relatórios para justificarem a reprovação de alunos que se recusaram a trabalhar em ambientes já de si muito pouco exigentes, o jornal Guardian de ontem mandou os seus críticos de volta às escolas onde aprenderam o básico, para verem como está tudo agora.

Foram os críticos de Drama e Música Lyn Gardner e Erica Jeal, e também o de Artes Jonathan Jones. Apesar de um esforço de implantação, nalgumas escolas de cá, de cursos de Expressão Dramática, e sabidos os problemas do ensino da Música, que em si é mais um problema do que um ensino, será interessante apenas medir o abismo, nestas áreas.

No caso das Artes, por ser um ensino há muito encaixado no currículo, será interessante ler as diferenças.

Lembramo-nos muito de uma professora de Artes recém-chegada que estava a ler Charlotte Brontë numa sala de professores. Uma colega das disciplinas exigentes comentou: «Ah, és professora de inglês».

 

 

No universo compartimentado e surdo-mudo deste modo de ensinar, as artes tornam-se um incómodo, quando se trata de aprovar à força os alunos que fazem troça do sistema. Os renitentes do Português e da Matemática têm de passar nas Artes. Afinal, são só uns bonecos.

É certo que a produtividade de muitos programas lectivos em Artes Visuais ou Expressão Plástica pode chegar a ser confrangedora, e pode ser resumida numa tripla de tarefas, entre as quais a execução de um postal de Natal e outro do dia da Mãe, que pode durar semanas. Mas aí a responsabilidade é das escolas e dos professores individualmente. É possível fazer muito mais.

Mas o curioso é tantos mestres das disciplinas assentes, as “nobres” do tronco comum, acharem que decorar-se uma pilha de datas e nomes estilísticos a respeito de, por exemplo, Bocage, ou decorar-se uma curta série de fórmulas matemáticas em relação às quais os testes só mudam os valores, ou nem isso, pode ser intelectualmente mais sofisticado do que, por exemplo, o estudo da composição de “Guernica”, ou da carga simbólica de um quadro renascentista, ou a execução de um retrato proporcionado.

A falta de imaginação ajuda à concentração – parece ser o lema.

Uma das coisas que impressionou o crítico do Guardian, Jonathan Jones, para além da dimensão das obras de grupo (com um acabamento que o crítico considerou excelente, havia uma recriação das gravuras rupestres de Lascaux, na sala grande de Artes da sua antiga escola), foi que um miúdo tinha como seus “pintores preferidos” dois artistas contemporâneos: Lucian Freud e Chuck Close.

Pintores preferidos?

 

 

ver artigo de Jonathan Jones

ou os de Lyn Gardner (Drama) e Erica Jeal (Música)

ilustrações: quadros de Lucian Freud (1&2) e Chuck Close (3).

 

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2 thoughts on “Os Pintores Preferidos do Miúdo

  1. Quem ler o questionário de auto-avaliação dos professores, que foi empurrado este ano aos provisórios, percebe logo que o fim do poder dos que escrevem e funcionam mentalmente daquela maneira é urgente. Autonomia pedagógica, administrativa e financeira das escolas, em graus a discutir, urgente. Dispersar o rebanho, para salvar algumas cabeças.

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