Sem título (ou “O Sebo do Sul”)

 

 

Queria: que tirassem o mar daqui ao pé. Odeio este mar;
cada ano com mais sentimento de ferocidade. Sobretudo
a orla de grosseria onde ele vem acabar-se em ondas
chilras que também devem ser clandestinas. Quando o
levassem tinham também de levar o calor e essa treta
alta e azul a que chamam o céu e a merdosa luz de
Lisboa; aos quais ainda não consegui substituir melhor
imagem do inferno: desprotector, cambado, cuspindo o
mais branco dos amarelos sobre as coisas todas (as quais
pouco mais merecem, todas, do que se lhes cuspa, mas já
agora um cuspo mais baço e refrescado).
Queria pois, que arrefecessem completamente o verão e
o molhassem de alto a baixo, pelo menos dia sim dia não.
E queria peles alvas, firmes, rosadas de alegrias frias,
e não labregamente queimadas.
Que trouxessem muito mais nuvens, mais pertinho dos
telhados, sem tropeções absurdos de luz em faca por
entre elas. E os dias muito curtos, mais fuliginosos,
acariciadores, um novelo a ajudar-nos a estar quentes
com o gelo das ruas todo o ano. Muita neve, muita água.
Quando chove em Lisboa parece que ainda há mais sol,
que tudo fica mais fluorescente.
Importassem outra chuva. Dividissem este rio em quatro
ou sete pelo meio da cidade, fizessem-nos poder viver em
flutuação entre terra boa, lisa, fresca. Civilizada, sem a
porcaria do sol, a malvadez da claridade, o sebo do sul.
Como vêem, continuarei a não votar em ninguém.

 

 

Joaquim Manuel Magalhães
(tal como publicado no extinto jornal O Independente)

foto dramapessoal

 

 

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10 thoughts on “Sem título (ou “O Sebo do Sul”)

  1. Caro desmancha-prazeres bem disposto. Fales da praia ou da cidade, se não conhecêssemos aqui o teu amor pelo Portinho da Arrábida, e o teu desprezo pelas motos de água que ensopam as águas de vibração perfurante e deixam à flor das ondas um cheiro e travo de óleo de motor, mais os barcos, que em exibição vêm plantar ou buscar as suas donzelas na frente dos banhos, e todas as outras devastações da alegria estival, íamos pensar que é má vontade. Mas o poema transcrito é apenas a negação de um cliché literário. E um louvor da higiene de comportamentos, numa cidade diferente. E um tributo ao enunciado místico de Pascoaes: «O sol é o esplendor da vulgaridade». Mais sociologicamente, diremos, e sei que no fundo concordas: o sol é mal frequentado.

  2. oh, como entendo, calor a mais tira-me do sério. facto é que espero pelo meu rebento que vem dos avós, segundo espero, belo e negro como um cigano, e me traz assim à memória os tempos em que eu própria não me preocupava com nada mais que não fosse exibir o meu pequeno corpo às rochas salgadas e ao mar frio do norte, sem medo, sem pudor. já a seguir, partimos para uma quinta, algures em Arouca, turismo rural, é assim que se fala agora, não é? o que importa é que vou “frequentar o sol” para longe das massas, das motas de água, e por aí a diante. este semi-isolamento pode ser um pouco burguês e também um pouco pecado nos tempos que correm, mas será prazer e descanso. beijos estivais.

  3. Ninguém quer saber da sátira à torpeza soalheira. Enfim. Falas de memórias, e aproveito para lembrar que, do lado direito da imagem da Ericeira que está no nosso cabeçalho temporário de Verão, saudando a estagnação do bloguismo nesta época, vê-se a linha de prédios do novo horizonte construído, que veio tornar a velha vila, nesse alto, igual a qualquer arredor loteado de qualquer borda de cidade disforme. Tudo pelo sol.

  4. não digas isso, acabei de regressar faz pouco menos de um ano de uma terra cuja costa está a ser vandalisada, queimada, esquecida portanto. uma costa de castros magníficos, de mar frio e vento forte, e nem assim… não sei se é tudo pelo sol, acho que é tudo sempre pelo mesmo, somos egoístas, sempre o fomos, não vejo que haja tendências a melhoras, estamos irremediavelmente enfermos. quanto à sátira em si, admito que é refinada e brutal, bem-humorada e acutilante. sem dúvida, faz todo o sentido que aqui esteja, mesmo que não opere mudanças, “tremoriza”.

  5. o Magalhães é um poeta com punhos. como eu gosto, com punhos e colarinho branco. ao nosso sol falta-lhe um pouco dessas qualidades como também aos frequentadores habituais dos lugares onde se “apanha sol”. apanhar sol é cada vez mais apanhar também com as alarvidades do Verão: chinelos e ar de bronze (sempre gostei mais da prata), ligeirezas literárias, os jornais então, ficam todos iguais aqueles que agoram se distribuem nos semáforos. se pudesse ia para o verão de Estocolmo e para aquela praia do filme do Romher. mas ainda temos as imeriais e os caracóis!….

  6. Quanto ao teu primeiro comentário, Fernando, “o sol é mal frequentado”… Pois é, basta ir a certas praias “in” lá para o reino dos Algarves. São um verdadeiro solário de barrigonas (que são nossas donas, ainda por cima).

  7. O poema é sobre Lisboa, mas veio tudo de toalha para a discussão. Sim, Kingsexpress, punhos, sem nunca esquecer os da camisa e os colarinhos. Tirando o que escreve António Franco Alexandre, que aqui ainda não honrámos, por razões conjunturais, volto a recomendar a todos um livro que transforma aquele estilo e ponto de vista em algo mais ainda mais cortante, mas fechado em si, oral mas não público, que penso ser um dos livros do nosso tempo: Alta Noite em Alta Fraga. Violeta13, “uma costa de castros magníficos”, olhai o bom som. Nuno, o frio nórdico pode aquecer imenso.

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