Curtas Promessas de Viagem

 

 

Os pacotes Nicola são intrigantes. Sob o mote «Um dia…», os amigos do café podem escrever para um endereço electrónico e candidatar uma pequena redacção com uma promessa a si próprios ou a terceiros, a imprimir num pacote.

Os pacotes Nicola são intrigantes porque nunca lemos uma mensagem honesta. A absoluta falta de sentido de humor das mensagens é que é cómica. Não se podem esperar grandes rasgos de um pacote de açúcar português.

Rui Oliveira promete vagamente a alguém uma deslocação de 300 Km. Um dia. Tendo em conta a evidente necessidade de regresso, Rui pode mesmo estar apenas a prometer, com alguma cobardia, uma única deslocação num raio de 150 Km, provavelmente por autoestrada.

Uma única deslocação. A relação assim possível teria de ser um golpe inolvidável. Um golpe tal que fizesse Rui Oliveira preferir não encontrar a quem prometeu. Tantos o fazem. Rui Oliveira não sabe que não é excepção. Uma relação que nenhuma série de pacotes pudesse açucarar.

 

 

“Põe um tigre no meu motor”. “Nós aqui não vendemos tigres”. “Então põe gasolina e cala-te, meu caro”.

 

 

Porém, mesmo que 300 Km seja na frase apenas a distância de referência, contada no mapa ou no GPS (que Rui com certeza escolheu, de entre os 35 modelos em promoção de 5 a 10 por cento, ainda assim dez vezes mais caros que as Obras Completas de Shakespeare, edição Riverside, ou ao preço de uma boa bicicleta, por exemplo, e pronto a ser desligado porque o prazer de conduzir não tem nada a ver com o prazer de ser conduzido por uma espécie de gravador que só constata evidências e mata toda a descoberta, todo o erro), como explicar a um português que 300 Km não são uma grande distância, e não justificam a demora e a separação, e até adiamento, implícitos na mensagem?

 

 

Para que buscamos alguém, Rui, senão para podermos errar?

300 Km não são uma grande distância. Mas, para o português presente, que faz contas à gasolina sem nunca ter feito contas às estradas que andaram a ser construídas para gastos de combustível incomportáveis, 300 Km parecem ser o horizonte do sonho, a declarar num pacote de açúcar. Os fazedores de estradas é que alimentam a fantasia, por cá. E, vistas as contas desses contratos que o povo que despreza as artes que recebam apoios nunca fiscaliza, com os seus prémios e contrapartidas, vemos quem são os verdadeiros subsidiados.

Quem faz 300 Km não faz coisa nenhuma, Rui.

 

 

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Autêntico pacote Nicola.

Fotogramas de Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard, grande destino de Verão.

 

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One thought on “Curtas Promessas de Viagem

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