O Natal dos Hotéis

[revisto]

 

Artigo 1.º

Definição de jornalista

1 – São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.

2 – Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.

[…]

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Natal é tempo de televisão, e o meio quase monopolista de recreio artístico e informação entre nós enche-se de mais luz nesta quadra. Porém, o modo estrondoso como a tv cedeu completamente a quem a financia não é notícia, pela mesma razão por que o aspirador não se aspira a si próprio.

O modo paupérrimo como a tv local reflecte a arte e o espectáculo, mesmo o cinema – servindo valores de popularidade gerados pela própria programação televisiva, com seus critérios de fama e estrelato directamente equivalentes a critérios da análise de mercado (o canal público já começou a usar o termo “audiência” como sinónimo de “público”, quando fala de espectáculos ao vivo) – já nem sequer serve a presunção de base da tv de que é capaz de reflectir qualquer recanto da vida pública.

Com que se espanta o pobre? Das quatro pinturas que foram roubadas na Suíça, em Fevereiro, na Fundação E. G. Bührle, tudo o que os apresentadores noticiosos locais foram capazes de dizer para impressionar o vulgo (e a si próprios) em relação ao roubo foi o valor estimado (o valor monetário segurado) de duas das telas perdidas. Monet, Van Gogh, Degas e Cézanne não impressionam. Os irrelevantes (e meramente formais) milhões do capital seguro, esses espantam e exprimem valor. A quase imediata recuperação de “Campo de Papoilas em Vétheuil“, de Monet, e de “Ramos de Castanheiro em Flor“, de Van Gogh, bem como o continuado desaparecimento de “Ludovic Lepic com as Suas Filhas” e “O Rapaz do Colete Encarnado“, de Degas e Cézanne, respectivamente, já nem sequer tiveram seguimento, ao menos no momento da primeira recuperação.

Nada vos preocupa, porque nada vos comove.

Supõe-se que a esta desatenção pela grande dimensão artística se deverá a um critério relativo de prioridade noticiosa: é preciso mostrar as urgências do presente.

Mas tal proporção nunca existe. Os relances cinematográficos da violência ou instantâneos do palco político mundial recebem o mesmo tratamento das notícias da aldeia: mais uma camioneta fora da estrada, uma junta de freguesia indignada, um mau cheiro na praça, um ministro agastado, um esquilo que dança. Um parágrafo para cada. (Dois para o esquilo).

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Resta o enorme tempo concedido a uma actividade altamente duvidosa à luz da ética profissional do jornalista, a chamada “informação comercial”, que dantes, quando os jornais contavam, era claramente demarcada, tanto que as revistas ainda a demarcam – não a televisão.

Então, temos profissionais com carteira de jornalista, e com o entusiasmo de uma infância reencontrada, a mostrarem um estúpido dispositivo para um jogo de pesca virtual lá em casa, ou a “avaliarem” um carro repetindo à letra a lengalenga acariciadora dos folhetos do fabricante (e percorrendo as mesmas estradas vazias escolhidas pelos anúncios do produto, por onde o produto nunca circulará).

Para que falarão do melhor das artes, estes servidores da sua empresa de fornecimento de exposição televisiva, e defensores acérrimos do seu posto de trabalho? Qual seria o retorno para a empresa, se buscassem o que já nem pessoalmente lhes interessa? (Estamos a supor, exageradamente, que os repórteres debatem critérios de edição).

O jornalismo faz-se agora de acordo com um critério totalmente invertido, o mesmo critério do entretenimento de massas e da publicidade pura e dura: é notícia aquilo que a redacção fornecedora supõe que serve o desejo de consumo (não de “informação”, rarefeita e redundante, mas, em abstracto, de televisão, e, pela natureza do género, dos produtos e serviços associados). É notícia tudo o que servir este círculo de ganho empresarial e satisfação da curiosidade de consumo (e este serviço frequentemente pago é coordenado por empresas que pertencem a, ou empregam, “ex-jornalistas”, que produzem material com padrões sazonais de actualidade: a funerária com um serviço inovador; o ginásio com ofertas únicas; o tratamento revolucionário exclusivo de uma clínica; o que as crianças mais querem). É notícia a própria televisão (ao ponto de os canais terem notícias só suas: os seus próprios desmentidos da vida íntima das estrelas, os seus próprios eventos nacionais, os seus próprios furos políticos, geridos pelos seus próprios comentadores políticos).

Quem discute, entre nós, esta escandalosa mudança na prática jornalística? – que faz negociar-se a matéria informativa exactamente da mesma forma que se negoceia o espaço de prateleiras nos mesmos hipermercados e shoppings que a televisão ama como seus iguais (“Vem ao centro comercial porque é mais prático, porque há mais variedade, por causa da qualidade e dos serviços, ou um pouco por tudo isto?” – pergunta típica de jornalista de Natal).

“O consumidor está cada vez mais farto de telemóveis cheios de botões”, é uma frase que recordamos sempre, articulada por um profissional da informação, no momento em que segurava um novo produto com a extrema funcionalidade de não ter os intuitivos botões. Um profissional da informação não é capaz de franzir o sobrolho a uma falsidade estatística tão cómica? Que entidade multifacetada é esta, o Consumidor, cujas faces este jornalista parecia conhecer pessoalmente?

Uma sondagem inventada, em troca da venda de mais algumas centenas de telemóveis inflacionados?

Ficamos por aqui, com o lema escrito e falado de uma detalhada peça jornalística de Natal que conseguiu encapsular, ao mesmo tempo, a absoluta venalidade da profissão informativa actual e, paradoxalmente, a sua total indiferença à realidade:

“As famílias portuguesas procuram cada vez mais [os] hotéis de luxo para a ceia de Natal.”

 

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Artigo 3.º

Incompatibilidades

1 – O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de:

a) Funções de angariação, concepção ou apresentação, através de texto, voz ou imagem, de mensagens publicitárias;

b) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais;

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artigos estatutários in Estatuto do Jornalista, n’O Sítio do Sindicato dos Jornalistas

fotos dramapessoal

 

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One thought on “O Natal dos Hotéis

  1. Devem ralar-se muito com normas… Negócio é negócio e ainda há uns dias uma amiga, dizia-me que as agências de viagens estão com a carteira de pedidos a abarrotar de marcações para resorts na rep. Dominicana, Cuba, Brasil, SEYCHELLES (baratinho…), etc. Crise? Qual crise?

    Já agora, a “quem pertencem” os grandes jornais nacionais? Nada mais nada menos, que aos srs. Belmiro e Francisco Pinto. Isto diz alguma coisa, não diz?

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