A velha zona dos livros novos e velhos

 

thefadingworld

 

O Guardian dedicou no sábado uma página interactiva à velha zona dos livros da Charing Cross Road. Vale a pena ver os três curtos filmes de minuto e meio sobre a Murder One, a Any Amount of Books e a Quinto, e espreitar as caves das duas últimas.

O título da peça, qualquer coisa como «O Desvanecente Mundo dos Livros», é demasiado drástico (ou demasiado livresco), mas acaba por oferecer-se uma comoção bastante suave, a propósito do fecho da livraria Murder One, casa especialista da ficção do crime e mistério, vítima da mudança de hábitos (de percurso a pé, de busca e encomenda de livros, de consumo, em tempo de credit crunch).

Já tínhamos visto fechar outras casas daquela rua, na crise de 1992. Assistimos a uma enorme mudança, em 2002, quando descobrimos a desarrumada, labiríntica e infinita Foyles convertida em loja de grandes novidades, limpa, colorida, sem surpresas e cheia de manuais de estilo de vida e fitness. Muitas das outras livrarias foram transformadas em Waterstones, ou semelhantes, todas com os mesmos destaques, os mesmos chamarizes, cheias daqueles objectos que valem seis meses de conversa e ocasionalmente alguma fraca filmografia, a que famosamente Alexandre O’Neill chamou as bestas-céleres.

A Waterstones Booksellers até comprou a verde-escura Hatchards («desde 1797»), a livraria que aceita listas de casamento, e a cuja modesta página também é possível aceder através da página do grossista do livro («Waterstones – discover something new»).

Na cave da Any Amount of Books encontrámos uma cópia da edição Arden d’A Tempestade de Shakespeare, Segunda Série, comentada por Frank Kermode, para substituir a que afinal não tínhamos perdido (a edição de Kermode reinou desde 1954 a 1999 como edição universitária). E pudemos conversar com quem estava na loja sobre pormenores da superioridade dessa edição em relação ao volume da nova Terceira Série (uma coisa carregada dos clichés do multiculturalismo, cheia de pobres escolhas textuais e inchada de falatório, montada por um casal de suburbanos new age que agradecem aos cães e um ao outro a companhia e o mau serviço).

Isto tudo para contrapor à pequena tragédia lenta da rua de Londres o que se passa em Lisboa, no Calhariz, e pela Calçada do Combro até ao Poço dos Negros (incluindo a boca da Rua d’O Século, a caminho da nova sala de teatro «Negócio», a cargo da Zé dos Bois), onde se têm juntado mais lojas dedicadas aos livros sem tempo, e onde há quem conheça o que vende – para quem o que saiu hoje ou vai sair para a semana só talvez interesse daqui a uns bons anos.

 

Guardian: «Charing Cross – the fading world of books»

(Na página de abertura, clique «Next», no canto inferior esquerdo, e, no mapa, em cada video-bt para os mini-vídeos; nos quadrados vermelhos para as fotos).

 

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