Personalização

 

 

amanha2

 

Depois de algumas reclamações de amigos, e após mais umas férias da chamada realidade portuguesa, chegamos para ver a rua animadamente regressada aos princípios dos anos 80.

Nada de novo, sob este sol.

Entretanto, temos a relatar um pequeno episódio português. Ao comprarmos um leitor de dvd externo, para uso com um computador de pequeno formato, ofereceram-nos à escolha dois sólidos rectangulares com gaveta exactamente iguais, um com uma marca coreana e outro com o nome de magalhães em letra pequena, dizem, de tecnologia nacional.

«Olhe, eles são exactamente a mesma coisa, só que este diz magalhães e fica mais barato», disse-nos o vendedor, com genuína simpatia, depois de ter buscado com cuidado no armazém. «Não sei se lhe faz diferença».

Claro que faz diferença. Levámos o mais caro. Explicámos que não queríamos que o leitor de discos nos lembrasse, por um segundo, o programa que assenta no fornecimento de um bem de equipamento (medíocre) a um aprendiz geralmente incapaz de enfrentar um texto durante mais de dez minutos, seja num ecrã, seja numa página de papel impresso.

Um idiota à frente de um computador é um idiota à frente de um computador.

————

… O que nos lembra um dos melhores aspectos da internet: a fuga ao condicionamento televisivo. Uma das nossas últimas entradas saudava, de maneira talvez demasiado concisa, a forma de comunicação conhecida por filesharing: a partilha automatizada de conteúdos de arte & entretenimento.

A nossa informação televisiva, sempre paroquial e alegremente mainstream, festejou vivamente a «prisão» dos responsáveis do site de partilha The Pirate Bay, parecendo contentar-se em exibir um conhecimento absolutamente rudimentar do processo judicial, longe de concluído (para além de uma total ignorância da ferramenta informática P2P, confundida com um dos aspectos do seu uso; porém, o tédio de argumentar sobre isto paralisa-nos).

É normal que a televisão colabore na «televisionação» da internet, ou seja, no condicionamento e racionamento comercial da circulação de todos os conteúdos. A mesma televisão que abdicou, tal como as indústrias irmãs do audiovisual, de muitos dos conteúdos de valor artístico que agora circulam democraticamente, muitas vezes exclusivamente, por sistemas de intercâmbio e divulgação como o filesharing.

Continuamos a receber cadeias de e-mails de preocupação pelas ameaças de estreitamento comercial da internet. Entretanto, a defesa da internet como praça aberta está, precisamente, nas mãos dos que se deixaram arrebanhar em facebooks e myspaces e twitterlands onde são diariamente mungidos de dados de perfil e comportamento por aqueles mesmos que lhes querem lotear o espaço.

O rebanho é fácil de tocar. Um opinador antecipava na nossa tv o futuro da internet 3.0 como um ambiente em que o acesso será «mais personalizado».

A personalização, explicada num português elíptico e assintáctico, era então a adequação das nossas (dele) buscas e escolhas aos nossos (dele) gostos. Ou seja, a personalidade toda de acordo com o manual básico da tipificação de grupos de consumo. O indivíduo enquanto cliente satisfeito.

Ou seja, encurtado o jargão pseudo-técnico e os exemplos complacentes, a personalização equivaleria à velha fórmula de mais do mesmo aplicada a cada um (em complemento da fórmula televisiva de mais do mesmo para todos). Quanto a nós, eis o exacto oposto da personalização, se é que o termo designa um aprofundamento individual, mas em relação com o mundo, e em tudo oposto àquele contentamento obsessivo-compulsivo do admirável mundo 3.0.

 

 

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