Adeus Vasco Granja

 

Vasco Granja morreu anteontem de madrugada, com 83 anos. A arte do obituário é uma coisa patética, mas a morte de mais um educador artístico não deve deixar-se cair.

Durante anos, uma das polémicas artísticas deste país, talvez a maior, a que formou gerações, foi em redor da escolha de filmes de animação de V.G. para os seus programas: sobre se devia pôr no ar mais filmes da Warner Brothers, da série Looney Tunes, de montagem rápida, banda sonora estridente e humor de choque, ou se tinha o direito de insistir no material de outros mestres, como o checo Jirí Trnka, ou o canadiano Norman McLaren, entre tantos.

 

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Os filmes da Warner já tinham saída na transmissão corrente, e já tinham formado o gosto dominante, aquele mesmo que se alimenta dos filmes-de-acção & catástrofe-com-chacota de um Bruce Willis, ou infinitas variantes dessa variante. O próprio Vasco Granja brincava com a sede de muitos espectadores pelos brinquedos ruidosos, extraordinários, diga-se, mesmo quando apostavam no mecanismo tão televisivo da rotina cómica com estreita variação.

Mas até esses filmes caíram vítimas da psicologia popular de reacção piedosa à «violência» na tv. Nós aqui achamos mais violento que um champô prometa «biovitaminas», e «alimente» o tecido morto do cabelo directamente. Nós aqui só aprendemos com aquela que foi talvez a única sequência sem fuga histriónica de toda essa cinematografia, a famosa noite de insónia do gato Silvester/Silvestre, um momento de Kafka-para-todas-as-criancinhas, que o avô Granja apreciava especialmente.

Não sabemos se Vasco Granja morreu com a mesma sensação de dever cumprido de Mel Blanc, pai da voz de Bugs Bunny & outros, que deixou no seu próprio epitáfio a legenda final desses filmes: That’s All Folks! – ao mesmo tempo uma espécie de «manguito» existencialista.

 

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Mas sabemos que muitos lhe estão gratos como nós. Por ter aberto o ponto de vista, algo de que hoje a nossa televisão foge a sete pés (… eis uma figura animada). Porque, dizem os seus donos, «não têm nada que educar as massas». Nesta fórmula, que F.P. Balsemão usou, está escondido, curiosamente, o eco talvez involuntário de uma caricatura de Vasco Granja, vinda do tempo da guerra fria, de quando o divulgador era visto, sempre com uma bonomia pálida, como uma «espécie de embaixador dos países de Leste».

Por isso escolhemos agradecer especialmente a Vasco Granja a descoberta do insuspeito canadiano Norman McLaren, músico e desenhador, a cujos filmes sonoros, baseados exactamente no mesmo princípio jazzístico dos Looney Tunes, dedicámos uma parte do dia de ontem. No Youtube é possível ver o enérgico «Sinchronomy», bem como «Sinchronomy on Mars» ou «Lignes Verticales/Lines Vertical».

 

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Imagens do filme «Synchronomy», de Norman McLaren.

 

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5 thoughts on “Adeus Vasco Granja

  1. oh… fantástico! boa! estive quase para sugerir-te este post – não foi preciso. ontem disse ao meu filho “Sabes quem morreu? O senhor que nos dava os desenhos animados, aqueles que a mãe te mostra no youtube. O professor Balthazar (http://www.youtube.com/watch?v=dZMztkXlsMc), a pantera cor de rosa…” olhei para ele e estava a chorar – aqui está um dos que pertence às massas a querer muito o que não lhe dão.

  2. O Vasco Granja era um dos “últimos fôlegos” da minha infância e adolescência. Foi com ele e por ele que cravei uma vez um projector (emprestado) que o meu pai trouxe do emprego para ver o “Pas de Deux” do Norman McLaren, em casa, com um grupo de amigos, numa espécie de clube juvenil de cinema de animação, bobine de 16mm, trazida de metro, e igualmente cravada à embaixada do Canadá na rua da Rosa. Foi com ele que na revista Tintin, descobri e me afundei em Hugo Pratt e em outros desertores, verdadeiros, ainda que a papel e tinta… São já poucos estes magníficos pastores, que tão bem tratam e amam os seus rebanhos. Na rádio por exemplo, ainda temos o Sérgio, o António, qual Viriato 25, a espantar e a berrar aos abutres para que deixem em paz os últimos sinais de fumo…

  3. Os pedaços de história social que cada um carrega consigo e que por vezes se esquece de publicar! São como bobines de autor, à espera do seu festival.

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