«Um ar inocente, ácido» (Mário Cesariny)

 

maria

 

mágica

 

É uma estrada no céu silenciosa
um anão sem ninguém que o suspeite
é um braço pregado a uma rosa
um mamilo escorrendo leite

São edénicos anjos expulsos
sonhando quietude e distância
são homens marcados nos pulsos
é uma secreta elegância

São velhos demónios ociosos
fitando o céu bailando ao vento
são gritos rápidos, nervosos
que destroem todo o pensamento

É o frio deserto marinho
operando na escuridão
é o corpo que geme sozinho
é a veia que é coração

São aranhas jovens, pernaltas
arrastando embrulhos para o mar
são altas colunas tão altas
que o chão ameaça estalar

São espadas voantes são vielas
passeios de todos e nenhuns
são grandes rectas paralelas
são grandes silêncios comuns

É uma edição reduzida
das aras da história sagrada
é a técnica mais proibida
da mágica mais procurada

É uma estrada no céu silenciosa
por um domingo extenso e plácido
é um anoitecer cor de rosa
um ar inocente, ácido

 

—————–

 

Parece que «Fátima não é varinha mágica para a resolução de todos os problemas», nas pobres palavras de um bispo. Ocorreu-nos, para fugir àquele vento de desolação imaginativa, um par de objectos muito mais videntes, de dentro e de fora da fé: a Maria de Pasolini, e «mágica», de Mário Cesariny.

 

Poema do livro Manual de Prestidigitação, Assírio & Alvim.

 

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