Este Verão Cru

 

 

Riviera - Palm Springs - small

 

Este Verão cru continua o seu estrago. Deixou agora o seu posto de observação elevado o escritor M.S. Lourenço, tradutor de Wittgenstein e autor de obras como O Doge (sob a capa de tradutor do Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov) ou Os Degraus do Parnaso, volume de crónicas devotado, em parte importante, à contradição do culto da novidade e da mudança pela novidade, instaurado nas artes e nas vidas pelo império daquilo a que Adorno chamou «A Indústria da Cultura» e alguns chamam, por ser isso o que chamam a tudo o que os cerca, «A Arte Pop».

Devemos-lhe alguns dos poucos ensaios de qualidade que temos sobre Cesário Verde (poeta que tem sofrido terríveis assaltos de banalidade académica) e devemos-lhe o mais digno e bem-humorado obituário da velha Estrada de Sintra, sob a forma de um ensaio intitulado «À sombra das acácias em flor», que seria leitura obrigatória das classes aprendizes que habitam o erro urbanístico alternativo aos campos que foram dessa Estrada, fossem leitores de Literatura os programadores e muitos dos professores que por esses sítios exercem a sua rotina de nivelamento das imaginações.

Não é do extraordinário ensaio «Epopeia crepuscular», louvor de «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, que guardamos uma amostra, mas de «À sombra das acácias em flor», lamento pela devastação estética e ambiental que os povos da periferia lisboeta identificam com a modernidade, ou, como famosamente cunhou o mais alto magistrado da nação, «o pogresso»:

«Mas é para noroeste que o amontoado disforme do Cacém se ergue, a estação do caminho de ferro em baixo, com os seus armazéns adjacentes e, subindo agora a colina, a policroma fachada do aborto urbanístico e arquitectónico que incessantemente despeja sobre a estação os seus infelizes cativos, em direcção a Sintra, a Lisboa, ou à Linha do Oeste. Seria fácil de confundir com um outro armazém da estação do comboio um conjunto de barracas pré-fabricadas, do lado esquerdo, já inserido na vila, se não fosse o número de adolescentes que afanosamente entram e saem das barracas e num pátio à frente gozam a sua pausa, entre duas aulas. Trata-se afinal de uma das muitas escolas secundárias do Estado, improvisadas, provisórias, definitivamente repugnantes, na qual em princípio se terá de proceder à educação média dos pequenos cidadãos do Cacém. No seu conjunto, estas escolas já deixaram de ser designadas por liceu, por, talvez num esforço de congruência estilística, um ministro ter achado irreconciliável a discrepância entre a alusão a Aristóteles, que o nome «Liceu» sempre implica, e a confrangedora situação física oferecida.

Sobre a linha dos telhados ergue-se um enorme bloco em construção, com a aparência de ser uma das muitas modernas garagens de cinco pisos de altura, onde os muitos automóveis do Cacém vão poder ser arrumados para descanso dos seus proprietários […]. Qual não foi a minha surpresa quando há duas semanas o bloco entrou numa nova fase de construção, da qual se segue, irrefutavelmente, que se trata afinal de uma igreja e, assim, em vez dos automóveis, terão que se arrumar lá dentro as almas do Cacém. É a estas almas do Cacém que, no escasso e sincopado vocabulário do dialecto tropical que agora se fala, vai ser transmitida a doutrina do Infinito, […]»

 

Os Degraus do Parnaso está disponível numa edição Assírio & Alvim.

 

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