Dois Poemas (de António Manuel Couto Viana)

 

 

Despojo

E, agora, o que faremos?
A quem legar o que resta
Do simulacro de festa
Que tivemos?

Quem aproveita os detritos
De uma alegria forçada?
Quem confunde aflitos gritos
Com imposta gargalhada?

Iremos por onde alguém
Descubra os nossos farrapos.
Vês flores no jardim de além?
– Vejo sapos.

 

Estival

A imensa praia. O sol rubro, preciso.
E o mar de sempre, impetuoso e vário.
Meu corpo nu, aberto no solário,
Sorve o final do dia, lento e liso.

Estio é estar assim, sem pensamento;
Sentir apenas, sobre a pele doirada,
A saliva do mar, fria e salgada,
E o arrepio cálido do vento.

Nada mais. Quando muito, um vago olhar
Um vulto jovem, ágil, que se afasta,
Diluído na luz crepuscular.

E só porque o seu ritmo contrasta
Com a serena vibração do ar
E a paz da minha carne gorda e gasta.

 

 

[in Voo Doméstico, 1978.]

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